Evento misterioso provocou o desaparecimento de populações de tubarões há 19 milhões de anos

Os registos fósseis mostram que cerca de 90% dos tubarões de oceano aberto do planeta desapareceram inexplicavelmente.

Publicado 8/06/2021, 11:12
tubarão-raposa-pelágico

Os tubarões de oceano aberto da atualidade, como este tubarão-raposa-pelágico nas águas das Filipinas, representam uma fração dos tubarões de oceano aberto que existiam até ocorrer um misterioso evento de extinção há 19 milhões de anos.

Fotografia de Beara Creativem, Alamy Stock Photo

Os tubarões são alguns dos maiores sobreviventes da natureza. Durante mais de 400 milhões de anos, estes predadores marinhos percorreram as águas da Terra em zonas que vão desde os recifes de pouca profundidade até ao coração do oceano aberto. Os tubarões são mais antigos do que a floresta fóssil mais antiga e já passaram por pelo menos quatro extinções em massa.

Porém, há 19 milhões de anos, algo desferiu misteriosamente um rude golpe nos tubarões de oceano aberto – um golpe do qual nunca recuperaram.

Os registos desta extinção, detalhados pela primeira vez na revista Science, surgiram na forma de escamas de tubarão, chamadas dentículos, encontradas em amostras recolhidas no fundo do Oceano Pacífico. Com base na forma e abundância de dentículos presentes nas amostras, os investigadores estimam que as populações de tubarões de oceano aberto do planeta caíram repentina e inexplicavelmente em mais de 90%. Por exemplo, há 66 milhões de anos, durante o evento de extinção que matou os dinossauros não-aviários, os tubarões sofreram perdas de cerca de 30%.


“Os tubarões estão a gritar e a dizer que aconteceu algo realmente grande”, diz a autora do estudo, Elizabeth Sibert, paleobióloga e oceanógrafa da Universidade de Yale. “Os tubarões têm uma história evolutiva de 400 milhões de anos; existem há muito tempo; e já viram muito. E mesmo assim houve algo que conseguiu neutralizar 90% da sua população?”

Ninguém sabe o que desencadeou esta extinção, mas o que quer que tenha sido, deve ter acontecido durante um período de 100.000 anos, ou seja, um piscar de olhos em termos geológicos. Curiosamente, esta extinção não se alinha com nenhuma grande mudança conhecida no clima da Terra ou com qualquer grande mudança evolutiva entre outros predadores de oceano aberto.

Este declínio de tubarões pode ter dado a outros animais marinhos a oportunidade de prosperar. Vários milhões de anos após esta extinção, grupos que incluíam atuns, aves marinhas, baleias e tubarões migratórios diversificaram-se, formando o tipo de ecossistema de oceano aberto que temos atualmente.

Os investigadores também alertam que estas descobertas podem ser um mau presságio para as populações de tubarões modernos. Desde 1970, o número total de tubarões e raias oceânicas caiu 71%, de acordo com um estudo publicado recentemente na revista Nature, um declínio provocado pela sobrepesca. Se foi possível os tubarões de oceano aberto sofrerem um golpe existencial há 19 milhões de anos sem nunca terem recuperado por completo, qual será o aspeto dos oceanos do futuro devido à atividade humana?

“De certa forma, isto mostra claramente como estes predadores importantes – estes animais carismáticos – são sensíveis a qualquer tipo de mudança ambiental repentina”, diz o paleobiólogo de tubarões Mohamad Bazzi, doutorando na Universidade de Uppsala, na Suécia, que não participou no estudo. “Isto tem implicações tremendas na atualidade.”

Biblioteca de tubarões

Elizabeth Sibert descobriu os indícios desta misteriosa extinção há vários anos, quando tentava compreender os padrões gerais de como os peixes – incluindo os tubarões – viveram no oceano aberto nos últimos 85 milhões de anos de história da Terra.

Para descobrir as tendências gerais, Elizabeth consultou uma das bibliotecas mais importantes da Terra: os núcleos de sedimentos no fundo do mar que os cientistas perfuram desde 1968. Basicamente, o fundo do mar atua como um livro de história do tamanho de um planeta. As pistas químicas e fósseis em cada camada de sedimentos revelam a história de como a Terra mudou ao longo do tempo, bem como a forma como a vida respondeu. Por exemplo, estes registos foram essenciais para reconstruir as mudanças anteriores no clima da Terra.

“Alguns aspetos do estudo [da Terra antiga] ainda são tão jovens que podemos fazer descobertas enormes sobre coisas que aconteceram há relativamente pouco tempo.”

por JAMES RAE, CIENTISTA CLIMÁTICO, UNIVERSIDADE DE ST. ANDREWS

O foco de Elizabeth estava num componente mais obscuro dos núcleos: os “ictiólitos”, pequenos fósseis derivados de peixes que incluem dentes de peixe e dentículos de tubarão, elementos que os animais eliminam e substituem constantemente em vida. Ao rastrear os tipos e quantidades gerais destes fósseis através das inúmeras camadas presentes nos núcleos, Elizabeth esperava conseguir rastrear as mudanças nos ecossistemas oceânicos durante longos períodos da história recente da Terra.

Para se assegurar de que o conseguia fazer, Elizabeth adquiriu uma boa noção dos padrões globais, por oposição aos padrões locais ou regionais. Elizabeth contou com dois núcleos de sedimentos perfurados nos giros subtropicais do Oceano Pacífico, que são vastas correntes rodopiantes que permanecem estáveis durante dezenas de milhões de anos, e onde qualquer ponto no fundo do mar pode conter dentículos e dentes de animais que viviam a centenas de milhares de quilómetros de distância uns dos outros. Este tipo de ciência requer um investimento de gerações. O núcleo principal onde Elizabeth se concentrou foi recolhido no Pacífico Sul em 1983, antes sequer de ela ter nascido.

Quando Elizabeth contou as escamas de tubarão e os dentes de peixe, descobriu que o oceano aberto mudou várias vezes nos últimos 85 milhões de anos. Até à extinção dos dinossauros, há 66 milhões de anos, os sedimentos continham cerca de um dentículo de tubarão por cada dente de peixe. Alguns milhões de anos depois, a proporção de dentículos de tubarão caiu para metade.

Há cerca de 56 milhões de anos, esta proporção já tinha estabilizado em um dentículo de tubarão para cada cinco dentes de peixe. Uma proporção que permaneceu sólida durante 40 milhões de anos ou mais – até há 19 milhões de anos, quando só há registos de um dentículo por cada 100 dentes de peixe.

“Não há forma de o ignorar”, diz Elizabeth.

A resposta está nos dentículos

Elizabeth publicou as suas observações na revista Proceedings of the Royal Society B em 2016, mas ainda havia muito que ela não sabia. Será que este colapso atingiu todos os tipos de tubarões da mesma forma? Ou será que alguns tipos de escamas – e, consequentemente, alguns tipos de tubarões – ficaram completamente extintos há 19 milhões de anos?

Para o descobrir, Elizabeth fez parceria com uma aluna dedicada, Leah Rubin, que na altura era estudante no College of the Atlantic em Bar Harbor, no Maine. Depois de observar quase 600 fotografias de pele de tubarões e raias da atualidade, e quase 1.300 fósseis, Leah descobriu uma forma de classificar os dentículos fósseis dos sedimentos com base em características como a forma e extremidades.

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“São demasiado pequenos para serem observados a olho nu... não conseguimos realmente ter uma sensação de como são belos e complexos”, diz Leah, que agora está a iniciar o seu doutoramento na Faculdade SUNY de Ciências Ambientais e Florestais em Syracuse, Nova Iorque.

Quando Leah e Elizabeth acabaram de classificar os dentículos, os resultados eram chocantes. As amostras com menos de 19 milhões de anos tinham apenas 30% dos tipos de dentículos que os sedimentos mais antigos. Isto revela que alguma coisa eliminou muitas, senão a maioria, das espécies de tubarões de oceano aberto do Pacífico.

Esta extinção também parece ter atingido alguns grupos com mais força do que outros. Os chamados dentículos geométricos, que tendem a pertencer aos tubarões que nadam mais devagar entre as espécies da atualidade, entraram em colapso há 19 milhões de anos, enquanto que outros tipos de escamas persistiram.

Registos inconsistentes

Esta descoberta irá sem dúvida despertar um interesse renovado neste período de tempo, conhecido nos círculos científicos como a subépoca do Mioceno Inferior. Os registos climáticos existentes sugerem que o clima da Terra era estável naquela época, mas estes registos também foram pouco estudados.

De acordo com Elizabeth, entre os 683 núcleos de sedimentos recolhidos no fundo do mar a profundidades suficientes para cobrir o Mioceno Inferior, mais de 80% não têm sedimentos desse período, por razões que permanecem desconhecidas. Mas entre as evidências fósseis claras e os registos irregulares da Terra, é completamente possível que algum tipo de evento climático de curto prazo tenha atingido a Terra há 19 milhões de anos.

“Alguns aspetos do estudo [da Terra antiga] ainda são tão jovens que podemos fazer descobertas enormes sobre coisas que aconteceram há relativamente pouco tempo”, diz James Rae, cientista climático da Universidade de St. Andrews, na Escócia, que não participou no estudo.

Na década de 1980, os investigadores repararam que os sedimentos no fundo do mar mostravam que o plâncton marinho tinha passado por uma grande extinção há cerca de 55 milhões de anos. As evidências posteriores revelaram que, naquela época, os níveis de dióxido de carbono aumentaram rapidamente, fazendo com que as temperaturas subissem e os oceanos da Terra acidificassem.

Os geólogos estudam agora mais atentamente este período, chamado Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, para aprender mais sobre a forma como a Terra pode responder às alterações climáticas provocadas pelo homem. Talvez os futuros cientistas estudem a extinção dos tubarões do Mioceno da mesma forma – mas serão necessários mais dados para resolver o mistério.

“Deve haver algo que o explique”, diz Elizabeth. “Simplesmente ainda não sabemos o que é.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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