Como o comprimido antiviral da Merck pode mudar o paradigma para a COVID-19

Os resultados promissores dos ensaios clínicos sugerem que este medicamento pode tornar-se no primeiro tratamento autorizado para uso pela agência do medicamento dos EUA.

Publicado 6/10/2021, 11:42
Comprimido da Merck

O antiviral oral Molnupiravir da Merck reduziu o risco de hospitalização ou morte em pacientes com casos ligeiros ou moderados de COVID-19.

Fotografia de Merck

Um novo medicamento da empresa Merck reduz significativamente o risco de hospitalização e morte em pessoas que o tomam nos estágios iniciais da doença COVID-19, de acordo com os resultados provisórios de um enorme estudo divulgado na semana passada. Este é o primeiro antiviral oral considerado eficaz contra o novo coronavírus.

As pessoas que tomaram este medicamento, designado Molnupiravir – quatro comprimidos duas vezes por dia durante cinco dias – cinco dias depois de apresentarem sintomas, reduziram para metade a probabilidade de hospitalização em relação aos pacientes que tomaram um placebo. Estes pacientes também apresentaram menor probabilidade de morte, com oito mortes relatadas no grupo que tomou um placebo no prazo de um mês de tratamento e nenhuma morte no grupo que recebeu o medicamento.

“Ter um comprimido fácil de administrar em casa seria ótimo. Se isto estivesse disponível numa farmácia, mais pessoas podiam obtê-lo”, diz Albert Shaw, especialista em doenças infeciosas da Escola de Medicina de Yale em New Haven, no Connecticut, que não esteve envolvido na investigação. Todos os medicamentos antivirais atualmente disponíveis, incluindo o Remdesivir e os anticorpos monoclonais, têm de ser administrados via intravenosa em ambiente médico. Os anticorpos monoclonais são muito mais eficazes contra a COVID-19 e reduzem até 85% o risco de hospitalização e morte, mas esses tratamentos custam quase três vezes mais do que o Molnupiravir.

Como funcionam os antivirais

Os medicamentos antivirais são usados contra diversos vírus, inclusive herpes e gripe. Estes medicamentos tiram vantagem do facto de os vírus precisarem de se replicar no interior das células de uma pessoa para as adoecer. Os antivirais interrompem o processo de replicação, impedindo o progresso da doença.

O medicamento da Merck funciona através da introdução de blocos de construção semelhantes ao RNA no genoma do vírus à medida que este se multiplica, criando inúmeras mutações, interrompendo o processo de replicação e matando o vírus.

Evitar a multiplicação do vírus é importante porque, quanto mais este se replica, destruindo célula após célula, mais doente a pessoa fica, diz Waleed Javaid, epidemiologista e diretor de prevenção e controlo de infeções do Mount Sinai Downtown em Nova Iorque, que não esteve envolvido no estudo. Para além disso, quando uma quantidade suficiente de vírus está no corpo, o sistema imunitário pode entrar em sobrecarga. “A determinada altura, o corpo deteta um vírus desconhecido e vai usar tudo o que tem contra esse vírus, como um tanque a aproximar-se de um pequeno alvo”, diz Waleed. Isto ajuda o corpo a eliminar o vírus, mas às vezes pode provocar danos secundários fatais por todo o corpo.

A investigação, que foi realizada em vários locais de todo o mundo, foi interrompida precocemente porque os resultados eram muito promissores, diz a Merck. O medicamento foi até eficaz contra variantes como a Delta e a Mu. Com base na análise provisória de 775 pessoas, a empresa planeia enviar um pedido de Autorização de Uso de Emergência para a agência do medicamento dos EUA, bem como para os órgãos reguladores de outros países, na esperança de que este medicamento possa ficar disponível. Ainda não se sabe quando é que isso vai acontecer, mas o governo dos Estados Unidos já concordou em comprar 1.7 milhões de tratamentos a 700 dólares cada, de acordo com a Merck.

Quem pode obter o medicamento?

Também não se sabe quem poderá usar este medicamento. O estudo incluiu apenas pessoas que estavam doentes e não vacinadas, e que tinham pelo menos um fator de risco para desenvolver um caso grave de COVID-19, diz Aaron Weinberg, diretor nacional de investigação clínica da Carbon Health, uma provedora de cuidados primários e urgentes, e investigador principal do estudo. Isto inclui pessoas com mais de 60 anos, pessoas com obesidade, imunocomprometidos ou com doenças cardíacas ou pulmonares subjacentes, entre outras condições.

Se a agência do medicamento dos EUA autorizar este antiviral, poderá limitar a sua disponibilização a pessoas com casos semelhantes aos dos participantes na investigação, diz Waleed.

Apesar de este medicamento parecer promissor, trata-se de um tratamento e não é profilático como a vacina. Este medicamento não significa que as pessoas podem abdicar da vacina, diz Albert Shaw. Algumas das pessoas que tomaram estes comprimidos continuaram a necessitar de hospitalização. Embora os efeitos secundários neste estudo tenham sido ligeiros – geralmente problemas gastrointestinais com taxas comparáveis nos grupos de tratamento e de placebo – podem surgir problemas quando o medicamento for administrado de forma mais abrangente, diz Albert. Enquanto isso, centenas de milhões de pessoas já foram vacinadas sem grandes consequências.

Ainda assim, os resultados deste estudo devem ser celebrados, diz Waleed Javaid. “Salvar oito vidas é um feito, assim como reduzir a necessidade de hospitalização para metade. Talvez outro medicamento em estudo venha a ser mais eficaz, reduzindo a hospitalização em 80% ou até 100%. Mas isto é melhor do que quaisquer antivirais orais existentes até agora, que eram zero.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados