A Rússia destruiu um satélite – colocando em perigo os voos espaciais

O teste de uma arma antissatélite provocou uma nuvem de detritos em órbita que está a ameaçar a Estação Espacial Internacional e outros satélites vitais.

Publicado 19/11/2021, 12:21
Um teste de mísseis russo destruiu satélite soviético

Um teste de mísseis russo destruiu recentemente um satélite soviético em órbita, deixando uma nuvem de destroços que ameaça a Estação Espacial Internacional.

Fotografia de NASA

No dia 15 de novembro, os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI) receberam uma diretriz inesperada para procurar abrigo na nave acoplada à estação, para prevenir uma colisão catastrófica. A estação estava prestes a passar por uma nuvem recém-criada de detritos orbitais que representava um perigo significativo para os sete viajantes a bordo.

“É uma forma louca de começar uma missão”, disse o controlo de missão em conferência de imprensa.

O Departamento de Estado dos EUA confirmou posteriormente que os destroços que colocam em risco a estação espacial foram produzidos quando a Rússia testou uma arma antissatélite (ASAT) e destruiu intencionalmente um dos seus próprios satélites. O impacto deixou no seu rescaldo centenas de milhares de detritos que agora representam um risco para a tripulação da EEI e para outros satélites na órbita baixa da Terra.

“Apesar de sabermos que os russos têm esta capacidade, ficámos chocados com a escolha de a testar desta forma”, afirma Kaitlyn Johnson, vice-diretora do Projeto de Segurança Aeroespacial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. O teste destruiu um satélite cuja órbita se cruza com o trajeto da EEI, colocando em risco os humanos a bordo, incluindo os cosmonautas russos.

“As coisas que passam pela minha mente são: Porquê agora? Isto está ligado ao quê? Que mensagem estão a tentar passar? E porquê este satélite em específico?” diz Kaitlyn Johnson.

O ministério da defesa russo divulgou uma declaração a confirmar o teste, mas nega qualquer risco para a estação espacial: “Os Estados Unidos sabem com certeza que os fragmentos resultantes, em termos de tempo de teste e parâmetros orbitais, não representam nem representarão uma ameaça para as estações orbitais, naves e atividades espaciais.”

Neste momento, não se sabe se a Roscosmos, a agência espacial da Rússia, teve conhecimento antecipado do teste. Bill Nelson, administrador da NASA, disse em várias entrevistas que tinha motivos para acreditar que a Roscosmos não tinha sido informada, sublinhando que “eles provavelmente estão tão surpreendidos quanto nós”.

Embora esta demonstração tenha sido uma surpresa, não é a primeira vez em que os testes de armas antissatélite produzem detritos perigosos em órbita. Vejamos o que aconteceu durante este último teste, como pode afetar a EEI e outros satélites e a história das armas projetadas para destruir objetos no espaço.

Portanto, o que aconteceu exatamente?

Inicialmente, a origem dos destroços não estava determinada, havia apenas algumas evidências circunstanciais de que uma arma ASAT estava envolvida. A Rússia emitiu um aviso NOTAM – um aviso aos aviadores – alertando-os para se manterem fora do espaço aéreo por cima do Cosmódromo de Plesetsk, uma instalação na costa norte do país que é conhecida por lançar estes tipos de mísseis.

“Estas zonas de aviso em particular são muito características. Só as vemos quando a Rússia vai testar a sua arma antissatélite Nudol”, diz Jonathan McDowell, astrónomo do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian que também estuda as populações de objetos que orbitam a Terra. A arma Nudol é semelhante a um míssil antibalístico, mas é projetada para abater objetos no espaço.

“Estes sistemas são muito semelhantes a muitos dos sistemas de defesa antimísseis e a muitos dos sistemas de mísseis balísticos que a Rússia, a China e os Estados Unidos possuem”, diz Kaitlyn Johnson. “Basta adquirir o alvo e certificarem-se de que têm o rastreio e a telemetria necessários para direcionar o míssil para um satélite, em vez de um ponto na Terra.”

No dia do lançamento, a meio da tarde, as autoridades americanas confirmaram que a Rússia tinha realizado um teste e disparado intencionalmente um míssil contra um satélite desativado dos serviços secretos soviéticos chamado Cosmos 1408, que fazia parte do sistema Tselina-D. O míssil destruiu o satélite de 2.2 toneladas, produzindo centenas de milhares de fragmentos que agora estão em órbita.

A Rússia já tinha testado a arma ASAT Nudol, mais recentemente em dezembro de 2020, embora nunca tivesse destruído um objeto em órbita.

“Se esta arma for testada num satélite real ou usada operacionalmente, vai provocar um enorme campo de destroços que pode colocar satélites comerciais em perigo e poluir irrevogavelmente o domínio espacial”, alertou o Comando Espacial dos EUA, que supervisiona as operações militares no espaço, após o teste feito em dezembro de 2020.

Em conferência de imprensa, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, classificou o teste mais recente de “imprudente” e “perigoso”. O Comando Espacial dos EUA diz que é “simplesmente irresponsável”, com um porta-voz da agência a confirmar que a destruição do satélite “não foi um acidente”.

Os outros países também fazem este tipo de testes?

Sim, conforme detalhado pela Fundação Secure World num relatório de abril de 2021.

O mais conhecido foi efetuado em 2007, quando a China destruiu um dos seus próprios satélites e produziu milhares de fragmentos – que desde então têm sido uma enorme dor de cabeça. Os Estados Unidos também fizeram um teste semelhante em 2008, destruindo um satélite de reconhecimento com falhas numa órbita muito baixa, evento que resultou em cerca de 400 pedaços de lixo orbital. A Índia fez o mesmo em março de 2019, tornando-se no quarto país a demonstrar o que se chama de capacidade de armas espaciais – mas a Índia visou intencionalmente um satélite numa órbita terrestre muito baixa, e a maioria dos destroços arderam na atmosfera do planeta pouco depois; com três peças rastreáveis ainda a orbitar a Terra.

Existem vários sistemas antissatélite e outros em desenvolvimento. Alguns destroem ativamente os satélites, enquanto que outros desativam-nos de forma mais passiva. Estas tecnologias incluem micro-ondas de alta potência que podem afetar componentes eletrónicos, dispositivos que bloqueiam os sistemas de comunicação e sistemas de laser guiados a partir do solo. Kaitlyn Johnson e os seus colegas confirmam que os sistemas ASAT da China são agora tão robustos que o país “pode ameaçar qualquer satélite dos EUA na órbita baixa da Terra, e provavelmente os que estão na órbita terrestre média [órbita geoestacionária].”

A Rússia testa sistemas antissatélite desde 1960, começando com os sistemas antissatélite co-orbitais, que encontram e destroem alvos no espaço, em vez de no solo. E os testes de mísseis Nudol já são feitos no espaço desde 2014, sem acertar em nada até agora.

Qual foi a quantidade de detritos originada por este evento?

O Departamento de Estado dos EUA anunciou que há mais de 1.500 destroços grandes o suficiente para serem rastreados, e que centenas de milhares de pedaços mais pequenos também flutuam em órbita.

“No total, existem atualmente cerca de 20.000 objetos rastreados em órbita, e provavelmente este evento vai adicionar mais 10%”, diz Jonathan McDowell. “São milhares de objetos, é uma adição significativa ao número de objetos rastreados.”

O governo dos EUA só rastreia objetos com mais de 10 centímetros. Mas a empresa LeoLabs, uma startup que também rastreia objetos orbitais, tem a capacidade de seguir pedaços de até 20 milímetros de largura – cerca de metade da largura de uma bola de golfe. Os dados desta empresa foram os primeiros a sugerir que a Rússia tinha como alvo o satélite Cosmos 1408.

“Estamos a contar muitos, muitos objetos, não temos sequer a certeza de quantos são, mas sabemos que são muitos”, diz Ed Lu, um dos fundadores da LeoLabs e astronauta aposentado da NASA – Ed Lu esteve mais de 206 dias no espaço.

O que vai acontecer a todo este lixo espacial?

Quando um satélite é despedaçado por um míssil, a nuvem de detritos geralmente continua a mover-se ao longo da órbita original do satélite. Algumas das peças são impulsionadas para órbitas superiores, outras são lançadas para órbitas inferiores e algumas são projetadas para trajetórias completamente diferentes. Com o passar do tempo, esta nuvem de detritos expande-se.

“Foi um impacto com muita energia, o que significa que podemos encontrar objetos em órbitas completamente diferentes”, diz Ed Lu.

Rastrear todos estes objetos e verificar as suas trajetórias vai demorar vários dias, senão semanas. As peças maiores vão permanecer em órbita durante anos, talvez décadas. Os pedaços mais pequenos vão reentrar na atmosfera da Terra e arder, talvez dentro de um ano ou mais, diz Jonathan McDowell.

“Durante os próximos anos, o risco de colisão na órbita baixa da Terra vai ser maior.”

Estes detritos são perigosos?

Podem ser, por vários motivos. Os objetos em órbita movem-se com extrema rapidez, a dezenas de milhares de quilómetros por hora, o que significa que uma simples colisão com destroços mais pequenos pode resultar em danos consideráveis. Por exemplo, se um objeto do tamanho de uma bola de golfe colidir com a Estação Espacial Internacional, as consequências podem ser catastróficas, porque pode romper o casco e provocar a despressurização da estação, matando qualquer pessoa no seu interior. Um objeto minúsculo do tamanho de uma ervilha também pode ser perigoso, dependendo da zona atingida.

“Neste momento, o perigo número um para a segurança dos astronautas são os destroços não rastreados”, diz Ed Lu. “E o número de peças não rastreadas, objetos grandes o suficiente para atravessar o casco, já é de cerca de um quarto de milhão. Mas o espaço é grande, e depositamos a nossa esperança nisso – mas esta abordagem não é realmente uma estratégia, certo? É a mesma estratégia que a Terra usa em relação aos asteroides: o espaço é grande, as probabilidades favorecem-nos.”

E os outros satélites em órbita? Estão em perigo?

Em geral, sim. As notícias de mais detritos espaciais nunca são boas – se uma quantidade suficiente se acumular, a órbita baixa da Terra pode ficar inutilizável. Esta região já está bastante sobrelotada e, se a Comissão Federal de Comunicações aprovar a vaga recente de aplicações para hardware adicional, cerca 94.000 novos satélites podem entrar em órbita nos próximos anos.

À medida que o congestionamento de detritos aumenta, a operação de satélites fica mais complicada e os perigos representados para as missões tripuladas também aumentam. Em abril, os astronautas da missão Crew-2 da NASA tiveram inesperadamente de se abrigar quando destroços desconhecidos se aproximaram demasiado da sua nave que estava a caminho da EEI.

“A presença de detritos desnecessários na órbita baixa da Terra é mau. Mas detritos desnecessários na órbita baixa da Terra, sobretudo quando estamos a aumentar e muito o número de satélites ativos nesta órbita, isso é extremamente mau”, diz Jonathan McDowell.

O satélite Cosmos-1408 estava a orbitar a 480 quilómetros de altitude, pouco abaixo da altitude planeada – 550 quilómetros de altitude – para a mega-constelação de satélites Starlink da SpaceX que fornecem internet. Alguns dos destroços projetados para as órbitas mais altas podem colidir com qualquer um dos milhares de satélites Starlink que já estão no ar, podendo danificá-los.

 “São milhares de alvos na forma de satélites Starlink, e basta acertar em alguns para termos satélites mortos a passar por esta região sobrelotada”, diz Jonathan McDowell. “E depois podemos enfrentar o início de um cenário desastroso com um efeito de bola de neve – conhecido por síndrome de Kessler.”

O que é a síndrome de Kessler – e estamos mais perto de isso acontecer?

Proposto em 1978 por Donald Kessler da NASA, este cenário homónimo descreve uma catastrófica reação em cadeia de satélites em colisão que eventualmente destrói a nossa capacidade de operar na órbita baixa da Terra. Conforme os objetos em órbita colidem e desintegram, a nuvem de destroços vai acumulando detritos espaciais, alimentando mais colisões e desencadeando uma reação de destruição em cadeia que só irá desaparecer quando não houver mais nada para pulverizar.

Este cenário já foi retratado na ficção através do filme Gravidade de 2013. No filme, a Rússia destrói um satélite, produzindo uma cadeia de colisões que mata alguns astronautas e força outros a fazer um regresso de emergência à Terra.

“Já estamos em risco de um cenário Kessler, é apenas uma questão de tempo”, diz Jonathan McDowell. “Não é como os problemas ambientais típicos. Não acordamos um dia e a temperatura subiu mais 1 grau e os oceanos estão a acidificar. Neste caso, afogamo-nos no nosso próprio lixo sem nos apercebermos.”

Se o lixo espacial é tão perigoso, porque é que a Rússia fez este teste?

Desconhecem-se as razões específicas que levaram Moscovo a realizar este teste, mas é evidente que a Rússia – juntamente com os Estados Unidos e a China – encara o espaço como um potencial domínio de guerra. “A doutrina militar russa sugere que eles olham para o espaço como algo crítico para a guerra moderna, e que consideram a utilização de armas espaciais como um meio para reduzir a eficácia militar dos EUA e vencer futuras guerras”, disse um porta-voz do Comando Espacial dos EUA.

Ainda assim, a natureza deste teste tem levantado algumas suspeitas.

“Estou francamente surpreendida que a Rússia tenha optado por fazer isto, sobretudo terem optado por o fazer na órbita baixa da Terra”, diz Kaitlyn Johnson. “Eles foram muito expressivos e estavam bastante conscientes da questão dos detritos espaciais.”

Algumas pessoas também especulam que estes tipos de tecnologias podem ser usados para destruir intencionalmente a capacidade humana de voar para o espaço. Porém, um ato dessa natureza teria consequências extraordinárias.

“A Rússia depende quase tanto do espaço para as suas forças armadas e para o seu modo de vida quanto os EUA”, diz Kaitlyn Johnson. “Algo dessa natureza provocaria sérios danos ao mundo e também à Rússia”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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