Objeto misterioso obscureceu estrela gigante durante 200 dias

Algo enorme e opaco obscureceu uma estrela na nossa galáxia, e os astrónomos estão a ter dificuldade em conseguir explicar o fenómeno.

Publicado 21/06/2021, 11:36 WEST
estrela VVV-WIT-08

Esta ilustração mostra a estrela VVV-WIT-08, que desapareceu misteriosamente durante o primeiro semestre de 2012.

Fotografia de Amanda Smith (ilustração)

As estrelas podem ter um brilho intermitente, mas não desaparecem simplesmente – portanto, quando uma estrela gigante desapareceu durante cerca de 200 dias, os astrónomos ficaram surpreendidos.

Agora, quase uma década depois, os cientistas analisaram uma variedade de explicações possíveis – e continuam sem saber o que pode ter sido responsável por obscurecer quase toda a luz desta estrela.

Descritas num novo estudo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, algumas das teorias ainda em cima da mesa baseiam-se em fenómenos ainda não observados, como um disco escuro de material a orbitar um buraco negro nas proximidades, ou um fenómeno não descoberto, como estrelas companheiras envoltas em poeira. Contudo, ao longo de 17 anos de observações, a estrela só perdeu o brilho uma vez, em 2012, dificultando uma explicação para o que aconteceu.


É evidente que qualquer que tenha sido o objeto que eclipsou esta estrela distante é enorme – muito maior do que a própria estrela. Aparentemente também era completamente opaco, bloqueando quase completamente a luz da estrela, e parecia ter extremidades bem delineadas.

“O grau de desvanecimento no brilho é realmente impressionante”, diz Emily Levesque, da Universidade de Washington, que estuda estrelas massivas, mas que não participou no estudo. “Vai ser muito interessante ver mais observações desta estrela, determinar o que provocou isto, e juntar as peças de como algo assim ocorreu.”

Estrelas gigantes com comportamentos estranhos

A nossa galáxia está repleta de estrelas com comportamentos estranhos, muitas das quais têm naturalmente um brilho intermitente. Uma destas estrelas variáveis, chamada Betelgeuse, desvaneceu de forma dramática em 2019, gerando especulações de que poderia estar prestes a explodir (não explodiu). Em vez disso, esta supergigante vermelha no ombro de Órion regressou ao seu brilho normal, e os astrónomos estão agora a atribuir esse desvanecimento a um ponto frio no seu hemisfério sul e a uma nuvem de poeira.

Em 2015, os astrónomos observaram uma estrela com um brilho tão estranho que alguns cientistas consideraram a possibilidade de a sua luz estar a ser bloqueada por uma megaestrutura alienígena em órbita. O fascínio pelas tecnologias alienígenas colocou esta estrela – agora conhecida por Estrela de Tabby – no centro das atenções durante anos, mas as observações feitas em 2018 revelaram que se tratava apenas de poeira.

A estrela que desvaneceu no primeiro semestre de 2012 é igualmente intrigante.

“É invulgar uma estrela desvanecer tanto e durante tanto tempo, e isso chamou de imediato a minha atenção”, diz Leigh Smith, autor do estudo e astrónomo da Universidade de Cambridge.

Leigh observou o estranho eclipse quando estava a examinar dados das Variáveis VISTA na Via Láctea, ou VVV. Este projeto monitoriza o céu meridional à procura de estrelas variáveis no disco da galáxia.

A observação de Leigh classificou a estrela com uma designação especial: WIT, ou What is this? (O que é isto?), um acrónimo que os astrónomos do projeto VVV usam para classificar objetos curiosos. A estrela ficou conhecida por VVV-WIT-08, e a equipa assinalou-a para um trabalho de acompanhamento. Com base nas primeiras observações, os investigadores estimaram que a estrela estava a pelo menos 25.000 anos-luz de distância na direção do bojo galáctico, e que era uma gigante com 8 mil milhões de anos, cerca de 100 vezes maior do que o nosso sol, mas que arde com temperaturas mais frias.

Durante o primeiro semestre de 2012, a estrela desapareceu quase por completo, perdendo 97% do seu brilho. Os dados sugeriam que o que quer que tenha provocado este eclipse repentino era opaco, e obscureceu uniformemente todos os comprimentos de onda de luz visíveis e infravermelhos durante todo o eclipse.

“Isto é muito difícil de compreender”, diz Jason Wright, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que não participou nas observações. “É algo maior do que a estrela e é completamente opaco, e não há muitas coisas assim.”

As investigações de acompanhamento usaram dados da sonda Gaia da Agência Espacial Europeia e um levantamento chamado OGLE para obter mais informações sobre a estrela. Mas, à medida que estas observações se acumulavam, o mesmo acontecia com as interrogações. Ficou cada vez mais difícil conseguir determinar a distância e o tamanho exato da estrela, e o seu movimento no espaço parecia peculiar – a VVV-WIT-08 parecia estar a viajar depressa o suficiente para escapar da Via Láctea.

“Está muito para além de qualquer coisa que esperaríamos naquela direção”, diz Leigh. “Portanto, há aqui algo que não está correto, há algo de errado com as nossas suposições.”

Uma explicação elusiva

Perplexos com as características invulgares da estrela, Leigh e os seus colegas começaram a tentar explicar o fenómeno. Os investigadores consideraram alterações no brilho que derivam de pulsações ou de espasmos dentro da própria estrela – um comportamento bastante normal, mas que não acontece com este grau de dramatismo em estrelas como a VVV-WIT-08. Os cientistas também descartaram a ideia de que o eclipse podia ser explicado por um alinhamento casual com outro objeto escuro em primeiro plano, algo mais próximo da Terra, que por acaso ficou à sua frente, como uma estrela fraca e empoeirada.

“Seria necessário um grande número destes objetos escuros flutuantes”, diz Leigh. “E esse é um cenário bastante improvável – já devíamos ter encontrado muito mais coisas deste género nas proximidades.”

Jason Wright e outros especialistas acreditam que é mais provável que o que quer que tenha obscurecido a VVV-WIT-08 esteja gravitacionalmente ligado à estrela. E se assim for, de acordo com os autores, talvez a melhor explicação envolva um enorme disco empoeirado de detritos a girar em torno de uma estrela companheira em órbita. Sabe-se que existem sistemas como este, nomeadamente o sistema Epsilon Aurigae, onde a cada 27 anos uma estrela supergigante é parcialmente eclipsada por um companheiro gigante envolto em poeira.

Mas a poeira filtra a luz, permitindo que comprimentos de onda mais longos e vermelhos passem – não é o que estas observações mostram. E os discos de detritos geralmente desvanecem gradualmente, ao invés de desaparecerem por completo, embora Jason saliente que existem pequenas mini-luas que abrem espaços nos anéis de Saturno e que têm extremidades bem delineadas.

Também não se sabe ao certo que tipo de objeto companheiro poderia estar em órbita com a VVV-WIT-08. A equipa considerou meia dúzia de possibilidades, incluindo estrelas de sequência principal e corpos estelares densos, como anãs brancas, mas os discos que normalmente se formam em torno destas estrelas não explicam completamente as observações.

Outra explicação possível é a existência de um buraco negro a orbitar a estrela, rodeado por um anel de detritos densos e escuros – algo que os astrónomos acreditam que devia existir, mas que nunca foi observado. Também é possível que a poeira esteja a ser removida da estrela por um companheiro em órbita, mas isso também não explicaria as observações na sua totalidade.

Ainda assim, Emily Levesque diz que o foco na poeira do sistema faz sentido, uma vez que os astrónomos esperam que as estrelas gigantes em evolução libertem material que irá acabar em órbita – mesmo que esses sistemas não sejam exatamente parecidos com este.

“Não é assim tão bizarro; é o tipo de coisa que esperaríamos”, diz Emily. “Mas a poeira nunca é assim tão delineada, e isso certamente implica algo muito invulgar sobre a forma como esta poeira está distribuída.”

Apesar de poder ser tentador pensar que algum tipo de megaestrutura extraterrestre se pode ter colocado à frente da estrela, Jason diz que essa hipótese ainda não maturou o suficiente para ser considerada de forma séria.

“É prematuro neste momento”, diz Jason. “Há muitas coisas sobre esta estrela que ainda não sabemos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados