Ossos de criança da antiguidade aprofundam o mistério sobre um enigmático parente humano

Dentes e fragmentos cranianos encontrados nos recessos labirínticos de uma caverna sul-africana estimulam o debate sobre a forma como viveu o Homo naledi – e como tratava os seus mortos.

A antropóloga Marina Elliott sentada na entrada do sistema de cavernas Rising Star na África do Sul. A sua equipa descobriu recentemente os restos mortais de uma criança numa passagem remota nas profundezas da caverna.

Fotografia de Robert Clark
Publicado 8/11/2021, 14:37

Apertada numa fenda estreita a cerca de 45 metros de profundidade, no sistema de cavernas Rising Star da África do Sul, Becca Peixotto espremeu-se por entre paredes rochosas para contornar uma curvatura. Centímetro a centímetro, Becca Peixotto contorceu o seu corpo através de uma passagem tortuosa, ficando quase de cabeça para baixo para chegar a uma pequena saliência onde aguardava um tesouro científico – os dentes e fragmentos ósseos de uma criança que viveu há mais de 240.000 anos, um enigmático parente humano conhecido por Homo naledi.

Esta descoberta acrescenta cerca de 2.000 ossos e dentes do Homo naledi à coleção de itens recuperados neste sistema de cavernas desde que os espeleólogos encontraram os primeiros fósseis em 2013. Os restos mortais da criança – estima-se que morreu quando tinha entre quatro e seis anos – incluem seis dentes e 28 fragmentos cranianos.

Nenhuma destas descobertas foi fácil, porque o sistema de cavernas tem quedas abruptas e zonas tão estreitas que os espeleólogos precisam de expirar para comprimir o corpo. Mas os movimentos contorcionistas que foram recentemente exigidos a Becca Peixotto, arqueóloga da American University em Washington D.C., e aos membros da sua equipa foram alguns dos mais difíceis até agora.

A expedição labiríntica para descobrir os restos mortais da criança, que tem a alcunha de “Leti” – em homenagem à palavra Setswana para perdido – expõe uma questão incómoda sobre estes misteriosos parentes humanos: como e por que razão se aventuraram tão profundamente nesta caverna escura e sinuosa?

“Ninguém envolvido nesta expedição tinha qualquer expectativa de que íamos encontrar ossos de Homo naledi nestas circunstâncias”, diz John Hawks, paleoantropólogo da Universidade de Wisconsin-Madison. “Estamos a explorar lugares que estão vários metros abaixo de passagens impossíveis."

A descoberta desta criança, descrita num novo estudo que foi publicado na revista PaleoAnthropology, faz parte de um esforço feito em 2017 e 2018 para explorar as partes mais profundas da caverna. A equipa mapeou mais de 300 metros de novas passagens e descreveu o sistema, que é semelhante a um labirinto, num segundo estudo. Este trabalho revelou apenas uma entrada do sistema de cavernas mais amplo que existe no subsistema Dinaledi, onde a maioria dos restos mortais do Homo naledi foram encontrados. Os vestígios mais recentes foram encontrados na maior profundidade de sempre até ao momento neste subsistema – depositados a mais de trinta metros da abertura da caverna.

Estas descobertas sugerem que os restos mortais podem ter sido trazidos deliberadamente por outros Homo naledi, para se livrarem intencionalmente dos seus mortos. “Não encontramos outra razão para o crânio desta criança estar numa localização extraordinariamente difícil e perigosa de alcançar”, disse Lee Berger na conferência de imprensa sobre a descoberta. Lee Berger, paleoantropólogo da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, é o líder da expedição Rising Star e explorador da National Geographic.

Contudo, alguns cientistas que não participaram no estudo ainda não estão convencidos. Saber se o Homo naledi levou realmente os seus mortos para a caverna tem uma enorme importância para os paleoantropólogos e arqueólogos. Este comportamento intencional para com um falecido implica um nível de complexidade cultural que se pensava ser exclusivo da nossa espécie.

“A nossa reação à morte, o nosso amor pelos outros indivíduos, os nossos laços sociais com outras pessoas – quanto disso depende realmente de sermos humanos?” pergunta John Hawks.

Parque geológico

Quando a descoberta da espécie foi anunciada em 2015, a mistura desconcertante de características modernas e antigas do Homo naledi mostrou que a evolução humana era mais complexa do que se pensava. Mas uma das coisas mais surpreendentes sobre estes hominídeos de baixa estatura é o quão difícil tem sido recuperar os seus restos mortais e, portanto, a dificuldade que tiveram para se aventurarem tão profundamente na caverna.

A câmara do subsistema Dinaledi da caverna contém os restos mortais de pelo menos 15 Homo naledi, um dos quais é mostrado neste esqueleto composto.

Fotografia de Robert Clark

Em 2013, a primeira equipa de escavação consistia em seis cientistas, todas mulheres especialistas em espeleologia e, mais importante, pequenas o suficiente para conseguir atravessar o parque geológico da caverna. Ao longo dos anos, as expedições financiadas em parte pela National Geographic Society recolheram pelo menos 20 indivíduos Homo naledi, 15 dos quais foram encontrados numa só câmara no subsistema Dinaledi.

Estas concentrações de corpos costumam ser o resultado da chamada “armadilha mortal”, uma caverna subterrânea com abertura para a superfície onde animais ou pessoas podem cair inadvertidamente. Mas estes tipos de armadilhas matam uma grande variedade de animais, como se pode verificar pela diversidade encontrada no interior da Caverna de Malapa na África do Sul, ao passo que a grande maioria dos ossos encontrados no sistema de Rising Star são exclusivamente do Homo naledi.

Há outras explicações sobre a forma como os restos mortais foram parar à caverna, mas nenhuma é consensual ou válida, de acordo com a equipa do estudo. É pouco provável que os Homo naledi tivessem sido arrastados para a caverna por animais carnívoros, até porque os ossos não apresentam marcas de dentes. Os corpos também não parecem ter sido levados para a caverna pela água, uma vez que algumas partes dos corpos foram encontradas praticamente intactas, incluindo uma mão com os ossos dispostos como eram em vida: com a palma virada para cima e os dedos curvados para dentro.

Marina Elliott explora uma câmara lateral com a paleontóloga Ashley Kruger durante a expedição de 2013. Marina Elliott foi uma das seis cientistas da expedição com aptidões físicas para alcançar a câmara Dinaledi.

Fotografia de ELLIOT ROSS

Contudo, para entrar na caverna naquela época teria sido perigoso, sobretudo com um cadáver a reboque. Uma inspeção cuidadosa do único ponto de entrada do sistema sugere que havia duas formas de descer durante a época do Homo naledi: uma queda quase vertical de 12 metros, ou uma rede de fendas quase impercetíveis numa das paredes rochosas.

A equipa propôs inicialmente que os Homo naledi descartavam os seus mortos na queda vertical que conduz à câmara. Mas as escavações adicionais revelaram três sítios diferentes, incluindo o da criança recém-descoberta, que ficam em zonas ainda mais profundas da caverna.

“São locais onde o material ósseo do Homo naledi não podia estar, a não ser que eles vivessem neste subsistema, o que significa que os Homo naledi desciam pela parede e entravam na caverna”, diz John Hawks.

Uma nuvem de questões

Outros cientistas, porém, ainda não estão convencidos. O mapeamento e os ossos encontrados recentemente “ainda não demonstram que os restos mortais foram deliberadamente depositados por outros humanos”, escreve por email Paul Pettitt, arqueólogo da Universidade de Durham – mas acrescenta que esta última descoberta “torna tudo mais provável”.

Paul Pettitt e outros investigadores sugerem que há explicações alternativas que precisam de ser descartadas. Talvez os hominídeos estivessem a usar as cavernas para fazer alguma coisa e morreram lá, diz Aurore Val, estudante de pós-doutoramento da Universidade de Tübingen.

Aurore Val dá como exemplo os babuínos, que muitas vezes passam as noites – e por vezes morrem – em cavernas. Os babuínos encontrados mortos em cavernas tendem a ser demasiado jovens ou demasiado velhos e morrem devido a uma variedade de causas naturais, como doenças. Num estudo feito recentemente, Aurore Val e os seus colegas encontraram uma distribuição semelhante de jovens e idosos entre os restos mortais de Homo naledi descobertos no sistema de cavernas Rising Star, e o mesmo nos babuínos encontrados na caverna Misgrot, também na África do Sul. “Não estou a afirmar que resolvemos o problema”, diz Aurore Val. “Mas creio que vale a pena explorar este ângulo.”

Os cientistas estão apenas a começar a desvendar os diversos segredos do sistema de cavernas Rising Star – e estão entusiasmados com o que ainda há para descobrir.

Fotografia de ROBERT CLARK

Também é preciso fazer um trabalho mais detalhado para documentar a fundo a geologia da caverna e a forma como esta mudou ao longo dos milénios. A datação de Leti e de outros fósseis recém-descobertos também pode ajudar a determinar como era esta caverna quando foram depositados os restos mortais dos hominídeos, diz Andy Herreis, paleoantropólogo e geoarqueólogo da Universidade La Trobe, na Austrália, e explorador da National Geographic. “As cavernas são lugares complexos”, escreve Andy Herreis por email. “As passagens colapsam e as entradas desmoronam com o passar do tempo.”

Apesar do formato da caverna ter mudado um pouco, incluindo quedas de rochas e o estreitamento de algumas passagens devido à acumulação de depósitos minerais, as análises feitas anteriormente pela equipa sugerem que a estrutura primária do subsistema Dinaledi permaneceu bastante estável durante centenas de milhares de anos, diz Marina Elliott, autora do estudo e antropóloga da Universidade Simon Fraser, que liderou as escavações feitas nas cavernas entre 2013 e 2019.

Enquanto isso, o debate irá certamente continuar. A confirmação de que o Homo naledi estava realmente a enfrentar as passagens sinuosas da caverna para se livrar dos seus mortos seria uma mudança de paradigma para muitos cientistas. O Homo sapiens é a única espécie viva que enterra deliberadamente os seus mortos, embora alguns neandertais também possam ter usado esta prática.

“Talvez o facto de outros hominídeos descartarem deliberadamente os seus mortos não deva ser uma coisa assim tão surpreendente”, diz Marina Elliott.

“Nós, enquanto humanos, gostamos muito de sentir que somos especiais, mas já não gostamos muito quando outras espécies invadem esse espaço.” Contudo, muitas das características que os cientistas consideravam definidoras do Homo sapiens, como o fabrico de ferramentas, são comprovadamente partilhadas com outros hominídeos e primatas.

Marina Elliott reconhece que há muitas perguntas sem resposta e que os dois novos estudos parecem aprofundar ainda mais o mistério. “Mas isso é obviamente bom”, diz Marina. “Dá-nos muita coisa para trabalhar.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do explorador da National Geographic Lee Berger.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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