Arturo Rodríguez: “Depois de testemunhar um tufão no sudeste asiático, o som de um vulcão parece apenas o ronronar de um gato.”

Arturo Rodríguez, fotógrafo de La Palma, conta à National Geographic a sua experiência após um mês a acompanhar cientistas a poucos metros da erupção do vulcão Cumbre Vieja.

Por CRISTINA CRESPO GARAY
Fotografias Por ARTURO RODRÍGUEZ
Publicado 23/11/2021, 15:14
Erupção do vulcão de La Palma relatada por fotógrafo da National Geographic
O fotógrafo de La Palma, Arturo Rodríguez, relata à National Geographic a sua experiência depois de um mês a acompanhar cientistas a poucos metros da erupção do vulcão Cumbre Vieja.

A carreira do fotógrafo espanhol Arturo Rodríguez (nascido em 1977, em La Palma) é um exemplo da capacidade que um retrato tem para levantar o ténue véu que torna o silêncio ensurdecedor perante determinadas realidades. Vencedor de prémios de prestígio como o World Press Photo em 2007 pelo seu trabalho a documentar a imigração africana na Europa, Arturo Rodríguez tem viajado pelo mundo a acompanhar alguns dos cenários mais negligenciados pelo mundo ocidental: conflitos como a guerra do Kosovo, o drama dos campos de refugiados do povo saharaui na Macedónia e na Palestina, grandes catástrofes naturais ou a epidemia de cólera no Haiti. O seu trabalho para a Reuters, Associated Press e EFE já foi publicado em meios de comunicação como o The New York Times, Washington Post, El País ou Der Spiegel, entre outros.

Em 2021, Arturo Rodríguez recebeu uma bolsa da National Geographic Society para desenvolver um projeto fotográfico sobre os efeitos da pandemia de COVID-19 na sua terra natal, a ilha de La Palma, que desde finais de setembro vive um momento histórico devido à erupção do vulcão Cumbre Vieja.

Arturo Rodríguez está na linha da frente a fazer a cobertura da erupção do vulcão, acompanhando cientistas até à chamada zona de exclusão, à qual tem acesso enquanto fotógrafo científico da National Geographic. Através de um amplificador de sinal wi-fi pouco fiável na ilha vizinha de Tenerife, antes de regressar para o sopé do vulcão, Arturo Rodríguez fala-nos sobre a sua experiência depois de mais de um mês a seguir minuto a minuto uma das maiores forças da natureza: a energia do ventre da Terra a forçar o seu caminho até à superfície.

Como viveu o momento em que a erupção começou?

Eu ainda não estava em La Palma, fui para Tenerife logo no início dos primeiros movimentos sísmicos para fotografar os cientistas a trabalhar. Para mim, ficou claro há muitos anos que, enquanto fotógrafo das Canárias, um dia iria fotografar um vulcão em erupção nestas ilhas. Por motivos de trabalho, acabei por chegar três horas depois de a erupção ter começado e fiquei incrédulo, porque meia hora antes da erupção, o Presidente do Conselho de La Palma tinha anunciado que o estado de alerta era amarelo e que não havia uma erupção iminente.

“Eles trabalham demasiadas horas (…), há um grande número de pessoas a monitorizar este evento 24 horas por dia. O Instituto Geológico Nacional não vai descansar, o Instituto Geológico e Mineiro de Espanha não vai descansar, e a Guarda Civil e a Polícia Nacional estão permanentemente no local a fazer tudo o que podem.”

Fotografia de ARTURO RODRÍGUEZ

Trinta minutos depois de a conferência de imprensa ter terminado, o vulcão explodiu. É óbvio que ele não sabia que aquilo ia acontecer. Mas havia grupos científicos, como o Instituto Geológico e Mineiro de Espanha (IGME), que alertavam que dentro de 24 horas, no máximo, o vulcão iria entrar em erupção. Eu tinha a minha passagem [de avião] para as 20h00 naquela noite e vi o início da erupção em direto na televisão.

Enquanto cidadão e fotógrafo de La Palma, como tem vivido as semanas que se seguiram à erupção – e testemunhado algo tão impressionante a nível natural mas também tão devastador a nível humano?

Acompanhar um desastre natural é sempre terrível porque vemos muito sofrimento. E se estiver a acontecer na nossa casa é ainda pior. As cicatrizes que estes eventos deixam são muito mais profundas. Mas também devo dizer que nenhum desastre natural que vivi até agora me fez refletir desta forma: As minhas ilhas foram forjadas assim. Para dizer a verdade, o mundo inteiro foi feito assim. Na noite que passei no barco oceanográfico, quando me fui deitar, havia apenas algumas pedras de lava pequenas a cair no mar, mas quando acordei no dia seguinte e vi uma plataforma na qual caberiam dois campos de futebol – algo que tinha sido formado em apenas oito ou nove horas – fiquei impressionado.

E depois ficamos com aquela sensação estranha de saber que para algumas pessoas está a ser muito difícil lidar com o infortúnio da erupção nas áreas povoadas, mas por outro lado, estética e cientificamente, é uma verdadeira maravilha. É incrível ver e ouvir este acontecimento. A primeira vez que visitei aquela área havia um vale, mas agora, passado um mês, há uma montanha de 300 metros de altura.

Ao longo do último mês, Arturo tem acompanhado os cientistas que trabalham na área. Como tem sido essa experiência?

Estive no Instituto Espanhol de Oceanografia, no Instituto Geológico e Mineiro de Espanha e no Instituto Geológico Nacional a observar como operam e a absorver todas as informações que me deram. Devo dizer que algumas coisas têm sido realmente assustadoras, mas no geral aprendi muito. São pessoas a quem nós, a população e principalmente os políticos, devemos prestar mais atenção.

Com a pandemia de COVID-19 percebemos o quão importante é investir na investigação científica. Provavelmente, se investíssemos mais no Conselho Nacional de Pesquisa Científica em geral, que inclui institutos que fazem ciência aplicada para a segurança da população, muitas coisas poderiam ser evitadas no futuro. Um vulcão nunca será evitado, mas provavelmente teríamos muito mais informações.

“Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a estreita colaboração que existe em Espanha entre o Exército e as instituições científicas”

Eu não enfrentei realmente problemas a acompanhar os cientistas. Vi casas a desabar e sinto muito pelas pessoas, mas devemos estar gratos por ninguém ter perdido a vida. É verdade que muitas propriedades foram destruídas e isso pode significar uma perda económica importante para o setor de exploração de banana da ilha, mas também houve o fator sorte, que foi muito importante para ninguém morrer, porque embora as pessoas estivessem preparadas, também foram apanhadas de surpresa.

Na National Geographic, tentamos dar a maior visibilidade possível ao tremendo trabalho que está a ser feito pelos cientistas. Já testemunhou o trabalho diário destes investigadores?

Disseram-me que o vulcão Cumbre Vieja, devido a uma série de circunstâncias, é provavelmente o vulcão mais monitorizado da história: fica perto de um núcleo urbano, é na Europa, etc. Existem universidades e todo tipo de entidades científicas a trabalhar neste vulcão, e são pedidas diariamente mais de 300 permissões de voo para drones que usam câmaras térmicas e todos os tipos de dispositivos para medir gases, temperatura e assim por diante.

Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a estreita colaboração que existe em Espanha entre o Exército e as instituições científicas. A Unidade de Emergência Militar (UME), com a qual temos trabalhado, tem um acordo para cooperar com o Conselho Nacional de Pesquisa (CSIC). A UME tem equipamentos para trabalhar nestas condições, como fatos com escudos térmicos que suportam temperaturas incrivelmente elevadas, permitindo ir ao local e recolher amostras de lava para os cientistas do CSIC.

Os cientistas trabalham perto do vulcão para recolher amostras de lava e outros materiais.

Fotografia de ARTURO RODRÍGUEZ

Fiquei surpreendido e achei que era uma ideia fantástica, porque os cientistas geralmente nem sequer recebem a formação necessária para enfrentar um cenário destes. A sensação que tenho é a de que a vulcanologia é uma coisa ainda muito recente sobre a qual sabemos pouco, porque não se trata apenas de uma questão de falta de investimento financeiro, os processos eruptivos no planeta também são escassos e muito diferentes, portanto, vamos aprendendo à medida que avançamos.

Nas últimas semanas tenho trabalhado principalmente com o IGME. Eles trabalham por turnos, obviamente, mas é verdade que trabalham demasiadas horas – praticamente não dormem, levantam-se de manhã e vão a cada um dos pontos onde a lava está a progredir para verificar se avançou, se arrefeceu, se aqueceu, se está a emitir mais gases, etc. Há um grande número de pessoas a monitorizar este evento 24 horas por dia. O Instituto Geológico Nacional (IGN) não vai descansar, o IGME não vai descansar, e a Guarda Civil e a Polícia Nacional estão permanentemente no local a fazer tudo o que podem.

Que dificuldades tem encontrado para fazer a cobertura fotográfica?

Toda a imprensa está a trabalhar arduamente, mas com mais dificuldades do que seria de esperar, porque quem ocupa as hierarquias mais elevadas da cadeia de comando decidiu que não é apropriado termos acesso ao local, embora eu não consiga realmente compreender os motivos. Tive muita sorte porque a National Geographic acompanha o trabalho científico, mas muitos dos meus colegas dizem que não têm praticamente acesso ao local.

A imprensa em geral está a cobrir a erupção vulcânica a partir do perímetro exterior da zona de exclusão. Estas decisões foram tomadas por razões de segurança e privacidade, mas eu, enquanto nativo de La Palma, penso que estas medidas tão opacas podem prejudicar a chegada de recursos e doações para os habitantes da ilha, precisamente porque as pessoas não estão a ver o que está a acontecer.

“O Cumbre Vieja é provavelmente o vulcão mais monitorizado da história.”

por ARTURO RODRÍGUEZ

Somos uma comunidade pequena onde nada acontece e não estamos habituados a lidar com este tipo de pressão por parte dos órgãos de comunicação social. Mas não há dúvidas de que a restrição quase total de informações vindas da zona de exclusão do vulcão afeta a cobertura do evento. Não concordo com isso, mas nunca fui impedido de trabalhar em qualquer lugar porque estamos a fazer uma cobertura científica.

Quais têm sido os maiores desafios?

Ter ficado duas semanas sem acesso, enquanto a acreditação oficial estava a ser processada, foi sem dúvida o maior contratempo. Há alguns anos atrás, quando trabalhava para outros meios de comunicação social, teria feito o que alguns dos meus colegas fizeram: se as forças de segurança me proibissem de passar, eu contornava as barreiras e entrava por outro lado. Foi o que fiz a vida inteira e é o que a imprensa faz. Tenho de fazer o meu trabalho: o meu dever é informar a população, porque o direito à informação não é um direito do jornalista, é um direito do cidadão, e isso é muitas vezes mal interpretado. O meu dever é fazer os possíveis para o cidadão estar informado.

O fotógrafo espanhol Arturo Rodríguez (nascido em 1977, em La Palma), vencedor do World Press Photo em 2007, está na linha da frente a fazer a cobertura fotográfica do vulcão de La Palma.

Fotografia de ARTURO RODRÍGUEZ

Enquanto aguardava pelas licenças, o maior desafio foi sem dúvida observar as coisas a acontecer durante duas semanas sem saber se iam acabar de repente, mas depois de mais de um mês, os vulcanólogos disseram-nos que a erupção poderia arrastar-se durante muito tempo.

Eu percebo que eles ficaram assoberbados e começaram a tomar medidas para controlar a situação e evitar uma catástrofe maior, porque alguns dos meus colegas também se comportaram de forma pouco adequada, o que só piorou a situação para os que já lá estavam a trabalhar da forma mais profissional e humana possível.

Qual é a sensação de estar a poucos metros de um vulcão em erupção?

Há muitas pessoas que me dizem que o som dos vídeos é chocante. A verdade é que, depois de testemunhar um tufão no Sudeste Asiático, o som do vulcão parece apenas o ronronar de um gato, mas realmente passa a noção de que é extremamente poderoso.

Fiquei surpreendido com o facto de a lava não aquecer tanto como o fogo. Estive a três metros de um rio de lava a ferver, ou a 150 metros da cratera, e não senti o calor. No entanto, se houver uma pequena rajada de vento, podemos ficar queimados de repente. É como se a lava não irradiasse calor uniformemente.

Tocar na lava quando esta se transforma em crosta também é impressionante. Podemos tocar na lava com a mão e sentir que está um pouco quente, mas de repente vemos uma fenda incandescente no meio e temos de nos afastar porque irradia mais de mil graus. Se estivermos a dez centímetros de distância, não nos queimamos. Fiquei muito impressionado com a forma como a pedra forma esta crosta, agindo como um escudo térmico.

Em relação ao som, fiquei impressionado com o ruído da lava a mover-se muito lentamente. Parece vidro a partir. Um dos geólogos do IGME definiu este som na perfeição: “É como se estivéssemos a partir copos de champanhe muito finos, como se os colocássemos num saco e os amassássemos”. É esse o som que a lava emite à medida que avança. E é assim que percebemos que se está a mover, porque vemos a lava parada, mas ouvimos os cristais a partir.
 

Este artigo foi publicado originalmente em espanhol no site nationalgeographic.es

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