SpaceX leva 4 passageiros para órbita – um vislumbre do futuro dos voos espaciais privados

A tripulação da missão Inspiration4 passou três dias a orbitar o planeta numa missão que visava angariar 200 milhões de dólares para o Hospital Pediátrico de St. Jude.

Publicado 20/09/2021, 12:07
Um foguetão Falcon 9 da SpaceX é lançado com a missão Inspiration4 a bordo, enquanto a ...

Um foguetão Falcon 9 da SpaceX é lançado com a missão Inspiration4 a bordo, enquanto a noite cai sobre o Centro Espacial Kennedy da NASA, no dia 15 de setembro de 2021.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

Pouco depois das 8 da noite, hora local, uma cápsula Crew Dragon da SpaceX foi lançada para órbita a partir do Centro Espacial Kennedy da NASA, levando a primeira missão tripulada completamente privada da humanidade para órbita.

Nenhum dos membros da tripulação Inspiration4 é um astronauta profissional. Nenhum tem experiência anterior em voos espaciais. Três dos passageiros só descobriram que iam ao espaço no início deste ano, quando uma série de eventos transformou as suas vidas num misto de treinos e holofotes da imprensa.

A tripulação Inspiration4, da esquerda para a direita, Hayley Arceneaux, Chris Sembroski, Jared Isaacman e Sian Proctor, durante um voo de treino em gravidade zero.

Fotografia de John Kraus, Inspiration4

A tripulação da missão Inspiration4 orbitou o planeta, onde desfrutou de três dias de ausência de peso, fez um pouco de ciência e ajudou a angariar 200 milhões de dólares para o Hospital Pediátrico de St. Jude, sediado em Memphis. A tripulação estava numa cápsula Dragon chamada Resilience e o voo foi completamente automatizado, permitindo aos passageiros com experiência mínima de voo subir a bordo e desfrutar da viagem.

A Resilience já transportou quatro astronautas da NASA para a Estação Espacial Internacional (EEI), mas desta vez, em vez de acoplar na estação, a Resilience voou a uma altitude de cerca de 540 quilómetros – cerca de 120 quilómetros acima da EEI no seu ponto mais alto. A tripulação conseguiu ver a Terra através de uma cúpula de vidro personalizada que a SpaceX instalou recentemente no lugar da porta de ancoragem da nave. A Resilience amarou na costa da Flórida no fim de semana.

Este voo marca a primeira vez desde 2009 – quando o vaivém espacial Atlantis levou astronautas para o Telescópio Espacial Hubble para uma missão final de reparações – que um voo orbital tripulado não visita uma estação espacial.

“Isto é fascinante porque é uma missão comercial num veículo comercial. A missão não tem um destino, nenhum dos participantes é ou foi astronauta do governo”, diz Carissa Christensen, analista da indústria e fundadora da BryceTech. “É realmente um fenómeno novo.”

Esquerda: Superior:

O comandante da missão Inspiration4, Jared Isaacman, atravessa a multidão a caminho da preparação para o voo.

Direita: Fundo:

Sian Proctor, piloto da missão Inspiration4, acena para a multidão antes de seguir para a sala de vestuário perto da plataforma de lançamento.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Joe Raedle, Getty Images(Direita)(Fundo)

Os proponentes da Inspiration4 dizem que a missão marca uma nova era nos voos espaciais humanos – o início de uma era em que as portas do espaço se abrem para os aviadores “comuns”. A Netflix está a exibir um documentário que acompanha o desenrolar da missão. A revista TIME colocou a tripulação na capa de uma edição especial sobre “A Nova Era Espacial”. O site Axios produziu um podcast com vários episódios que revela os bastidores da missão. E várias empresas estão a usar a missão Inspiration4 para promover os seus produtos. O tema recorrente é o de que este voo está a abrir o caminho das estrelas para o resto da humanidade – mas será que está mesmo?

Alguns especialistas da indústria espacial dizem que a barreira de entrada para os voos espaciais continua tão alta como sempre – só os porteiros é que estão a mudar, juntamente com os critérios utilizados para escolher quem voa. À medida que o espaço se torna cada vez mais comercializado, a riqueza pessoal desempenha um papel mais abrangente no momento de decidir quem pode sair da Terra.

O comandante da missão Inspiration4 é o milionário Jared Isaacman, que fretou o veículo da SpaceX por um valor não discriminado. Juntamente com Jared está a assistente médica do Hospital de St. Jude e sobrevivente de cancro infantil Hayley Arceneaux, a primeira pessoa com uma prótese a voar no espaço; o veterano da Força Aérea Chris Sembroski, cujo lugar foi sorteado; e a vencedora de um concurso na internet, Sian Proctor, geocientista que esteve perto de integrar a classe de astronautas de 2009 da NASA.

“Isto agora está muito nas mãos dos milionários e bilionários do mundo, que podem pagar somas avultadas para estar nestes voos, ou para oferecer lugares em voos que fretam”, diz  Matt Shindell, historiador espacial do Museu Nacional do Ar e do Espaço Smithsonian's. “Creio que o verdadeiro teste é o que vai acontecer a seguir.”

Um foguetão Falcon 9 da SpaceX com a cápsula Crew Dragon Resilience na histórica plataforma de lançamento 39A, no Centro Espacial Kennedy da NASA, antes do lançamento da missão Inspiration4 no dia 15 de setembro de 2021.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

Um novo tipo de bilhete para o espaço

O comandante da missão, Jared Isaacman, um homem de 38 anos que gosta de aventura, fez fortuna com a Shift4 Payments, uma empresa de processamento de pagamentos fundada em 2005 que agora gere mais de 200 mil milhões de dólares em vendas a retalho anualmente. Jared também é um piloto talentoso e cofundador da Draken International – uma companhia que forma pilotos militares e opera a maior frota privada de caças do mundo.

Em outubro, Jared fretou um voo orbital de quatro pessoas à SpaceX, dizendo ao site Axios que tinha custado menos de 200 milhões de dólares. E depois anunciou que a missão seria uma campanha de angariação de fundos para o Hospital St. Jude, e que não ia voar com os amigos ou a família. Os outros três lugares seriam ocupados de forma um tanto ou quanto aleatória.

Jared chamou aos lugares disponíveis Esperança, Generosidade e Prosperidade, assumindo para si o lugar Liderança e assumindo o título de comandante da missão.

Em janeiro, a equipa do Hospital de St. Jude selecionou Hayley Arceneaux, uma antiga paciente que passou a funcionária, para o lugar Esperança. Hayley Arceneaux foi diagnosticada com cancro ósseo quando tinha 10 anos e fez uma cirurgia para substituir o joelho esquerdo, ficando com uma haste de titânio no fémur danificado. Hayley Arceneaux é agora a oficial médica da missão.

Chris Sembroski, engenheiro de dados que trabalha para a Lockheed Martin, preenche a vaga Generosidade – um prémio concedido basicamente de forma aleatória. Depois de ver um anúncio sobre a missão durante o Super Bowl, Chris Sembroski fez uma doação ao Hospital de St. Jude, que o inscreveu num sorteio. Chris Sembroski não ganhou a lotaria, mas um amigo seu ganhou – e esse amigo deu o bilhete a Chris.

Sian Proctor venceu a última vaga, Prosperidade, depois de entrar numa competição que exigia que Sian abrisse uma Shift4 Shop e fizesse um pequeno vídeo (quanto mais viral, melhor) a descrever porque é que queria ir ao espaço e o que traria para a missão.

Como esta tripulação demonstra, o conceito de “astronauta” está a mudar rapidamente, diz Jordan Bimm, historiador de ciência da Universidade de Chicago. Historicamente, as agências espaciais recrutavam pilotos militares para este trabalho, acrescentando posteriormente cientistas e outros especialistas aos conjuntos sucessivos de novos recrutas. Agora, a elite abastada pode comprar as suas próprias viagens ao espaço e distribuir os bilhetes da forma que achar melhor.

Hayley Arceneaux, oficial médica da missão Inspiration4, num módulo de formação Multi-Axis Trainer, que ajuda os passageiros a sentir como é cair no espaço.

Fotografia de John Kraus, Inspiration4

Preparações para o voo

Normalmente, as tripulações de astronautas da NASA são cuidadosamente montadas, com diretores de missão a trabalhar para formar uma equipa coesa que tenha a maior probabilidade de completar uma missão com sucesso. Estas equipas treinam juntas durante anos.

A missão Inspiration4 seguiu um caminho diferente, com menos de um ano entre o contacto inicial de Jared Isaacman com a SpaceX, a seleção da tripulação e o lançamento da missão. O grupo treinou rigorosamente durante seis semanas, com os exercícios a incluírem uma simulação de voo de 30 horas e prática suficiente com a cápsula automatizada Dragon, para monitorizar o estado da nave e, com sorte, sobreviver a qualquer contratempo. Os membros da tripulação também completaram a formação centrífuga que simula as forças G de lançamento e aterragem, participaram em voos para treinar gravidade zero, voaram em caças de combate e caminharam até um acampamento no alto de Monte Rainier.

Em resposta a uma pergunta sobre porque é que a tripulação fez tudo isto para um voo que basicamente é automatizado, sobretudo a formação em caças de combate, Jared publicou no Twitter: “Mantém-nos focados, aperfeiçoa a gestão de recursos e a execução da tripulação num ambiente dinâmico.” Para além disso, “as fotografias ficam com bom ar”.

Embora o voo espacial seja frequentemente descrito como uma coisa glamorosa – e as imagens da tripulação Inspiration4 não são exceção – a experiência é tudo menos isso, mesmo que custe milhões de dólares. Viajar ao espaço é uma história de sofrimento, sacrifício e sobrevivência, diz Matt Shindell, que estava curioso para saber como é que a tripulação ia responder à realidade de entrar em órbita e dividir um ambiente extremamente próximo durante três dias.

“Depois de entrarem naquela cápsula e de se comprometerem com a missão, sentem todas as forças G, todo aquele isolamento, a intimidade com o resto dos seus companheiros de tripulação e o terror de regressar pela atmosfera e esperar que corra tudo bem”, diz Matt.

Este espaço de proximidade da tripulação foi partilhado com uma variedade de carga, incluindo experiências científicas projetadas para investigar como é que os humanos se adaptam ao voo espacial tanto física como mentalmente, para além de pertences mais pessoais e itens que serão leiloados para a angariação fundos do Hospital de St. Jude. A nave também transportava 30 quilos de citra e lúpulo que, de acordo com os representantes da missão, “vão ser usados para fazer uma cerveja de outro mundo”.

Chris Sembroski, especialista da missão Inspiration4, num simulador de voo no Space Camp em Huntsville, no Alabama.

Fotografia de John Kraus, Inspiration4

“Espaço novo”

Este lançamento mais recente é o terceiro deste ano a transportar uma tripulação de passageiros privados ao espaço. Os dois voos anteriores, lançados em julho pela Virgin Galactic e Blue Origin, eram passeios suborbitais que ofereciam meros minutos de ausência de peso.

Mas este voo não é de longe o primeiro a colocar clientes em órbita. Desde 2001 que a EEI recebe cidadãos particulares, alguns pagam até 52 milhões de dólares pela viagem. Em breve, mais passageiros irão fazer esta viagem para o laboratório espacial em órbita a bordo das cápsulas SpaceX e da nave russa Soyuz.

Dada a expansão dos voos comerciais, é fácil perceber porque é que alguns dos especialistas na indústria espacial estão a falar sobre o início de uma nova era. Mas outros alertam que é um erro dizer que estas tripulações são “comuns” ou representativas da humanidade em geral. Jared Isaacman é apenas um dos 2.755 milionários na Terra – uma percentagem minúscula da população que consegue pagar o aluguer de uma nave.

O próprio processo de seleção dos membros da tripulação foi baseado em critérios vagos, ou pura sorte. Chris Sembroski foi uma das 72.000 pessoas a participar no sorteio – as probabilidades de passar na seleção de astronautas da NASA são superiores. E embora a tripulação da missão Inspiration4 seja mais diversa do que muitas outras, as próximas missões orbitais privadas estão preenchidas predominantemente por homens, continuando um padrão que resulta nas mulheres a corresponderem a cerca de 11% do total de astronautas. Há ainda menos pessoas de cor a fazerem a viagem ao espaço (Sian Proctor é apenas a quarta mulher afro-americana a fazer um voo orbital.)

O voo espacial é uma experiência rara, diz Jordan Bimm, e está nas mãos dos privilegiados. Em breve iremos saber se estes voos estão realmente a anunciar um novo capítulo na exploração de outros mundos.

“A prova vai estar no padrão”, diz Jordan. “O que eu diria a todas as pessoas que seguem com interesse o espaço é: Não se concentrem demasiado nesta missão. Vejam a próxima, depois a seguinte e a outra a seguir.” 

Antes de os voos espaciais privados levantarem voo, um acidente pode colocar esta jovem indústria no chão. Se aprendemos algo com os 60 anos de voos espaciais humanos é que pilotar foguetões é perigoso. Os acidentes são inevitáveis.

Acontece o mesmo com muitos desportos de aventura, mas os clientes continuam a fazer fila para terem a oportunidade de chegar ao cume do Monte Evereste – um esforço que é indiscutivelmente tão perigoso, senão mais perigoso, do que fazer um voo orbital.

“Quais são os riscos que estamos realmente dispostos a correr depois de os perigos se tornarem visíveis?” pergunta Matt. “Não se trata de saber se vai acontecer um acidente, mas sim quando e de que forma isso vai afetar este novo ecossistema do espaço comercial.”

Um foguetão Falcon 9 da SpaceX cruza os céus com a missão Inspiration4 em direção à órbita, no dia 15 de setembro de 2021.

Fotografia de Michael Seeley, National Geographic

Mesmo que o espaço eventualmente fique acessível a todos, não se sabe qual é o benefício que a humanidade pode tirar de ter milhares de pessoas a flutuar em órbita. Povoar a lua ou colonizar Marte é muito diferente de passar alguns dias a pairar sobre a Terra. E embora muitos viajantes espaciais digam que regressam com uma apreciação renovada pela fragilidade do nosso planeta e um compromisso renovado para melhorar as condições na Terra, os críticos argumentam que as tripulações dos foguetões espaciais podem não ser a forma mais eficiente de inspirar alterações no solo.

“Ao final do dia, qual será o valor de enviar mais pessoas para o espaço?” pergunta Matt. “Penso que precisamos mesmo de ter uma conversa cultural sobre isto, sobre o que estamos realmente a tentar construir.”

Ainda assim, Jordan Bimm, da Universidade de Chicago, diz que a missão Inspiration4 inclui algumas pessoas muito inspiradoras e deseja que a experiência seja maravilhosa e que regressem todos a casa em segurança.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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