Os factos sobre células de tecido fetal e vacinas COVID-19

Nos EUA, à medida que mais pessoas recorrem à isenção religiosa para evitar a vacinação obrigatória, os especialistas explicam como as células fetais são usadas no desenvolvimento de medicamentos – das vacinas a medicamentos comuns para a dor.

Publicado 23/11/2021, 12:04
Nesta imagem vemos grupos de células 293 de rim embrionário humano em cultura. Estas células são ...

Nesta imagem vemos grupos de células 293 de rim embrionário humano em cultura. Estas células são uma ferramenta padrão na investigação biomédica e no desenvolvimento de medicamentos.

Fotografia de GerMan101, Getty

No rescaldo dos mandatos federais de vacinação obrigatória nos EUA, surgiu um debate sobre os inúmeros bombeiros, polícias e outros trabalhadores que invocaram isenções religiosas para não serem vacinados contra a COVID-19. O número de pedidos de isenção deve aumentar à medida que o prazo de vacinação – dia 4 de janeiro – se aproxima para as maiores empresas privadas e algumas instalações de saúde. Uma das explicações mais comuns para estes pedidos de isenção é a ligação entre as vacinas e as células fetais humanas.

É verdade que estes tipos de células foram usados nos ensaios ou no desenvolvimento e produção de vacinas COVID-19. Estas células são cultivadas em laboratório e derivam de alguns abortos selecionados que foram realizados há mais de três décadas. Estes tecidos celulares também são usados para testar e avançar a nossa compreensão sobre vários dos chamados medicamentos de rotina, incluindo Tylenol, ibuprofeno e aspirina, e continuam a ser usados em investigações para o tratamento de doenças como Alzheimer e hipertensão.

“Há muitas pessoas que não percebem a importância que os tecidos celulares fetais têm para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas que salvam vidas”, diz Amesh Adalja, especialista em doenças infeciosas do Centro Johns Hopkins. “A sua utilização no desenvolvimento de vacinas COVID-19 não é nada de novo ou especial.”

Para alguns líderes religiosos, as suas recomendações seguem a ciência. Numa declaração feita em dezembro de 2020, a Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos referiu que os tecidos celulares estão moralmente comprometidos pela sua ligação, ainda que remota, com abortos. Mas reitera que a mensagem do Vaticano, na ausência de alternativas, justifica o uso de vacinas como um ato de caridade e responsabilidade moral em situações de perigo grave para a saúde, como é o caso da pandemia de COVID-19.

Embora ainda não se saiba qual é o número de isenções religiosas para a vacinação concedidas até agora nos EUA, os requerentes devem demonstrar a sua “sinceridade religiosa” e, em alguns casos, provar que também vão evitar o uso de medicamentos de rotina desenvolvidos com células fetais.

Os médicos, por outro lado, receiam que as objeções de algumas pessoas possam resultar em parte dos mal-entendidos. Richard Zimmerman, especialista em medicina familiar da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, diz que alguns dos seus pacientes expressaram ceticismo porque acreditam que as vacinas COVID-19 contêm células de fetos abortados. Mas isso está incorreto.

A importâncias das células fetais para o desenvolvimento de medicamentos

Ao contrário das bactérias, os vírus precisam de um hospedeiro para sobreviver; os vírus só conseguem crescer e reproduzir-se no interior das células hospedeiras que infetam. As vacinas normalmente fornecem pequenas doses de versões enfraquecidas ou inativadas dos vírus, ou partes-chave desses mesmos vírus, para dar ao corpo hospedeiro uma antevisão do patógeno sem provocar a doença. No futuro, caso seja necessário, isto permite ao sistema imunitário identificar um vírus e combatê-lo.

Para produzir vacinas em massa, os fabricantes precisam de encontrar uma forma de produzir enormes quantidades de componentes virais.

Os cientistas usam ovos fertilizados de galinha, por exemplo, como hospedeiros para multiplicar o vírus da gripe e produzir as vacinas anuais contra a gripe. Mas os fabricantes de vacinas preferem cultivar vírus em células de mamíferos, principalmente porque ajudam a prevenir a mutação do vírus e a produção é maior.

Antigamente, os cientistas usavam células animais. Mais tarde, porém, perceberam que essas células podiam conter outros vírus animais indesejáveis, elementos que contaminariam as vacinas. Por exemplo, uma versão inicial da vacina da poliomielite, que foi administrada extensivamente entre 1955 e 1963, foi produzida com células de macaco. Mas eventualmente os cientistas descobriram que essas células estavam contaminadas com um vírus de macaco chamado SV40.

E também havia outro problema – alguns vírus humanos não cresciam tão bem em células animais não humanas. Assim, para produzir vírus vacinais, os cientistas viraram as suas atenções para as células fetais humanas.

“Estas células eram conhecidas por raramente conterem vírus contaminantes”, diz Leonard Hayflick, biólogo celular da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Leonard Hayflick criou a estirpe original da célula fetal conhecida por WI-38 a partir de um aborto seletivo na Suécia no início da década de 1960. Leonard Hayflick sabia que as células fetais humanas, ao contrário das células humanas adultas, tinham menos probabilidades de conter vírus indesejados.

Contudo, ao longo dos anos, os cientistas identificaram outras células animais que podiam ser usadas em segurança para desenvolver vacinas contra determinados vírus. As células renais do macaco Chlorocebus sabaeus, por exemplo, têm sido usadas para desenvolver várias vacinas, incluindo algumas contra a poliomielite e a varíola.

“Mas existe uma preferência, sobretudo com os novos vírus humanos, pelo uso de uma linha celular humana”, diz Alessondra Speidel, cientista de biomateriais do Instituto Karolinska da Suécia – “possivelmente porque têm mais probabilidades de infetar e crescer melhor nas células humanas do que nas células animais”.

De onde vêm as células fetais?

Para criar estirpes de células fetais, os cientistas precisam de isolar milhões de células de pequenos pedaços de tecido recolhidos de um embrião morto. Cada célula pode dividir-se quase 50 vezes. E estas células podem ser congeladas – ou, em alguns casos, imortalizadas – por isso é que as células atualmente em utilização vêm de tecidos recolhidos há várias décadas.

Leonard Hayflick, por exemplo, congelou dez milhões de células pulmonares fetais humanas – de um feto abortado – em 700 frascos de vidro, depois da população de células original se ter multiplicado sete vezes. “Dado o potencial das células para se continuarem a multiplicar pelo menos mais 30 vezes, cada frasco pode equivaler a dezenas de milhares de quilos de células. São células suficientes para abastecer os fabricantes mundiais de vacinas com células WI-38 durante vários anos”, diz Leonard Hayflick. Estas células pulmonares são atualmente usadas para produzir vacinas contra a varicela, rubéola, hepatite A e raiva. Outros cientistas transformaram as células fetais de rins e da retina para se imortalizarem, dividindo-se para sempre. A linha celular PER.C6, por exemplo, é derivada de células retinais imortalizadas de um feto abortado às 18 semanas em 1985.

A Johnson & Johnson usa a linha celular PER.C6 para produzir a sua vacina contra a COVID-19. A empresa usou estas células para cultivar adenovírus – que foram modificados para não se replicarem ou provocar doenças – que foram purificados e usados para fornecer o código genético para a proteína “espigão” do SARS-CoV-2. A vacina da Johnson & Johnson não contém qualquer uma das células fetais que outrora continham o adenovírus, porque estas foram extraídas e filtradas.

A Pfizer e a Moderna usaram outra linha celular imortalizada, a HEK-293, que deriva do rim de um feto abortado na década de 1970. As células foram usadas durante o desenvolvimento da vacina para confirmar que as instruções genéticas para fazer a proteína espigão do SARS-CoV-2 funcionavam em células humanas. Foi uma espécie de prova de conceito, diz Alessondra Speidel, e não foram usadas células fetais para produzir qualquer uma destas vacinas mRNA.

“A questão passa por saber se é eticamente aceitável desenvolver e usar medicamentos que salvam efetivamente vidas, quer sejam vacinas ou tratamentos, mas que dependem de uma linhagem que foi criada com células fetais humanas de abortos feitos há meio século atrás”, diz Frank Graham, especialista em virologia molecular e professor emérito da Universidade McMaster do Canadá, que criou a linha de células HEK-293.

Mesmo que as futuras vacinas consigam de alguma forma evitar o uso destas linhas de células fetais, é difícil ignorar o papel fundamental que este tipo de células tem desempenhado. O mesmo acontece com a utilização generalizada destas células no estudo de várias doenças comuns, como a diabetes e hipertensão, e no avanço dos seus tratamentos.

Para além dos factos científicos, o que tem prevalecido mais entre os vários pacientes de Richard Zimmerman que estão hesitantes com a vacina tem sido uma mensagem de altruísmo. “Ninguém quer ser a pessoa que propagou uma doença infeciosa entre os seus entes queridos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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