Será que a aversão a brócolos pode significar mais resistência à COVID-19?

Os investigadores estão a tentar perceber se os chamados “super degustadores” podem ter uma vantagem contra infeções graves.

Publicado 2/06/2021, 11:34 WEST
papilas gustativas

As papilas gustativas escondem-se no interior das papilas, os pontos claros visíveis nesta imagem devido ao corante azul.

Fotografia de Brian Finke, Nat Geo Image Collection

Parece um pouco difícil de engolir, mas um novo estudo sugere que a forma como as pessoas reagem aos sabores amargos está correlacionada com a gravidade da sua infeção por COVID-19.

É uma visão entusiasmante porque durante os últimos 16 meses ficou claro que as pessoas não respondem ao SARS-CoV-2 de forma previsível. É impossível determinar se alguém irá apresentar sintomas ligeiros ou desenvolver uma doença respiratória com risco de vida. Imagine se um simples teste de sabor conseguisse indicar o risco de uma pessoa desenvolver um caso grave de COVID-19.

Henry Barham, rinologista do Centro Médico Geral de Baton Rouge, no Louisiana, publicou no dia 25 de maio um estudo na revista médica JAMA Network Open que analisa cerca de 2.000 pacientes e descobriu que os “super degustadores” – indivíduos excessivamente sensíveis a alguns compostos amargos – tinham menos propensão para apresentar testes positivos para o vírus. Se esta associação for verdadeira, pode implicar, por exemplo, que as pessoas que não acham os brócolos demasiado amargos estão num grupo de alto risco para casos graves de COVID-19.

“É um estudo muito interessante que sugere que os recetores que temos na nossa língua, que nos permitem sentir sabores amargos, também estão associados à nossa vulnerabilidade a infeções respiratórias como a COVID-19”, diz David Aronoff, diretor da divisão de doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade Vanderbilt em Nashville, no Tennessee, que não esteve envolvido no estudo. É surpreendente que os recetores gustativos também possam estar envolvidos com a imunidade, diz David.

Os “super degustadores” têm superpoderes?

Na Universidade de Yale, na década de 1990, a psicóloga Linda Bartoshuk foi pioneira no estudo das variações genéticas na perceção do paladar. Linda cunhou o termo “super degustador” para descrever 25% das pessoas que são intensamente sensíveis aos sabores amargos. Outros 25% das pessoas são “não degustadoras” que mal detetam sabores amargos, e os restantes 50% são apenas “degustadores” – pessoas que registam o amargor, mas não a um grau que seja desagradável.

Os super degustadores são mais sensíveis aos sabores amargos porque têm até quatro vezes mais papilas gustativas na língua. Os compostos amargos em determinados alimentos e bebidas são reconhecidos pelos recetores de sabor de tipo 2, que são produzidos por uma família de genes chamados T2R. O gene T2R38 está entre os mais bem estudados. As variações na estrutura da proteína T2R38 que o gene codifica estão correlacionadas com a tolerância de uma pessoa aos compostos amargos – como feniltiocarbamida e propiltiouracil – que são abundantes em muitos vegetais, incluindo brócolos, repolho e couve de Bruxelas.

Esta não é a primeira vez que a “super degustação” é associada a uma condição médica. Os super degustadores têm mais probabilidades de ter pólipos no cólon, um fator de risco para o cancro associado a uma menor ingestão de vegetais amargos.

Mas os super degustadores também podem ter vantagens fisiológicas. As proteínas T2R38 estão em mais lugares para além da língua. Estas áreas “extra-orais” incluem as células epiteliais que revestem o nariz e o trato respiratório superior, onde respondem aos patógenos invasores.

Um estudo de 2012 liderado por Noam Cohen, rinologista da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, descobriu que as bactérias responsáveis pelas infeções dos seios nasais ativam os recetores da proteína T2R38 nas células que revestem o trato respiratório, fazendo com que produzam óxido nítrico. O óxido nítrico é um componente-chave na nossa resposta imunitária, a primeira linha de defesa contra patógenos invasores. Este componente estimula estruturas semelhantes a cabelos chamadas cílios nas passagens respiratórias que removem partículas estranhas e patógenos do corpo. Consequentemente, os super degustadores apresentam menos infeções bacterianas nos seios nasais.

Henry Barham, que estuda as T2R relacionadas com a imunidade inata no trato respiratório, também estava ciente de que o óxido nítrico podia envenenar o SARS-CoV, o coronavírus (relacionado com o SARS-CoV-2 que provoca a COVID-19) detetado pela primeira vez na Ásia em 2003 e que provocou a doença respiratória que se espalhou por 22 países antes de ser contida. Isto levou Henry a investigar se existia uma ligação entre a COVID-19 e os super degustadores.

Estudo amargo para os não degustadores

A equipa de Henry estudou 1.935 adultos, 266 dos quais testaram positivo para o SARS-CoV-2. Os não degustadores tinham probabilidades mais significativas do que os degustadores e super degustadores de apresentar resultados positivos para o SARS-CoV-2, e mais probabilidades de hospitalização depois de infetados e de sintomas mais prolongados. Cerca de 86% das pessoas com casos graves de COVID-19 que necessitaram de hospitalização eram não degustadores. Menos de 6% dos super degustadores testaram positivo para SARS-CoV-2.

Henry também especula que a possível ligação entre as T2R e COVID-19 pode estar relacionada com o motivo pelo qual as crianças geralmente são menos suscetíveis. “O número de recetores gustativos diminui com a idade, algo que pode explicar porque é que a população mais idosa parece ser mais afetada do que os mais jovens”, diz Henry. A maioria das crianças, que têm mais T2R, sofrem sintomas ou doenças menos graves quando infetadas com SARS-CoV-2. “Os 25% das crianças não degustadoras tem poucas ou nenhumas proteínas T2R, resultando em sintomas potencialmente mais graves”, diz Henry

Segundo David Aronoff, este estudo tem limitações. O número relativamente pequeno de adultos examinados abrange uma faixa etária bastante estreita, pelo que não se sabe se a correlação entre as preferências de sabor e a gravidade da COVID-19 está presente em crianças ou idosos. Para além disso, diz David, a população estudada pode diferir de formas desconhecidas que influenciam os resultados.

Há testes de sabor COVID-19 em desenvolvimento?

Conseguir determinar rapidamente quem está em maior risco de SARS-CoV-2 pode ser uma ferramenta valiosa. As descobertas de Henry Barham sugerem que os testes de sabor podem fornecer uma forma segura, rápida e económica de categorizar as pessoas em grupos de risco para a COVID-19 e outras infeções.

“Neste ponto, os resultados deste trabalho são prematuros para nos ajudar a gerir a COVID-19 na clínica”, alerta David. “Mas os resultados podem impactar a nossa compreensão do que leva as pessoas a serem mais ou menos vulneráveis a infeções como a COVID-19.” David salienta que os super degustadores não devem interpretar estas conclusões de forma excessiva: “As pessoas que odeiam brócolos não devem evitar a vacinação.”

Danielle Reed, diretora-adjunta do Centro Químico de Sentidos Monell, em Filadélfia, também alerta contra a interpretação exagerada dos resultados. Danielle, que estuda diferenças genéticas no paladar e olfato, foi responsável pelo teste genético presente no estudo de Henry Barham, mas recusou ser nomeada como autora porque interpreta os resultados de maneira diferente.

Danielle sublinha que a análise de Henry não levou em consideração a “perda geral de paladar, que é uma característica inicial da COVID-19”. Portanto, Danielle acredita que alguns pacientes “foram categorizados incorretamente como não degustadores”. Para além disso, numa análise genómica independente, os genes T2R não foram identificados como estando envolvidos na gravidade da COVID-19.

Danielle diz que “os testes de sabor para ajudar a orientar os cuidados médicos são uma meta pela qual podemos trabalhar. Mas o primeiro passo é tornar a monitorização do paladar e do olfato numa parte regular dos cuidados de saúde, como fazemos com a visão e a audição. À medida que adicionamos as análises de paladar e olfato aos cuidados de rotina de saúde, podem surgir formas e ferramentas úteis onde estes sentidos preveem um estado de saúde ou doença.”

Henry concorda que são necessárias mais investigações e diz que a sua equipa continua a recolher dados para “explorar a relação” entre os recetores de sabor e a COVID-19. Henry expressa otimismo em relação a alargar este trabalho a outras doenças infecciosas. “Também estamos a estudar esta família de recetores porque influenciam a imunidade inata à gripe, juntamente com outras infeções do trato respiratório superior.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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