Cabo Espichel: encontradas pegadas de crocodilomorfos com 129 milhões de anos

Há uma nova descoberta no Cabo Espichel. Depois das pegadas e de elementos esqueléticos de dinossauros e de outros vertebrados do Cretácico Inferior, foram encontradas pegadas de crocodilomorfos.

Publicado 12/08/2021, 11:47
Pegadas de crocodilomorfos descobertas recentemente no Cabo Espichel.

Pegadas de crocodilomorfos descobertas recentemente no Cabo Espichel.

Fotografia de Silvério Figueiredo

O Cabo Espichel (Sesimbra) já estava, desde janeiro de 2021, com foco máximo, após a identificação de 614 pegadas de dinossauros. Agora, após um trabalho de campo no mesmo local, mas noutra camada, surge uma nova descoberta de pegadas de crocodilomorfos – grupo que inclui os crocodilos e os seus ancestrais mais próximos - que data de há cerca de 129 milhões de anos.

Esta descoberta é mais rara do que a de pegadas de dinossauros, dado que existem poucas descobertas em Portugal de vestígios de crocodilos contemporâneos dos dinossauros. As pegadas de crocodilomorfos, descobertas em julho concentram-se em apenas uma camada de calcário.

As pegadas de crocodilomorfos encontradas no Cabo Espichel, remontam ao Cretácico Inferior e são as primeiras a serem identificadas naquela zona e daquele período geológico, em Portugal. Agora os trabalhos de investigação passam por tentar identificar trilhos e medi-los, para detetar algum comportamento que os crocodilomorfos tinham, nomeadamente a direção em que se dirigiam, ou a sua velocidade.

Pegadas indiciam o comportamento do crocodilomorfo

Algumas das marcas encontradas indiciam que, provavelmente, alguns dos crocodilomorfos, que frequentavam aquela zona, que há 129 milhões de anos seria uma laguna, de águas com pouca profundidade, sob um clima tropical, estavam a nadar, “arranhando” o leito de vasa dessa laguna. O objetivo passa por estudar a sua orientação, para depois fazer uma análise e tentar apurar de onde vinham ou para onde iam, além de estudos estratigráficos e sedimentológicos, apurando mais precisamente os ambientes e outras questões que ajudam a caracterizar melhor o sítio.

Reconstituição do crocodilomorfo e dos ambientes em que se encontrava.

Ilustração de Pedro Fonseca

Por cima da camada onde se observaram as pegadas de crocodilomorfos existe uma outra onde se identificaram pegadas de dinossauros, o que significa que a passagem dos dinossauros poderá estar separada por séculos ou milénios da altura em que os crocodilos frequentaram esta zona do cabo Espichel. Mas isto não significa que, nas margens do meio aquático onde os crocodilomorfos viviam, não existissem dinossauros, alguns dos quais até poderão ter sido caçados por estes crocodilomorfos.

Trabalhos de investigação ocorrem desde 1998

Os trabalhos de investigação paleontológica começaram em 1998 e têm sido coordenados pelo Centro Português de Geo-História e Pré-História (associação de investigação e divulgação científica, fundada em 1995) e, recentemente com o apoio financeiro do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra. Esta equipa tem sido alargada nos últimos anos e conta agora com a colaboração de investigadores de instituições como o Instituto Politécnico de Tomar, o Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, o MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente ou o Geopark Naturtejo, colaboradores da Universidade do Rio de Janeiro, especialistas do País Basco e também de França. Desde o ano de 2000, que contam também com a participação de um grupo de jovens do programa Ciência Viva.

A Ciência Viva nasceu por iniciativa de José Mariano Gago, em 1996, Ministro da Ciência e da Tecnologia na época, com intuito de promover a educação e cultura científica. Trata-se de um programa aberto, que se traduz numa organização implantada à escala nacional, com uma rede de 21 Centros de Ciência espalhados por todo o país, envolvendo milhares de investigadores e cidadãos, alunos e docentes, adultos e jovens.

Foi precisamente um dos jovens deste programa que viu, pela primeira vez, as marcas de crocodilomorfo gravadas na rocha, enquanto limpava o campo com os seus colegas. Os orifícios com que se deparou acabaram por ser identificados como correspondentes às garras de um crocodilo pré-histórico.

Um palco de vários achados

Em trabalhos de prospeção nos anos de 2019 e 2020, foram identificadas 614 pegadas de dinossauros, publicadas em janeiro numa revista científica internacional, e que são uma quantidade considerada rara numa área com poucos metros quadrados. O resultado deste trabalho in loco, em conjunto com outros mais antigos, os quais identificaram outros sítios com pegadas de dinossauros, como Lagosteiros ou a Pedra da Mua,  faz do Cabo Espichel um local onde se encontra uma vasta amostra destes registos fósseis.

No terreno, a equipa espera ainda continuar a encontrar pegadas de dinossauros, ossos e dentes destes animais, tal como de antepassados dos atuais crocodilos, de pterossauros e de outros vestígios de fauna do Cretácico Inferior, continuando o trabalho que se tem vindo a fazer.

À frente da investigação encontra-se o paleontólogo Silvério Figueiredo, docente no Instituto Politécnico de Tomar, autor de várias publicações sobre dinossauros e presidente do Centro Português de Geo-História e Pré-História e investigador sénior do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra. A sua equipa multidisciplinar é constituída por vários especialistas, como o Professor Catedrático de Geologia da Universidade de Coimbra Pedro Proença e Cunha, também investigador sénior do MARE, entre outros investigadores portugueses e estrangeiros.

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