Como lidar com os efeitos da COVID-19 na saúde mental das crianças

A ansiedade, depressão e automutilação aumentaram durante a pandemia. Descubra o que dizem os especialistas e quais são as intervenções necessárias.

Um pequeno grupo de crianças brinca ao ar livre com distanciamento social no parque de uma escola primária em Manhattan, no dia 1 de outubro de 2020.

Fotografia de Craig Ruttle, Redux
Publicado 21/10/2021, 12:40

Todos os dias, Emily Herring recebe crianças com problemas: um rapaz que foi expulso da aula após uma explosão de raiva, uma criança cujo pai morreu de COVID-19 e outra que tem medo de infetar os avós que vivem com ela. Mas também há ocasiões em que Emily Herring está com crianças que só precisam de conversar.

Emily Herring faz parte de um grupo de 101 coordenadores de serviços de saúde mental que estão a trabalhar num programa piloto que foi lançado em outubro de 2020 nas escolas públicas do Alabama. Emily Herring e um estagiário prestam serviços a 1.600 crianças – desde o infantário ao ensino secundário – em quatro escolas de Fairfield City. Localizada a cerca de 10 minutos de carro de Birmingham, Fairfield City é um distrito de minorias de baixo rendimento onde os alunos enfrentam violência e outros desafios que agora foram agravados pela pandemia. Emily Herring compara esta situação a um curto-circuito elétrico.

Durante o último ano, Emily Herring diz que testemunhou “um aumento maciço nos casos de depressão, tendências suicidas e comportamentos de automutilação”. Esta tendência reflete o que pais e educadores nas escolas públicas e privadas têm relatado nos EUA – a pandemia afetou seriamente a saúde mental das crianças.

Os especialistas sublinham que a saúde mental das crianças e adultos tornou-se numa epidemia dentro da pandemia. De acordo com uma sondagem feita recentemente nos EUA pelo Hospital Pediátrico C.S. Mott, cerca de 46% dos pais dizem que os seus filhos adolescentes desenvolveram uma nova condição de saúde mental ou pioraram uma condição já existente desde o início da pandemia, com as raparigas a terem mais propensão para a ansiedade e depressão do que os rapazes. Cerca de 75% dos pais dizem que os filhos não interagem da mesma forma com os amigos.

Com mais de 730.000 mortes  documentadas nos EUA devido à COVID-19, muitos adolescentes estão agora de luto pela perda de pais, amigos ou familiares. Algumas crianças vivem com pessoas que sofrem de sintomas de COVID-19 de longa duração. Muitos pais perderam o emprego e as suas famílias estão agora mergulhadas em dificuldades financeiras; e muitos pais também estavam – e ainda estão – muito stressados, afetando a sua disponibilidade para ajudar os filhos que também sentem dificuldades.

“Este trajeto tem sido muito difícil para as crianças e adolescentes”, diz Jamie Micco, terapeuta cognitivo-comportamental do Centro Concord em Massachusetts.

Os problemas que as crianças enfrentam continuam a evoluir, pois as vacinas permanecem indisponíveis para os menores de 12 anos e as famílias enfrentam novos desafios com o regresso às aulas. Porém, devido à pandemia, houve um despertar coletivo sobre a importância da saúde mental no bem-estar geral e o estigma está lentamente a desaparecer. As pessoas já falam sobre saúde mental ao telefone, durante o jantar, nas chamadas via Zoom e em lugares onde, até há pouco tempo, este assunto era tabu. Os agrupamentos escolares adotaram “dias de saúde mental” e alguns incluem agora a sensibilização sobre saúde mental nos seus programas, uma ação que pode ter benefícios duradouros. As crianças também estão mais abertas quando precisam de pedir ajuda.

“Muitos dos nossos alunos que nunca iriam procurar ajuda vêm agora ao meu gabinete e dizem que estão desesperados”, diz Emily Herring. “Quase todos os dias recebo alunos que dizem que nunca tinham falado sobre isto com ninguém.”

Escassez de recursos para a saúde mental

Durante o primeiro ano da pandemia, as doenças mentais entre crianças e adolescentes aumentaram significativamente pelo mundo inteiro, de acordo com uma análise publicada recentemente na revista JAMA Pediatrics.

As disrupções devido à pandemia começaram a gerar ansiedade e depressão à medida que as atividades diárias se desmoronavam. Para além da ausência de atividades desportivas, musicais e outras atividades extracurriculares, as coisas foram agravadas pela ausência de eventos marcantes, como festas de aniversário, bailes de finalistas e formaturas. O isolamento social tem sido particularmente difícil para os adolescentes, que estão num estágio de desenvolvimento mental em que procuram a independência dos pais e a companhia dos amigos. “Isto estava definitivamente a deixar as crianças infelizes”, diz Jamie Micco.

As mensagens de texto e as redes sociais revelaram ser um pobre substituto para as relações presenciais. O fluxo interminável de publicações no Snapchat, Instagram e TikTok – onde as crianças se sentem pressionadas para dar sempre o melhor de si – por vezes transforma-se em cyberbullying. Eventualmente, alguns adolescentes ficaram cansados das videochamadas, das mensagens de texto e de não poderem estar com as pessoas, “fazendo com que as crianças ficassem mais tempo sem socializar”, diz Jamie Micco.

Tanto terapeutas como hospitais começaram a receber mais crianças devido a pensamentos e tentativas de suicídio, bem como casos de raparigas que se estão a magoar com cortes, queimaduras e outras formas de automutilação. Nos EUA, o suicídio é agora a segunda principal causa de morte entre os jovens dos 15 aos 19 anos.

Um em cada quatro pais de adolescentes procurou ajuda profissional para os seus filhos, e muitas crianças melhoraram com os tratamentos e adaptaram-se bem ao chamado novo normal. Mas a pandemia colocou a nu a escassez de opções, dado que os hospitais e centros de tratamento estão sobrecarregados.

“Existe claramente uma escassez de profissionais qualificados de saúde mental”, diz Heather Potts, psicóloga infantil do Hospital Pediátrico de Boston, “e a complexidade dos casos que estamos a observar é definitivamente mais grave do que costumava ser”.  

Nos EUA, a necessidade de cuidados atingiu um ponto em que terapeutas e clínicas tiveram de encerrar as suas listas de espera para novos pacientes. As crianças com problemas têm inundado as salas de emergência e o número de pacientes adolescentes aumentou 31%. Muitos adolescentes ficaram nos hospitais durante dias ou semanas à espera de uma cama numa enfermaria psiquiátrica ou centro de tratamento.

É uma crise em curso por todo o país, mesmo nas áreas urbanas com mais capacidade. Cerca de 174 crianças estão atualmente à espera nas salas de emergência do estado de Massachusetts. “Creio que já ultrapassámos a capacidade de receber crianças [no Hospital Pediátrico de Boston] há quase um ano, e há crianças que continuam à espera de uma cama para serem internadas”, diz Heather Potts.

O stress do regresso às aulas

Este ano, à medida que mais escolas abrem com aulas presenciais, algumas crianças dizem que tem sido um grande alívio sair de casa e voltar a estar com os amigos. Mas esta transição gerou uma nova fase de preocupações com a saúde mental.

Muitas crianças estão preocupadas com o facto de estarem no meio de multidões, receiam chegar atrasadas à escola, temem não estar em forma para praticar desporto e não sabem como vão ser as relações com os amigos. Ter de acordar, vestir e preparar para ir para a escola, em vez de vestir uma camisola e sentar à frente do computador em casa também cria ansiedade. “Creio que muitos dos nossos alunos à distância mal saíram de casa durante 18 meses”, diz Emily Herring.

Algumas crianças continuam preocupadas com o vírus; nos EUA, o número de infeções entre crianças permanece elevado. Cerca de três em cada cinco pais de alunos do ensino básico e secundário dizem que os seus filhos sentir-se-iam mais seguros se a maioria dos alunos e professores estivessem vacinados contra a COVID-19.

Para as crianças mais novas, que ainda não podem ser vacinadas, as restrições devido à pandemia são stressantes – como o uso de máscara, o distanciamento social e evitar tocar nas outras crianças durante o recreio.

As próprias escolas que antes da COVID-19 já tinham adotado métodos de sensibilização sobre a saúde mental não ficaram imunes aos impactos da pandemia. Mary Beth Ricks, diretora da Escola Montessori Bowman em Palo Alto, na Califórnia, era professora quando ocorreu o tiroteio na escola de Columbine e os ataques terroristas do 11 de setembro. Estas experiências, juntamente com os primeiros dados sobre os efeitos da pandemia nas crianças, levantaram um alerta vermelho para Beth Ricks de que a COVID-19 poderia desencadear uma crise de saúde mental.

Beth Ricks criou uma linha aberta online nas noites de terça-feira para os pais; a maioria participa todas as semanas. E todas as quartas-feiras os alunos têm aulas com um terapeuta. Quando a escola reabriu após quatro meses de ensino virtual, os professores receberam formação para reconhecer os primeiros sinais de ansiedade e depressão.

Apesar das turmas serem agora mais pequenas e de toda a atenção prestada ao bem-estar emocional dos alunos, os níveis de ansiedade nunca estiveram tão elevados, diz Beth Ricks. Há mais raparigas com distúrbios alimentares e geralmente também há mais revolta. Quando Beth Ricks pergunta às crianças porque é que gritaram ou usaram os punhos, elas costumam dizer que estão “cansadas da COVID”.

As aptidões sociais das crianças também foram afetadas durante os longos meses de confinamento, fazendo com que uma simples conversa pareça estranha e dificultando a resolução de conflitos. Para além disso, os nossos níveis de stress estão no limite, diz Heather Potts. “Temos uma capacidade cognitiva limitada para gerir as coisas e, embora muitos de nós estejamos a tentar seguir em frente, existe o stress adicional do novo normal.” Heather Potts também diz que tem observado muita irritabilidade, discussões e atitudes de revolta.

“A raiva é uma espécie de armadura. Algumas pessoas sentem que é mais seguro demonstrar raiva do que tristeza ou preocupação, algo que alguns dos meus alunos chamam emoções fracas”, diz Heather Potts. Emily Herring e os seus colegas também têm testemunhado um aumento dramático nas lutas entre os alunos dos agrupamentos escolares do Alabama.

“Acredito que todos estes traumas acabaram por se acumular, e isso é agora expresso sob a forma de agressão”, diz Emily Herring.

Intervenções inovadoras e mitigar o estigma

Os especialistas estão particularmente preocupados com as consequências emocionais a longo prazo da pandemia. Sharon Hoover acredita que o pior ainda está para vir – quanto mais tempo o trauma se arrastar, maior será o impacto. Sharon Hoover também acredita que o stress e os encargos financeiros podem resultar em mais afastamento familiar e divórcios. Também já há evidências de um aumento no abuso de substâncias.

“Não quero parecer demasiado pessimista, mas sem uma intervenção, as crianças vão sofrer mais e os efeitos vão sentir-se a longo prazo”, diz Sharon Hoover.

As graves consequências a longo prazo do stress crónico na infância já são investigadas há décadas. Estes problemas podem alterar a estrutura do cérebro e do sistema nervoso, afetando a aprendizagem, a memória, a capacidade de tomada de decisões e muito mais. Para algumas crianças, estes fatores manifestam-se em comportamentos perturbadores ou agressivos, notas baixas, abuso de drogas ou álcool e tendência para formar relações nocivas. O stress também pode provocar problemas de saúde ao longo da vida, desde doenças cardíacas a cancro.

Para combater este efeito, muitas escolas têm procurado ajuda ao nível da saúde mental, diz Sharon Hoover, professora de psiquiatria infantil da Escola de Medicina da Universidade de Maryland. Isto é importante, porque nos EUA cerca de 75% das crianças só têm cuidados de saúde mental nas escolas, e têm seis vezes mais probabilidades de concluir os tratamentos e os programas oferecidos nas escolas.

Alguns estados norte-americanos também iniciaram programas que usam “aprendizagem emocional social”. Estes programas ensinam empatia e responsabilidade na tomada de decisões, e ajudam as crianças a compreender e a gerir as suas emoções. Algumas comunidades formaram professores para incluir estes conceitos em todas as disciplinas. O ensino de exercícios de respiração e atenção plena ajuda os alunos a perceber quando é que os seus termómetros emocionais ou níveis de angústia começam a aumentar, para que possam aplicar estas técnicas de relaxamento.

“Enquanto lidamos com uma pandemia global, é mais importante do que nunca fornecer às crianças o apoio e as ferramentas necessárias para fomentar resiliência”, diz Vanessa LoBue, professora de psicologia na Universidade Rutgers, em Newark.

Alguns agrupamentos escolares chegam até a avaliar o desenvolvimento socioemocional nas notas, juntamente com a matemática e capacidades de leitura, diz Sharon Hoover. Também ficou demonstrado que as aulas presenciais melhoram as notas dos alunos em cerca de 11%.

A Administração Federal de Abuso de Substâncias e Serviços de Saúde Mental financiou um curso de cinco horas para todos os professores nos Estados Unidos, uma formação que visa apoiar os alunos no regresso à escola. O Congresso destinou 190 mil milhões de dólares ao longo de três anos para as escolas, com o objetivo de ajudar os alunos a recuperar dos problemas de aprendizagem e fomentar o desenvolvimento socioemocional. Contudo, estes programas deviam ser contínuos, pelo que Sharon Hoover e os seus colegas receiam que este investimento na saúde mental desapareça quando o financiamento acabar.

Enquanto as crianças enfrentam dificuldades, alguns pais procuram a ajuda de um terapeuta comportamental para trabalhar com os seus filhos individualmente ou em sessões de terapia familiar. Mas são necessárias abordagens mais especializadas para alguns problemas mais específicos, como os casos de automutilação. Esta terapia comportamental individual ou em grupo ensina as crianças a gerir as suas emoções e a lidar com o stress.

Outra das estratégias utilizadas pelos pais e professores passa pela exposição das crianças à natureza, porque o tempo passado ao ar livre está corelacionado com a diminuição de problemas comportamentais e emocionais. (Descubra como um pouco de silêncio pode ajudar na saúde mental das crianças.)

O advento da telemedicina tem sido um pequeno vislumbre de esperança durante a pandemia, porque aumenta bastante o acesso aos cuidados de saúde mental, sobretudo nas comunidades rurais e outras comunidades carentes. Este modelo também disponibiliza terapias para as crianças cujos pais não as conseguem levar a uma consulta. As crianças podem assim falar com o seu terapeuta a partir de casa.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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