Sian Proctor, a primeira mulher negra a pilotar uma nave espacial, partilha a sua experiência

A astronauta da SpaceX fala abertamente sobre a vida que passou a perseguir o sonho dos voos espaciais, as alegrias, os desafios de estar em órbita e a sua esperança por um futuro mais justo.

Publicado 18/10/2021, 12:02
Sian Proctor

Sian Proctor visita o Space Camp em Huntsville, no Alabama. Em setembro, enquanto membro da missão Inspiration4, a geocientista e artista tornou-se a primeira mulher negra a pilotar uma nave.

Fotografia de John Kraus, Inspiration4

Sian Proctor não desiste – era apenas uma questão de tempo até que ela atingisse o seu objetivo de voar até órbita. Fascinada pelos voos espaciais desde tenra idade, a geocientista de 51 anos, que também é artista e piloto de aviões, tornou-se recentemente a primeira mulher negra a pilotar uma nave espacial.

O pai de Sian Proctor ajudou a guiar as missões Apollo até órbita na estação de acompanhamento da NASA em Guam – tendo recebido um agradecimento pessoal de Neil Armstrong e uma casa repleta de recordações da NASA. Tal como Armstrong, também Sian Proctor queria ser astronauta. Para perseguir o seu sonho, Sian Proctor fez um doutoramento e adquiriu a licença de piloto e certificação de mergulho, aptidões normais para qualquer candidato a astronauta.

Em 2009, Sian Proctor chegou ao estágio final do competitivo processo de seleção de astronautas da NASA. Mas quando a NASA rejeitou a sua candidatura, parecia que os seus sonhos de visitar o espaço estavam cada vez mais longe. Em vez disso, Sian Proctor optou por uma missão análoga e, em 2013, passou quatro meses como membro da tripulação num habitat simulado de Marte no Havai.

Agora, para além de ter estado em órbita, também fez história. Sian Proctor conquistou o seu lugar na missão Inspiration4, uma missão completamente privada, impressionando um painel de avaliação com a sua arte, o seu atrevimento e os seus esforços para promover o que ela chama espaço JEDI – uma visão da exploração espacial que é justa, equitativa, diversa e inclusiva para a humanidade.

“Entre nós, são muito poucos os que foram sequer ao espaço”, diz Sian Proctor sobre a comunidade negra. “Eu só penso, uau, como é que conseguimos expandir o acesso e inspirar outras pessoas a seguirem o exemplo?”

Durante três dias em setembro, Sian Proctor e os seus companheiros de tripulação orbitaram a Terra numa cápsula Dragon da SpaceX e ajudaram a angariar mais de 200 milhões de dólares para o Hospital Pediátrico de St. Jude, sediado em Memphis. A bordo também estavam o comandante de missão Jared Isaacman, que financiou o voo; o especialista de missão Chris Sembroski, que conseguiu o seu lugar através de um sorteio; e a médica Hayley Arceneaux, sobrevivente de cancro infantil. A tripulação ouviu música, fez ciência e ficou maravilhada com o brilho do sol enquanto suportava o ambiente stressante e extremo que acompanha os voos espaciais.

Num momento em que a Semana Mundial do Espaço da ONU celebra a presença das mulheres nos voos espaciais, a National Geographic conversou com Sian Proctor sobre o voo, os seus companheiros de tripulação, o que aconteceu realmente com as falhas na casa de banho a bordo e a mensagem que Sian Proctor espera que a missão Inspiration4 consiga transmitir.

(A entrevista que se segue foi editada por motivos de extensão e clareza.)

Como é realmente a sensação de ausência de peso?

É espetacular. Sonho muitas vezes com isso. Nas duas semanas desde que regressei, pelo menos 50% das noites sonhei sobre viver no espaço, e é maravilhoso porque isso traz-me novamente aquela sensação, onde no meu íntimo é um sentimento simplesmente edificante. É difícil de descrever, mas quem já sonhou que está a voar e coisas assim, é essa sensação maravilhosa.

Gostaria de fazer novamente esta viagem?

Gostava de ficar lá mais tempo. Três dias não é suficiente. Esse é que é o problema.

Porquê?

No primeiro dia, não estava a sentir-me bem. O enjoo espacial é uma daquelas coisas pela qual muitas pessoas passam. É como um daqueles dias em que não estamos em forma. Depois, no segundo dia, sentimo-nos melhor, mas a nossa cabeça ainda está um pouco atordoada. Mas quando acordei no terceiro dia, estava a cantarolar, e estava tudo perfeito. Consegui adaptar-me e estava bem. Mas depois pensei... o quê? Tenho de regressar já para casa?! Não, não, não! Portanto, para mim, ter uma missão de cinco dias a bordo da cápsula Dragon com a cúpula seria perfeito.

Sentiu algum medo durante o lançamento ou na aterragem?

Não, não senti medo nenhum. Enquanto piloto, tenho tarefas para cumprir. Quando estamos realmente na sequência de saída de órbita, monitorizamos o sistema porque há algumas coisas que podemos fazer se o computador de voo não fizer o que é suposto. Um dos potenciais problemas é o lançamento do paraquedas drogue e dos paraquedas principais – se estes não ativarem e dispararem da forma que devem, podemos assumir o controlo e fazê-lo manualmente.

Foi maravilhoso quando vi aqueles quatro paraquedas a abrir, porque é um daqueles momentos em que percebemos que não vamos morrer com o impacto no oceano.

Esteve nervosa na plataforma de lançamento?

O lançamento foi uma daquelas coisas que simulámos muito. A equipa estava completamente descontraída. Estávamos apenas sentados – a fazer a contagem decrescente, literalmente, mas chegámos ao último momento e percebemos que estávamos realmente a fazer aquilo. Foi um sentimento de ‘vamos lá’! E depois os motores entram em ação e é a melhor viagem da nossa vida.

A cúpula – basicamente uma janela gigante em forma de cúpula – foi uma nova adição feita para este voo. Como foi estar lá em cima a olhar para a Terra?

Foi sem dúvida a melhor parte do nosso voo espacial. Nenhum de nós sabia que, devido ao desenho da cúpula, iríamos conseguir ver a esfera completa do nosso planeta. E isso foi de tirar o fôlego. É extremamente difícil de descrever. Parece que nos falta o ar.

Só me apetecia estender a mão e girar o planeta. Fiquei a pensar na forma como os humanos estão a afetar este retrato vivo. Temos um grande impacto na futura aparência deste mundo, pelo que as nossas decisões são importantes. A Terra é absolutamente maravilhosa. É tão brilhante! E depois temos a lua! A lua parecia suspensa.

Alguns dos astronautas da NASA que voaram na Dragon dizem que a cápsula é demasiado apertada, mesmo para duas pessoas. Como foi para si, com mais três pessoas, durante três dias? Parecia sobrelotada?

Não. E isso é interessante porque realmente não havia muito espaço disponível. A cúpula acrescentou mais área, o que é bom, mas creio que isto acontece porque não temos termo de comparação. Não temos um vaivém espacial para comparar ou algo semelhante. E quando olhamos para as cápsulas Apollo e Gemini, ficamos a pensar como é que eles viveram ali. Esta cápsula Dragon é uma espécie de Cadillac das estações espaciais. É espaçosa! Acho que tudo isto se resume a uma questão de perspetiva, certo?

E o que é que aconteceu com a casa de banho? A imprensa estava repleta de notícias sobre a ativação de um alerta.

Tivemos um problema com o ventilador de resíduos. Acho que isso foi transformado num evento maior do que realmente era. Recebemos o alerta, analisámos a questão e descobrimos uma solução onde podíamos permanecer em órbita e continuar com a missão. Trata-se apenas de humanos a descobrir como viver e trabalhar no espaço.

A gestão de resíduos no espaço parece muito importante. A NASA acabou de projetar uma nova casa de banho para a Estação Espacial Internacional, que é muito mais fácil de usar para as mulheres.

Sim, é muito importante. Obrigado, NASA! Uma das coisas que percebi é que a exploração espacial é construída – muitas vezes – em torno dos homens. Precisamos de pensar de uma forma mais abrangente. E esta é uma das áreas onde devo dar o devido reconhecimento à SpaceX, porque eles construíram cada fato espacial individualmente para nós. Portanto, não foi uma situação onde tivéssemos de procurar algo que nos servisse. Foi uma abordagem personalizada especificamente para nós. Adoro o meu fato espacial.

Ficou com o fato?

Não. Se tivesse ficado com o fato, gostava de o doar ao Museu de História Afro-Americana para inspirar outras gerações. Só penso no impacto que isso poderia ter. Mas como sabemos, a SpaceX tem um modelo de reutilização, e esta é uma parte importante na redução de custos. Portanto, estes fatos espaciais vão ser reutilizados na formação de futuras tripulações.

Uma das coisas que gosto na sua mensagem é a sua ligação com a arte.

Sinto-me muito afortunada, sou uma geocientista com formação. Mas quando me candidatei para ir ao espaço na missão Inspiration4, pensei que era necessário levar também uma vertente artística e poética. Porque é uma parte muito importante da humanidade para levar para o espaço. A parte humana que é arte, música, dança, expressão, a cultura que levamos connosco. Não se trata apenas da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática que nos leva até lá.

Claro. E como estamos a pensar em missões ainda mais prolongadas no espaço, a componente humana torna-se ainda muito mais importante.

Essa é uma das razões pelas quais eu digo que estamos neste momento a escrever a narrativa do voo espacial humano. Jared trouxe consigo uma visão de como poderíamos, até certo ponto, estabelecer um padrão de pensamento sobre o voo espacial humano. A ideia de que podemos ir mais além e explorar as estrelas, mas também de que podemos fazer as coisas bem aqui na Terra durante esse processo. E é por isso que devemos procurar um “espaço JEDI” – um espaço justo, equitativo, diverso e inclusivo. Isto é algo que está completamente ao nosso alcance. Portanto, trata-se de estarmos atentos ao que está a acontecer para agirmos.

Existe alguma coisa que gostasse de ter sabido antes de embarcar nesta jornada?

Através deste processo aprendi que não preciso de ser tão exigente comigo própria. Estava preocupada por não ser boa ou inteligente o suficiente ou, de alguma forma, poder cometer algum erro e perder esta oportunidade. Mas não! Tornar-me piloto de missão significava tornar-me engenheira de sistemas, mas eu não era engenheira. Eu sou piloto, mas um Cessna 172 não é propriamente o mesmo que uma cápsula Dragon. Gosto de dizer que fui para a escola da SpaceX, que é semelhante a ir para Hogwarts, onde há magia, mistério e todas essas coisas. Mas depois ponho-me a pensar e percebo que não sou uma feiticeira!

Mas é como se fosse uma feiticeira.

Sim, eu sei! Adoro!

Prefere Gryffindor?

Sim, prefiro Gryffindor, e é engraçado porque o Harry Potter era um tema recorrente na nossa tripulação. Jared era o único que ainda não tinha visto os filmes, portanto fizemos-lhes o teste da casa Pottermore. Dois de nós ficámos numa casa e dois na outra. Sabem quem?

Se existe outra pessoa Gryffindor, talvez a outra casa seja Ravenclaw?

Não é. Podíamos pensar que o Jared seria Ravenclaw, mas assim, onde é que ficaria a Hayley?

Penso que a Hayley poderia ser Gryffindor, porque é muito corajosa.

Não.

Hufflepuff?

Sim! A Hayley é completamente Hufflepuff.

Portanto, a Hayley e o Chris são Hufflepuff.

Sim. E o Jared e eu somos Gryffindor. Agora vou olhar para o Harry Potter a voar num dragão de uma forma completamente diferente, porque também já tenho as minhas asas de dragão!

Houve mais alguma coisa sobre esta experiência, ou na forma como Sian respondeu à mesma, que a surpreendesse?

Creio que o mais importante foi estar na casa dos 50 anos e conseguir fazer isto. Para mim, a mensagem que esta experiência passa para as mulheres mais velhas é a de que nunca devemos desistir de um sonho. Muitas vezes pensamos que depois de criarmos os nossos filhos, ou quando estamos na casa dos 40, 50 ou 60 anos, que a melhor parte da nossa vida já passou, e pensamos que já estamos demasiado velhos para fazer algumas das coisas com que sonhávamos em criança.
Mas isso não é verdade.
Resumindo, eu quero apenas ser uma porta-voz, não só das mulheres e raparigas negras, mas das mulheres em geral. Vivemos mais tempo do que os homens. É muito importante que compreendamos que os anos dourados também podem ser alguns dos melhores anos das nossas vidas – porque já estamos muito mais sensatos, certo? Quando estamos na casa dos 50 anos já não nos preocupamos tanto. A Fénix renasceu das cinzas. Eu sou quem sou, e sou muito mais sábia do que era quando tinha os meus 20 ou 30 anos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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