Como a COVID-19 pode danificar os cinco sentidos

O vírus que provoca a COVID-19 não afeta apenas o olfato e o paladar, afeta todas as formas pelas quais os humanos percebem o mundo. Para algumas pessoas, as perdas podem ser permanentes.

Publicado 30/09/2021, 12:22
Uma mulher com uma máscara de proteção cheira uma rosa nas ruas de Paris.

Uma mulher com uma máscara de proteção cheira uma rosa nas ruas de Paris.

Fotografia de Myriam Tirler, Hans Lucas via Redux

Considerando o quão doente estava, Michael Goldsmith parecia ter tido sorte, porque sobreviveu. Depois de adoecer gravemente com COVID-19 em março de 2020, Michael passou 22 dias ligado a um ventilador numa unidade de cuidados intensivos. Felizmente, a condição de Michael melhorou e ele foi transferido para um nível intermédio de cuidados no hospital enquanto recuperava. Foi nesse momento que começou a perceber que tinha perdido a maior parte da audição no ouvido esquerdo.

“Eu só conseguia ouvir sons muito altos, sons que pareciam a professora do Charlie Brown a falar”, diz Michael, agora com 35 anos, referindo-se aos ruídos sem sentido que a professora de Charlie Brown fazia nos famosos desenhos animados.

Michael também ouvia um som de estática nesse ouvido que acabou por ser acufeno, ou zumbido. Depois de recuperar completamente da infeção e regressar para casa em Bergenfield, Nova Jersey, este analista de segurança de tecnologias de informação e pai de dois filhos consultou vários médicos para tentar aliviar os seus problemas de audição. Michael tentou vários medicamentos diferentes e ainda assim não conseguia melhorar.

É fácil considerarmos os nossos sentidos como um dado adquirido – até que surge um problema. Este problema é algo que muitas pessoas que sofreram de COVID-19 descobriram quando perderam inesperadamente o olfato e o paladar. Mais recentemente, porém, ficou aparente que uma infeção por COVID-19 também pode afetar a visão, a audição e o tato.

A curto e longo prazo, este vírus pode afetar todas as formas pelas quais percebemos e interagimos com o mundo.

“Apesar de não representar um perigo de vida, é alarmante perder qualquer um destes sentidos, sobretudo tão repentinamente como acontece no contexto desta infeção”, diz Jennifer Frontera, professora de neurologia na Faculdade de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque.

Problemas de audição

Tal como Michael Goldsmith, muitas das pessoas que recuperam da COVID-19 continuam a apresentar algum tipo de perda auditiva. Na edição de março da revista International Journal of Audiology, os investigadores fizeram a revisão de estudos de caso publicados e de outros relatórios sobre os sintomas da COVID-19, estimando que a perda auditiva ocorreu em cerca de 8% dos pacientes que tiveram COVID, enquanto que cerca de 15% ficaram com zumbidos.

Estes mecanismos ainda não são completamente compreendidos, mas os especialistas suspeitam que a doença pode afetar a trompa de Eustáquio, que liga o ouvido médio à garganta. “Com qualquer infeção viral, podemos ter disfunção da tuba auditiva, o que pode levar à acumulação de fluido no ouvido médio – isto atua como um amortecedor mecânico no tímpano”, explica Elias Michaelides, professor adjunto de otorrinolaringologia no Centro Médico da Universidade Rush em Chicago.

Na maioria dos casos, quando alguém recupera da doença, a trompa de Eustáquio drena e a audição regressa ao normal, embora possa demorar algumas semanas, diz Elias. Entretanto, a administração de um descongestionante oral e de um spray nasal à base de esteroides pode ajudar a acelerar a drenagem.

Mas se o vírus danificar os neurónios sensoriais no ouvido interno ou na cóclea, podemos estar perante um caso de perda auditiva súbita e permanente. Ainda não se sabe ao certo como é que acontecem estes danos no nervo, embora possa ter que ver com a capacidade da COVID-19 desencadear uma cascata de efeitos inflamatórios e danos nos vasos sanguíneos.

Como a audição de Michael Goldsmith não melhorou no seu ouvido esquerdo depois de ele ter recuperado completamente da doença e de ter tentado vários medicamentos, Michael falou com J. Thomas Roland Jr., chefe do departamento de otorrinolaringologia do Hospital Langone da Universidade de Nova Iorque. Thomas Roland disse que Michael era um bom candidato para um implante coclear, um pequeno dispositivo eletrónico que consegue estimular diretamente o nervo auditivo e gerar sinais que o cérebro regista como sons.

“O ouvido interno é um órgão muito delicado e muito suscetível a problemas microvasculares e inflamação, pelo que não estou surpreendido que as pessoas tenham perdas auditivas ou zumbidos relacionados com a COVID”, diz Thomas.

Em setembro de 2020, Michael fez um implante coclear que foi colocado cirurgicamente no seu ouvido esquerdo. “Faz uma grande diferença”, diz Michael. “Agora consigo reconhecer 80% das palavras isoladas, e consigo reconhecer melhor frases completas no meu ouvido esquerdo.” E quando o dispositivo está ligado, o zumbido desaparece completamente. “Eu preferia não precisar disto”, diz Michael, “mas estou feliz por tê-lo”.

Visão turva

Outras pessoas que tiveram COVID-19 relataram problemas de visão. Um estudo publicado no ano passado na revista BMJ Open Ophthalmology descobriu que a sensibilidade à luz, os olhos inflamados e a visão turva estão entre os distúrbios oculares mais comuns sentidos pelos pacientes. E num estudo que envolveu 400 pacientes de COVID-19 que necessitaram de hospitalização, os investigadores descobriram que 10% dos pacientes tinham perturbações oculares, incluindo conjuntivite, alterações na visão e irritação ocular.

“Existe definitivamente uma carga viral nos olhos que provoca sintomas, mas isso não significa necessariamente que provoque doenças oculares a longo prazo”, diz  Shahzad I. Mian, coautor do estudo e professor de oftalmologia e ciências visuais na Faculdade de Medicina da Universidade do Michigan.

Ainda assim, alguns médicos estão a descobrir que o vírus SARS-CoV-2 pode aumentar o risco de coágulos sanguíneos por todo o corpo, incluindo nos vasos sanguíneos da retina, algo que pode provocar visão nublada ou algum grau de perda visual, explica Julia A. Haller, oftalmologista-chefe do Hospital Wills Eye em Filadélfia.

Se uma pessoa sentir qualquer tipo de alteração na visão relacionada com a COVID-19, é importante consultar um oftalmologista o mais depressa possível, dizem os especialistas. “Algumas formas de perda de visão, dependendo dos danos, podem ser tratadas com medicação”, diz Julia.

Formigueiro e dormência

O tato de uma pessoa também pode ser afetado por uma infeção por COVID-19, uma vez que já ficou demonstrado que a doença provoca sintomas neurológicos persistentes.

Num estudo publicado em maio de 2021, os investigadores avaliaram 100 pessoas que não necessitaram de hospitalização devido à COVID-19, mas que apresentaram sintomas persistentes. Os cientistas descobriram que 60% dos pacientes tinham dormência e sensação de formigueiro passados seis a nove meses após o início da doença. Por vezes, estes sintomas alastram-se pelo corpo inteiro; noutros casos, os problemas são localizados nas mãos e nos pés.

Os mecanismos exatos responsáveis por estes sintomas persistentes ainda não são bem compreendidos, mas provavelmente estão relacionados com a inflamação e  infeção local do vírus nos nervos, explica Igor Koralnik, professor de neurologia da Faculdade de Medicina Northwestern Feinberg e chefe da divisão de doenças neuroinfeciosas do Hospital Memorial Northwestern em Chicago.

“Na maioria dos casos, [a dormência e o formigueiro] melhoram com o tempo”, diz Igor. “Cada pessoa tem o seu próprio ritmo.” E, em alguns casos, o formigueiro e outros sintomas de neuropatia podem ser tratados com medicamentos como a gabapentina, um fármaco usado na prevenção de convulsões e para aliviar as dores nos nervos.

Perda de olfato e paladar

Talvez o efeito mais reconhecível da COVID-19 sobre os sentidos seja a perda do olfato e do paladar. Elizabeth DeFranco, representante de vendas médicas em Cleveland, no Ohio, sentiu estas alterações sensoriais pouco depois de contrair uma infeção ligeira de COVID-19 em junho de 2020.

“Eu comia batatas fritas com sal e vinagre e não sentia o paladar de nada”, recorda Elizabeth, de 58 anos. Depois, Elizabeth percebeu que também não tinha olfato. Estas perdas persistem até hoje, embora de vez em quando Elizabeth sinta um breve aroma da relva acabada de cortar.

A perda de olfato induzida por vírus já existia antes de alguém ter sequer ouvido falar da COVID-19, mas a percentagem de pessoas que têm disfunção ou perda de olfato é muito maior com este vírus do que com outros tipos de infeções. Uma revisão dos estudos publicados em 2020 descobriu que entre 8.000 indivíduos com casos confirmados de COVID-19, 41% tiveram problemas com o olfato e 38% com o paladar. Quando as pessoas que contraem COVID-19 perdem o olfato, uma condição chamada anosmia, perdem-no em toda a sua extensão, não apenas com um tipo de cheiro.

De um modo geral, existem dois tipos principais de perda de olfato. A perda condutiva de olfato pode acontecer quando a congestão ou obstrução nasal impede a passagem das moléculas de odor para a cavidade nasal. A perda do olfato neurossensorial envolve danos ou disfunção nos neurónios olfatórios, que é o que parece estar a acontecer com a COVID-19.

“Com a COVID-19, a maioria das pessoas não tem muitos sintomas nasais e, ainda assim, a perda do olfato pode ser bastante severa”, diz Justin Turner, professor adjunto de otorrinolaringologia-cirurgia no Centro Médico da Universidade Vanderbilt e diretor do Centro de Olfato e Paladar Vanderbilt. “Acreditamos que isto se deve aos danos nas células que vivem no nariz e que são particularmente suscetíveis à infeção pelo vírus.”

À medida que as pessoas recuperam da COVID-19, as células em regeneração podem entrar em ação e criar novos neurónios funcionais, explica Justin. Isto permite que a maioria das pessoas recupere o olfato entre seis a oito semanas após a infeção – mas nem todas as pessoas recuperam. Neste momento, os médicos podem prescrever esteroides tópicos ou sistémicos e, por vezes, condicionar o olfato, algo que envolve a exposição repetida a óleos essenciais que têm aromas diferentes. É o equivalente olfativo da fisioterapia.

“O que estamos a fazer é expor o sistema olfativo a estes odorantes para ajudar o cérebro a formar novas ligações”, explica Justin. “Assim que há danos [nos neurónios], dependemos da capacidade regenerativa do sistema olfativo para ajudar as pessoas a recuperar o olfato.”

A perda de paladar geralmente acompanha a perda de olfato, diz Michael Benninger, professor e diretor do departamento de otorrinolaringologia-cirurgia da Faculdade de Medicina Clinic Lerner de Cleveland.

“Não estamos a ver casos onde as pessoas perderam realmente o paladar [com uma infeção por COVID-19]. Quando as pessoas perdem o sentido do olfato, o seu paladar também diminui” – ou seja, perdem a capacidade de distinguir entre sabores diferentes. “Se o sentido do olfato regressar, o paladar também regressa”, diz Michael Benninger.

Desde que recuperou da COVID-19, Elizabeth DeFranco tentou várias intervenções – incluindo medicação à base de esteroides, antibióticos, crioterapia, terapia craniossacral, suplementos, remédios homeopáticos e treino do olfato. Nada ajudou. Mas Elizabeth encontrou formas de contornar estas limitações para se proteger e instalou detetores de fumo adicionais em casa porque não conseguia sentir o cheiro do fumo. Elizabeth também descarta toda a comida que atingiu o prazo de validade e muitas vezes pede a um vizinho para cheirar a comida que tem no frigorífico para se certificar de que não está estragada.

A pior parte: “É muito deprimente pensar que esta anosmia pode durar para sempre. Não tenho prazer em comer”, diz Elizabeth. “Posso nunca vir a apreciar novamente o sabor do vinho, do chocolate, o cheiro de um churrasco ou dos bolos no forno, ou o sal no ar quando estou no oceano. Ninguém consegue realmente compreender isto a não ser que também passe pelo mesmo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados