Cão selvagem pré-histórico encontrado em sítio icónico de fósseis humanos

Uma nova investigação revela que dois mamíferos altamente sociais cruzaram-se em Dmanisi, há 1.8 milhões de anos: os nossos antepassados humanos e um canídeo que caçava em matilha.

Publicado 30/07/2021, 14:09
Estes fragmentos de dentes e maxilar encontrados em Dmanisi, um sítio arqueológico com 1.8 milhões de ...

Estes fragmentos de dentes e maxilar encontrados em Dmanisi, um sítio arqueológico com 1.8 milhões de anos na Geórgia, pertencem a um canídeo extinto conhecido por cão de caça eurasiático. Este fóssil é o mais antigo do seu tipo alguma vez encontrado.

Fotografia de S. Bartolini-Lucenti

A vila medieval georgiana de Dmanisi é uma meca para a paleoantropologia. Este local contém os registos mais antigos de que há conhecimento de antepassados humanos fora de África, revelando como o hominídeo Homo erectus viveu na encruzilhada entre a Europa e a Ásia há aproximadamente 1.8 milhões de anos.

Com base nos restos mortais desenterrados recentemente, parece que os hominídeos de Dmanisi se cruzaram no Cáucaso com um viajante de quatro patas vindo do leste: um enorme – e particularmente social – cão selvagem com dentes projetados para fatiar carne.

Estes restos mortais pertencem ao Canis (Xenocyon) lycaonoides, ou cão de caça eurasiático, que provavelmente evoluiu no Leste Asiático há cerca de 1.8 milhões de anos e desapareceu há cerca de 800.000 anos. Com base nos fragmentos ósseos encontrados em Dmanisi – alguns dentes e pedaços de um maxilar – o cão pesava cerca de 30 quilos quando morreu, provavelmente em idade adulta.

Os autores do estudo afirmam que os restos mortais encontrados em Dmanisi são os fósseis mais antigos de um C. (Xenocyon) lycaonoides alguma vez identificados. Alguns investigadores, incluindo os coautores do estudo, também argumentam que o C. (Xenocyon) lycaonoides pode estar intimamente relacionado com o mabeco africano da atualidade, o Lycaon pictus. Se assim for, este novo fóssil é o primeiro desta linhagem específica a ser encontrado em Dmanisi.

Para sermos claros, esta descoberta não sugere de forma alguma que cães e humanos cooperaram em Dmanisi há quase dois milhões de anos. As primeiras evidências de qualquer tipo de domesticação canina só remontam até há 40.000 anos. Em vez disso, a descoberta, descrita na revista Scientific Reports, adiciona detalhes importantes àquele que atualmente é um quadro muito pouco detalhado sobre a evolução canina.

Cão de longo alcance

Restos mortais de Canis (Xenocyon) lycaonoides já tinham surgido na Sibéria, em Espanha e até na África do Sul. Considerando a sua vasta distribuição geográfica, a ausência deste cão em particular ou dos seus parentes mais diretos em Dmanisi era algo que incomodava os investigadores. Neste sítio, os sedimentos ricos em fósseis já revelaram restos de mais de duas dúzias de espécies diferentes de mamíferos que viveram ao lado dos nossos antepassados humanos, incluindo hienas, ursos, chitas e felinos dentes-de-sabre, bem como alguns parentes distantes dos lobos e cães da atualidade.

“Era muito, muito, muito estranho – muito estranho – que o Lycaon não estivesse presente em Dmanisi depois de mais de 30 anos de escavações”, diz o coautor do estudo, Bienvenido Martínez Navarro, paleontólogo do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados de Espanha. “Finalmente, apareceu! Nós tivemos sorte.”

Mesmo com as novas evidências em mãos, determinar onde pertencem determinados carnívoros parecidos com cães (canídeos) na árvore genealógica do grupo é “completamente alucinante” devido à sua dificuldade, diz o autor do estudo, Saverio Bartolini Lucenti, paleontólogo da Universidade de Florença, em Itália.

Enquanto grupo, os canídeos têm sido bastante conservadores na sua evolução, apresentando menos alteração morfológica do que os felinos, como os felinos dentes-de-sabre. Para dificultar ainda mais, linhagens distantemente relacionadas de canídeos por vezes evoluíram para apresentar características físicas semelhantes, dificultando a determinação da sua relação apenas a partir de ossos e dentes.

Saverio Lucenti e os seus colegas ainda não sabem se o cão encontrado em Dmanisi pertence ao género Canis, ficando assim ao lado dos lobos e cães domesticados da atualidade, ou ao género Xenocyon separado. É por isso que a equipa optou pela designação de Canis (Xenocyon), deixando margem para a possibilidade de o cão pertencer a qualquer um dos géneros.

Este rótulo neutro pode parecer engraçado, mas é necessário. No início deste ano, investigadores descobriram que o extinto “lobo gigante” – espécie há muito considerada irmã dos lobos modernos – não pertencia sequer ao género Canis. (Descubra mais sobre os verdadeiros lobos gigantes.)

A equipa pode estar razoavelmente confiante sobre da dieta do cão. Os investigadores compararam as medidas destes dentes antigos com as de outros dentes de canídeos para testar a quantidade de carne que o animal provavelmente comia. As proporções dos seus dentes agrupam-se ao lado dos “híper-carnívoros”: canídeos vivos e extintos, incluindo o mabeco africano da atualidade, cujas dietas consistem em cerca de 70% de carne.

Animais sociais

O novo estudo também destaca paralelos intrigantes entre o C. (Xenocyon) lycaonoides e Homo erectus. Ambos conseguiram espalhar-se por vários continentes — o Homo erectus evoluiu em África e moveu-se para leste, para as ilhas do Sudeste Asiático; o cão de caça eurasiático provavelmente evoluiu na Ásia e mudou-se para oeste, para a Europa e África.

Ambos eram mamíferos altamente sociais – e até altruístas – argumentam os investigadores. Mas como é que os cientistas conseguem determinar o comportamento de um cão a partir de ossos fósseis com mais de um milhão de anos? Uma linha de evidência crucial para o altruísmo surge na forma de crânios com patologias claras – como dentes perdidos e maxilares deformados – que tornariam quase impossível para um animal individual conseguir alimentar-se. Se este animal viveu claramente até muito tempo depois da formação das suas patologias, deve ter recebido ajuda de outros animais para obter comida.

Um sítio arqueológico em Espanha preserva estas evidências num C. (Xenocyon) lycaonoides: um crânio assimétrico com vários defeitos dentais, incluindo um dente canino ausente. O cão parece ter vivido sete ou oito anos, sugerindo que foi ajudado por outros caçadores em matilha.

(Dmanisi também fornece evidências semelhantes da partilha de alimentos entre o Homo erectus: o crânio de um hominídeo idoso mostra que o indivíduo morreu anos depois de perder todos os dentes, exceto um.)

A ciência também mostra que, quando a massa corporal média de uma espécie de canídeo excede os cerca de 20 quilos, a matemática calórica exige que a espécie abata presas ainda maiores, uma tarefa que favorece a caça cooperativa em matilha. As medições do crânio e dos dentes encontrados em Dmanisi e noutros lugares sugerem que o C. (Xenocyon) lycaonoides estava muito para além do limiar da caça em matilha.

Porém, não há evidências diretas de que os cães de caça eurasiáticos eram sociais em Dmanisi. “Nos carnívoros modernos, a sociabilidade pode variar até mesmo dentro de uma espécie”, diz a paleontóloga Mairin Balisi, investigadora de pós-doutoramento no Museu e Poços de Alcatrão de La Brea, na Califórnia, que não esteve envolvida no estudo. “Tenho a certeza de que também pode variar no registo fóssil, dificultando ainda mais o estabelecimento desta variação.”

A descoberta de novos fósseis em Dmanisi pode ajudar a confirmar a sociabilidade deste cão na região – e novos tipos de evidências moleculares podem potencialmente confirmar como é que o cão de caça eurasiático se encaixa na árvore genealógica dos canídeos. Em 2019, os investigadores conseguiram extrair e sequenciar proteínas de um dente de rinoceronte encontrado em Dmanisi. Saverio Lucenti diz que a sua equipa também tentou extrair proteínas antigas dos restos mortais do cão, mas não conseguiu.

Mairin Balisi, por exemplo, está entusiasmada para ver o que reserva o futuro para o desvendar da complexa história evolutiva dos cães. “Quanto mais peças do puzzle tivermos, melhor.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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