Jeff Bezos chegou ao espaço – um pequeno passo em direção ao sonho de grandes voos espaciais

O primeiro lançamento tripulado do foguetão New Shepard levou Jeff Bezos, o seu irmão e a pessoa mais velha e a mais nova a ir ao espaço: a pioneira da aviação Wally Funk, de 82 anos, e um estudante holandês de 18 anos.

Publicado 22/07/2021, 12:20 , Atualizado 22/07/2021, 13:46
Lançamento do foguetão New Shepard

A Blue Origin lança o seu primeiro voo espacial com humanos a bordo, incluindo o fundador da empresa, Jeff Bezos.

Fotografia de Blue Origin

Na terça-feira de manhã, enquanto o sol iluminava um porto espacial privado na zona rural do oeste do Texas, um foguetão de seis andares de altura ligou os seus motores e levantou voo, transportando uma cápsula espacial com quatro pessoas a bordo – os primeiros passageiros a voarem até ao céu no foguetão New Shepard da Blue Origin. O foguetão foi lançado em direção às estrelas e, a cerca de 75.000 metros, a cápsula da tripulação separou-se do propulsor e continuou até à extremidade da nossa atmosfera, enquanto o foguetão descia de regresso à Terra e executava uma aterragem vertical controlada.

Enquanto a cápsula subia, os membros da tripulação libertaram-se dos cintos de segurança e flutuaram sem gravidade durante alguns minutos, gritando de entusiasmo enquanto apreciavam a vista pelas janelas. Aos 107.000 metros, ainda sem estar exatamente em órbita, mas muito acima da linha dos 100 quilómetros que marca a fronteira espacial reconhecida internacionalmente, a cápsula começou a descer. Cerca de dez minutos após o lançamento, três paraquedas ajudaram a cápsula a descer em segurança de regresso à Terra.

A cápsula da tripulação do foguetão New Shepard da Blue Origin desce de paraquedas de regresso à Terra após um voo bem-sucedido no dia 20 de julho, no oeste do Texas.

Fotografia de Blue Origin

Este voo levava uma tripulação um pouco diferente da dos padrões de voo espacial. Um dos passageiros era Jeff Bezos, fundador da Blue Origin e atualmente a pessoa mais rica do mundo. O seu irmão Mark Bezos juntou-se ao voo inaugural. E talvez a ofuscar os irmãos Bezos, pelo menos para os mais versados em história aeroespacial, estava Wally Funk, uma aviadora de 82 anos que sonhava ser astronauta desde os primeiros dias do programa de voo espacial humano da NASA – quando Wally treinou para ser astronauta e superou em muitos dos testes os sete homens escolhidos para o programa Mercury, mas que não teve a oportunidade de ir ao espaço.

“É escuro aqui em cima!” exclamou Wally enquanto flutuava sem gravidade.

A completar a tripulação estava Oliver Daemen, um holandês de 18 anos, agora a pessoa mais nova a ir ao espaço. O pai de Oliver pagou uma quantia que não foi revelada para o seu filho sentir a ausência de peso, ver o céu escuro e vislumbrar o horizonte curvo da Terra durante alguns fugazes minutos.

“Há anos que eu esperava para ver quando é que eles iam decidir levar humanos”, diz Laura Seward Forczyk, fundadora da empresa de consultoria aeroespacial Astralytical, referindo-se à Blue Origin. “É bom que tenham finalmente decidido que estava na hora – eles tinham este plano há anos, era esperado há muito.”

Um pequeno passo para um grande sonho

O voo de 10 minutos alcançado na terça-feira é um marco para a Blue Origin. A empresa tem sido relativamente sigilosa sobre o desenvolvimento da sua nave em comparação com as rivais da indústria, a SpaceX, fundada por Elon Musk, e a Virgin Galactic, dirigida por Richard Branson. Tal como a Virgin Galactic, que levou Branson ao espaço no dia 11 de julho, a Blue Origin planeia oferecer voos a clientes a bordo do New Shepard a partir do final deste ano. Estes voos irão permitir que até seis pessoas de cada vez vivam a breve e emocionante viagem ao espaço, que inclui cerca de quatro minutos sem gravidade.

Ainda não se sabe qual vai ser o preço para tal oportunidade, mas a Blue Origin diz que tem uma lista de passageiros em espera para fazerem a viagem parabólica. Um deles é um cliente anónimo que ofereceu 28 milhões de dólares pela oportunidade de voar no voo inaugural, mas que teve de adiar a viagem ao último minuto devido a “conflitos de agendamento”.

A Blue Origin também tem outros projetos mais arrojados. A empresa está a projetar um módulo lunar e um foguetão maior, chamado New Glenn, que poderá transportar humanos para a órbita da Terra e não só – até aos reinos das estações espaciais e satélites, dos passeios lunares e vislumbres de futuros para além do nosso mundo.

Bezos diz que fundou a Blue Origin porque quer ajudar a criar um futuro onde milhões de pessoas vivem no espaço, habitando exuberantes mundos manufaturados em rotação em órbita. Enviar passageiros em voos suborbitais é o primeiro passo lógico de alinhamento com essa visão, diz Carissa Christensen, analista da indústria, fundadora e CEO da Bryce Space and Technology, uma empresa de consultoria aeroespacial.

“Encaro de uma forma literal o que Jeff Bezos disse publicamente, que ele acredita realmente na importância e no valor do acesso humano ao espaço, na importância de alargar e expandir este acesso, de possibilitar um futuro onde as pessoas vivem e trabalham no espaço”, diz Carissa  “O Jeff Bezos pode gastar o seu tempo e a sua fortuna de várias formas, mas optou por colocar as suas finanças pessoais numa empresa de lançamentos espaciais.”

A tripulação do primeiro voo espacial humano da Blue Origin, da esquerda para a direita: Mark Bezos, Jeff Bezos, Oliver Daemen e Wally Funk.

Fotografia de Blue Origin

Os críticos, porém, não perdem tempo a salientar que nem a Blue Origin nem a Virgin Galactic estão realmente a expandir o acesso ao espaço com estes voos comerciais – pelo menos por enquanto. Estas primeiras tripulações são compostas por indivíduos extremamente ricos e respetivos convidados, e muitos especialistas questionam se estes voos suborbitais não passam de viagens de prazer para os mais abastados. Feitas as contas, quão acessível é o espaço se o preço de admissão for astronómico?

“O espaço continua a ser um lugar muito elitista – um lugar difícil de chegar, um lugar impossível de alcançar para 99% dos humanos, só o aroma da elite é que está a mudar”, diz o historiador espacial Jordan Bimm, da Universidade de Chicago. “Se na década de 1960 era preciso ser um ‘eleito’ para ir ao espaço, agora bastam os amigos certos – ou as contas bancárias certas. A meu ver, esta não é a visão utópica do espaço que algumas pessoas andam agora a traficar.”

Origem da Blue Origin

Jeff Bezos fundou a Blue Origin em 2000, mas a empresa permaneceu debaixo do radar até que o fundador da Amazon escolheu um local para construir um porto espacial: o deserto de arbustos e escassamente povoado a norte de Van Horn, no Texas, uma cidade com cerca de 2.000 habitantes que é a sede do Condado de Culberson. Em 2003, os rancheiros locais começaram a receber chamadas persistentes de um advogado de Seattle que representava um cliente anónimo que queria comprar as suas terras – e que aparentemente tinha bolsos sem fundo. Alguns rancheiros resistiram até que as ofertas se tornaram demasiado boas para recusar. Em 2005, Bezos já tinha acumulado perto de 67.000 hectares na região (uma área que desde então praticamente duplicou), e chamou à propriedade “Corn Ranch”.

Nesse mesmo ano, Bezos visitou Van Horn e revelou o seu grande projeto para o local a norte da cidade, surpreendendo os habitantes com a sua visão de um porto espacial. Bezos disse que iriam lançar uma nova nave espacial, que seria um passo para o seu objetivo final de enviar milhões de humanos para viver e trabalhar no espaço.

John Conoly, juiz de longa data do Condado de Culberson, ficou impressionado. “Tenho toda a confiança do mundo de que ele vai fazer o que diz”, disse John à Associated Press em 2005. “Eu sei que ele vai ter algumas das melhores mentes para este projeto. Ele não faz as coisas pela metade.”

Passo a passo

Atualmente, para além de um punhado de astronautas na Estação Espacial Internacional, os humanos permanecem firmemente plantados neste planeta. A mesma aura de mistério e determinação continua a caracterizar a Blue Origin, embora a empresa tenha feito algumas previsões públicas sobre quando seriam alcançados alguns marcos. O voo desta semana, por exemplo, estava originalmente previsto para acontecer em 2018.

Este é apenas um de vários prazos falhados. Mas a Blue Origin persiste.

“Vejo o Jeff Bezos a adotar um tipo de abordagem paciente, ele não quer o brilho que obtemos com Branson ou Musk. Ele está contente em manter as falhas em segredo e a produzir vitória atrás de vitória, esperando que isso resulte em algo imparável”, diz Jordan Bimm. “Creio que devemos olhar para o desenvolvimento da Amazon e para o tipo de trabalho lento, constante e sigiloso que acabou por dar origem a um gigante.”

Apropriadamente, o lema da Blue Origin é gradatim ferociter, que significa “passo a passo, ferozmente”. A mascote da empresa é uma tartaruga, talvez uma referência à perseverança deste lento animal perante a veloz e derrotada lebre.

Em novembro de 2015, a empresa alcançou uma vitória inesperada sobre a SpaceX quando pousou verticalmente um foguetão propulsor pela primeira vez na história – um passo enorme rumo à reutilização, que é vital para a visão da empresa.

Para além desta primeira aterragem vertical, o New Shepard fez 15 voos bem-sucedidos e 14 pousos com três propulsores, um dos quais voou sete vezes. Estes voos levaram dezenas de cargas científicas e educacionais para os limites do espaço, incluindo investigações sobre os efeitos da microgravidade na expressão de genes, células e tecidos. A Blue Origin também lançou cargas relacionados com arte, incluindo dois projetos produzidos em parceria com a banda OK Go.

Tal como no voo de terça-feira, os propulsores dos voos anteriores aterraram com sucesso e as cápsulas de tripulação desceram de paraquedas de regresso à Terra, pousando no solo como a nave russa Soyuz faz desde 1960. Enquanto a Blue Origin trabalha para lançar voos orbitais, também segue uma trajetória que foi estabelecida pela NASA durante a alvorada da era espacial humana – primeiro vamos para o espaço suborbital, depois entramos em órbita e tentamos missões mais ambiciosas, como a construção de estações espaciais ou voar para a lua.

“É um pouco como estar de regresso ao futuro”, diz Jennifer Levasseur, historiadora espacial do Museu Nacional Aeroespacial Smithsonian, museu que acaba de receber uma doação de 200 milhões de dólares de Jeff Bezos. “Já percorremos este caminho anteriormente no aumento da capacidade dos foguetões. Não é território novo.”

A Blue Origin também está a trabalhar num motor de foguetão, chamado BE-4, que foi vendido à empresa de lançamentos United Launch Alliance (ULA) – embora supostamente a ULA esteja frustrada com os atrasos na entrega.

O motor BE-4 também é vital para o ansiosamente aguardado foguetão New Glenn da Blue Origin, um veículo de 100 metros com dois estágios que está a ser construído numa fábrica que a Blue Origin construiu em 2016 perto de Cabo Canaveral, na Flórida. Após vários atrasos, o primeiro voo do New Glenn está supostamente agendado para 2022.

Tanto o New Shepard como o New Glenn têm o nome de astronautas da NASA que alcançaram avanços significativos no programa Mercury – Alan Shepard, o primeiro astronauta dos EUA a fazer uma viagem ao espaço suborbital, e John Glenn, o primeiro americano a orbitar a Terra.

“Bezos está claramente enredado no componente histórico do que está a fazer”, diz Jennifer Levasseur. “Ele gastou milhões de dólares para apoiar o esforço de recuperação de partes do veículo de lançamento da Apollo do fundo do Oceano Atlântico. No outro dia vi algumas destas peças no museu e refleti sobre elas, percebi que há um longo trilho de evidências sobre o que esta pessoa em específico quer alcançar.”

Até Wally Funk ter voado na terça-feira, John Glenn também era a pessoa mais velha a visitar o espaço, tendo voado a bordo do vaivém espacial Discovery em 1998 aos 77 anos. Na década de 1960, Wally Funk superou John Glenn em muitos dos exercícios feitos durante a formação para o voo espacial como parte de um programa privado. Wally e uma dúzia de outras mulheres apelidadas de “Mercury 13” participaram e passaram nas mesmas avaliações rigorosas que o programa Mercury 7 da NASA – mas a agência espacial não estava a aceitar mulheres astronautas.

“Wally viu muitas vezes negada a oportunidade de ir ao espaço porque era mulher numa época em que as mulheres eram discriminadas”, diz Laura Forcyzk. “Só o facto de a vermos no espaço neste voo da Blue Origin é muito inspirador para muitas das pessoas que acompanharam a história das Mercury 13 e sabem como foi uma injustiça.”

Construir um futuro para todos no espaço

Vivemos numa época em que os empresários ricos e os programas espaciais do governo influenciam o futuro da humanidade para além do nosso planeta. Musk, Bezos e Branson têm individualmente uma visão de como será o futuro. Para Musk, será em Marte; para Bezos, será um pouco mais perto da Terra.

Mas traduzir estes sonhos em realidade é complicado, mesmo para além da parte tecnológica. Neste momento, o preço de entrada é astronómico e o espaço continua a ser um reino para os ricos e para a elite, diz Jordan Bimm. Embora a Blue Origin ainda não tenha anunciado uma gama de preço para os seus voos, a Virgin Galactic anunciou lugares a 250.000 dólares e espera-se que a empresa, que alega ter pelo menos 600 passagens já reservadas, aumente os preços.

“Fizemos uma série de estudos que estão a revelar que a procura é significativa, ou seja, pelo menos centenas de pessoas por ano com um preço a rondar os 250.000 dólares”, diz Carissa Christensen, cuja pesquisa analisa o futuro do mercado dos voos suborbitais. “Na verdade, há potencial para muito mais do que isto, podendo chegar aos milhares de pessoas por ano, isto se os preços descerem significativamente.”

Não há dúvidas de que os primeiros passageiros destes voos serão predominantemente brancos e ricos – como refere Jennifer Levasseur, os ricos fizeram sempre viagens exóticas e caras, seja para a Antártida, ao fundo abissal do mar ou ao cume do Evereste.

O espaço, no entanto, traz consigo conotações diferentes das dos destinos na Terra – sobretudo se as futuras missões comerciais passarem das viagens para a construção de um futuro permanente entre as estrelas.

“Quem é que pode ir para o espaço, o que significa isto e o que nos diz sobre nós – as sociedades que estão a colocar estas pessoas no espaço?” pergunta Jordan. “Será que eles acreditam realmente que o espaço é para toda a humanidade? Onde é que estão a basear este conceito utópico de voo espacial?”

As respostas para estas questões podem surgir à medida que os voos comerciais suborbitais continuam – mas, por enquanto, a indústria está apenas a descolar. Jordan e outros especialistas dizem que é importante ficar de olho nos manifestos dos passageiros para ver de que forma evoluem e se alguns destes voos iniciais incluem esforços para serem mais inclusivos.

Pode dar-se o caso de estes voos comerciais suborbitais não serem tão atraentes como os empresários esperam o empreendimento desmoronar. Contudo, mesmo que isso aconteça, as visões de uma vida no espaço irão persistir. Persistem sempre. Jordan diz que, para os que têm grandes sonhos, é fundamental reconhecer que a existência no espaço começa aqui na Terra – e que as visões de humanos a flutuar em estações espaciais do futuro ou a desfrutar de um pôr do sol azul em Marte não apagam os problemas da Terra.

“O espaço não é um lugar transformador”, diz Jordan. “É um lugar onde todos os nossos problemas na Terra serão reproduzidos ou amplificados, e precisamos de perceber isso. Não podemos ser ingénuos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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