Ovo fossilizado de tartaruga gigante pré-histórica revela cria no seu interior

A tartaruga que colocou este ovo podia ter uma carapaça tão longa quanto a altura de uma pessoa e vagueou pela Terra ao lado dos dinossauros.

Publicado 19/08/2021, 11:20
Um ovo fossilizado encontrado na China revelou uma surpresa no seu interior: o embrião de uma ...

Um ovo fossilizado encontrado na China revelou uma surpresa no seu interior: o embrião de uma tartaruga gigante pré-histórica.

Ilustração de Masato Hattori

No verão de 2018, na casa de um agricultor na província chinesa de Henan, os paleontólogos Fenglu Han e Haishui Jiang viram uma caixa com pedaços arredondados de rocha. O agricultor tinha recolhido este tesouro perto da sua casa no condado de Neixiang, uma zona conhecida pelos seus ovos de dinossauro. Uma esfera de pedra em particular chamou a atenção dos cientistas. Mais ou menos do tamanho e formato de uma bola de bilhar, este fóssil era diferente de qualquer ovo de dinossauro que os paleontólogos alguma vez tinham observado.

Fenglu Han e Haishui Jiang, que trabalham na Universidade de Geociências da China, em Wuhan, pensaram inicialmente que o ovo podia pertencer a uma nova espécie de dinossauro. Mas uma análise minuciosa revelou algo ainda mais raro. Encerrados nos confins rochosos do ovo estão os restos mortais de uma tartaruga gigante extinta.

Este ovo fossilizado do período Cretáceo contém no seu interior um embrião raro de tartaruga.

Fotografia de Yuzheng Ke

De acordo com um novo estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B, o fóssil recém-descoberto pertence a um grupo extinto de tartarugas terrestres da família Nanhsiungchelyidae. Este grupo chegou a alcançar tamanhos imponentes e caminhou pela Terra ao lado dos dinossauros durante o Cretáceo, um período entre há 145 e 66 milhões de anos. Segundo as estimativas da equipa, a tartaruga que colocou este ovo fóssil – que está entre os maiores de que há conhecimento – era excecionalmente grande e provavelmente exibia uma carapaça quase tão comprida quanto a altura de uma pessoa.

“Estas tartarugas não eram definitivamente pequenas”, diz Darla Zelenitsky, autora do novo estudo e paleontóloga da Universidade de Calgary em Alberta, no Canadá.

A descoberta de embriões fósseis de qualquer criatura não é comum. Os tecidos e ossos delicados dos animais em desenvolvimento degradam-se rapidamente com o tempo. Os embriões de tartaruga são ainda menos comuns do que os de dinossauro, talvez porque a maioria dos ovos de tartaruga são minúsculos e têm cascas muito finas, diz Darla. São poucos os embriões fósseis de tartarugas descobertos até agora e nenhum está bem preservado o suficiente para os cientistas os colocarem na árvore genealógica das tartarugas.

O embrião fóssil descoberto recentemente ajudou a equipa a identificar outros ovos de tartaruga que pertencem ao mesmo grupo, fornecendo um vislumbre sobre os seus comportamentos antigos de nidificação e adaptações evolutivas.

Apesar de não se poderem tirar muitas conclusões a partir de um só fóssil, a descoberta deste antigo embrião de tartaruga é uma indicação promissora de que há mais fósseis deste género à espera para serem encontrados, diz Tyler Lyson, curador adjunto de paleontologia de vertebrados no Museu da Natureza e Ciência de Denver, que não fez parte da equipa do estudo. “É apenas uma questão de tempo.”

Reconstruir a pequena tartaruga

Quando Fenglu Han e Haishui Jiang viram o ovo fóssil pela primeira vez, um par de ossos finos que saíam de uma fenda num dos lados do ovo era a única indicação do tesouro que podia conter. O agricultor concordou em permitir que os cientistas levassem o ovo para estudar e levou-os até ao local onde tinha encontrado o estranho fóssil. Os investigadores identificaram outros ovos, mas eram fósseis que não tinham suportado bem a passagem dos milénios, diz Fenglu Han por email.

No laboratório os cientistas analisaram o ovo através de microtomografia computadorizada, que usa raios-X para perscrutar o interior rochoso do fóssil. As imagens de microtomografia computadorizada revelaram um emaranhado de ossos desarticulados no interior. Para discernir as imagens, a equipa reconstruiu cada osso em três dimensões e, de seguida, montou virtualmente o minúsculo esqueleto.

No geral, o embrião é muito parecido com os das tartarugas modernas, diz Raul Diaz, biólogo evolucionário de répteis especializado em embriões na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles. Raul refere as costelas achatadas do embrião, que teriam endurecido e espalhado durante o crescimento da tartaruga para formar a estrutura subjacente à sua carapaça protetora. “É quase – na minha mente – indistinguível do que veríamos agora em laboratório”, diz Raul, que não participou no estudo.

Contudo, algumas características principais ajudaram a identificar o grupo específico desta antiga tartaruga. O maxilar superior, por exemplo, tem uma forte semelhança com os das tartarugas da família Nanhsiungchelyidae, diz Darla Zelenitsky, devido à sua forma ligeiramente quadrada e extremidade posterior serrilhada.

Ovos de casca dura

Talvez a característica mais marcante do ovo recém-descoberto seja a sua casca robusta que, com dois milímetros de espessura, difere das cascas finas como papel mais comuns das tartarugas. As tartarugas modernas têm uma variedade de espessuras de casca de ovo, desde as esferas semelhantes a couro das tartarugas marinhas até aos ovos resistentes das tartarugas gigantes das Galápagos. Mas a casca deste ovo é cerca de quatro vezes mais espessa do que a da Geochelone elephantopus, uma das tartarugas gigantes das Galápagos, de acordo com a equipa do estudo.

Não se sabe ao certo qual era o propósito destas cascas de ovo mais resistentes. A espessura pode ser uma adaptação ao clima árido que se acredita ter existido na época, um clima que é inferido através da vida vegetal encontrada na mesma formação rochosa que o ovo. Uma casca espessa teria limitado a quantidade de água que escapava do ovo. Alternativamente, a casca podia ter evitado que os ovos se partissem caso as tartarugas cavassem ninhos muito profundos no subsolo.

Independentemente do propósito da casca mais espessa, Darla diz que não se sabe como é as tartarugas saíam do ovo. As tartarugas recém-nascidas teriam de flexionar e estender rigorosamente os seus membros para tentar eclodir.

Eliminadas com os dinossauros

O facto de as tartarugas Nanhsiungchelyidae terem vivido e nidificado em terra pode ter contribuído para o seu desaparecimento. Este grupo morreu juntamente com todos os dinossauros não-aviários, há cerca de 66 milhões de anos, quando um asteroide colossal colidiu com a Terra. O impacto gerou uma explosão de energia que projetou rocha escaldante nos céus e incendiou vastas extensões de terra. “Tudo o que estava à superfície foi assado”, diz Tyler Lyson.

Mas a maioria das tartarugas sobreviveu à extinção, diz Tyler. Isto inclui tartarugas aquáticas de rios que eram parentes das Nanhsiungchelyidae e cujo estilo de vida subaquático pode tê-las protegido da explosão provocada pelo asteroide. A dieta das tartarugas também pode ter desempenhado um papel na sua destruição, já que as Nanhsiungchelyidae eram estritamente herbívoras e uma dieta tão limitada teria dificultado a alimentação destes animais num mundo pós-impacto.

Não há registo de cascas de ovos de tartaruga como as das Nanhsiungchelyidae após o impacto e os investigadores sugerem que as cascas espessas podiam não ser adequadas para as mudanças dramáticas no ambiente. Mas são necessárias mais informações para descobrir exatamente porque é que as cascas mais grossas desapareceram.

Esta nova análise é um lembrete importante sobre o longo caminho que a paleontologia já percorreu, diz Emma Schachner, bióloga evolucionista da Universidade Estadual do Louisiana, em Nova Orleães, que não integrou a equipa do estudo. Antigamente, os cientistas não conseguiam estudar o interior de fósseis sem os destruir, mas agora existe um mundo completo de reconstrução digital. “Na minha opinião, o modelo tridimensional é definitivamente o que o torna especial”, diz Emma sobre o novo estudo.

Este trabalho, porém, também revela que ainda há muito para aprender sobre as tartarugas da antiguidade. Há muito menos investigadores a dedicar o seu tempo ao estudo de tartarugas antigas do que ao estudo dos carismáticos dinossauros, diz Tyler. Mas as tartarugas oferecem muitos mistérios por desvendar. “As tartarugas têm um plano corporal completamente diferente do de qualquer outro animal.”

Tyler espera que outras descobertas, como a deste embrião fossilizado de tartaruga, ajudem a inspirar uma nova geração a trabalhar para desvendar como é que estas criaturas curiosas surgiram. O que precisamos, diz Tyler, é de mais investigadores de qualidade a trabalhar em fósseis de tartarugas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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