Algumas infeções por COVID-19 podem estar livres de sintomas, mas não livres de danos

Os cientistas estão a estudar as potenciais consequências dos casos assintomáticos de COVID-19 e a quantidade de pessoas que podem vir a sofrer problemas de saúde a longo prazo.

Publicado 9/09/2021, 13:13
Clínica de COVID longa de Stanford, Califórnia

O Dr. Hector Bonilla examina Rosie Flores na clínica de COVID longa de Stanford em Palo Alto, na Califórnia, no dia 21 de junho de 2021.

Fotografia de Stanford Medicine

Eric Topol ficou preocupado quando viu pela primeira vez as imagens dos pulmões das pessoas infetadas com COVID-19 a bordo do Diamond Princess, um navio de cruzeiro que foi colocado em quarentena na costa do Japão nas primeiras semanas da pandemia.

Um estudo feito com 104 passageiros descobriu que 76 tinham COVID, mas eram casos assintomáticos. Dentro deste grupo, as tomografias computadorizadas revelaram que 54% tinham anormalidades pulmonares – manchas cinzentas irregulares conhecidas por opacidades em vidro despolido que sinalizam a acumulação de fluido nos pulmões.

Estas tomografias eram “perturbadoras”, escreveu Eric Topol, fundador e diretor do Instituto de Pesquisa Translacional Scripps, juntamente com o coautor Daniel Oran numa revisão narrativa sobre doenças assintomáticas publicada na Annals of Internal Medicine. “Se for confirmada, esta descoberta sugere que a ausência de sintomas não significa necessariamente a ausência de danos.”

Os Estados Unidos já registaram quase 40 milhões de infeções por COVID-19 desde o início da pandemia. Um estudo recente estima que uns impressionantes 35% de todas as infeções por COVID-19 são assintomáticas. “É por esta razão que é importante perceber se isto é uma vulnerabilidade.”

Mas Eric diz que no último ano e meio não viu outros estudos adicionais a investigar anormalidades pulmonares nas pessoas assintomáticas, ou seja, desde que os casos do Diamond Princess foram documentados pela primeira vez. “É como se tivéssemos desistido.”

Eric argumenta que a doença assintomática não recebeu a atenção que devia no meio de tanta agitação, quando se tentava tratar doenças graves e desenvolver vacinas para as prevenir. Assim, grande parte das potenciais consequências das infeções assintomáticas permanecem desconhecidas para os cientistas – bem como a quantidade de pessoas que estão a sofrer com essas consequências.

Um dos obstáculos que os cientistas receiam, porque pode impedi-los de compreender verdadeiramente a dimensão do problema, reside no facto de ser incrivelmente difícil identificar o número de pessoas que tiveram infeções assintomáticas. “Provavelmente existe um grupo de pessoas que tiveram casos assintomáticos, mas que nunca foram testadas, portanto não sabem que tiveram COVID”, diz Ann Parker, professora assistente de medicina na Universidade Johns Hopkins e especialista em cuidados de recuperação pós-COVID.

Inflamação do coração e coágulos sanguíneos

Tal como as tomografias revelaram danos nos pulmões dos indivíduos assintomáticos, os exames ao tórax também mostraram anormalidades no coração e no sangue de pessoas com infeções assintomáticas – incluindo coágulos sanguíneos e inflamação.

A revista científica Thrombosis Journal e outras publicações descreveram vários casos de coágulos sanguíneos nos rins, pulmões e cérebros de pessoas que não apresentaram quaisquer sintomas. Quando estes aglomerados semelhantes a gel ficam presos numa veia, impedem que um órgão receba o sangue de que necessita para funcionar – o que pode causar convulsões, derrames, ataques cardíacos e morte.

Estes relatórios têm sido relativamente raros – e não se sabe se alguns pacientes podem ter tido outros problemas subjacentes que levaram ao aparecimento de coágulos. Mas os investigadores que relataram um caso de trombose da veia renal escreveram: “Isto sugere que o trombo inexplicado em pacientes assintomáticos pode ser um resultado direto da infeção por COVID-19 e serve como um alerta para os médicos de emergência tratarem os eventos trombóticos inexplicáveis como evidências de COVID-19.”

Os estudos também sugerem que as infeções assintomáticas podem provocar danos no coração. Em maio, os exames de ressonância magnética cardíaca de 1.600 atletas universitários com testes positivos para a COVID-19 revelaram evidências de miocardite, ou inflamação do músculo cardíaco, em 37 indivíduos – 28 dos quais não tinham quaisquer sintomas, diz Saurabh Rajpal, médico especialista em doenças cardiovasculares da Universidade Estadual de Ohio e autor principal do estudo.

A miocardite pode provocar sintomas como dores no peito, palpitações e desmaios, mas por vezes não produz qualquer sintoma. Saurabh diz que, embora os atletas no estudo fossem assintomáticos, “as alterações nas suas ressonâncias magnéticas eram semelhantes ou quase idênticas às verificadas nos casos de miocardite clínica ou sintomática”.

Apesar de os resultados destas ressonâncias serem preocupantes, Saurabh diz que os cientistas ainda não sabem o que significam para a saúde dos pacientes assintomáticos. É possível que a miocardite passe com o tempo – talvez até antes de os pacientes saberem que a têm – ou pode evoluir para um problema de saúde mais sério a longo prazo. São necessários estudos de longo prazo para o descobrir.

A inflamação cardíaca dos atletas também pode ser alheia à infeção por COVID-19. Os cientistas precisavam de comparar as ressonâncias magnéticas com um conjunto feito pouco tempo antes de um indivíduo ficar infetado com COVID-19. “Portanto, ainda estamos a trabalhar nisso”, diz Saurabh.

COVID longa

Para além disso, as pessoas com infeções assintomáticas correm o risco de se tornarem pacientes de COVID longa, uma síndrome cuja definição tem sido difícil de determinar, pois pode incluir uma combinação de diversos sintomas e muitas vezes sobrepostos, como dores no corpo, dificuldades respiratórias, fadiga, névoa cerebral, tonturas, perturbações do sono e hipertensão.

“Existe o mito de que isto só acontece nos casos mais graves de COVID, mas é óbvio que acontece muito mais frequentemente nos casos ligeiros”, diz Eric Topol.

Linda Geng, codiretora da Clínica de Síndrome COVID-19 Pós-Aguda do Hospital de Cuidados de Saúde de Stanford, concorda com a afirmação de Eric. “Não há um grande fator de previsibilidade sobre a gravidade da doença na fase aguda ou se podemos ficar com COVID longa”, diz Linda. “A COVID longa pode ser bastante debilitante e desconhecemos a extensão dos danos que provoca.”

Os resultados dos estudos que tentam avaliar a quantidade de infeções assintomáticas responsáveis por sintomas de COVID longa são variados. A FAIR Health, uma organização sem fins lucrativos da área da saúde, descobriu que cerca de um quinto dos pacientes assintomáticos passaram a ter COVID longa. Outro estudo, que ainda está em revisão por pares, usou dados dos registos eletrónicos de saúde da Universidade da Califórnia e estima que este valor possa chegar aos 32%.

Melissa Pinto, coautora deste último estudo e professora-adjunta na Escola de Enfermagem Sue & Bill Gross da Universidade da Califórnia, em Irvine, diz que os investigadores examinaram registos de saúde de pessoas com testes positivos para a COVID-19 que não relataram sintomas no momento da infeção – pessoas que depois revelaram sintomas associados à COVID longa. Para garantir que estavam a identificar os casos de COVID longa, os investigadores rastrearam todas as pessoas com doenças preexistentes que pudessem explicar os sintomas posteriores.

“Isto não vem de outra doença crónica”, diz Melissa. “Estes sintomas são novos.”

Mas ainda não se sabe exatamente até que ponto estas estimativas estão corretas. Melissa diz que algumas das pessoas com COVID longa receiam procurar tratamento porque os seus sintomas já foram descartados por outros médicos que não estavam familiarizados com esta síndrome. É por isso que Melissa acredita que as taxas de infeções assintomáticas entre os casos de COVID longa estão subestimadas.

Curiosamente, Linda Geng e Ann Parker dizem que, apesar de terem visto muitos pacientes com sintomas ligeiros que não foram inicialmente reconhecidos, não viram muitos pacientes que eram verdadeiramente assintomáticos.

“Vimos muitos pacientes que pensavam que não tinham sintomas e que testaram positivo”, diz Linda. “Como eles tinham sintomas persistentes e inexplicáveis, semelhante ao que se presumia ser COVID longa, perceberam que provavelmente não se tratavam de alergias.”

Contudo, Linda acredita que a maioria das pessoas realmente assintomáticas provavelmente não fizeram o teste e, portanto, não pensam em consultar um especialista em cuidados pós-COVID-19 se começarem a sentir sintomas inexplicáveis como névoa cerebral e tonturas.

Ann Parker diz que, em última análise, os médicos ainda estão a tentar compreender os vastos sintomas observados nas pessoas com COVID longa. “Quando um paciente nos consulta, fazemos uma avaliação muito detalhada porque ainda não sabemos exatamente o que podemos atribuir à COVID e o que pode ser uma síndrome subjacente já pré-existente. A última coisa que eu quero que aconteça é dizer a um paciente que determinados sintomas são resultado da COVID, deixando escapar outra doença que poderíamos ter tratado”, diz Ann.

Inflamação misteriosa nas crianças

Os médicos também observaram manifestações clínicas preocupantes em casos assintomáticos de COVID-19 em crianças. No início da pandemia, surgiram relatos de uma síndrome inflamatória rara e misteriosa semelhante à doença de Kawasaki, que normalmente se instala algumas semanas após a infeção inicial.

“Seis semanas depois, estas pessoas, sobretudo crianças, desenvolvem inflamações por todo o corpo”, diz Saurabh Rajpal.

Esta condição – agora designada síndrome inflamatória multissistémica em crianças, ou MIS-C – geralmente provoca febre, erupções cutâneas, dores abdominais, vómitos e diarreia. Os efeitos podem ser nocivos para vários órgãos, podendo também impossibilitar o bombeamento de sangue do coração para os pulmões. A sua prevalência parece ser mais acentuada nas crianças menores de 14 anos, embora esta síndrome também tenha sido diagnosticada em adultos.

A MIS-C é incrivelmente rara. Kanwal Farooqi, professora assistente de pediatria na Faculdade de Médicos e Cirurgiões Vagelos da Universidade de Colúmbia, diz que os pacientes pediátricos com COVID-19 que apresentam algum tipo de doença crítica são menos de 1% – e a MIS-C é apenas uma dessas doenças. Contudo, as infeções assintomáticas desempenham um papel nesta síndrome: um estudo feito recentemente com 1.075 crianças diagnosticadas com MIS-C revelou que 75% eram originalmente casos assintomáticos.

Mas há motivos para crer que esta síndrome não provoca efeitos a longo prazo nos pacientes, quer sejam sintomáticos ou não. Kanwal Farooqi é a autora principal de um estudo feito recentemente com 45 pacientes pediátricos que mostra que os seus problemas cardíacos – que variavam de válvulas com fugas a artérias coronárias dilatadas – foram resolvidos em seis meses.

“Isto é tranquilizador”, diz Kanwal. “Ainda assim, recomendo exames de ressonância magnética de acompanhamento, mesmo para os pacientes cujos problemas cardíacos parecem ter passado, para garantir que não existem danos a longo prazo, como cicatrizes. É razoável termos cuidado com as infeções assintomáticas e incentivo os pais a levarem os filhos ao médico caso estes apresentem algum sintoma persistente, mesmo que a infeção original tenha sido ligeira ou assintomática.”

“O importante a reter é que, neste momento, ainda não sabemos dizer se a infeção vai ter consequências”, diz Kanwal.

Solicitações para mais estudos

Os cientistas alertam que ainda há muitas coisas que não sabemos sobre os potenciais danos das infeções assintomáticas. Há muitas solicitações para estudos mais rigorosos, para determinar a fundo os efeitos a longo prazo da doença assintomática, perceber porque é que esses efeitos acontecem e uma forma de os tratar.

Saurabh Rajpal refere que o seu estudo só foi possível porque a conferência atlética Big 10 exige que os atletas sejam testados frequentemente. “Os testes regulares são essenciais para descobrir os casos assintomáticos", o que significa que a maioria dos dados sobre doenças assintomáticas provavelmente virá de profissionais de saúde, atletas e de outros locais de trabalho com protocolos rígidos de testagem.

Também não se sabe o que pode estar a provocar estes efeitos secundários persistentes. Os cientistas levantam a hipótese de que pode ser uma resposta inflamatória do sistema imunitário do nosso corpo que persiste até muito depois de uma infeção ter sido eliminada. Outros investigadores sugerem que pode haver vestígios remanescentes do vírus no corpo que continuam a desencadear uma reação imunitária meses depois do pico de infeção por COVID-19.

“Tudo isto é território desconhecido, não está comprovado, são apenas várias teorias”, diz Eric Topol.

No entanto, mesmo que as infeções assintomáticas não estejam associadas a elevadas taxas de hospitalização e morte, Melissa Pinto e outros cientistas dizem que é importante ter em mente que os sintomas de COVID longa podem ser debilitantes para a qualidade de vida de um paciente.

“Mesmo que as pessoas sobrevivam, não queremos que tenham uma doença crónica para o resto da vida”, diz Melissa. “Não sabemos o que isto faz ao corpo, portanto é algo em que não devemos arriscar.”

Conclusão

Com tantas incógnitas sobre os efeitos a longo prazo nos casos assintomáticos de COVID-19, os cientistas insistem que é melhor ter cautela.

“O impacto total pode demorar anos a emergir”, diz Saurabh Rajpal. Embora as probabilidades de um indivíduo com uma infeção assintomática ter um resultado muito grave serem poucas, Saurabh sublinha que a elevada taxa continuada de infeções significa que mais pessoas irão sofrer.

“As próprias doenças raras podem afetar muitas pessoas. Do ponto de vista de saúde pública, se conseguirmos reduzir o número de pessoas que contraem esta infeção, reduzimos o número de pessoas que apresentam resultados mais graves.”

Ann Parker concorda, acrescentando que é particularmente importante prevenir as infeções agora, já que a variante Delta, que é mais transmissível, leva ao aumento de casos e hospitalizações por todo o país.

“Fizemos avanços incríveis em termos de desenvolver rapidamente vacinas eficazes e seguras”, diz Ann. Mas tanto Ann como outros cientistas permanecem incertos sobre os efeitos que os casos assintomáticos de COVID-19 têm saúde, “mas sabemos que as vacinas são seguras, eficazes e estão disponíveis”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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