Vulcão das Ilhas Canárias entra em erupção pela primeira vez em 50 anos

Este despertar é o mais recente de uma série de erupções em forma de fissura que datam de há séculos na ilha espanhola de La Palma. Os especialistas dizem que a erupção pode durar semanas.

Publicado 22/09/2021, 11:07
Lava flui após a erupção do vulcão Cumbre Vieja em La Palma, nas Ilhas Canárias. Este ...

Lava flui após a erupção do vulcão Cumbre Vieja em La Palma, nas Ilhas Canárias. Este evento marca a primeira vez que o Cumbre Vieja entra em erupção desde 1971.

Fotografia de Arturo Rodríguez

O vulcão Cumbre Vieja na ilha espanhola de La Palma costuma dar sinais da sua presença, mas não cospe lava desde 1971. Tudo isso mudou este fim de semana. Às 15h12, hora local, do dia 19 de setembro, o magma ascendente abriu várias fissuras nos flancos ocidentais, dando origem a uma erupção extravagante.

Visto ao longe, parece espetacular. Fontes vertiginosas de lava com mais de 1.000 graus Celsius projetam-se em direção ao céu, atingindo alturas de até 1.500 metros – quase o dobro da altura do Burj Khalifa, o arranha-céus mais alto do mundo. Por baixo, rios entrelaçados de rocha derretida jorram pelas fissuras como se fossem sangue a sair de uma ferida aberta.

A ilha de La Palma faz parte das Ilhas Canárias espanholas e é uma das zonas com mais atividade vulcânica do arquipélago. Esta ilha é o lar de mais de 85.000 pessoas.

Fotografia de Arturo Rodríguez

Localizada a quase 500 quilómetros da ilha da Madeira no Oceano Atlântico, La Palma só existe porque um ponto de foco vulcânico há muito que elevou terra sobre as ondas nesta zona, formando o arquipélago conhecido por Ilhas Canárias. Este maçarico superaquecido de longa duração no interior do manto subjacente criou oito ilhas principais que têm ecossistemas deliciosamente variados, desde florestas subtropicais a desertos. Em La Palma, as montanhas altas oferecem as condições ideais para a observação de estrelas sem nuvens, razão pela qual a ilha abriga um importante observatório europeu.

Mas, tal como esta nova erupção demonstra, “o preço e o privilégio de viver numa pequena ilha maravilhosa é, neste caso, a sua história geológica”, diz Helen Robinson, geocientista da Universidade de Glasgow, que trabalhou na equipa de monitorização do Cumbre Vieja em 2015.

O Cumbre Vieja é uma estrutura vulcânica altamente ativa e, nos últimos 7.000 anos, teve uma infinidade de erupções numa cordilheira com orientação norte-sul – um eixo cicatrizado e marcado por fissuras, crateras e fendas. Desde o século XV, diversos fluxos de lava danificaram edifícios e arrastaram-se até ao mar. Geralmente, os fluxos de lava emergem das fissuras, um evento semelhante ao que acontece com muitos vulcões de todo o planeta, desde o Kīlauea do Havai até à erupção em curso na península de Reykjanes, na Islândia.

Até à tarde de 20 de setembro, a erupção mais recente não mostrava sinais de abrandamento. De acordo com Pedro Hernández, vulcanólogo do Instituto de Vulcanologia das Ilhas Canárias (INVOLCAN), a lava continua lentamente a cair em cascata pela encosta abaixo e a aventurar-se para oeste em direção ao mar. A maior parte da ilha não foi afetada, mas cerca de 5.000 pessoas foram evacuadas porque estavam no trajeto dos rios de lava. “Mais de 20 casas foram destruídas”, diz Pedro. A agência Reuters informa que mais de 500 turistas tiveram de abandonar os seus hotéis e cerca de 360 foram evacuados de uma estância local para a ilha vizinha de Tenerife.

É difícil determinar durante quanto tempo é que a lava irá permanecer uma ameaça. As erupções em La Palma podem durar de algumas semanas até vários meses. “A única maneira de o saber é descobrindo o volume total do magma passível de erupção que está sob Cumbre Vieja”, diz Pablo J. González, físico vulcanólogo do Conselho Nacional de Pesquisa Espanhol em Tenerife. “Mas desconhecemos essa informação.”

As alterações na estrutura do vulcão e o reverberar sísmico dos seus terramotos podem revelar a resposta para esta pergunta tão importante. Porém, apesar de estar sob um forte escrutínio científico, é pouco provável que o Cumbre Vieja revele os seus segredos assim tão facilmente.

A erupção mais recente foi precedida por vários sismos. A monitorização cuidadosa permitiu às autoridades iniciar algumas evacuações antes de a lava começar a fluir.

Fotografia de Arturo Rodríguez

Ameaça crescente

La Palma, a ilha mais a noroeste das Canárias, é uma quimera vulcânica: uma mistura de várias estruturas vulcânicas, grandes e pequenas. Na região sul podemos encontrar Cumbre Vieja – ou “Cume Velho” – que, apesar do nome, é um dos irmãos mais novos, datando de há 125.000 anos. A última erupção deste vulcão surgiu de um pequeno cone chamado Teneguia em 1971. Mas isso não significa que Cumbre Vieja tenha ficado adormecido desde então.

De acordo com Itahiza Domínguez Cerdeña, sismóloga do Instituto National Geographic, em Tenerife, desde outubro de 2017 registaram-se nove enxames de terramotos – centenas de estrondos a acontecer na mesma área em sucessão – a cerca de 30 quilómetros abaixo do vulcão.

Há uma semana, estes sismos estavam a acontecer a apenas 11 quilómetros de profundidade e, nos últimos dias, os sismos surgiam logo abaixo da superfície. Desde o dia 10 até ao 19 de setembro foram registados 25.000 sismos, a maioria impercetíveis para as pessoas. Esta cacofonia ascendente era o som da crosta a ser empurrada para o lado e deformada. A causa? “A pressão do magma a intrometer-se na crosta”, diz Itahiza.

No último fim de semana, o solo já inchado cerca de 15 centímetros, sugerindo que um volume moderado de magma tinha-se infiltrado recentemente na crosta rasa.

A maioria das intrusões de magma não dá origem a erupções; o magma não consegue perfurar a rocha sólida que está por cima, arrefecendo e acabando eventualmente por parar de subir. Mas há sempre a possibilidade de um volume maior de rocha derretida se acumular sob uma intrusão de magma, e isso pode potencialmente alimentar uma erupção prolífica e prolongada.

Os vulcanólogos ficaram alarmados com as deformações na montanha e o seu clamor sísmico e, no dia 13 de setembro, as autoridades aumentaram o nível de alerta, avisando a secção sul da ilha e os seus 35.000 habitantes sobre a possibilidade de uma erupção.

No dia 18 de setembro, os cientistas começaram a colocar sismómetros adicionais na região para identificar melhor os tipos de sismos e rastrear a sua migração com mais precisão, enquanto outros sobrevoavam a zona de helicóptero para perceber se o solo estava a aquecer. Pouco antes do meio-dia de 19 de setembro, um forte terramoto de magnitude 4.2 agitou o vulcão.

Por precaução, soldados espanhóis ajudaram a evacuar 40 pessoas e os seus animais de várias aldeias em torno do vulcão.

Mais tarde nesse dia, a lava irrompeu pelas colinas de floresta no flanco oeste do vulcão. A lava incendiou árvores e terrenos agrícolas, atravessou uma autoestrada e destruiu oito casas isoladas. Nessa noite, o governo espanhol anunciou que 5.000 pessoas tinham sido evacuadas.

Embora a lava ainda não tenha penetrado nas partes mais construídas do município de El Paso, “está a arrastar-se em direção a uma área densamente povoada”, diz Helen Robinson. Há a esperança de que o fluxo evite essa área no seu trajeto até ao mar, contudo, mesmo que isso não aconteça, a região foi evacuada, reduzindo significativamente o perigo de morte.

Milhares de pessoas foram evacuadas e pelo menos 20 casas foram destruídas pela erupção que no dia 20 de setembro ainda estava em curso.

Fotografia de Arturo Rodríguez

Cinzas, astronomia e tsunamis

Felizmente, independentemente da duração da erupção, a lava não deve danificar a infinidade de telescópios astronómicos do Observatório Roque de los Muchachos da ilha. Juan Carlos Pérez Arencibia, administrador do observatório, afirma que as instalações ficam a 18 quilómetros a norte do local da erupção. Para além disso, o observatório está localizado 2.400 metros acima do nível do mar, enquanto que a lava está a emergir nos 600 metros.

“As cinzas podem significar que os telescópios irão permanecer encerrados durante vários dias sem observação, mas o observatório em si não deve sofrer danos”, diz David Jones, astrónomo do observatório.

Ao contrário dos receios que circulavam pelas redes sociais, que foram suscitados por um artigo altamente especulativo de 2001, não há praticamente probabilidades de a erupção do Cumbre Vieja poder criar um mega-tsunami que atinja o litoral leste da América, diz Dave Petley, especialista em deslizamentos de terras da Universidade de Sheffield, em Inglaterra.

O colapso de flancos de vulcões é uma preocupação genuína, e é verdade que, há muitos milhares de anos, já aconteceram vários colapsos de flancos nas costas de La Palma. Mas um estudo de 2015 descobriu que, em condições de modelagem realistas, o colapso mais grave não causaria mais do que um tsunami de quase dois metros ao longo da costa do Atlântico ocidental.

Embora essa eventualidade seja decididamente indesejável, o instituto INVOLCAN salienta que seria necessário um terramoto incrivelmente poderoso e uma erupção vulcânica incrivelmente explosiva em simultâneo para haver qualquer tipo de colapso de flanco. O vulcão Cumbre Vieja é estruturalmente sólido neste momento, e não há indicação de que tal confluência seja sequer remotamente possível.

Mas não convém ter ilusões: os fluxos de lava são o verdadeiro perigo. Felizmente, os habitantes de La Palma estão a ser protegidos por uma vanguarda de vulcanólogos e sismólogos. Os esforços de longo prazo feitos pelos geocientistas na ilha garantiram que era possível perceber se algo perverso se estava formar muito antes de os fluxos serpenteantes de lava rastejarem pelas encostas do Cumbre Vieja.

“Se eles não fizessem uma monitorização tão intensa”, diz Helen Robinson, “não compreenderiam tão bem os seus vulcões como compreendem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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