Tesouro fóssil revela as primeiras evidências de dinossauros a viver em grupo

Uma enorme quantidade de ovos e esqueletos de Mussaurus sugere que estes herbívoros jurássicos estavam entre os primeiros dinossauros a viajar em grupos separados por idade.

O dinossauro Mussaurus de pescoço comprido deixava de andar sobre as quatro patas quando era jovem para passar a andar sobre as patas traseiras na idade adulta. Agora, uma enorme quantidade de fósseis encontrados na Patagónia sugere que esta espécie foi uma das primeiras a deslocar-se em grupos separados por idade.

Fotografia de Davide Bonadonna
Publicado 25/10/2021, 12:13

Há cerca de 193 milhões de anos, onde atualmente fica a Argentina, 11 dinossauros morreram a poucos metros uns dos outros. Ainda não se sabe quais foram as causas de morte. Talvez tenham sucumbido devido à seca, quando o sol da primavera ou do verão secava as margens efémeras do lago onde se reuniam. Ou talvez tenham morrido numa violenta tempestade de poeira que enterrou as suas carcaças em camadas de lodo.

Mas a idade destes dinossauros está mais ou menos determinada – é provável que tivessem menos de um ano de idade.

Este “encontro” de dinossauros, revelada na revista Scientific Reports, faz parte de uma série de novos fósseis surpreendentes de Mussaurus patagonicus, um primo distante dos famosos dinossauros de pescoço comprido como o braquiossauro ou o brontossauro. Estes restos mortais incluem mais de cem ovos de Mussaurus e 69 fósseis esqueléticos, e alguns estão em grupos de dinossauros do mesmo tamanho e aproximadamente da mesma idade.

A equipa do estudo interpreta este agrupamento como uma evidência de que o Mussaurus se movia em grupos separados por idade, com animais de tamanhos e idades semelhantes a moverem-se juntos dentro do grupo. Se assim for, esta descoberta dá aos paleontólogos as evidências mais antigas alguma vez encontradas sobre um comportamento de grupo entre os dinossauros.

“Sabemos muito pouco sobre o comportamento dos dinossauros, mas muito do que sabemos tem por base os dinossauros mais tardios do Cretáceo”, diz o líder do estudo e Explorador da National Geographic, Diego Pol, do Museu Paleontológico Edigio Feruglio em Trelew, na Argentina. “Temos muito poucas ou nenhumas informações sobre o comportamento dos dinossauros no início da sua história.”

Esquerda: Superior:

Este ovo fossilizado de Mussaurus é um dos mais de cem encontrados na Formação de Laguna Colorada, na Argentina.

Direita: Fundo:

Em conjunto, os ovos e 69 fósseis esqueléticos oferecem uma visão rara sobre o comportamento dos dinossauros no início do Jurássico, há cerca de 193 milhões de anos.

Fotografia de Roger Smith

O Mussaurus é um tipo de dinossauro chamado sauropodomorfo que é conhecido pela ciência desde a década de 1970 – com base em 11 fósseis encontrados na Formação de Laguna Colorada da Argentina. Outros sítios pelo mundo inteiro têm sugerido um comportamento social entre os primos sauropodomorfos do Mussaurus. Há locais na Alemanha que preservam vários fósseis de Plateosaurus, e zonas na África do Sul que preservam locais de nidificação e ovos do dinossauro Massospondylus.

Mas Kimi Chapelle, investigadora de pós-doutoramento no Museu Americano de História Natural, que não participou no novo estudo, enfatiza o quão espantosos são os lotes de fósseis mais recentes de Mussaurus.

“Temos ovos e indivíduos – e não são apenas indivíduos da mesma idade, mas indivíduos de idades diferentes. É verdadeiramente impressionante”, diz Kimi Chapelle. “Ter tudo isto numa área de um quilómetro quadrado com uma secção [de rocha] com três metros de espessura é no mínimo surpreendente.”

Prós e contras da vida em grupo

Muitos dos herbívoros de grande porte da atualidade movem-se em grupo, e o cálculo evolutivo básico de hoje é o mesmo que teria sido para o Mussaurus há mais de 190 milhões de anos.

A vida em grupo tem prós e contras, diz o paleontólogo Timothy Myers, da Universidade Temple, que não participou no estudo. Por um lado, a deslocação em grupos grandes oferece mais proteção contra predadores, porque permite que cada indivíduo dentro do grupo perca menos tempo em estado de alerta e mais tempo a comer. Por outro lado, os grupos têm de partilhar os alimentos – e os riscos de doença e parasitas são mais elevados.

Para a vida funcionar bem em grupo, acrescenta Timothy Myers, os animais dentro do grupo têm de estar sincronizados, algo que pode ser complicado para animais que mudam drasticamente de tamanho à medida que envelhecem. No caso do Mussaurus, as crias nasciam com o tamanho de uma mão humana, mas por volta de um ano de idade já pesavam 20 quilos e tinham 60 centímetros de altura na linha do quadril, pesando mais de 1.500 quilos na idade adulta – quase o dobro da massa de um alce adulto.

É aqui que entra a separação por idade. “Os custos de ter de sincronizar o comportamento aumentam conforme há mais diferenças no tamanho corporal”, diz Timothy Myers. “Para animais como os saurópodes e sauropodomorfos, era definitivamente mais conveniente formarem grupos de indivíduos imaturos separados dos adultos.”

Porém, inferir este tipo de comportamento social – ou qualquer tipo de comportamento social – a partir do registo fóssil é complicado. Os vestígios fósseis, como locais com pegadas, podem ajudar e, para alguns dinossauros muito mais recentes que o Mussaurus, as pegadas preservadas mostram sinais de grupos multigeracionais.

As evidências esqueléticas também podem sugerir comportamentos sociais se os paleontólogos encontrarem grupos de esqueletos que foram enterrados de uma só vez. Sem esta evidência crucial, dois esqueletos no mesmo local podem pertencer a animais que viveram e morreram com anos de diferença.

Porque Vivemos Atualmente na Era de Ouro da Paleontologia?
Com os avanços da tecnologia e o acesso a áreas antes consideradas inalcançáveis, o campo da paleontologia está a experienciar uma era de ouro a nível de descobertas. Todos os anos são encontradas aproximadamente 50 espécies novas de dinossauros, dando-nos uma visão mais detalhada do seu mundo pré-histórico como nunca antes visto. Os nossos conhecimentos sobre o aspeto dos dinossauros e como evoluíram estão a ser alterados, especialmente no que diz respeito às evidências de que os pássaros modernos descendem dos dinossauros. Mas embora seja empolgante ver o quão incrivelmente longe a paleontologia chegou, em relação às gerações anteriores, é igualmente emocionante imaginar as novas descobertas que estão para chegar.

Nas últimas duas décadas, Diego Pol e os seus colegas têm escavado o sítio onde foram encontrados os Mussaurus, aprimorando drasticamente a sua compreensão sobre estes dinossauros. Por exemplo, os investigadores já têm uma boa noção sobre a forma como o corpo do Mussaurus mudava à medida que este crescia; e estão confiantes de que este dinossauro deixava de andar sobre as quatro patas quando era jovem para andar apenas sobre as patas traseiras na idade adulta. Uma nova investigação também mostra que o Mussaurus punha ovos moles e coriáceos, o que sugere que enterrava os seus ovos em vez de os chocar.

Uma das maiores surpresas surgiu em 2003, quando Diego Pol encontrou um bloco de pedra que continha o aglomerado de 11 dinossauros jovens. “Lembro-me de ter levantado parte da rocha e ver que continha o topo de um crânio, e o pescoço estava no interior da rocha”, diz Diego Pol. “Eu sabia que era algo diferente.”

Outros fósseis encontrados no local também mostram indícios de dinossauros agrupados. Os primeiros fósseis de Mussaurus de que há conhecimento – fósseis de crias muito jovens – estavam agrupados juntos. As novas escavações também encontraram dois adultos cujos corpos estavam quase entrelaçados.

Mas para determinar se estes animais morreram realmente em grupo e não apenas no mesmo lugar em momentos diferentes, os coautores do estudo, liderados por Roger Smith, da Universidade de Witwatersrand da África do Sul, em Joanesburgo, tiveram de estudar minuciosamente os sedimentos no local.

A investigação de Roger Smith descobriu que existem três camadas distintas de fósseis de Mussaurus no local e que muitos dos fósseis e locais de nidificação partilham a mesma camada, o que significa que foram todos enterrados ao mesmo tempo. A rocha sedimentar que envolve os fósseis provavelmente formou-se a partir de poeira transportada pelo vento, e talvez tenha sido depositada durante as tempestades de poeira.

A equipa também usou várias técnicas para confirmar que os dinossauros eram todos Mussaurus e verificar a idade e tamanho dos animais. Em 2017, Diego Pol levou 30 ovos para Grenoble, em França, para os examinar com uma das fontes de raios-x mais brilhantes do mundo, a Instalação Europeia de Radiação Síncrotron. Muitos dos ovos continham embriões fossilizados de Mussaurus.

Diego Pol e os seus colegas também recolheram amostras de alguns dos ossos dos dinossauros para observar as suas estruturas internas, que podem revelar informações sobre a idade e padrões de crescimento. Todos os fósseis no grupo de 11 indivíduos têm aproximadamente o mesmo tamanho, e provavelmente pesavam entre oito e 10 quilos quando morreram. As amostras dos ossos sugerem que, se os jovens Mussaurus cresciam em surtos sazonais, os juvenis presentes neste grupo provavelmente tinham menos de um ano de idade quando morreram.

Sobreviventes sociais?

O local de escavação dos Mussaurus mostra que os juvenis formavam grupos separados por idade, pelo menos sazonalmente, mas o comportamento dos adultos é menos percetível.

O local não possui aglomerados com muitos Mussaurus adultos, não revelando assim evidências diretas de grupos de adultos. Entre os répteis da atualidade, não é invulgar os jovens andarem juntos para depois se separarem na idade adulta. Por outro lado, os grupos de juvenis estão na área de nidificação dos Mussaurus, algo que pode indicar que os juvenis faziam parte de um grupo maior que foi ao local de nidificação para procriar.

Ainda assim, não existem dúvidas de que este dinossauro mostrava indícios de comportamento social – o que torna o seu lugar na árvore genealógica dos dinossauros extremamente importante.

O trabalho de investigação da equipa de Diego Pol também refina as estimativas sobre a idade dos fósseis e sedimentos circundantes. Durante anos, os paleontólogos acreditavam que o Mussaurus tinha mais de 205 milhões de anos, situando-o no final do período Triássico. Com base neste trabalho mais recente, porém, o Mussaurus tem aproximadamente 193 milhões de anos, colocando este dinossauro no início do período Jurássico.

Esta distinção é crucial porque significa que o Mussaurus surgiu exatamente após uma extinção em massa que afetou diversos tipos de animais terrestres – mas deixou os sauropodomorfos relativamente ilesos. No rescaldo deste evento, os sauropodomorfos diversificaram-se rapidamente e tornaram-se muito maiores do que antes, inclinando a balança a favor dos grupos separados por idade, como é agora sugerido para o Mussaurus.

Diego Pol e os seus colegas argumentam que alguns dos aspetos mais básicos de comportamento social podem ter surgido entre os antepassados do Mussaurus no final do Triássico, antes do evento de extinção. Se assim for, a tendência social dos primeiros sauropodomorfos pode ter ajudado o grupo a resistir à extinção e prosperar no seu rescaldo.

“Foi nesse momento em que efetivamente ‘conquistaram’ o mundo – quando se tornaram dominantes, quando tiveram sucesso pela primeira vez em termos ecológicos e evolutivos. Qual foi o segredo para o sucesso destes dinossauros?” pergunta Diego Pol. “Com este estudo estamos a dizer que o comportamento pode ter sido uma das razões para esse sucesso.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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