Combater lesões cerebrais? Investigadores descobrem que pode ser possível

Descoberta da Universidade do Porto sobre o papel das hormonas libertadas pela hipófise, traz nova esperança no combate às lesões cerebrais.

Publicado 6/10/2021, 17:11
Estudo lesões cerebrais

De acordo com o estudo recente, o bloqueio das hormonas libertadas na sequência de uma lesão cerebral pode ajudar a contrariar os seus efeitos.

Fotografia de Karen Kasmauski

Investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) revelam que as hormonas libertadas pela hipófise - a glândula de secreção interna situada numa cavidade da base do crânio - após uma lesão cerebral, contribuem para a perda de movimentos corporais.

Uma vez que estas hormonas sejam bloqueadas, de acordo com os resultados afetos à presente investigação, os efeitos nocivos das lesões cerebrais podem ser contrariados. Tal descoberta pode ter implicações no tratamento de pacientes com danos cerebrais traumáticos ou AVC.

O estudo, “A sinalização endócrina específica do lado esquerdo-direito complementa as vias neurais para mediar os efeitos assimétricos agudos de lesão cerebral”, publicado na revista científica eLife, é uma importante contribuição para o estudo do impacto das lesões cerebrais, que podem interromper as vias neurais descendentes, responsáveis por transmitir comandos motores do córtex aos motoneurónios espinhais.

Alterações motoras assimétricas

As lesões cerebrais podem interromper os tratos neurais entre o cérebro e a medula espinhal, a estrutura que transmite mensagens elétricas aos músculos. As lesões, decorridas de traumas cerebrais ou derrames, costumam ser responsáveis por causar graves problemas de postura e movimento, ocorrendo frequentemente apenas num lado, causando alterações motoras assimétricas.

A presente investigação estudou as hormonas libertadas na corrente sanguínea pela glândula pituitária que, semelhante aos efeitos das lesões cerebrais, causam postura assimétrica em ratos saudáveis. Uma vez que esse grupo de hormonas pode desencadear a contração muscular da perna esquerda posterior e outro da direita, o objetivo da investigação era descobrir se as hormonas hipofisárias podiam mediar os efeitos assimétricos das lesões cerebrais.

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Metodologia da investigação in vivo

Os ratos escolhidos para integrar o ensaio tinham a conexão entre o cérebro e os segmentos da medula espinhal, que controlam os membros posteriores, removidos cirurgicamente, interrompendo a transmissão de mensagens elétricas do cérebro para os músculos das pernas traseiras.

Para surpresa dos investigadores, as lesões cerebrais num dos lados do cérebro desses animais ainda levavam à postura assimétrica, com contração da perna do lado oposto do corpo. Efeitos estes que foram abolidos quando a glândula pituitária foi extirpada. A assimetria postural surgiu quando o soro sanguíneo de ratos feridos foi injetado em animais saudáveis.

Com a administração das hormonas hipofisárias ß-endorfina e a Arg-vasopressina, responsáveis por causar o efeito de contração dos membros, a ratos sem lesões cerebrais, foi possível descobrir que eles desenvolveram contração do membro inferior do lado direito, mas não do membro posterior esquerdo.

Em seguida, os investigadores tentaram perceber o que aconteceria se dessem a ratos com lesão cerebral do lado esquerdo, medicamentos que bloqueiam os efeitos destas duas hormonas. Concluíram, então, que os animais não desenvolveram problemas de movimento do lado direito, como seria de esperar.

Nova abordagem no tratamento de lesões cerebrais

Os diferentes experimentos sugerem que as hormonas desempenham um papel essencial na sinalização do cérebro para a medula espinhal e que, as pequenas moléculas que inibem essas hormonas, podem bloquear os défices vistos no lado direito após uma lesão no hemisfério esquerdo do cérebro.

Os resultados mostram que os neurónios da medula espinhal não são controlados apenas pelos tratos neurais que descendem do cérebro, mas também por hormonas que transmitem sinais específicos dos lados, após lesões cerebrais.

A interpretação das recentes descobertas e as suas implicações biológicas exigem cautela, sendo ainda necessário verificar a presença deste fenómeno noutros modelos animais. Se os resultados forem confirmados, estamos perante uma nova abordagem no tratamento de problemas de movimento após um AVC ou lesões cerebrais.

Nikolay Lukoyanov, do Departamento de Biomedicina da FMUP, é coautor da pesquisa e afirma que a expetativa, com a confirmação destes resultados, é de tratar pacientes com lesões cerebrais semelhantes, com medicamentos que bloqueiam os efeitos destas hormonas, com objetivo de melhorar a sua condição física.

A equipa conta ainda, com a investigadora Liliana S. Carvalho do i3S e do Departamento de Biomedicina da FMUP, coautora do artigo, e também com os investigadores Hiroyuki Watanabe, Olga Kononenko e Daniil Sarkisyan, do Departamento de Biociências Farmacêuticas da Universidade de Uppsala, na Suécia, entre outros.

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