‘Momento histórico’: A OMS recomenda oficialmente a primeira vacina contra a malária

A recomendação marca o início de um lançamento muito antecipado para este tipo de vacina, que os especialistas dizem poder melhorar a saúde de milhões de crianças em risco.

Publicado 11/10/2021, 11:21
Vacina contra a malária

Uma profissional de saúde prepara uma dose da vacina contra a malária na cidade de Ndhiwa no oeste do Quénia, no condado de Homa Bay, no dia 13 de setembro de 2019.

Fotografia de Brian Ongoro, AFP via Getty Images

Para milhões de pessoas, a malária cria um cenário sombrio de morte, desgosto e perda: a cada sete segundos há um novo caso de malária e, a cada dois minutos, a doença atinge outra vítima com menos de cinco anos. É por esta razão que os especialistas em saúde pública rejubilaram quando a Organização Mundial de Saúde tomou a decisão histórica de recomendar a primeira vacina contra a malária.

Os anos de ensaios clínicos mostram que esta vacina – conhecida por RTS,S/AS01 ou Mosquirix – é segura e ajuda a proteger contra a doença, sobretudo quando combinada com outras ferramentas de combate à malária. Com uma eficácia de 56% durante 12 meses, a RTS,S não tem a eficácia surpreendente de outras vacinas modernas. Contudo, o alvo da vacina – o parasita Plasmodium falciparum – é bastante mais complexo do que um vírus.

“Temos uma série de coisas à nossa disposição para combater a malária e todas são usadas em conjunto: mosquiteiros, spray, quimioprevenção”, diz Sean Murphy, um dos criadores da vacina contra a malária da Universidade de Washington em Seattle. “Esta vacina não consegue substituir todas essas ferramentas.”

Para além disso, a recomendação da OMS não significa uma utilização generalizada da vacina RTS,S. Em vez disso, esta recomendação marca o início de uma implementação mais ampla da vacina e abre caminho para que, com a assistência da OMS, cada país africano emita as suas próprias aprovações para a vacina. Chegar às dezenas de milhões de doses anuais necessárias vai exigir milhares de milhões de dólares de doações governamentais e filantrópicas para a organização internacional sem fins lucrativos GAVI Vaccine Alliance, que coordena o financiamento dos programas de vacinação nos países em desenvolvimento.

Partindo do princípio que a vacina vai ser lançada em breve, os benefícios podem ser transformadores em grande escala. Num estudo publicado em novembro do ano passado na PLoS Medicine, os investigadores descobriram que se fossem administradas anualmente e de forma eficiente 30 milhões de doses da RTS,S em sub-regiões de 21 países africanos, a vacina poderia evitar entre 2.8 milhões e 6.8 milhões de casos de malária todos os anos – e salvar a vida de 11.000 a 35.000 crianças menores de cinco anos.

“Eu ansiava pelo dia em que teríamos uma vacina eficaz contra esta doença terrível”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em conferência de imprensa na quarta-feira. “Hoje chegou esse dia, um dia histórico.”

Projetar a vacina

O mundo fez muitos progressos na luta contra a malária nas últimas duas décadas graças à utilização generalizada de mosquiteiros, diagnósticos rápidos e o uso sazonal de medicamentos de prevenção contra a malária. Entre 2000 e 2015, com todas estas intervenções, a incidência de casos de malária entre as populações em risco desceu 27%. Porém, mais recentemente, este progresso estagnou. Entre 2015 e 2020, os casos diminuíram menos de 2%.

Em 2019, o mundo testemunhou cerca de 229 milhões de casos de malária, 94% dos quais aconteceram em África. Também se registaram milhões de casos de malária na Ásia, Médio Oriente e nas Américas. Em suma, estes casos resultaram na morte de cerca de 409.000 pessoas, dois terços das quais eram crianças pequenas.

Para impulsionar novamente um progresso significativo contra a malária, a OMS está ansiosa para juntar a vacina ao conjunto de ferramentas já existente. Neste momento estão em desenvolvimento 140 potenciais vacinas contra a malária. Até à chegada da RTS,S, nenhuma tinha obtido uma recomendação formal da OMS.

Projetar uma vacina contra a malária é extremamente complicado devido à complexidade da doença. A maioria dos casos de malária é provocada pelo parasita Plasmodium falciparum, cujo genoma contém mais de 5.000 genes, muitos mais do que os meros 12 genes que circulam no interior do SARS-CoV-2, o coronavírus responsável pela doença COVID-19. Para complicar ainda mais as coisas, o parasita Plasmodium passa por vários estágios conforme as infeções se propagam da corrente sanguínea para o fígado e, de seguida, novamente para a corrente sanguínea, quando o parasita infeta os próprios glóbulos vermelhos.

“Os vírus são certamente muito complexos... [mas] quando estamos a desenvolver uma vacina para um vírus as coisas são muito diretas”, diz Jason Kindrachuk, virologista da Universidade de Manitoba em Winnipeg. “Com os parasitas, por outro lado, estamos a falar sobre organismos que respondem ao ambiente e que conseguem mudar e adaptar.”

“Porque é que não tivemos uma vacina mais cedo? Não foi certamente por falta de tentativas”, acrescenta Jason.

Durante décadas, os investigadores concentraram-se num estágio do Plasmodium semelhante ao de um esporo – chamado esporozoíto – que entra primeiro na corrente sanguínea e, eventualmente, segue o seu caminho até ao fígado. Em 1983, os cientistas descobriram que os esporozoítos estão cobertos por uma proteína chamada CSP que provoca uma forte resposta imunitária. Em 1987, investigadores da empresa farmacêutica norte-americana GlaxoSmithKline e do Instituto de Pesquisa Walter Reed do Exército dos EUA decidiram fazer uma vacina com base nesta proteína.

A ideia era projetar proteínas transportadoras – neste caso, uma proteína de superfície do vírus da hepatite B – que seriam embutidas com pedaços de CSP. Estas proteínas iriam depois desenvolver-se em bolhas microscópicas chamadas “partículas semelhantes a vírus”, que iriam acionar o sistema imunitário para produzir anticorpos contra a CSP. Desta forma, qualquer esporozoíto de Plasmodium apanhado com CSP provocaria uma resposta imunitária imediata. (Quem é vacinado contra o papilomavírus humano (HPV) ou hepatite B recebeu uma vacina baseada numa partícula semelhante a um vírus que é personalizada para esses patógenos em específico.)

Depois de um promissor ensaio clínico feito com humanos em 1996, os investigadores passaram mais duas décadas a desenvolver ensaios clínicos em países africanos, publicando os resultados principais do ensaio de fase três em 2015. A razão para um processo tão longo prende-se com questões de segurança. A população-alvo da vacina RTS,S engloba crianças dos 5 aos 18 meses, mas para provar a segurança e eficácia da vacina, os cientistas tiveram de começar com ensaios clínicos em adultos e avançar para grupos etários mais jovens.

“Algumas pessoas criticaram o tempo que demorámos, mas sentimos que, na realidade, a segurança destas crianças e a sua vulnerabilidade era tal que precisávamos de avançar com muita, muita cautela”, diz Joe Cohen, um dos responsáveis pela criação da vacina RTS,S enquanto investigador da GlaxoSmithKline.

Desde 2019, mais de 800.000 crianças no Gana, Quénia e Malaui receberam pelo menos uma dose da vacina através de um programa piloto da OMS. Até agora, este programa já registou uma redução de 30% nos casos graves de malária entre as crianças vacinadas, para além de reduções devido a outras intervenções, como por exemplo a instalação de redes mosquiteiras.

Agora, Joe Cohen está muito agradado com a recomendação da OMS para uma vacina que ele ajudou a criar durante décadas de estudos e testes. “Não sei como encontrar as palavras certas. Que alívio e que emoção extraordinária saber que em breve a vacina poderá ser distribuída de forma abrangente e ter um impacto tremendo na saúde pública em África.”

Camadas de proteção

Em comparação com as vacinas incrivelmente eficazes contra a COVID-19 e outras mais comuns, a RTS,S pode parecer uma coisa modesta. Os ensaios de fase três descobriram que a vacina tem 56% de eficácia em crianças dos 5 aos 17 meses no primeiro ano após a vacinação. Num período de quatro anos, a eficácia da vacina desce para cerca de 36%.

Mary Hamel, epidemiologista da OMS que dirige o Programa de Implementação de Vacinas da Malária, salientou em entrevista feita em maio que a RTS,S é o suficiente para fazer a diferença na luta contra a malária. “Para colocar isto em perspetiva, [a RTS,S tem] quase a mesma eficácia que um mosquiteiro, e registámos um declínio acentuado na morbilidade e mortalidade da malária devido aos mosquiteiros”, disse Mary. “A vacina é algo que podemos acrescentar a estas ferramentas.”

Os benefícios desta adição podem ser substanciais. Num estudo publicado no mês passado na revista New England Journal of Medicine, investigadores liderados por Daniel Chandramohan, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, descobriram que a combinação entre a RTS,S e os medicamentos preventivos contra a malária podem reduzir os riscos de casos graves de malária em 70%.

O programa piloto da OMS também descobriu que mais de dois terços das crianças no Gana, Quénia e Malaui que não dormem sob a proteção de um mosquiteiro estão a beneficiar da vacina RTS,S. Se for administrada juntamente com outras vacinas infantis, um grande número de crianças que atualmente não tem acesso a outras intervenções contra a malária pode pelo menos ter a proteção da RTS,S.

“Se considerarmos os efeitos que a malária tem no desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, os benefícios da vacina ganham ainda mais relevância”, acrescenta Alejandro Cravioto, presidente do Grupo Estratégico de Especialistas em Imunização da OMS. “Uma criança que adoece repetidamente fica com marcas para o resto da vida”, disse Alejandro na conferência de imprensa realizada na quarta-feira. “Nesse sentido, é essencial ter qualquer coisa que as proteja, que as ajude a ficarem menos doentes durante esta fase do crescimento.”

Distribuição da vacina

Kate O’Brien, diretora do departamento de imunização, vacinas e produtos biológicos da OMS, disse também na quarta-feira que a GAVI iria deliberar no início de dezembro o investimento a fazer na RTS,S. Até agora, a GAVI e organizações parceiras financiaram quase 70 milhões de dólares para o programa piloto da OMS da vacina, programa que até agora já administrou 2.3 milhões de doses.

Em comunicado, a GlaxoSmithKline comprometeu-se com o fornecimento anual de até 15 milhões de doses da RTS,S caso o financiamento e as recomendações para a utilização mais vasta da vacina sejam implementadas. De acordo com o Wall Street Journal, a empresa também está a tentar transferir a produção da vacina para a empresa indiana Bharat Biotech, algo que pode vir a acontecer em 2028. A GlaxoSmithKline também se comprometeu com a venda das vacinas a um preço inferior a 5% do custo de produção.

No entanto, os debates também envolvem os regimes de dosagem. Embora o projeto piloto da OMS tenha corrido bem até agora, sobretudo considerando os desafios adicionais apresentados pela COVID-19, a vacina está atualmente a ser administrada num regime de quatro doses: três injeções num período de três meses, começando aos cinco meses de idade, e depois uma quarta dose de reforço por volta dos 18 meses. Na conferência da OMS, Kate O’Brien acrescentou que a necessidade de uma quarta dose de reforço ainda está a ser avaliada.

A longo prazo, a RTS,S não será certamente a única vacina contra a malária a receber uma recomendação formal da OMS. A organização reconhece que uma vacina com uma eficácia superior à da RTS,S salvaria vidas adicionais. A OMS também diz que, até ao ano de 2030, gostaria de ver uma vacina contra a malária com uma eficácia de 75%.

Uma atualização de nova geração da RTS,S, chamada R21, pode ser a primeira vacina a reivindicar esse título. Os estudos de laboratório da R21 começaram em Oxford em 2010 e, em 2019, os investigadores fizeram um ensaio clínico de fase dois com 450 participantes no distrito de Nanoro, no Burkina Faso – que descobriu que a R21 tinha uma eficácia notável de 77%. Há outras vacinas em desenvolvimento, incluindo algumas baseadas em parasitas “atenuados” de Plasmodium que são administradas por via intravenosa.

Apesar de ainda faltarem etapas na implementação da RTS,S e de outras vacinas contra a malária, as autoridades mundiais de saúde estão maioritariamente focadas neste novo vislumbre de esperança.

“Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas também já percorremos um longo caminho”, diz Tedros Ghebreyesus. “Esta vacina é uma dádiva para o mundo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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