Fósseis de rinoceronte mais alto do que uma girafa encontrados na China

Esta espécie recém-descoberta, um dos maiores animais terrestres de sempre, vagueava onde atualmente fica o Planalto do Tibete e o Paquistão, há mais de 25 milhões de anos.

Publicado 22/06/2021, 10:58
Paraceratherium linxiaense

Há cerca de 26.5 milhões de anos, uma espécie recém-descoberta de rinoceronte gigante vagueava pelo Planalto do Tibete. Com base na anatomia do seu crânio, os investigadores que encontraram o rinoceronte acreditam que o animal tinha uma tromba curta e preênsil como a de um tapir moderno.

Fotografia de Yu Chen (ILUSTRAÇÃO)

O Planalto do Tibete da atualidade chega ao céu – uma extensão escarpada de estepes de alta altitude junto aos imponentes Himalaias. Mas, há 26.5 milhões de anos, algumas partes desta região eram pontilhadas por bosques húmidos, abrigando uma criatura gigante: um dos maiores mamíferos terrestres de sempre.

A criatura recém-descoberta, revelada na revista científica Communications Biology, é um parente extinto do rinoceronte da atualidade e chama-se Paraceratherium linxiaense. Este animal colossal pesaria até 24 toneladas, quatro vezes mais pesado do que um elefante moderno, e o seu crânio tinha mais de um metro de comprimento.

Esta é a espécie mais recente de que há conhecimento de um grupo de rinocerontes gigantes sem chifres que viveram na Ásia Central de há cerca de 50 milhões de anos até há 23 milhões de anos. O Paraceratherium linxiaense e os seus parentes são famosos pelos seus tamanhos enormes. Acredita-se que um adulto tinha mais de cinco metros de altura nos ombros, com um pescoço de quase dois metros encimado por um crânio enorme. As girafas da atualidade têm entre quatro e seis metros de altura.

“Estes rinocerontes gigantes teriam conseguido comer flores no terceiro ou quarto andar de um edifício”, diz Pierre-Olivier Antoine, Explorador da National Geographic e paleontólogo de rinocerontes da Universidade de Montpellier, em França, que fez a revisão do estudo.

O Paraceratherium linxiaense estava entre os últimos destes gigantes, que viveram há cerca de 26.5 milhões de anos. Graças à sua idade e localização, os novos fósseis, que incluem um crânio completo, um maxilar e três vértebras, estão a ajudar a preencher a árvore genealógica dos Paraceratherium, lançando uma nova luz sobre onde e como é que estes rinocerontes gigantescos evoluíram e se espalharam pelo atual continente asiático.

Gigante pré-histórico

Os fósseis de Paraceratherium são raros e estão frequentemente fragmentados, dificultando o mapeamento da evolução e disseminação do seu género. O habitat de longa data deste grupo parece ter sido a Ásia Central, mas a primeira espécie de Paraceratherium alguma vez encontrada, a Paraceratherium bugtiense, viveu onde atualmente fica o oeste do Paquistão. Mas como é que este rinoceronte gigante chegou exatamente ao subcontinente indiano?

Um grupo de investigadores liderado por Tao Deng, paleontólogo de mamíferos do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China, em Pequim, descobriu que a nova espécie P. linxiaense estava intimamente relacionada com a P. bugtiense do Paquistão, indiciando origens paquistanesas para este rinoceronte.

Os novos fósseis foram encontrados em arenitos castanhos na Bacia Linxia, na China central. Nesta região, as camadas de sedimentos com cerca de dois quilómetros de espessura contam a história dos últimos 30 milhões de anos de história da Terra, e estão salpicadas com fósseis de criaturas antigas que viveram na região.

Na década de 1950, os agricultores locais encontraram alegadamente “ossos de dragão”. Durante algum tempo, estes restos mortais foram vendidos a empresas médicas e usados como ingredientes na medicina tradicional chinesa. Na década de 1980, os paleontólogos reconheceram que a região preservava fósseis cientificamente valiosos do final da época do Oligoceno, um período entre há 23 e 28 milhões de anos.

Desde então, os paleontólogos do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados têm estudado as rochas na Bacia Linxia e a rica variedade de fósseis que estas contêm.

Em maio de 2015, Tao Deng e os seus colegas fizeram uma descoberta rara perto da aldeia de Wangjiachuan: o crânio completo e o maxilar de um rinoceronte gigante, bem como três vértebras de outro indivíduo. Quando os investigadores viram os ossos, que tinham 26.5 milhões de anos – incluindo o crânio de 1,15 metros de comprimento – “o seu tamanho e estado de preservação foram uma enorme surpresa”, diz Tao.

Com base nas semelhanças com o rinoceronte gigante do Paquistão, as novas descobertas sugerem que os rinocerontes gigantes se moviam livremente ao longo de milhares de quilómetros entre a Ásia Central e o subcontinente indiano, entre há 30 e 35 milhões de anos. “As condições tropicais dessa época permitiam ao rinoceronte gigante regressar para norte, para a Ásia Central, o que implica que a região tibetana ainda não estava elevada como um planalto de grande altitude”, escreve Tao por email, uma teoria que é suportada pelas evidências geológicas que sugerem que a região ainda tinha algumas partes baixas até há cerca de 25 milhões de anos.

Mistérios do rinoceronte gigante

Pierre-Olivier Antoine, o paleontólogo francês, diz que o novo estudo ajuda a revelar os padrões geográficos que governavam os movimentos dos rinocerontes gigantes na Terra da antiguidade. O catálogo de fósseis de rinocerontes gigantes na nova investigação sugere que os animais nunca atravessaram da Ásia para a Europa através dos montes Urais, por exemplo, indicando que esta cordilheira pode ter atuado como uma barreira.

Esta investigação também pode ajudar a explicar como é que as enormes criaturas chegaram a uma zona onde atualmente fica a Turquia, onde também foram encontrados fósseis de rinoceronte. De acordo com Pierre-Olivier, fósseis que ainda não foram descritos num artigo científico sugerem que, depois de os rinocerontes gigantes terem chegado ao Paquistão, seguiram para a Turquia através dos atuais Afeganistão e Irão.

Alguns dos fósseis que contam esta história, porém, estão agora perdidos para a ciência. Uma coleção de 300 fósseis que Pierre-Olivier ajudou a recolher no Paquistão – incluindo restos de rinocerontes gigantes – foi destruída em 2006, quando o exército paquistanês bombardeou Dera Bugti, uma cidade na província de Baluchistão ocidental, devido a um conflito civil de longa duração. Naquele mesmo ano, o chefe e líder Baloch Nawab Akbar Bugti morreu numa explosão durante um confronto com militares paquistaneses. Baloch era um contacto fundamental e fonte de proteção para os paleontólogos que trabalhavam na região.

No caso do P. linxiaense, os seus fósseis estão armazenados no Museu Paleozoológico de Hezheng, na província de Gansu, na região centro-norte da China. Tao Deng tem grandes esperanças para os estudos sobre estes restos mortais, incluindo uma reconstrução dos músculos da criatura e uma estimativa mais refinada sobre a sua massa corporal.

Tao acrescenta que, como agora os investigadores têm evidências de rinocerontes gigantes no atual planalto tibetano, pode haver mais fósseis para descobrir na região – animais gigantes enterrados naquele que é agora considerado o teto do mundo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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