É altamente improvável que as vacinas provoquem efeitos secundários muito tempo depois da injeção

A ciência mostra que mesmo os efeitos secundários mais graves de qualquer vacina, incluindo da COVID-19, acontecem dentro de poucas semanas.

Publicado 28/07/2021, 11:35
Efeitos colaterais Vax

Uma estudante recebe uma vacina COVID-19 numa clínica de vacinação no campus da Universidade de Washington, no dia 18 de maio de 2021 em Seattle.

Fotografia de David Ryder, Getty Images

Sete meses depois de os EUA começarem a administrar vacinas COVID-19, os números mais recentes da sondagem de rastreio da Fundação da Família Kaiser mostram que 10% dos adultos ainda estão reticentes em relação à vacina e querem “esperar para ver” o que acontece aos outros. Jovens adultos dos 18 aos 29 anos e negros e hispânicos são algumas das pessoas mais propensas a expressar este tipo de sentimento.

As duas principais razões citadas para esta hesitação são as vacinas “demasiado novas” e o facto de poderem desencadear efeitos secundários inesperados ou perigosos, talvez até meses ou anos depois da injeção. É verdade que os relatos de novos efeitos secundários podem demorar meses a emergir, conforme uma vacina passa de uma população de milhares de pessoas nos ensaios clínicos para milhões no mundo real, encontrando variações naturais nas respostas humanas. Mas mais de cem milhões de americanos já passaram esse ponto nas suas vacinas e para os primeiros participantes nos ensaios clínicos já passou mais de um ano.

Até agora, são muito raros os incidentes de efeitos secundários graves devido às vacinas contra o coronavírus, como a síndrome de Guillain-Barré e inflamação do coração, e foram rapidamente descobertos porque constavam nas listas oficiais de potenciais problemas a observar. Para além disso, todos estes e outros efeitos secundários surgiram logo após alguém tomar a vacina, sugerindo que as pessoas não precisam de se preocupar com reações retardadas a longo prazo.

Esta imagem encaixa na história moderna das vacinações, que mostra que a maioria das novas imunizações tem sido incrivelmente segura e que os efeitos mais graves surgem depressa.

“Os efeitos secundários costumam aparecer passadas algumas semanas após a vacinação de uma pessoa”, diz John Grabenstein, diretor de comunicação científica da organização Immunization Action Coalition. John acrescenta que o tempo mais longo para o aparecimento de um efeito secundário para qualquer tipo de vacina tem sido seis semanas.

“Os receios de que algo pode surgir mais tarde com as vacinas COVID-19 não são infundados, mas com base no que sabemos, são pouco prováveis”, acrescenta Miles Braun, professor adjunto de medicina na Escola de Medicina da Universidade de Georgetown e ex-diretor da divisão de epidemiologia da agência do medicamento dos EUA.

Uma das razões principais para esta janela limitada de efeitos secundários é o curto período de tempo que qualquer vacina permanece no corpo, diz Onyema Ogbuagu, especialista em doenças infeciosas da Escola de Medicina de Yale e investigador principal no ensaio da vacina COVID-19 da Pfizer-BioNTech. Ao contrário dos medicamentos que as pessoas tomam todos os dias ou semanalmente, as vacinas são geralmente administradas uma ou algumas vezes ao longo da vida. As moléculas de mRNA usadas nas vacinas da Pfizer e da Moderna são particularmente frágeis, diz Onyema, “saem do corpo no espaço de um ou dois dias”.

As vacinas começam posteriormente a funcionar estimulando o sistema imunitário para este conseguir memorizar o vírus e montar uma resposta rápida caso encontre a versão real mais tarde. “Este processo fica concluído em cerca de seis semanas”, diz Inci Yildirim, vacinologista e especialista em doenças infeciosas pediátricas na Escola de Medicina de Yale. É por isso que os efeitos secundários graves que podem ser desencadeados por este processo surgem dentro deste período de tempo, após o qual fica tudo colocado na prateleira da biblioteca de patógenos conhecidos do corpo, diz Inci.

Historicamente, os efeitos secundários de vacinas surgem rapidamente

Se percorrermos a história das vacinas confirmamos que mesmo os efeitos secundários mais graves aconteceram dentro de uma janela temporal de seis semanas.

Depois da vacina inicial contra a poliomielite desenvolvida por Jonas Salk ter sido introduzida em 1955, ficou claro que alguns dos primeiros lotes continham inadvertidamente vírus vivos da poliomielite e não a forma enfraquecida que devia estar na vacina. Dentro de poucas semanas, este erro resultou em algumas infeções de poliomielite e, em alguns casos, na eventual morte. O “incidente Cutter”, batizado em homenagem aos laboratórios de produção com os maiores problemas, gerou regulamentações governamentais mais rígidas nos EUA. Hoje, as vacinas contra a poliomielite são monitorizadas para garantir que o vírus está completamente inativado nas vacinas administradas às crianças.

Em 1976, surgiram casos raros da síndrome de Guillain-Barré cerca de duas a três semanas após as pessoas começarem a receber uma vacina contra a gripe. Esta vacina inativada visava uma estirpe perigosa da gripe suína H1N1. Os cientistas acabaram por determinar que os efeitos aconteciam em uma a duas pessoas por milhão de vacinas. A síndrome de Guillain-Barré é tratável, mas com o fim da época gripal naquele ano, os esforços de vacinação foram rapidamente abandonados.

Esta mesma condição foi recentemente associada à vacina da Johnson & Johnson, com uma centena de relatórios preliminares após aproximadamente 12.5 milhões de doses administradas, de acordo com a agência do medicamento norte-americana. Nestes casos, a síndrome surgiu cerca de duas semanas após a vacinação, maioritariamente em homens com mais de 50 anos.

Em 2008, sete a dez dias depois de receberem uma vacina combinada contra o sarampo, papeira e rubéola (MMR) com uma vacina para a varicela, algumas crianças desenvolveram convulsões febris. Estes casos de convulsão aconteceram em uma criança por cada 2.300 doses da vacina, razão pela qual o Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA recomenda atualmente que a maioria das crianças leve as duas vacinas separadamente.

Passadas algumas semanas depois de receber a vacina contra a febre amarela, um número muito pequeno de pessoas desenvolveu inflamação no cérebro (encefalite), inchaço da cobertura da medula espinhal (meningite), síndrome de Guillain-Barré ou uma disfunção de múltiplos órgãos chamada doença viscerotrópica. As pessoas que viajam para lugares onde esta doença fatal é endémica continuam a ser incentivadas para levarem a vacina, embora os CDC recomendem que as pessoas com mais de 60 anos avaliem os riscos e benefícios com os seus médicos.

A exceção rara no que diz respeito a efeitos adversos que acontecem dentro do prazo de seis semanas é a vacina contra a dengue, a Dengvaxia, que o governo filipino aprovou para uso em crianças em 2016. Quando as pessoas são infetadas com o vírus da dengue, os primeiros efeitos da doença são bastante ligeiros. Mas quando são infetadas pela segunda vez, com uma estirpe diferente, a reação pode ser muito mais grave e, em alguns casos, fatal.

Tal como alguns especialistas previam, esta vacina – feita de vírus inativados – agiu como uma primeira infeção, o que significa que muitas crianças que foram picadas posteriormente por um mosquito portador do vírus da dengue ficaram pior do que se não tivessem sido inoculadas. Em 2019, a agência do medicamento dos EUA aprovou esta vacina, mas apenas para as crianças em territórios dos EUA afetados pela dengue com um caso anterior da doença confirmado em laboratório.

Portanto, nenhuma vacina fez com que surgissem doenças crónicas passados anos ou décadas, diz Robert Jacobson, diretor médico do programa de ciências de saúde populacional da Clínica Mayo. “Estudos após estudos investigaram isto com todos os tipos de vacinas e descobriram que não acontece”, diz Robert.

Por exemplo, uma meta-análise de 2016 examinou 23 estudos à procura de evidências de que as vacinas infantis mais comuns, como a MMR ou a haemophilus influenza B, podem de alguma forma provocar diabetes na infância e não encontrou qualquer ligação. Para dissipar o receio de que as vacinações podiam provocar doenças autoimunes, como esclerose múltipla em adultos, uma revisão de 2017 avaliou nove vacinas comuns, incluindo a vacina contra o tétano, papilomavírus humano e gripe sazonal. Este trabalho descobriu que os casos de esclerose múltipla não aumentavam como resultado do uso generalizado da vacina.

Monitorização das vacinas COVID-19 é mais abrangente

Com as vacinas da COVID-19, os reguladores adicionaram vários observadores extra para procurar eventos adversos e relatá-los o mais depressa possível.

“Para todas as vacinas, existe uma fase quatro”, diz Inci Yildirim, que envolve uma monitorização extensiva depois de uma vacina concluir o seu ensaio clínico de fase três e recebe a aprovação da agência do medicamento. Esta monitorização acontece principalmente através do sistema VAERS, onde qualquer indivíduo ou médico pode preencher um formulário e sinalizar possíveis efeitos secundários. Os cientistas avaliam depois se os efeitos relatados acontecem para além do geralmente esperado na população.

É usado um enorme poder de computação para a segunda fase deste processo, o programa Vaccine Safety Datalink. Este programa é uma colaboração entre os CDC dos EUA e nove grandes provedores de saúde, a maioria dos quais faz parte do sistema Kaiser Permanente. Uma das funções deste programa é fazer uma análise de ciclo rápido, que rastreia os registos de milhões de pacientes participantes imediatamente após a administração de uma nova vacina.

“Esta análise é feita semanalmente. Se houver sinais [de um evento adverso], detetamo-los rapidamente”, diz Nicola Klein, diretor do centro de estudos de vacinas da Kaiser Permanente em Oakland, na Califórnia, que está a liderar a análise sobre as vacinas COVID-19. O programa Datalink sinalizou as convulsões febris provocadas pela vacina MMRV, informação que foi divulgada ao público em poucos meses, diz Nicola.

Nos EUA, os CDC desenvolveram a aplicação V-safe que, depois de instalada, as pessoas vacinadas são questionadas através de mensagens de texto e sondagens online sobre quaisquer eventos adversos. Outros programas envolvem instituições de cuidados a longo prazo e seguradoras encarregadas de sinalizar problemas emergentes nas suas populações de pacientes.

“A amplitude dos sistemas de vigilância sobre a segurança das vacinas significa que as limitações de uma abordagem são compensadas pelos pontos fortes de outras, tornando a combinação total bastante robusta”, diz John Grabenstein, da Immunization Action Coalition.  

Quais são os efeitos secundários sinalizados nas vacinas COVID-19?

Os especialistas começam este processo robusto de monitorização com uma lista de potenciais efeitos secundários. “Estas condições são selecionadas com base no que foi observado nos ensaios clínicos (mesmo que não sejam estatisticamente significativas), nos efeitos provocados pela própria doença e no que apareceu nas vacinas anteriores”, diz Frank DeStefano, diretor do Gabinete de Segurança de Imunização dos CDC.

Para as vacinas COVID-19, estes “eventos de interesse especial”, que rondam mais de duas dezenas, incluem artrite, narcolepsia, encefalite e derrames vasculares cerebrais.

Também nesta lista está a condição de coagulação do sangue. Nicola Klein diz que esta condição foi adicionada após surgirem problemas com a vacina da AstraZeneca na Europa. A vacina da Johnson & Johnson autorizada nos EUA usa uma tecnologia de vetor de adenovírus semelhante e, pouco tempo depois, os reguladores observaram o mesmo efeito num número muito reduzido de mulheres jovens que receberam a vacina da Johnson & Johnson, com coágulos a aparecerem na segunda semana após a vacinação.

A síndrome de Guillain-Barré esteve sempre na lista de vigilância, pois já aparecia com outras vacinas. Da mesma forma, as inflamações cardíacas como miocardite e pericardite já estavam na lista, que aconteceram vários dias após a vacinação numa pequena fração de homens jovens que receberam vacinas mRNA.

Os especialistas também estão obviamente atentos ao inesperado. John Grabenstein lembra-se do que aconteceu em 2004, quando liderou um esforço de vacinação contra a varíola para o Exército dos EUA. Vários membros do exército desenvolveram rapidamente miocardite, embora esta condição não tivesse aparecido durante os esforços de inoculação da varíola nas décadas de 1940 e 1950. “A melhor explicação é a de que as vacinas anteriores eram administradas a crianças, ao passo que agora estávamos a inocular jovens de 20 anos”, diz John.

Com tantas vacinas contra o coronavírus administradas em tão pouco tempo, tem sido mais fácil detetar eventos adversos incrivelmente raros, diz Inci Yildirim. Os eventos relacionados com a vacina da Johnson & Johnson foram sinalizados poucos meses depois da autorização da vacina – o que mostra que o sistema está a funcionar. “Não gostamos de ouvir falar sobre efeitos secundários, mas o facto de ouvirmos falar sobre eles é um bom sinal, porque significa que estão a ser identificados.”

Frank DeStefano está confiante de que não irão surgir efeitos secundários graves para as vacinas autorizadas no final do ano passado. “Temos sistemas que procuram efeitos mais retardados”, diz Frank. “Mas a nossa experiência com outras vacinas mostra que os efeitos tardios das vacinas COVID-19 são improváveis.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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