Rover recolhe a primeira amostra de rocha em Marte, um passo importante na procura por vida alienígena

O rover Perseverance da NASA vai armazenar esta amostra imaculada e outras para enviar para a Terra, algo que “vai mudar tudo para a ciência de Marte”.

Publicado 8/09/2021, 11:21
O rover Perseverance da NASA recolheu a sua primeira amostra de rocha para enviar para a ...

O rover Perseverance da NASA recolheu a sua primeira amostra de rocha para enviar para a Terra, parte da sua missão para revelar finalmente se o planeta vermelho já susteve vida.

Fotografia de NASA/JPL-Caltech/MSSS

Com o zunido de uma broca, um geólogo robótico a mais de 400 milhões de quilómetros de distância acaba de fazer história ao recolher a primeira amostra de Marte para enviar para a Terra. Selada num tubo hermético, esta amostra é um marco importante num esforço multimilionário que visa responder finalmente à questão: Já existiu vida no planeta vermelho?

A manobra bem-sucedida do rover Perseverance da NASA surge depois de uma primeira tentativa de amostragem ter falhado no mês passado, quando uma rocha frágil e desgastada se despedaçou no chão da cratera. Desta vez, a equipa tentou num local diferente, extraindo um cilindro de rocha mais resistente de um pedregulho ao longo de uma cordilheira de quase oitocentos metros de comprimento.

“Para toda a ciência da NASA, este é um momento verdadeiramente histórico”, diz Thomas Zurbuchen através de comunicado à imprensa. Thomas é administrador associado da NASA para o departamento científico.

Este pequeno cilindro de rocha – aqui mostrado no interior da sonda de perfuração do rover – é a primeira amostra de dezenas que a NASA planeia enviar para a Terra.

Fotografia de NASA/JPL-Caltech/ASU

Este processo, porém, teve os seus percalços. Embora as imagens iniciais mostrassem a rocha aninhada no tubo, a amostra desapareceu quando o rover abanou o tubo para limpar a poeira. Um dia extra de análise revelou que a valorizada amostra tinha simplesmente deslizado para o interior do tubo, que o Perseverance depois selou e armazenou no seu ventre.

Esta amostra é apenas a primeira de dezenas que irão ser recolhidas nos próximos meses. Por fim, o rover irá depositar o seu conteúdo na superfície de Marte, onde uma futura missão o irá recolher e transportar para os ansiosos cientistas na Terra.

“Parece uma coisa surreal”, diz Vivian Sun, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, uma das diretoras da primeira campanha científica da missão. “O que estamos a fazer agora vai impactar a ciência de Marte durante muito tempo.”

Para além da recolha de amostras, o Perseverance está equipado para farejar, saborear e perscrutar a paisagem marciana com mais detalhes do que nunca, ajudando os cientistas a desvendar o passado aquoso do planeta e procurar por indícios de micróbios marcianos que podem ter prosperado nos lagos e rios agora desaparecidos. O cenário para esta investigação dramática é a Cratera de Jezero, uma bacia de 45 quilómetros de diâmetro esculpida por um impacto de meteorito há milhares de milhões de anos.

O rover Perseverance pousou perto da orla da cratera em fevereiro de 2021, após uma descida angustiante de sete minutos através da fina atmosfera de Marte. Embora o solo sob as seis rodas do veículo espacial esteja agora ressequido, as rochas avermelhadas e a areia contêm indícios de um passado repleto de água. A equipa científica vai explorar esta região com o conjunto avançado de instrumentos do rover, selecionando amostras desde o solo da cratera até ao antigo delta de um rio e mais além.

“Vamos ficar surpreendidos”, diz Nina Lanza, cientista planetária e líder da equipa de Exploração Espacial e Planetária do Laboratório Nacional de Los Alamos. “Vamos aprender coisas que nem sequer conseguíamos imaginar.”

Mistério geológico de Jezero

Os cientistas acreditam que Marte já esteve coberto por uma atmosfera densa, o que ajudou a reter calor suficiente para evitar que a água congelasse e produziu pressão suficiente para impedir que o líquido se evaporasse e escapasse sob a forma de gás. Mas algures ao longo do tempo, a atmosfera começou a ficar mais fina e o clima de Marte sofreu uma alteração dramática. Há três mil milhões de anos, o planeta já estava seco e Marte tornou-se no globo vermelho de poeira que vemos atualmente.

Não se sabe exatamente quando e como é que isto aconteceu. As rochas de Jezero oferecem uma oportunidade para estudar essa transformação dramática, captando a fatia chave no tempo durante o qual aconteceu a seca. "À medida que exploramos diferentes partes da cratera no interior de Jezero, temos o potencial de viajar no tempo”, diz Kathryn Stack Morgan, cientista-adjunta de projetos do JPL da NASA.

Jezero é uma cratera dentro de outra cratera. Estas cicatrizes planetárias estão situadas na extremidade oeste da Bacia Isidis – uma extensa cratera com cerca de 1.200 quilómetros de diâmetro, resultado do impacto de uma enorme rocha espacial há cerca de 3.9 mil milhões de anos. Um impacto posterior esculpiu a tigela rochosa interior agora conhecida por Jezero. E depois veio a água.

Rios sinuosos vertiam sobre a orla da cratera, alimentando o que se tornou num antigo lago. A água abrandava ao entrar na bacia, fazendo com que a areia e a lama assentassem no fundo do lago e formassem um par de deltas, que se estendiam ao longo de cursos de água ramificados.

O rover vai explorar os restos secos do maior delta desta cratera, que está aninhado na extremidade oeste de Jezero. A acumulação veloz de sedimentos neste delta pode ter enterrado e preservado assinaturas de vida – se é que esta existia – antes de os rios terem secado há cerca de 3.5 mil milhões de anos.

Uma fenda na extremidade oposta a esta zona arenosa, conhecida por Pliva Vallis, marca o local onde a água fluía do lago. A presença de uma entrada e de uma saída sugere que as águas do lago eram constantemente refrescadas, evitando que os sais se acumulassem até níveis que podiam ser prejudiciais para muitas formas de vida, podendo também tornar Jezero num local privilegiado para os micróbios prosperarem.

“Enquanto geóloga, não consigo deixar de ficar entusiasmada para compreender a história de Marte”, diz Bethany Ehlmann, cientista planetária do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

“Rocha malcomportada”

Para recolher o tesouro geológico de Jezero, o sistema de amostragem do Perseverance é composto por um trio de robôs que trabalham em conjunto para perfurar cilindros de rocha, lacrando-os depois em tubos herméticos e depositando-os numa prateleira de armazenamento no interior do rover. “É uma nave dentro de outra nave”, diz Ian Clark, engenheiro de sistemas do JPL que faz parte da equipa da missão Perseverance.

Durante a primeira tentativa de recolha de amostras, o rover teve como alvo um mosaico entrelaçado de pedras castanhas e avermelhadas que compõem as faixas de solo da cratera – talvez as rochas mais antigas que o rover vai encontrar em Jezero. Os indícios observados a partir de órbita e as análises do próprio rover no solo apontam para uma origem vulcânica para estas “pedras de pavimentação”, como a equipa lhes chama. Se for esse o caso, devolver estas rochas à Terra permitiria aos cientistas datá-las com precisão usando elementos radioativos, ajudando a reconstituir o passado complexo da região.

Mas a primeira tentativa de recolha de amostras deixou a equipa de mãos a abanar. Embora o sistema de amostragem do rover parecesse estar inicialmente a funcionar conforme planeado, o tubo selado permaneceu vazio. As análises posteriores sugeriram que a interação da rocha com a água na antiguidade desgastou grande parte da cola geológica que a unia, o que fez com que a amostra se desfizesse em pedaços com os golpes percussivos da broca de perfuração.

A equipa não perdeu a esperança de recolher uma amostra de solo na cratera e planeia eventualmente procurar pedras de pavimentação menos desgastadas para perfurar, escreve Ken Farley, cientista do projeto Perseverance.

Mas para a segunda e mais recente tentativa de perfuração, a equipa direcionou o rover para oeste, para procurar rochas “tão diferentes quanto possível” das pedras de pavimentação. O rover focou-se numa rocha no topo de uma cordilheira chamada Artuby, que tem quase oitocentos metros de comprimento. Erguendo-se acima da paisagem, esta rocha parece ter resistido a éons de desgaste, sugerindo que podia ser forte o suficiente para resistir às perfurações.

Esta rocha parece semelhante a outras rochas que se projetam no chão da cratera, por vezes chamadas “rochas de alto nível”, diz Roger Wiens, cientista planetário do Laboratório Nacional de Los Alamos e investigador principal da SuperCam do Perseverance. Inicialmente, a equipa planeava recolher amostras de uma destas rochas mais altas, bem como das chamadas pedras de pavimentação. “Mas queríamos começar com o que pensávamos ser mais fácil, que eram as rochas mais suaves e... oops”, diz Roger com um sorriso.

Agora, o núcleo armazenado confirma que a primeira amostra era “apenas uma rocha malcomportada”, como Ken Farley suspeitava, em vez de um problema com os mecanismos de perfuração e armazenamento do rover.

Recolher mais amostras – e enviá-las para casa

Com a primeira amostra armazenada em segurança, o rover vai regressar para leste e depois seguir para norte, até ao delta, estudando as formações rochosas ao longo do caminho. Um tipo de recurso que os cientistas estão ansiosos para examinar são as rochas com camadas finas. Na Terra, estas laminações podem ser encontradas em sedimentos depositados pela água, vento ou, por vezes, vulcões.

Na água, as laminações acumulam-se a partir do depositar lento de lama, uma camada de cada vez, algo que pode ter preservado vestígios de vida em Jezero, bem como a química do lago agora desaparecido – fornecendo “um verdadeiro arquivo” das condições sob as quais estas rochas se formaram, diz Keyron Hickman-Lewis, geobiólogo do Museu de História Natural de Londres e cientista da missão de devolução de amostras do Perseverance.

Estas camadas são comuns em deltas, incluindo no de Jezero, mas o rover também avistou laminações promissoras em unidades de rocha no fundo da cratera. Na conferência de imprensa realizada no dia 21 de julho, Ken mostrou uma fotografia de um depósito no chão da cratera que parece uma pilha irregular de papéis castanhos. “Este é exatamente o tipo de rocha que estamos mais interessados em investigar”, disse Ken. Mas os cientistas ainda estão a tentar descobrir quais foram os processos que formaram estas rochas, quer sejam sedimentos, vulcões ou uma mistura de ambos, diz Roger Wiens.

No delta, dois outros alvos atraentes são as argilas e os minerais carbonatos, que Bethany Ehlmann, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e os seus colegas avistaram pela primeira vez em Jezero através de dados orbitais há mais de uma década. Na Terra, os carbonatos costumam ter laços estreitos com a vida e podem preservar estruturas requintadas, como as camadas finamente enrugadas de antigos tapetes microbianos conhecidos por estromatólitos. As argilas podem enterrar rapidamente o material orgânico e, se este material existir em Marte, pode estar protegido da radiação cósmica que atinge a superfície do planeta.

Outro possível alvo intrigante para estudar são as rochas ricas em manganês. Os minerais de manganês podem formar-se de várias formas, mas por vezes os micróbios participam no processo.

Nina Lanza e os seus colegas sugerem num estudo recente que as cianobactérias podem produzir os vernizes ricos em manganês que normalmente revestem as rochas encontradas nos desertos de todo o nosso planeta. Os micróbios podem usar estes minerais como uma espécie de filtro solar, protegendo-se da forte radiação ultravioleta.

Elevados níveis de concentração de manganês já tinham sido avistados anteriormente em Marte, na Cratera Gale ali perto, onde o rover Curiosity está ocupado com as suas próprias investigações. A equipa acredita que também pode ter encontrado manganês em Jezero, mas ainda está a tentar confirmar a sua presença e quantidade. O manganês em Marte pode vir de diversas formas e pode criar um verniz semelhante nas rochas que estão no interior da cratera.

“Se virmos algo parecido com verniz de rocha, temos de parar e observar mais de perto”, diz Nina Lanza.

Encontrar vida como a conhecemos

Assim que dezenas de amostras forem recolhidas e armazenadas, outra missão terá de pousar no planeta vermelho para as recolher. A NASA e a Agência Espacial Europeia estão a projetar um módulo de aterragem equipado com um mecanismo para recolher o rover, que pode ser lançado em 2026.

Um pequeno foguetão no módulo irá levar as pedras preciosas para a órbita de Marte, onde um orbitador irá recolhê-las e enviá-las para a Terra, lançando as amostras numa pequena sonda que irá aterrar no deserto de Utah.

Quando as amostras estiverem seguras na Terra, os cientistas irão usar ferramentas sofisticadas para desvendar todos os segredos guardados nestes testemunhos rochosos. Mas, ainda assim, há grandes desafios pela frente na busca por vida antiga extraterrestre. Os especialistas continuam a debater quais são os tipos de evidências suficientes para identificar formas de vida extremamente primitivas, incluindo na Terra. As afirmações de que existia vida há milhares de milhões de anos no nosso planeta geraram discussões ao longo de vários anos e criaram cismas entre os cientistas.

Um dos debates mais recentes envolveu uma série de rochas com 3.7 mil milhões de anos na costa sudoeste da Gronelândia. Em 2016, uma equipa de cientistas declarou que um conjunto de triângulos enrugados na rocha eram vestígios de atividade microbiana, o que os tornaria na vida fóssil mais antiga de que havia conhecimento. Mas Abigail Allwood, geóloga do JPL, e os seus colegas estavam desconfiados. Quando a equipa regressou para estudar o afloramento rochoso, começou a emergir uma imagem diferente. As rugas não tinham sido provocadas por micróbios, mas sim por processos geológicos que esmagaram as rochas.

“Não há nada como estar em frente aos afloramentos para ficarmos com uma compreensão do que está a acontecer. Não conseguimos fazer isso através da objetiva de uma câmara”, diz Abigail. Quando Abigail se apercebe do que está a dizer, acrescenta com um sorriso, “que é exatamente o que estamos a tentar fazer em Marte”.

Uma vez que a equipa humana não pode estar fisicamente em Marte, o rover Perseverance está equipado para oferecer uma visão das rochas em várias escalas – desde imagens de toda a paisagem até análises químicas de pedaços de rocha do tamanho de uma picada de agulha. Abigail é a investigadora principal do instrumento PIXL do Perseverance, que consegue captar imagens de características minúsculas e usar raios-x para medir a química das rochas marcianas.

Ainda assim, há limites para o que se consegue descobrir à distância, e é por isso que a recolha de amostras é tão importante. Quando estas amostras chegarem à Terra, irão fornecer a primeira visão de perto de um material puro do planeta vermelho. Como diz Nina Lanza: “Vai mudar tudo para a ciência de Marte.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados