A COVID-19 está associada a novos casos de diabetes –mas os problemas a longo prazo podem ser piores

Para além de dar origem a novos casos de diabetes, o vírus pode estar a danificar diretamente o pâncreas de uma forma que pode conduzir à inflamação crónica e até ao aparecimento de cancro.

Publicado 12/10/2021, 11:39
Estudante de medicina faz um teste de glicose

Uma estudante de medicina faz um teste de glicose a uma mulher para verificar a possibilidade de diabetes, num posto de triagem na Alameda Dom Afonso Henriques durante a pandemia de COVID-19, no dia 29 de maio de 2021, em Lisboa.

Fotografia de Horacio Villalobos, Corbis via Getty Images

O microbiólogo Peter Jackson recebe quase diariamente emails de pessoas que recuperaram da COVID-19 e que descobriram que os seus problemas de saúde estavam apenas a começar.

Recentemente, uma mulher que tem dois filhos e está na casa dos 30 anos escreveu a Peter Jackson, que é docente na Universidade de Stanford, para dizer que agora toma uma série de medicamentos para a diabetes todos os dias, embora não tivesse risco de contrair a doença antes de ser infetada pelo coronavírus.

Desde o início da pandemia que os especialistas sabem que ter diabetes – uma condição em que o corpo não produz insulina suficiente ou não a utiliza de forma eficaz para neutralizar o aumento de açúcar no sangue – é um fator de risco para as infeções mais graves por COVID-19. Mas os investigadores suspeitam há muito tempo que o inverso também pode ser verdadeiro. Em maio, Peter Jackson publicou um estudo na revista Cell Metabolism onde revela que o SARS-CoV-2 infeta as células do pâncreas que produzem insulina e pode até ter essas células como alvo para destruição – sugerindo que o vírus também pode provocar diabetes.

“Isto é uma coisa real”, diz Peter Jackson sobre as queixas dos novos diabéticos que inundam a sua caixa de email. Apesar de alguns especialistas argumentarem que esta condição é rara, Peter Jackson afirma que os dados sugerem que em 2020 cerca de 100.000 pessoas foram diagnosticadas com um caso inesperado de diabetes.

Peter Jackson é um de vários especialistas que receia poder haver uma nova vaga de pacientes com diabetes que terão de monitorizar os seus níveis de açúcar no sangue para o resto da vida. Mas Peter e os seus colegas também estão preocupados com o facto de o vírus poder estar a afetar o pâncreas de formas que de momento ainda não são percetíveis, mas que um dia poderão ter implicações graves para o próprio órgão e para o sistema digestivo.

“Isto pode ser uma pandemia dentro de uma pandemia”, diz Paolo Fiorina, professor de endocrinologia na Universidade de Milão e palestrante na Escola de Medicina de Harvard, que também dirigiu investigações sobre a ligação entre a COVID-19 e a diabetes.

Os cientistas ainda estão a debater a gravidade da ameaça que a COVID-19 representa para o pâncreas a longo prazo – e se as pessoas que desenvolvem diabetes estão realmente presas à doença para sempre. Embora sejam necessários estudos de grande abrangência e potencialmente muitos anos para responder a estas questões, os investigadores já estão a trabalhar no caso.

Como a COVID danifica o pâncreas

Primeiro, temos de recordar o papel do pâncreas – um órgão que desempenha uma ação fundamental no sistema digestivo. Localizado atrás do estômago, a parte mais larga do pâncreas está ligada ao intestino delgado, perto de onde o estômago esvazia os alimentos parcialmente digeridos. Aqui, o pâncreas segrega uma variedade de sucos para decompor ainda mais a mistura de alimentos parcialmente digeridos.

A maior parte dos alimentos é decomposta em açúcar, que é libertado na corrente sanguínea. O pâncreas é responsável pela regulação dos níveis de açúcar no sangue através da produção de hormonas: insulina, que reduz o açúcar no sangue, e glucagon, que aumenta. Mas se este equilíbrio de glicose não for cuidadosamente regulado, pode fazer com que os órgãos funcionem mal e danificar permanentemente a retina, os rins, os nervos, o coração e os vasos sanguíneos.

Em Itália, país que foi um dos epicentros da COVID-19 nos primeiros dias da pandemia, ficou claro que os níveis de açúcar no sangue das pessoas hospitalizadas com COVID-19 estavam fora de controlo. Paolo Fiorina começou a investigar estes efeitos em abril de 2020. Naquele momento, Paolo Fiorina era o diretor do departamento de endocrinologia de um hospital em Milão que recebia diariamente mais de 20.000 novos casos de COVID-19 – e realizava um funeral por hora.

Um dos patologistas do hospital comentou com Paolo Fiorina que era estranho haverem tantos pacientes mortos que sofriam de hiperglicemia, o que significava que os seus níveis de açúcar no sangue estavam demasiado elevados – um sinal de que o pâncreas não estava a fazer o seu trabalho. “Sei que as pessoas com diabetes têm mais propensão para morrer”, disse Paolo Fiorina ao patologista. “Mas pode haver outra coisa.”

Paolo Fiorina decidiu investigar e, em maio de 2021, publicou um estudo feito com 551 pacientes sem histórico anterior de diabetes, mostrando que 46% tinham ficado hiperglicémicos recentemente. A COVID-19 tinha afetado completamente o perfil hormonal destes pacientes – apesar de terem níveis normais antes da infeção, agora a glicose estava perigosamente alta, pois os seus corpos tinham-se tornado menos eficientes no uso de insulina.

Naquela altura, as autópsias de pessoas que faleciam de COVID-19 já mostravam que o vírus infetava o pâncreas – algo que os investigadores confirmaram num conjunto de estudos publicados na revista Cell Metabolism. Pater Jackson, que estava entre estes investigadores, descobriu que o SARS-CoV-2 infeta e mata as células beta que produzem insulina. Acredita-se que estas células não são fáceis de repor – e perdê-las pode tornar-nos mais suscetíveis à diabetes.

Porém, ainda não se sabia como é que o vírus chegava ao pâncreas para matar as células. Paolo Fiorina afirma que a sua investigação mais recente, que ainda não foi publicada, tenta responder a esta questão. Os dados do investigador mostram que o SARS-CoV-2 pode ser detetado nos gânglios linfáticos, sugerindo que pode chegar a este local através do sistema linfático ou pela corrente sanguínea.

Paolo Fiorina diz que, se estas descobertas se confirmarem, indicam que o vírus infeta o pâncreas diretamente. “O vírus SARS-CoV-2 também danifica o pâncreas de formas mais indiretas.”

Quando o sistema imunitário estabelece uma defesa contra a COVID-19, por vezes pode reagir de forma exagerada e atacar indiscriminadamente, provocando inflamações no corpo inteiro. Isto pode provocar stress no pâncreas e elevar os níveis de açúcar no sangue. Como se não bastasse, os esteroides que os hospitais usam para tratar esta resposta inflamatória também podem piorar as coisas. Kathleen Wyne, endocrinologista do Centro Médico Wexner da Universidade de Ohio, diz que as pessoas com perfis hormonais normais e sem fatores de risco para a diabetes podem receber estes esteroides sem qualquer problema. Mas para as pessoas que já eram suscetíveis à diabetes, os esteroides podem indicar ao corpo que crie insulina em demasia, fazendo com que as células parem de responder a essa insulina – aumentando também os níveis de açúcar no sangue.

Implicações para a saúde a longo prazo

Ainda não passou tempo suficiente para os cientistas compreenderem a fundo o que acontece ao pâncreas nos meses que se seguem à recuperação de uma infeção por COVID-19. Contudo, em maio, o estudo de Paolo Fiorina mostrou que um terço das pessoas com hiperglicemia recente permaneceram assim durante pelo menos seis meses após recuperarem da doença.

Peter Jackson refere que isto se traduz em muito mais diagnósticos de diabetes do que seria de esperar anualmente – “e isto é apenas a ponta do icebergue”.

“Não quero ser alarmista, mas podemos vir a registar mais efeitos a longo prazo no pâncreas do que pensamos”, diz Peter Jackson. “As pessoas só sabem qual é o estado real do seu pâncreas quando têm problemas a sério.” Peter Jackson acrescenta que mesmo as pessoas que não têm diabetes nos meses seguintes à infeção por COVID-19 continuam a poder desenvolver a doença no futuro.

É problemático desenvolver uma doença crónica como a diabetes, que requer monitorização constante dos níveis de açúcar no sangue e injeções regulares de insulina. Mas a COVID-19 também pode estar a afetar silenciosamente o pâncreas de formas que eventualmente poderão ter repercussões na saúde.

Peter Jackson compara este cenário ao de uma casa a arder, onde estamos tão focados nas chamas que estão a consumir a mobília que nem sequer reparamos nos danos que o fumo está a provocar na estrutura da casa. Peter Jackson diz que o vírus pode deixar cicatrizes nos tecidos do pâncreas, algo que o pode tornar mais suscetível a complicações como pancreatite – inflamação crónica do pâncreas – ou até cancro do pâncreas.

“Não é o mesmo que ter uma parede limpa sobre a qual podemos pintar novamente. Ficamos com problemas inerentes à arquitetura do órgão, porque este já está danificado. Portanto, é mais difícil consertar as coisas porque estamos a começar com uma parede danificada.”

Peter Jackson diz que os danos no pâncreas também podem afetar outras estruturas nas proximidades, como as vias biliares ou os rins – que são alvos típicos das complicações a longo prazo da diabetes. De acordo com a Mayo Clinic, cerca de 25% das pessoas que têm diabetes acabam por desenvolver doença renal devido aos danos nos vasos sanguíneos que filtram os resíduos vindos do sangue.

Será que a população em geral deve ficar preocupada com estas complicações? A resposta ainda está em aberto.

Quem está em risco?

Quando se trata da relação entre o pâncreas e a COVID-19, os cientistas estão divididos em dois campos – e Kathleen Wyne está no campo que está cético de que a doença provoca realmente diabetes.

Isto acontece porque muitas pessoas recuperam após a fase aguda da infeção. Muitos dos pacientes de Kathleen Wyne no Centro Médico Wexner não necessitaram de insulina após terem alta. Kathleen Wyne também diz que os diagnósticos da diabetes tipo 1 não aumentaram na sua clínica durante a pandemia, nem observou quaisquer evidências de uma morte massiva de células beta.

“Creio que a verdadeira questão passa por saber o que acontece quando a resposta inflamatória diminui, o que acontece quando os esteroides desaparecem”, diz Kathleen Wyne. “Se a diabetes permanecer lá, será que uma determinada pessoa já estava prestes a ter diabetes de qualquer maneira?”

Kathleen Wyne explica que as pessoas que desenvolveram diabetes pós-infeção já podiam estar em risco de contrair a doença de qualquer forma e que o stress que a COVID-19 colocou sobre os seus corpos apenas acelerou o desenvolvimento da doença. Os pacientes podem desenvolver diabetes crónica ou apenas temporária, semelhante à forma como algumas mulheres desenvolvem diabetes gestacional durante a gravidez e os seus níveis de açúcar no sangue acabam depois por regressar ao normal.

“Tem sido essa a minha abordagem a estes pacientes com COVID”, diz Kathleen Wyne. “Se estas pessoas não tomam medicação para a diabetes ou tomam apenas doses mais baixas, digo-lhes que é um sinal de alerta de que irão ter diabetes – só não sabemos quando.”

Kathleen Wyne sublinha que serão necessárias décadas até que os cientistas consigam examinar os dados populacionais para determinar se a pandemia teve algum efeito na taxa de diagnóstico de diabetes.

Os investigadores no campo oposto admitem que é possível que alguns dos novos casos de diabetes incluam pessoas com predisposição para a doença – e também esperam que a hiperglicemia possa passar ao longo do tempo em alguns dos pacientes. Mas estes investigadores referem que também não há dados que sugiram o contrário. Para eles, a pandemia representa uma oportunidade para responder a uma pergunta que atormenta os cientistas há anos: será que um vírus pode desencadear diabetes?

Decifrar um mistério de longa data

Há muito tempo que os cientistas levantam a hipótese de que a diabetes tipo 1 é provocada por uma infeção, da mesma forma que outras doenças autoimunes como a doença de Hashimoto, uma condição em que o sistema imunitário ataca a tiroide, ou lúpus, uma condição em que o sistema imunitário ataca tecidos saudáveis por todo o corpo.

Mas nunca surgiram evidências suficientes para provar esta teoria. Apesar de algumas pessoas terem sido diagnosticadas com diabetes após os surtos anteriores de SARS e MERS, esses casos eram demasiado raros para se tirarem quaisquer conclusões. Ao infetar muito mais pessoas, a COVID-19 tornou a recolha destes dados numa possibilidade real, diz Francesco Rubino, diretor do departamento de cirurgia metabólica e bariátrica do King’s College de Londres.

Em agosto, Francesco Rubino e outros investigadores de renome no campo da diabetes lançaram um registo global dos pacientes que desenvolveram diabetes relacionada com a COVID-19, para os investigadores recolherem finalmente essas informações. Francesco Rubino afirma que isto pode ter implicações clínicas na compreensão da relação entre o SARS-CoV-2 e o pâncreas, mas também espera que tenha ramificações mais amplas.

“Se provarmos com algum grau de confiança de que a COVID pode realmente provocar diabetes, então ficamos com uma prova de conceito para um mecanismo viral responsável pela diabetes”, diz Francesco Rubino.

Os registos já contam com mais de 620 casos, valores que Francesco e a sua equipa de investigadores consideram um tamanho de amostra suficiente para iniciar uma análise de dados. Francesco Rubino espera que, para alguns dos pacientes no registo global, a hiperglicemia acabe por desaparecer com o tempo. Mas entre as pessoas com diabetes real, é necessário observar se existe algum padrão – algo que Francesco Rubino diz poder até revelar uma nova forma de diabetes.

“A razão pela qual há tantos investigadores a trabalhar nisto é porque podemos aprender coisas que vão para além da COVID-19 – podemos aprender sobre a diabetes de forma mais ampla. Na verdade, talvez tenhamos de repensar o que sabemos sobre a diabetes se descobrirmos que este vírus consegue por si só desencadear diabetes do zero. Essa seria uma descoberta com muitas ramificações.”

Independentemente do mecanismo que desenvolve a diabetes pós-COVID, é importante lembrar às pessoas que foram infetadas com COVID-19 que a diabetes ataca muitas vezes silenciosamente e pode ter complicações sérias. Francesco Rubino diz que as pessoas que recuperaram de uma infeção por coronavírus devem estar cientes dos primeiros sinais de alerta, como fadiga, micção frequente e sede inexplicável, e para procurarem tratamento imediatamente.

“É pouco provável que este seja um problema para a grande maioria das pessoas que tiveram COVID. Mas se conseguirmos detetar os problemas antecipadamente, é muito melhor.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados