A doação de doses de reforço das vacinas COVID-19 não é assim tão fácil

Abdicar de uma dose de reforço para esta poder ser doada no estrangeiro pode parecer altruísta, mas os especialistas dizem que existem formas melhores de fazer chegar as vacinas aos mais necessitados.

Publicado 31/08/2021, 11:22
Funcionários descarregam mais de três milhões de doses de vacinas da Sinovac de um camião sob ...

Funcionários descarregam mais de três milhões de doses de vacinas da Sinovac de um camião sob escolta policial em Surabaya, na Indonésia, no dia 4 de janeiro de 2021.

Fotografia de Juni Kriswanto, AFP via Getty Images

Após o governo de Biden ter anunciado que ia oferecer doses de reforço para as pessoas completamente vacinadas a partir do final de setembro, alguns sentiram uma alegria desenfreada por poderem aumentar em breve a sua proteção contra a variante Delta.

Outros, porém, receberam estas notícias com apreensão: os cientistas continuam divididos sobre a necessidade de doses de reforço, sobretudo para os jovens saudáveis. À medida que se erguem vozes a pedir a doação de doses adicionais no mundo inteiro, onde mais de 67% das pessoas ainda não estão vacinadas, alguns americanos interrogam-se se uma vacina de reforço é a coisa certa a fazer quando há tantas pessoas que nem sequer conseguem ter acesso à primeira dose.

“O dilema é estarmos a planear a distribuição de doses de reforço – independentemente da idade – nos EUA para reduzir os casos, enquanto que há pessoas pelo mundo inteiro a morrer e não têm acesso a uma vacina”, diz Ezekiel Emanuel, professor do departamento de ética médica e política de saúde na Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

A agência do medicamento (FDA) norte-americana autorizou doses de reforço para um grupo limitado de pessoas imunocomprometidas no dia 12 de agosto. Até então, mais de um milhão de americanos já tinham recebido uma dose adicional, quer fossem imunocomprometidos ou não. Dias depois, no dia 18 de agosto, a Casa Branca anunciou planos para distribuir doses de reforço a todos os americanos completamente vacinados.

Até agora, só 1.4% das pessoas em países de baixo rendimento receberam uma dose da vacina COVID-19, deixando partes do globo vulneráveis aos efeitos mais graves da doença. Para alguns americanos, poupar a dose de reforço – na esperança de que esta seja doada aos mais necessitados – pode parecer uma coisa nobre.

Mas abdicar de uma dose de reforço não irá necessariamente levar à distribuição de sobras de vacinas COVID-19 pelo mundo inteiro. O processo de doação é travado pela burocracia complicada, preocupações com disputas legais e questões de distribuição nos países que recebem as doses doadas. Para além disso, é pouco provável que o programa responsável pela distribuição de doações de vacinas aceite estas doses.

Eis como funciona a doação de vacinas – e o que podemos realmente fazer para marcar a diferença.

A teia complicada da doação de vacinas COVID-19

O processo de doação de vacinas COVID-19 é dirigido pela COVAX – uma coligação entre a Organização Mundial de Saúde, a UNICEF, duas organizações sem fins lucrativos da fundação Melinda e Bill Gates, a parceria Gavi e a Coligação para as Inovações de Prontidão Epidémica – que negocia as doações e lidera os esforços globais de entrega.

À medida que os países mais ricos se apoderavam das vacinas COVID-19, a COVAX tornou-se crucial para garantir que as nações mais pobres conseguiam pelo menos vacinar os seus cidadãos de maior risco, “sem falar no luxo de vacinarem as populações de baixo risco”, diz Gian Gandhi, coordenador do programa COVAX da UNICEF.

Na melhor das hipóteses, o processo de doação através da COVAX acontece da seguinte forma: os países abastecidos com vacinas antecipam quando irão satisfazer as suas próprias necessidades e comprometem-se com uma data específica para doar um determinado número de doses em excesso. A COVAX recolhe as vacinas recém-saídas da linha de produção e distribui estas doses pelas nações mais necessitadas.

Mas isto nem sempre acontece. De acordo com Thabani Maphosa, diretor de programas da Gavi, “o maior desafio que a COVAX enfrenta com as doações de doses é a previsibilidade. Não é invulgar recebermos um aviso em cima da hora sobre novas doações – e apesar de essas doações serem muito bem-vindas, é muito difícil planear a sua implementação.”

Quando os países oferecem doações em cima da hora, em vez de antecipadamente, as doses podem estar demasiado perto de atingir o seu prazo de validade para serem usadas, diz Gian Gandhi. A COVAX tem uma política de não aceitar vacinas com um prazo de validade inferior a dois meses, em parte “porque os países muitas vezes precisam de tempo para planear e reunir os recursos adicionais de que necessitam para absorver e utilizar as doses”, explica Gian.

Mesmo no melhor dos cenários, há várias barreiras legais, administrativas e logísticas.

Para receber as vacinas, os países devem ter a sua própria autorização regulatória para as usar – da mesma forma que a FDA autoriza o uso da vacina COVID-19 da Moderna nos EUA. E os fabricantes de vacinas exigem acordos de indemnização com os países destinatários e as nações doadoras, para garantir que não são responsabilizados por quaisquer efeitos adversos, ainda que raros, das vacinas.

“Outras questões práticas também podem estar em jogo”, diz Thabani Maphosa, como a alteração dos rótulos das vacinas para o idioma nativo de uma nação e a garantia de disponibilidade de seringas, congeladores e transporte adequados nos países destinatários. “Alinhar todas estas coisas não é uma tarefa fácil”, diz Gian Gandhi.

Os EUA comprometeram-se a doar mais de 600 milhões de doses de vacinas COVID-19. Mas, até ao dia 3 de agosto, só tinham enviado 110 milhões de doses. Até ao início de agosto, a União Europeia doou 7.9 milhões de doses – cerca de 4% dos 200 milhões de doses que se comprometeu a enviar.

“As doações dos países são essenciais para o esforço que tenta abordar as desigualdades globais no acesso às vacinas”, diz Thabani, mas acrescenta que é “crucial que estas promessas sejam transformadas em entregas o mais depressa possível. Precisamos de doses agora, não mais tarde, porque a demanda global continua a superar a oferta.”

Como podemos ajudar

Para mitigar o aumento da variante Delta e ajudar a acabar com a pandemia, alguns cidadãos bem-intencionados podem querer abdicar das suas doses de reforço na esperança de que estas sejam doadas.

Contudo, quando rejeitamos uma dose de reforço, “existe o risco de – apesar de bem-intencionados – fazermos com que essa dose seja desperdiçada e ninguém a use”, diz Gian.

A COVAX dificilmente aceita doses que já foram distribuídas num país, porque tem de garantir a qualidade e a segurança do produto desde o seu fabrico.

As vacinas COVID-19 são produtos que tem uma temperatura controlada. Se as vacinas não forem mantidas à temperatura ideal, a sua qualidade pode ficar comprometida. “Existe o risco de o produto não funcionar tão bem”, diz Gian. “Este risco pode ser infinitamente pequeno, mas é um risco que existe e que nos impede, na maioria das vezes, de aceitar doações de produtos que já saíram dos fabricantes.”

Gian acrescenta que isto não significa que devemos desistir. Nancy Jecker, professora de bioética e humanidades na Escola de Medicina da Universidade de Washington, concorda: “Acho que é da responsabilidade pessoal de cada indivíduo ser um bom cidadão global”, diz Nancy.

Por exemplo, nos EUA, em vez de abdicarem das doses de reforço, os cidadãos podem enviar um email para os seus congressistas, pedindo para o país aumentar os seus esforços de doação. A UNICEF tem um formulário de e-mail que se pode preencher e enviar imediatamente.

Também se podem fazer doações à UNICEF para ajudar na entrega de futuras doses de vacinas.

“Não se trata apenas de equidade global, como já dissemos muitas vezes”, diz Gian. “Se deixarmos as pessoas desprotegidas e permitirmos que o vírus continue a circular e a sofrer mutações, acabamos por alimentar uma profecia onde precisamos cada vez mais de doses de reforço nos países de alto rendimento, porque não estamos a abordar, em parte, a raiz do problema noutras partes do mundo.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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