O que precisa de saber sobre a hipótese de fuga de laboratório da COVID-19

As informações avançadas recentemente despertaram novamente o escrutínio sobre esta possível origem do coronavírus, que os especialistas ainda consideram improvável, mas que vale a pena investigar.

Publicado 8/06/2021, 10:41
Instituto de Virologia de Wuhan

Um segurança afasta jornalistas do Instituto de Virologia de Wuhan depois de uma equipa da Organização Mundial de Saúde ter chegado às instalações para uma visita de campo na província de Hubei, na China, na quarta-feira, dia 3 de fevereiro de 2021, para investigar as origens da pandemia de coronavírus.

Fotografia de Ng Han Guan, AP

Meses depois de uma investigação da Organização Mundial de Saúde ter considerado “extremamente improvável” que o novo coronavírus tivesse escapado acidentalmente de um laboratório em Wuhan, na China, esta teoria está de regresso às notícias, dando um novo ímpeto a uma hipótese que muitos cientistas acreditam ser improvável, e que alguns rejeitam como sendo uma teoria da conspiração.

Esta atenção renovada surge no rescaldo de uma ordem dada pelo presidente norte-americano Joe Biden às agências de serviços secretos dos EUA no dia 26 de maio para “redobrarem os seus esforços” de investigação sobre as origens do coronavírus. No dia 11 de maio, o conselheiro médico chefe de Biden, Anthony Fauci, reconheceu que agora “não está convencido” de que o vírus se desenvolveu naturalmente – um afastamento aparente do que Fauci disse à National Geographic em entrevista no ano passado.

Também no mês passado, mais de uma dezena de cientistas – epidemiologistas, imunologistas e biólogos de renome – escreveram uma carta aberta que foi publicada na revista Science para pedir uma investigação completa sobre duas histórias de origem viáveis: o transbordo natural de animal para humano, ou um acidente em que uma amostra de laboratório com SARS-CoV-2 foi acidentalmente libertada. Os especialistas pediram que ambas as hipóteses “sejam levadas a sério até que tenhamos dados suficientes”, escrevendo que uma investigação adequada deveria ser “transparente, objetiva e baseada em dados, incluindo uma ampla experiência sujeita a supervisão independente”, com a minimização de conflitos de interesse, se possível.


“Sempre que há um surto de uma doença infecciosa, é importante investigar a sua origem”, diz Amesh Adalja, médico e investigador sénior do Centro de Segurança de Saúde da Universidade Johns Hopkins, que não participou na carta publicada na revista Science. “A hipótese de fuga laboratorial é possível – assim como um transbordo vindo de animais”, diz Amesh, “e eu acho que deve ser conduzida uma investigação completa e independente sobre as suas origens”.  

Questões sem resposta

As origens do SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19 e que até ao momento já infetou mais de 172 milhões de pessoas e matou cerca de 3.7 milhões no mundo inteiro, permanecem obscuras. Muitos cientistas, incluindo os que participaram na investigação da OMS que durou meses, acreditam que a explicação mais provável é a de que o vírus saltou de um animal para uma pessoa – potencialmente de um morcego diretamente para um humano, ou através de um hospedeiro intermediário. A transmissão de animal para humano é uma via comum para muitos vírus; há pelo menos dois outros coronavírus, responsáveis pela SARS e a MERS, que foram disseminados através deste transbordo zoonótico.

Mas há outros cientistas que insistem que vale a pena investigar se o SARS-CoV-2 escapou do Instituto de Virologia de Wuhan, um laboratório que estuda coronavírus em morcegos há mais de uma década.

A investigação da OMS – um esforço conjunto entre cientistas indicados pela OMS e autoridades chinesas – concluiu que era “extremamente improvável” que este vírus altamente transmissível tivesse escapado de um laboratório. Mas a equipa da OMS encontrou obstáculos que levaram algumas pessoas a questionar as suas conclusões; os cientistas não foram autorizados a conduzir uma investigação independente e não tiveram acesso a quaisquer dados em bruto.

No dia 30 de março, quando a OMS divulgou o seu relatório, o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu mais estudos. “Todas as hipóteses permanecem em cima da mesa”, disse Tedros.

No dia 11 de maio, Anthony Fauci disse ao site PolitiFact que, embora o vírus provavelmente tivesse surgido através de uma transmissão de animal para humano, “também pode ter sido outra coisa, e precisamos de descobrir”.

As informações divulgadas recentemente, publicadas pela primeira vez no Wall Street Journal, vieram adicionar mais lenha à fogueira: três investigadores do Instituto de Virologia de Wuhan adoeceram em novembro de 2019 e procuraram atendimento hospitalar, de acordo com um relatório dos serviços secretos dos EUA. Nos últimos dias da administração Trump, o Departamento de Estado divulgou uma declaração onde dizia que os investigadores do instituto apresentavam “sintomas consistentes com os da COVID-19 e doenças sazonais comuns”.

A maioria dos epidemiologistas e virologistas que estudam o novo coronavírus acredita que a propagação do vírus começou em novembro de 2019. A China diz que o primeiro caso confirmado surgiu no dia 8 de dezembro de 2019. Durante uma reunião feita em Pequim, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, acusou os EUA de “exagerarem na teoria de uma fuga laboratorial” e perguntou: “O objetivo do estudo é o rastreio da origem ou será que está a tentar desviar as atenções?” Zhao também contestou a reportagem do Wall Street Journal, que alegava que três investigadores tinham adoecido.

Fuga laboratorial continua ‘improvável’

Nos EUA, alguns políticos e observadores conservadores adotaram a teoria da fuga laboratorial, enquanto que os liberais rejeitaram mais prontamente esta teoria, sobretudo no início da pandemia. Esta especulação também tem aumentado as tensões entre os EUA e a China.

No dia 26 de maio, quando o Senado dos EUA aprovou um projeto de lei para tornar públicos os relatórios dos serviços secretos relacionados com potenciais ligações entre o laboratório de Wuhan e a COVID-19, o senador do Missouri, Josh Hawley, um dos republicanos que patrocinou o projeto, disse: “O mundo precisa de saber se esta pandemia foi produto de negligência por parte do laboratório de Wuhan”, e lamentou que “durante mais de um ano, qualquer pessoa que fizesse perguntas sobre o Instituto de Virologia de Wuhan fosse rotulada como fomentadora de teorias da conspiração”.

Peter Navarro, ex-conselheiro do departamento de comércio de Donald Trump, afirmou em abril de 2020 que o SARS-CoV-2 podia ter sido projetado como uma arma biológica, sem citar quaisquer evidências.

A teoria de que o SARS-CoV-2 foi criado como uma arma biológica é “completamente improvável”, diz William Schaffner, professor de doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade Vanderbilt. Por um lado, explica William, para uma arma biológica ser bem-sucedida, deve ter como alvo uma população adversária sem afetar a própria. “Contudo, o SARS-CoV-2 não pode ser controlado. O vírus vai propagar-se, incluindo pela sua própria população, tornando-se num agente de guerra biológica extremamente contraproducente.”

Na hipótese mais plausível de fuga laboratorial, segundo os cientistas, o laboratório de Wuhan isolou o novo coronavírus de um animal e estava a estudá-lo quando o vírus escapou acidentalmente. “Sem saber a extensão da sua virulência e transmissibilidade, a falta de medidas de proteção [pode ter] resultado na infeção dos trabalhadores do laboratório”, iniciando a cadeia de transmissão que acabou por resultar na pandemia, diz Rossi Hassad, epidemiologista do Mercy College.

Mas Rossi Hassad acrescenta que acredita que a teoria de fuga laboratorial está no “espectro inferior” das possibilidades, e “que muito provavelmente permanecerá apenas uma teoria após qualquer investigação científica adequada”.

Joe Biden deu ordens para as agências dos serviços secretos dos EUA apresentarem as suas descobertas no prazo de 90 dias, que será no dia 26 de agosto.

Com base nas informações disponíveis, Eyal Oren, epidemiologista da Universidade Estadual de San Diego, diz que percebe que a hipótese mais aceite seja a de que o vírus teve origem num animal e que saltou para um humano: “É evidente que a sequência genética do vírus da COVID-19 é semelhante à de outros coronavírus encontrados em morcegos ”, diz Eyal.

Alguns cientistas permanecem céticos em relação à possibilidade de se chegar a uma conclusão concreta. “No final, prevejo que esta questão da origem vai permanecer sem solução”, diz William Schaffner.

“Entretanto, a ciência move-se muito mais lentamente do que os ciclos de notícias e dos órgãos de comunicação social”, diz Eyal.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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