A invulgar variante Lambda está rapidamente a propagar-se na América do Sul. Eis o que sabemos.

As mutações desta variante ajudam-na a evitar o sistema imunitário. Os investigadores estão a tentar descobrir se a Lambda é mais perigosa ou transmissível do que a Delta.

Publicado 16/07/2021, 13:13 WEST
Variante Lambda

Profissionais de saúde dirigem-se para as ilhas Uros, no lago Titicaca em Puno, no Peru, para inocular cidadãos com uma dose da vacina COVID-19, no dia 7 de julho de 2021.

Fotografia de Carlos Mamani, AFP via Getty Images

Uma variante do coronavírus conhecida por Lambda, que passou despercebida nos últimos nove meses, é agora responsável por quase todas as novas infeções no Peru.

A Lambda (também conhecida por C.37) foi detetada pela primeira vez no Peru em agosto de 2020 e propagou-se por 29 países, muitos na América Latina. Desde o dia 20 de janeiro de 2021, foram relatadas 668 infeções Lambda nos Estados Unidos. No Peru, a Lambda é agora responsável por mais de 90% dos novos casos de COVID-19, com um aumento acentuado de menos de 0.5% em dezembro. Este país já sofreu a pior taxa de mortalidade do mundo devido à COVID-19; doença que matou cerca de 0.54% da sua população.

A variante Lambda provavelmente provocou um elevado número de infeções durante a segunda vaga que aconteceu entre o final de março e abril, disse o Ministro da Saúde do Peru, Óscar Ugarte, em conferência de imprensa. No vizinho Chile, onde a vacina de base é a CoronaVac da China, a Lambda é responsável por 31% dos casos sequenciados nos últimos 60 dias. Continuam a registar-se elevados números de casos, embora 58.6% da população do Chile esteja completamente vacinada e outros 10% já tenham recebido a primeira dose. A fraca eficácia da vacina também pode ser parcialmente culpada. Um estudo da Universidade do Chile descobriu que uma só dose da vacina CoronaVac tem uma eficácia de 3%, mas que aumenta para os 56.5% após ambas as doses.

“A razão pela qual o Chile está a registar taxas de infeção tão elevadas é desconcertante, e provavelmente deve-se a vários fatores. Devido à elevada cobertura de vacinação, as restrições foram levantadas um pouco cedo demais, o que pode ter levado a um aumento no número de casos”, diz Pablo Tsukayama, microbiologista da Universidade Peruana Cayetano Heredia em Lima, no Peru. Foi Pablo Tsukayama quem primeiro identificou a variante Lambda após sequenciar rotineiramente amostras recolhidas entre janeiro e março de 2021. “Mas também é possível que as principais variantes em circulação, a Gama e a Lambda, tenham algumas propriedades que lhes permitem evitar o sistema imunitário, reduzindo a proteção das vacinas.”

A possibilidade de a Lambda conseguir evitar o sistema imunitário levou a Organização Mundial de Saúde a designá-la Variante de Interesse (VDI) no dia 14 de junho. A OMS categoriza um vírus como VDI quando as alterações genéticas no vírus são tão significativas que conseguem afetar a sua transmissibilidade, gravidade da doença resultante, evitar o sistema imunitário, diagnóstico ou terapias; e propagar-se rapidamente entre a comunidade.

A América Latina tem apenas 8% da população mundial, mas representa mais de 20% dos casos globais de coronavírus e 32% das mortes por COVID-19 no mundo inteiro. Apesar de a região ainda continuar a contabilizar mais de metade das mortes registadas globalmente, apenas um em cada 10 latino-americanos foi completamente vacinado. Em países como as Honduras e a Guatemala, este valor é inferior a 1%.

“Creio que estamos prestes a ver outra situação crítica nas próximas semanas na América Latina”, diz Alfonso Rodriguez-Morales, epidemiologista e vice-presidente da Associação Colombiana de Doenças Infeciosas. Isto acontece porque em alguns países os programas de vacinação ainda não vacinaram completamente mais de 5 a 10 por cento das suas populações “e isso é muito crítico”.

Por que é difícil detetar variantes?

A variante Lambda não foi detetada durante muitos meses porque era frequentemente confundida com a Gama – a variante identificada pela primeira vez no Brasil, também conhecida por P.1.

Devido aos recursos limitados, o Instituto Nacional de Saúde do Peru usa um método rápido e acessível que se baseia nas mudanças no gene ORF1ab do vírus. Este método não consegue distinguir as variantes Beta e Gama da Lambda. Separar a variante Lambda de outras variantes requer sequenciamento genético, um processo dispendioso e demorado.

“Temos uma capacidade muito limitada na região para fazer vigilância genómica, é difícil estimar a prevalência total da Lambda. Não é fácil prever que uma variante se vai tornar dominante. E é importante aumentar a capacidade de sequenciamento em todo o lado, não só nos Estados Unidos e na Europa”, diz Pablo Tsukayama.

O que mudou na Lambda?

A variante Lambda é muito invulgar devido à forma como a sua proteína “espigão” é alterada em comparação com a de outras variantes. Esta variante tem mutações em 14 posições, incluindo um longo trecho de sete aminoácidos que foi retirado de uma região da proteína espigão chamada domínio N-terminal ou NTD. Para além disso, a Lambda também tem mutações no gene ORF1ab que são encontradas noutras variantes preocupantes: Alfa, Beta e Gama.

O gene ORF1ab codifica uma proteína grande, partes da qual ajudam o coronavírus a replicar-se e a suprimir a resposta imunitária humana. Devido à sua importância, os cientistas já estão a desenvolver terapias antivirais para direcionar as proteínas do ORF1ab.

Os sete aminoácidos retirados do NTD pertencem a um super-local NTD onde o espigão é atacado por muitos dos anticorpos mais fortes do nosso corpo. Muitas variantes, incluindo a Alfa, Beta e Gama, também têm mutações nesta zona, sugerindo que esta região é importante para a evolução do vírus. “O NTD não é crucial para realizar funções importantes do vírus e, portanto, é fácil o vírus sofrer mutações e permanecer viável, de modo a evitar a resposta dos anticorpos existentes”, explica Shee-Mei Lok, cientista de doenças infeciosas da Universidade Nacional de Singapura.

Os anticorpos anti-NTD produzidos naturalmente pelo nosso corpo podem bloquear a entrada de vírus subsequentes na célula, mesmo depois de um vírus se ligar ao recetor ACE2 na superfície da célula, razão pela qual os produtores de vacinas estão concentrados neste fator.

Entre as outras mutações da Lambda está uma mutação peculiar na localização 452, que também sofre mutações noutras variantes altamente transmissíveis: Delta, Delta Plus, Epsilon e Kappa. Apesar de a mutação L452Q da Lambda nunca ter sido descoberta anteriormente numa variante, os cientistas calculam que as mutações na posição 452 aumentam a capacidade do SARS-CoV-2 infetar uma célula.

A posição 452 está na parte da proteína espigão que interage diretamente com a proteína recetora ACE2 encontrada nos pulmões e noutras células humanas, e esta interação permite ao vírus entrar no corpo. “A posição 452 é reconhecida por muitos anticorpos neutralizantes. As mutações neste local podem resultar numa diminuição da ligação e, portanto, menos proteção de determinadas vacinas em determinadas pessoas, começando nas que têm as respostas imunitárias mais fracas”, diz Michael Diamond, imunologista da Escola de Medicina da Universidade de Washington.

Evgeni Sokurenko, microbiologista da Universidade de Washington, demonstrou que uma só mutação nesta posição pode ter deflagrado a recente expansão acelerada das variantes da COVID-19. Uma mutação semelhante – L452R – na variante Epsilon provoca infeciosidade elevada, aumenta a capacidade de crescimento do vírus e reduz a atividade neutralizante de muitos anticorpos.

Num estudo que ainda não foi revisto por pares, Nathaniel Landau, microbiologista da Escola Grossman de Medicina da Universidade de Nova Iorque, mostrou que uma variante semelhante à Lambda feita em laboratório era duas vezes mais infeciosa do que a variante SARS-CoV-2 inicial, tudo por causa da L452Q. Outras mutações encontradas na Lambda não tiveram efeitos significativos nos níveis de infeciosidade. Outro estudo, que também ainda não foi revisto por pares, confirma que a Lambda é provavelmente mais infeciosa do que a Gama e a Alfa.

O que sabemos sobre vacinas e Lambda?

Existem muito poucos estudos sobre a Lambda, mas os resultados preliminares sugerem que as vacinas atuais continuam a ser eficazes, mas talvez menos do que contra o vírus original.

“Acreditamos que, pelo menos as vacinas mRNA – Moderna e Pfizer – protegem bem contra a Lambda, da mesma forma que protegem contra a variante Delta. Mesmo que alguns dos anticorpos já não funcionem contra as variantes, basta lutarem contra o vírus e livrarem-se dele”, garante Nathaniel Landau, que liderou um dos estudos.

Outro estudo, também sem revisão por pares, mostra que a Lambda consegue escapar aos anticorpos neutralizantes produzidos pela vacina CoronaVac aprovada pela OMS e desenvolvida na China, embora o autor principal deste estudo, Ricardo Soto Rifo, virologista do Instituto de Ciências Biomédicas de Santiago, no Chile, tenha esclarecido: “Ainda não temos evidências para dizer que a Lambda é mais transmissível, não temos evidências para dizer que afeta a vacina, não temos evidências para afirmar que a Lambda é responsável por doenças mais graves ou mais mortes.”

Duas doses da CoronaVac, uma vacina de vírus inativado que também é a vacina disponível em muitos dos países latino-americanos, são consideradas menos eficazes do que as vacinas mRNA, mas continuam a proteger contra doenças graves e morte.

Apesar de algum ceticismo em torno da eficácia da CoronaVac contra as novas variantes, todas as pessoas devem ser vacinadas com qualquer vacina autorizada disponível na sua região, diz Herbert Virgin, imunologista, membro da Academia Nacional de Ciências e diretor científico da Vir Biotechnology. “Se não nos vacinarmos… o vírus vai evoluir”, acrescenta Herbert.

As preocupações com uma nova variante como a Lambda num país distante podem parecer excessivas, mas é importante ficarmos atentos e seguir as medidas de precaução. “A Lambda não é mais assustadora do que a variante Delta. É importante reter que ambas são altamente transmissíveis. Mas se formos vacinados, provavelmente estamos protegidos”, aconselha Nathaniel Landau. “E a taxa de infeção devido a estas variantes vai descer nas áreas onde as pessoas estão vacinadas.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados