Estudo pioneiro descobre como reduzir produção de gordura visceral no ser humano

Cientistas descobrem interações neuroimunes capazes de queimar a gordura visceral.

Publicado 8/10/2021, 12:40
Gordura visceral - estudo pioneiro

O estudo pioneiro revela novas alternativas terapêuticas em relação à obesidade e na prevenção do cancro.

Fotografia de Lynn Johnson

Equipa que inclui cientistas portugueses descobriu aquele que é o primeiro processo neuroimune conhecido, através do qual sinais cerebrais comandam a função imunológica nos depósitos de gordura visceral, oferecendo assim novas abordagens ao combate à obesidade e às doenças a ela associadas.

A obesidade e pelo menos 13 tipos de cancro, incluindo o cancro da mama e o cancro colorretal, os mais prevalentes em Portugal, bem como doenças cardiovasculares, estão relacionadas e continuam a ser uma das principais causas de morte em todo o mundo.

A equipa de cientistas do Centro Champalimaud propôs-se a explorar os mecanismos que reduzem naturalmente o excesso de gordura visceral, que além de perigoso é também muito difícil de eliminar, na expectativa de descobrir potenciais aplicações clínicas.

A investigação começou pelas células imunes ILC2

São os sinais dos neurónios simpáticos e das células do sistema imunológico que regulam os adipócitos e, assim, contribuem para a biologia do tecido adiposo. As interações entre os sistemas nervoso e imunológicos surgiram como importantes reguladores da defesa e inflamação do hospedeiro.

A investigação revelou-se um êxito, com estudos realizados em ratos, que permitiram identificar a cadeia de comando e as mensagens moleculares que são trocadas em cada etapa. Identificado o circuito local para o processo de queima de gordura, os investigadores procuram agora perceber o que desencadeia a atividade neural nos depósitos de gordura visceral.

Os cientistas interessaram-se particularmente num tipo específico de células imunes, chamadas células linfoides inatas do tipo 2 (ILC2). Estas são essenciais a várias funções imunológicas, em diferentes tecidos e órgãos, incluindo a manutenção do bem-estar geral do tecido adiposo. No entanto, eram ainda desconhecidas que células controlavam as ILC2 na gordura visceral ou quais as mensagens moleculares que utilizavam para comunicar entre si.

Os relatórios anteriores revelaram que o pulmão é o sistema nervoso que controla diretamente a atividade das ILC2 e, por isso, a equipa esperava encontrar aqui um mecanismo semelhante. Contudo, descobriram que os neurónios e as células do sistema imunológico não comunicavam e, assim, ao investigar outros candidatos no tecido, encontraram um intermediário inesperado.

Descoberto o mediador da comunicação neuroimune na gordura visceral 

O trabalho de investigação, cujo artigo foi publicado na revista Nature, permitiu descobrir que as células mesenquimais (MSC) são o mediador crítico da comunicação neuroimune na gordura visceral que, até então, eram vistas como um mero espectador.

Até há cerca de uma ou duas décadas, as MSC eram encaradas, essencialmente, como produtoras da estrutura do tecido sobre a qual outras células depois trabalhavam. Agora sabe-se que desempenham várias funções ativas essenciais.

Assim, após uma série de experiências complexas, foi identificada a cadeia de comando e as mensagens moleculares que são trocadas, etapa por etapa. As MSC recebem sinais neuronais, que enviam depois uma mensagem para as ILC2, à qual estas respondem ordenando que as células de gordura acelerem o seu metabolismo.

A origem da atividade neural nos depósitos de gordura visceral

Os cientistas seguiram a investigação questionando agora o que, em primeira instância, desencadeia a atividade neural nos depósitos de gordura visceral, isto é, o foco direcionou-se para tentar perceber qual seria a estrutura do cérebro que estaria no topo da cadeia de comando.

Uma região dentro do hipotálamo, chamada PVH – Núcleo paraventricular do hipotálamo, foi identificado como a origem. Situa-se perto da base do cérebro e é o centro do controlo de um conjunto diversificado de processos, que vão do metabolismo à reprodução e às funções gastrointestinais e cardiovasculares.

Este é o primeiro exemplo claro de um circuito neuronal cruzado que traduz as informações do cérebro numa função imunológica relacionada com a obesidade e que levanta muitas outras questões, tais como, o que leva o PVH a ordenar a queima de gordura, se depende de sinais metabólicos internos, entre outras.

A equipa chegou à conclusão de que os resultados apresentam várias abordagens potenciais para a manipulação do processo de queima de gordura visceral, o que lhe permite debruçar agora sobre formas de usar esta descoberta para combater a obesidade visceral, com objetivo de reduzir o risco de doenças cardiovasculares e cancro.

Nasce uma nova startup

A par do laboratório que continua concentrado em questões de investigação fundamentais, nasce a LiMM Therapeutics, uma startup do Centro Champalimaud que irá dar continuidade às pesquisas sobre a aplicação deste novo conhecimento.

Os cientistas aventuram-se no desconhecido, com um novo eixo de regulação, marcado por etapas, que revelam muitos pontos de acesso ao metabolismo da gordura visceral. A equipa parte do pressuposto de que a comunicação dos neurónios com o sistema imunitário poderá ser diferente de indivíduo para indivíduo, embora se verifique que as células imunitárias são menos abundantes em indivíduos obesos.

Com conhecimentos sobre a linguagem que as células comunicam, através de substâncias químicas, pressupõe-se que para aumentar a atividade destas células imunitárias no tecido visceral seria, de uma forma terapêutica, introduzir “palavras” ou uma “língua” no nosso organismo que seja compreendida pelas células mesenquimais. Como resultado, as células imunitárias na gordura visceral vão interpretar isso com uma mensagem de ação e passam a estar ativadas, aumentando a atividade metabólica e a queima de gordura visceral.

Gordura visceral, de protetora a prejudicial

A gordura visceral, apesar de ter uma importante função no nosso organismo, uma vez que protege os órgãos, quando ultrapassa o limite considerado saudável, torna-se prejudicial à saúde do ser humano. Essa gordura acumula-se na cavidade abdominal, entre órgãos como o estômago, o fígado e o pâncreas.

O funcionamento das hormonas produzidas pelo nosso organismo também pode ser afetado pela gordura visceral, já que podem ser consideradas como um órgão ou glândula endócrina que produz hormonas que afetam a nossa saúde de forma negativa.

A gordura visceral está associada a problemas de saúde como enfarte do miocárdio, doença cardíaca, resistência à insulina, pressão arterial elevada, acidente vascular cerebral, cancro colorretal e da mama, doença de Alzheimer e colesterol LDL elevado. Este tipo de gordura pode ser reduzido através de exercício físico e dieta alimentar, por exemplo.

As descobertas resultantes deste estudo mudam radicalmente o paradigma de interpretação da obesidade, revelando que existem outras formas de completar aquilo que é a ação terapêutica e de compreender também o processo que está inerente ao desenvolvimento da obesidade ou acumulação de gordura visceral, ou até mesmo a redução dessa gordura, além da relevância também na prevenção de alguns tipos de cancro.

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