O perigo real de inflamação cardíaca nas crianças vem da COVID-19 – não da vacina

Os especialistas em pediatria concordam que uma infeção provoca problemas cardíacos mais graves – e acarreta maior perigo de danos permanentes.

Publicado 25/11/2021, 12:21
Camryn Zoë Emanuel, de 8 anos, é vacinado no Hospital Infantil do Texas, em Houston, no ...

Camryn Zoë Emanuel, de 8 anos, é vacinado no Hospital Infantil do Texas, em Houston, no dia 3 de novembro de 2021. Os CDC dos EUA apoiaram formalmente a vacina da Pfizer-BioNTech para as crianças dos 5 aos 11 anos.

Fotografia de Meridith Khut, The New York Times via Redux

Elizabeth Brown, mãe de dois filhos que vive nos arredores de Denver, no Colorado, teve de tomar uma decisão difícil quando as vacinas contra a COVID-19 ficaram disponíveis para as crianças. O seu filho de cinco anos nasceu com um defeito cardíaco congénito que exigiu uma cirurgia arriscada quando a criança tinha dois anos, para evitar o risco vitalício de inflamação cardíaca devido a uma infeção. Mas Elizabeth Brown também sabia que, depois de inoculados com algumas vacinas COVID-19, os rapazes adolescentes correm o risco de desenvolver miocardite, um tipo diferente de inflamação cardíaca.

“Ler sobre crianças sem historial cardíaco que ficaram com miocardite devido a uma complicação da vacina pediátrica foi assustador”, diz Elizabeth Brown. “Houve muitas notícias incendiárias nos órgãos de comunicação social que se alimentaram do medo que os pais tinham em relação às vacinas, e havia muito poucas informações disponíveis sobre os danos que a COVID pode causar.”

Elizabeth Brown conversou com o cardiologista do seu filho e refletiu sobre o tema durante semanas. À medida que iam surgindo mais informações, Elizabeth Brown foi ficando mais confiante na vacinação. O seu filho recebeu a primeira dose da vacina há duas semanas.

Muitos pediatras e cardiologistas pediátricos lamentam que a miocardite – um efeito secundário raro das vacinas mRNA para a COVID-19 nos adolescentes – tenha sido tão exacerbada, recebendo indiscutivelmente mais atenção do que os benefícios da vacina no que diz respeito a salvar vidas. Por outro lado, alguns médicos que tratam de adultos também minimizaram a ameaça que a COVID-19 representa para as crianças. Enquanto isso, dois membros do conselho consultivo, que recomendou que a agência Food and Drug Administration (FDA) dos EUA autorizasse a vacina para as crianças dos 5 aos 11 anos, questionaram se todas as crianças mais novas deviam ser vacinadas antes de haver informações sobre o risco de miocardite.

As mensagens contraditórias deixaram os pais confusos e inseguros. Nos EUA, apesar de mais de um milhão de crianças com idades entre os 5 e os 11 anos já terem sido vacinadas, uma proporção substancial de pais continua preocupada, de acordo com uma sondagem feita recentemente a nível nacional. Pouco antes de a FDA autorizar a vacina da Pfizer para as crianças, um em cada três pais queria “esperar para ver” antes de vacinar os seus filhos, de acordo com uma sondagem da Fundação da Família Kaiser. Nesta mesma sondagem, 27% dos pais queriam vacinar os seus filhos imediatamente, enquanto que 30% disseram que não iriam mesmo vacinar os filhos.

Contudo, mais de duas dezenas de artigos revistos por pares e publicados em revistas médicas, documentos governamentais e entrevistas com 10 pediatras e cardiologistas pediátricos oferecem uma imagem tranquilizadora sobre a segurança da vacina pediátrica contra a COVID-19. Os casos de miocardite após a vacinação são mais raros e geralmente mais ligeiros do que as complicações cardíacas da COVID-19, incluindo as complicações devido à síndrome inflamatória multissistémica (MIS-C), diz Matthew Elias, cardiologista pediátrico do Hospital Infantil de Filadélfia. A MIS-C é uma doença grave que pode acontecer entre duas a seis semanas após uma infeção aguda por SARS-CoV-2 em cerca de uma em cada 3.200 crianças infetadas, mesmo que a infeção seja ligeira ou assintomática. A MIS-C pode envolver a inflamação de vários órgãos, incluindo o coração, pulmões, rins, cérebro, pele, olhos e órgãos digestivos. Os CDC relatam que, nos Estados Unidos, desde o início da pandemia, mais de 5.500 crianças tiveram MIS-C, embora os especialistas acreditem que este número esteja subestimado.

“A experiência do hospital pediátrico mostra que o risco dos pacientes de qualquer idade terem problemas cardíacos devido à COVID é uniformemente pior do que o risco de miocardite devido à vacinação”, diz Frank Han, cardiologista pediátrico da OSF Healthcare em Illinois. Tal como Matthew Elias, também Frank Han diz que a maioria dos casos de miocardite associada à vacina são ligeiros, “sem perturbações significativas na função cardíaca ou na capacidade de manter a pressão arterial”.

Diferentes tipos de miocardite

De um modo geral, a miocardite refere-se a uma inflamação cardíaca e pode envolver uma vasta gama de sintomas e gravidade, desde dores muito ligeiras até insuficiência cardíaca, explica Matthew Elias. Mas existem diferentes tipos de miocardite, incluindo três tipos relacionados com a COVID-19: a miocardite da própria infeção por SARS-CoV-2, a miocardite da MIS-C desencadeada pela COVID-19 e a da vacina.

A miocardite durante uma infeção por COVID-19 é semelhante à miocardite clássica, a que os cardiologistas pediátricos usam para descrever algumas infeções virais não-COVID. Mas a chamada miocardite clássica é mais frequente nos adultos com COVID-19 e raramente acontece nas crianças infetadas.

Bastante mais comum nas crianças é a miocardite de MIS-C, ou sintomas cardíacos associados à MIS-C que se assemelham à miocardite. Parte da confusão sobre as taxas pediátricas de miocardite relacionadas com a COVID-19 deve-se à tentativa de caracterizar os sintomas cardíacos da MIS-C – saber se devem ser chamados miocardite ou não – uma vez que a MIS-C é um fenómeno relativamente recente.

Mas a maioria dos cardiologistas pediátricos concorda que as complicações cardíacas observadas na MIS-C são mais sérias do que a miocardite despoletada pela vacina.

Embora quase todas as crianças que sofreram de problemas cardíacos relacionados com a MIS-C tenham recuperado, os efeitos a longo prazo permanecem desconhecidos. Algumas crianças com MIS-C desenvolvem aneurismas da artéria coronária, onde uma artéria coronária alarga muito para além do que é considerado normal, diz Jacqueline Szmuszkovicz, cardiologista pediátrica especializada em MIS-C no Instituto do Coração do Hospital Infantil de Los Angeles. Apesar de raros, estes aneurismas podem ser fatais. E também exigem um acompanhamento continuado, possivelmente até à idade adulta, uma vez que podem apresentar riscos de doença arterial coronária no futuro de uma criança, diz Frank Han. É importante sublinhar que estes aneurismas foram observados em casos de MIS-C e não em crianças vacinadas.

Por outro lado, um dos primeiros casos relatados de miocardite pós-vacina, publicado no início de junho, revelou características relativamente ligeiras que foram confirmadas por investigações posteriores: dores no peito e falta de ar são os sintomas mais comuns, por vezes acompanhados de febre. O tratamento inclui ibuprofeno para a dor e, por vezes, esteroides ou um medicamento chamado IVIG, que estimula o sistema imunitário. O período de internamento hospitalar normalmente dura alguns dias, sobretudo para fins de monitorização. Jennifer Su, diretora do departamento de insuficiência cardíaca e cardiomiopatia do Instituto do Coração do Hospital Infantil de Los Angeles, diz que a maioria dos adolescentes que desenvolvem miocardite pós-vacina provavelmente não precisa de hospitalização, mas como este fenómeno é novo, a maioria dos médicos prefere agir com cautela.

Matthew Elias salienta que a miocardite relacionada com a vacina continua a ser um tema muito complicado para os pais. De facto, duas famílias que falaram com a National Geographic descreveram como foi assustador ver os seus filhos adolescentes hospitalizados com dores no peito e incapacitados de praticar atividades físicas durante vários meses depois de irem para casa. “Quando dizemos características relativamente ligeiras, não queremos desvalorizar o stress que os pais sentem quando os filhos estão no hospital”, acrescenta Matthew Elias.

Comparar os riscos entre a vacina e a doença

Muitos pais gostavam de poder comparar os riscos da miocardite devido à COVID-19 e a miocardite desencadeada pela vacina. Mas os especialistas dizem que essa é uma avaliação difícil de fazer.

Todos os anos, registam-se um a três casos de miocardite por cada 100.000 crianças e adolescentes sem relação com a COVID-19, explica Jennifer Su. Ainda assim, os investigadores estimam que o risco é 36 vezes superior nas crianças menores de 16 anos que contraíram COVID-19. Matthew Elias diz que cerca de 50% das crianças que ele tratou com MIS-C tiveram uma diminuição na função cardíaca semelhante ao que acontece com a miocardite, e um estudo descobriu que, entre 255 pacientes com MIS-C, 75% tinham miocardite.

As taxas de miocardite pós-vacinação variam por idade e sexo, com os rapazes adolescentes a terem mais propensão do que os outros grupos a sofrer de miocardite após a vacinação. Num estudo que acompanhou mais de quatro milhões de doses de vacinas mRNA administradas a adolescentes dos 12 aos 17 anos, o risco de miocardite pós-vacina foi de cerca de 1 em 16.000 nos rapazes e 1 em 115.000 nas raparigas.

Até agora, não há relatos de miocardite pós-vacinação em crianças menores de 12 anos – a faixa etária de maior risco para a MIS-C. O estudo revisto por pares mais abrangente e rigoroso que investiga os casos de miocardite pós-vacinação, feito por um grupo de cientistas de universidades e do governo israelita, identifica os rapazes dos 16 aos 19 anos como o grupo de maior risco: nesta faixa etária, 1 em cada 6.637 vacinados desenvolve miocardite após a segunda dose da vacina.

Ainda há muitas questões em aberto sobre a miocardite provocada pelas vacinas, e os CDC dos EUA continuam a acompanhar e a investigar os casos. O único fator de risco conhecido é ser um adolescente do sexo masculino, mas não se sabe porquê, e os investigadores também não sabem se existe um risco genético, se uma dosagem mais fraca da vacina reduz o risco ou porque é que a vacina pode sequer provocar miocardite, embora existam várias hipóteses. Também não se sabe se uma pequena percentagem de casos terá efeitos a longo prazo.

As investigações publicadas até agora mostram que quase todos os adolescentes recuperam completamente, mas Michael Portman, diretor do departamento de investigação cardiovascular pediátrica do Hospital Infantil de Seattle, está preocupado com a inflamação cardíaca observada nas ressonâncias magnéticas feitas três meses depois em adolescentes que tiveram miocardite relacionada com a vacina. “Pode ser que se resolva em mais três meses, mas ainda não se sabe”, diz Michael Portman, “e precisamos de descobrir o que acontece a longo prazo”. Matthew Elias também diz que é muito cedo para saber se as inflamações tardias observadas por ele em alguns casos se vão resolver totalmente, mas são casos que constituem uma pequena fração dos casos de miocardite relacionados com a vacina.

“Quero deixar bem claro que encontramos muito mais problemas cardíacos e casos mais graves com a própria COVID-19 do que com a vacina”, diz Matthew Elias.

Independentemente de tudo isto, se nos fixarmos apenas na miocardite e ignorarmos os outros impactos do vírus, não estamos a ver o quadro geral, diz Daniel Freeman, neurologista pediátrico em Austin, no Texas. Daniel Freeman salienta que uma em cada quatro crianças que morreram de COVID-19 não tinha doenças subjacentes. Depois, também devemos levar em consideração o potencial impacto a longo prazo da doença, incluindo os efeitos neurológicos que Daniel Freeman tem observado.

O risco de a MIS-C poder envolver órgãos em quase todos os sistemas principais do corpo também é preocupante. Cerca de 60 a 70 por cento das crianças com MIS-C são admitidas nas unidades de cuidados intensivos (UCI), e 1 a 2 por cento acabam por falecer. Por outro lado, a miocardite relacionada com a vacina raramente requer admissão nas UCI e não resultou em qualquer morte documentada em adolescentes.

Para além da MIS-C, a COVID-19 também é mais grave para as crianças do que a gripe, com taxas mais elevadas de admissão nas UCI, na necessidade de intubação e mais tempo de hospitalização. Desde o início da pandemia, a COVID-19 foi responsável por 1.7% de todas as mortes de crianças dos 5 aos 11 anos.

A probabilidade da miocardite provocada pela vacina afetar significativamente a vida das crianças a longo prazo é “infinitesimalmente pequena em comparação com o risco de adoecer gravemente com COVID”, diz Jennifer Su. “Infelizmente, nesta fase da pandemia, creio que a escolha não é realmente sermos vacinados ou não, a escolha é entre termos COVID ou sermos vacinados.”

Elizabeth Brown, a mãe que vacinou o filho de cinco anos com um defeito cardíaco congénito, aceita que “tudo tem riscos”. Elizabeth Brown e o marido já tinham enfrentado os riscos da operação ao filho para corrigir a sua condição cardíaca e evitar o risco vitalício de uma endocardite provocada por infeção – uma inflamação do endocárdio, o revestimento interno do coração, que pode apresentar perigo de vida.

“Eu olhei para a vacina da mesma forma”, diz Elizabeth Brown. “Preferimos o risco incrivelmente pequeno e de curto prazo de uma potencial complicação com a vacina do que os riscos duradouros e imprevisíveis de contrair COVID-19.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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