Ricardo Rocha: “A diversidade racial e étnica na ciência Portuguesa/Europeia não deve continuar a ser um tema tabu”

Em conversa com a National Geographic, o biólogo falou sobre o seu trabalho na área da conservação e ecologia e, também, sobre a falta de diversidade racial e étnica na ciência.

Publicado 20/09/2021, 10:19
Ricardo Rocha, durante trabalho de campo na Amazónia.

Ricardo Rocha, durante trabalho de campo na Amazónia.

Fotografia de Madalena Boto

Ricardo Rocha, explorador da National Geographic, deu os primeiros passos da sua carreira como biólogo da conservação na ilha da Madeira, de onde é natural. A partir daí rumou ao Brasil, Madagáscar, China, Quénia, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Finlândia.

O seu trabalho de investigação foca-se na avaliação do impacto da agricultura e da fragmentação de habitat nas comunidades que habitam as florestas tropicais, bem como na monitorização de espécies que persistem em ambientes humanizados. O enorme entusiasmo com que fala sobre a biodiversidade do nosso planeta é contagiante.

Em 2020 foi distinguido com o European Early Career Conservation Award, atribuído pela Society for Conservation Biology em resultado do seu contributo em prol da conservação da natureza e do incentivo a uma comunidade científica mais diversa. Atualmente, é investigador de pós-doutoramento no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO), onde estuda ecologia e conservação da natureza em ecossistemas tropicais e na Macaronésia.

A sua dedicação à promoção da diversidade e inclusão na ciência levam-no no dia 1 de outubro a um evento sobre diversidade nas ciências da vida e da saúde, onde será um dos oradores em palco. O evento é organizado em colaboração entre o i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, o CIBIO-InBIO e a Universidade do Porto, e mais informação sobre o mesmo está disponível no respetivo site.

Esquerda: Superior:

Ricardo Rocha enquanto desenvolvia trabalho de campo no Quénia, em 2016.

Direita: Fundo:

A espécie Calumma oshaughnessyi fotografada pelo biólogo durante o seu trabalho em Madagáscar.

Fotografia de Adrià López-Baucells(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Ricardo Rocha(Direita)(Fundo)

O que o entusiasma no seu trabalho?
A oportunidade de conhecer como funcionam os ecossistemas e contribuir para a conservação da natureza.
Os efeitos da ação humana nas comunidades de animais e plantas que compõem os diversos ecossistemas naturais do planeta são cada vez mais notórios e grande parte do meu trabalho está relacionado com a quantificação da resposta dos ecossistemas às pressões antropogénicas e à avaliação das melhores formas de reverter impactos negativos e maximizar a forma como a natureza contribui para o bem-estar humano. Dito isto, um dos pontos mais positivos do meu trabalho é a oportunidade de visitar alguns dos locais com maior biodiversidade do planeta e de colaborar com inúmeras pessoas que partilham a minha paixão pela natureza e o desejo por uma sociedade mais sustentável, diversa e justa. 

Como é que a diversidade étnica e racial em Portugal se reflete na ciência?
Essa é uma pergunta que ainda carece de resposta. A minha opinião é que pelo menos na minha área científica – ecologia e biologia da conservação - não se reflete. Portugal, fruto das suas relações históricas com África, América do Sul e Ásia, tem uma das populações mais diversas (do ponto de vista racial e étnico) a nível europeu. No entanto, contam-se pelos dedos de uma mão os cientistas não brancos a trabalhar em Portugal. É inegável que a diversidade racial e étnica que vemos nas ruas das nossas principais cidades não se reflete nos corredores nas nossas faculdades, e urge perceber porquê e quais os impactos que isso tem, não apenas na sociedade em si, mas também no tipo de ciência que é feita, e na qualidade da mesma. Embora ainda haja muito que fazer no que toca à diversidade de género na ciência, acho que está na hora de aplicarmos alguns dos ensinamentos das políticas de fomento à diversidade de género a outras dimensões da diversidade humana. A diversidade racial e étnica na ciência Portuguesa/Europeia (ou a falta dela) não deve continuar a ser um tema tabu.

Durante o doutoramento, Ricardo Rocha estudou o efeito da fragmentação da floresta tropical sobre a dinâmica espácio-temporal de morcegos amazónicos.

Fotografia de Madalena Boto

A pandemia de SARS-CoV-2 veio exacerbar o vínculo entre a saúde das espécies selvagens e a saúde humana. Na sua opinião, que ensinamentos trouxe a pandemia sobre o estado do mundo natural?
A pandemia seguramente veio enfatizar o quanto a nossa espécie está interligada às demais. O facto do SARS-CoV-2 ter conseguido saltar de animais selvagens para a nossa espécie e espalhar-se por todo o mundo de forma tão rápida e impactante mostra bem o quanto a saúde humana, a saúde dos animais – tanto domésticos como selvagens – e a saúde dos ecossistemas está interligada.
No entanto, apesar do impacto do COVID-19, importa enfatizar que esta é apenas uma de muitas doenças emergentes associadas à ação do homem nos ecossistemas. A frequência de surtos de doenças infecciosas de origem animal tem vindo a aumentar, e há um consenso generalizado que esse aumento está relacionado com um combinar de alterações ambientais induzidas pelos humanos e por um aumento de comportamentos de risco por parte da nossa espécie. Um dos estudos mais famosos, publicado em 2008, analisou 335 novas doenças detetadas entre 1960 e 2004, e identificou que 60% destas eram de origem animal e que a cada década que passava, a frequência de novas doenças aumentava. Entre os fatores responsáveis por este aumento destacam-se a destruição das florestas tropicais e a expansão da agricultura e pecuária intensivas. 

Que expectativas tem para a presidência portuguesa da União Europeia no âmbito da conservação?
Durante a presidência portuguesa da União Europeia tivemos o anúncio do Pacto Ecológico Europeu que mostra um enorme compromisso da União com políticas de conservação da natureza. Uma das coisas que o Pacto Ecológico Europeu enfatiza é o papel da biodiversidade para a economia e para o bem-estar humano. Isso mesmo foi enfatizado no último Fórum Económico Mundial em Davos, onde a perda de biodiversidade foi identificada como um dos 10 maiores riscos à economia mundial. Com o Pacto Ecológico Europeu a União Europeia anunciou um leque de financiamento bastante considerável para políticas de conservação da natureza e em particular para ações de restauro de ecossistemas que revertam a perda de biodiversidade e maximizem potenciais serviços de ecossistema. Ocupando Portugal a presidência da União quando tão importantes compromissos foram assumidos, espero que o nosso país consiga estar na linha da frente da conservação da natureza e da transição para uma sociedade mais sustentável.  

Esquerda: Superior:

Ricardo Rocha durante a captura de morcegos para trabalho de investigação em Taita Hills (Quénia).

Direita: Fundo:

O biólogo com um morcego capturado no Parque Natural de Sibiloi, no norte do Quénia.

Fotografia de Adrià López-Baucells

Tem boas notícias sobre o seu recente trabalho de campo na ilha de Porto Santo...
Sim! O meu principal projeto atual visa tentar conhecer melhor os morcegos da Madeira e do Porto Santo e avaliar o seu contributo para o controlo de pragas agrícolas e mosquitos vetores de doenças humanas. Sabemos muito pouco sobre a ecologia e história natural deste grupo na Macaronésia e, na Ilha do Porto Santo, as últimas indicações levavam a crer que o morcego da Madeira (Pipistrellus maderensis) – que se pensava ser a única espécie existente na ilha – se encontrava localmente extinta. No passado mês de julho, e com financiamento da National Geographic, conseguimos mostrar não só que ainda existem morcegos no Porto Santo, mas que ocorre uma segunda espécie na ilha: o morcego arborícola da Madeira (Nyctalus leisleri verrucosus).

Em que projetos irá trabalhar no próximo ano?
No próximo ano irei continuar a trabalhar com morcegos na Madeira e Porto Santo, com vista a concluir os trabalhos associados à minha National Geographic Society Early Career Grant e, caso a pandemia o permita, irei retomar o trabalho com morcegos em Madagáscar e iniciar um projeto na Guiné-Bissau onde estou a colaborar com vários outros investigadores para tentar perceber o papel de aves e morcegos no controle de pragas agrícolas em plantações de arroz.

Se pudesse pedir um desejo em prol do Planeta, qual seria?
Uma maior comunhão entre humanos e o mundo natural.

 

Ricardo Rocha possui uma bolsa da National Geographic Society desde 2020. Acompanhe o seu trabalho nas suas contas de Twitter e Instagram.

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