Testes sanguíneos inovadores conseguem detetar cancro antecipadamente

Os novos testes conseguem detetar vários tipos de cancro antes de as pessoas apresentarem sintomas, podendo salvar inúmeras vidas. Mas alguns especialistas alertam que a sua eficácia ainda não foi comprovada.

Publicado 8/11/2021, 15:03
O cancro é uma das principais causas de morte no mundo inteiro. Os testes que consigam ...

O cancro é uma das principais causas de morte no mundo inteiro. Os testes que consigam detetar cancro nos estágios iniciais podem revolucionar os tratamentos.

Fotografia de Anthony Kwan, Bloomberg via Getty Images

Quando a oncologista cirúrgica Phyllis Napoles opera pessoas com cancro do pâncreas, a doença está geralmente avançada e o prognóstico é pouco animador. Mas em outubro de 2020, Phyllis Napoles entrou na sala de cirurgia do centro médico Sutter Health em Sacramento, na Califórnia, para observar um tipo diferente de paciente.

Jim Ford foi identificado com cancro do pâncreas de estágio dois enquanto participava num ensaio para um novo tipo de teste sanguíneo – teste que rastreia o cancro – e ficou surpreendido com o diagnóstico. Ao contrário da maioria das pessoas que descobrem que têm a doença, Jim Ford, vendedor de carros reformado de 76 anos, não apresentou quaisquer sintomas e tinha jogado golfe na semana anterior.

O cancro do pâncreas raramente é descoberto tão cedo. Quando alguém apresenta  sintomas, diz Phyllis Napoles, as taxas de sobrevivência podem baixar para os 3%, e a doença costuma ser incurável. Mas Phyllis Napoles conseguiu remover completamente o tumor de Jim Ford, que era do tamanho do seu polegar. Agora, um ano após a cirurgia, radiação e quimioterapia, Jim Ford está livre do cancro – ilustrando o potencial de uma nova geração de testes sanguíneos que um dia poderão aumentar o número de sobreviventes para uma gama mais vasta de cancros.

“Isto é algo que eu nunca pensei que fosse evoluir durante a minha carreira, e ainda estou no início, portanto, estou muito esperançosa”, diz Phyllis Napoles, que se formou na faculdade de medicina em 2006, foi bolseira de investigação até 2013 e especializou-se em cancro do pâncreas. “Isto é muito significativo. E vai realmente mudar todas as estatísticas que temos sobre probabilidades de sobrevivência e deteção do cancro do pâncreas.”

Através dos avanços feitos no sequenciamento genético e inteligência artificial, mais de uma dezena de empresas estão a trabalhar em testes sanguíneos – por vezes denominados biopsias líquidas – que conseguem detetar os sinais de cancro que circulam em concentrações mínimas na corrente sanguínea. A procura por estes testes, se forem realmente úteis, é enorme. De acordo com a Fundação de Inovação e Tecnologia da Informação, o potencial mercado para este tipo de tecnologia de deteção de cancro está avaliado em mais de 6 mil milhões de dólares, esperando-se que triplique o seu valor até 2025.

O único teste sanguíneo para o rastreio de cancro atualmente disponível – sem ser no ambiente de ensaios – é o que identificou o cancro de Jim Ford. Este teste, denominado Galleri, consegue detetar 50 tipos de cancro numa amostra de sangue, de acordo com a Grail, a empresa de cuidados de saúde sediada na Califórnia que o desenvolveu. Este teste está agora disponível através de prescrição nos EUA para as pessoas com elevado risco de cancro. E também vai estar disponível num estudo de grande escala em Inglaterra, que está atualmente a recrutar voluntários.

O objetivo destes novos exames sanguíneos é salvar vidas ao detetar o cancro antecipadamente, sobretudo para as pessoas que não têm atualmente acesso a testes de rastreio credíveis. Nos Estados Unidos, existem agora formas de rastrear pessoas com elevado risco de cinco tipos de cancro – cancro da mama, do cólon, da próstata, do colo do útero e do pulmão – através de testes sanguíneos ou de outros tipos de exames, como mamografias. Mas os estudos mostram que, das cerca de 600.000 mortes devido a cancro que acontecem anualmente nos EUA, mais de dois terços são provocadas por cancros para os quais não existem boas opções de rastreio. E geralmente são casos que só se descobrem quando já estão em metástase.

Os médicos já usam as biopsias líquidas para monitorizar o sangue dos seus pacientes com cancro, tentando obter informações que ajudem a determinar quais são os tratamentos a seguir e se o cancro regressa após o tratamento. Mas a nova vaga de exames sanguíneos tenta detetar o cancro em pessoas que nunca foram sequer diagnosticadas.

Porém, estes testes também levantam preocupações – sobre falsos positivos que levam a testes de acompanhamento arriscados e desnecessários; sobre a descoberta de cancros num estágio inicial que podem nunca avançar o suficiente para exigir tratamento e sobre a descoberta de cancros sem tratamentos eficazes. O que poderá acontecer se as pessoas usarem estes testes sem supervisão médica? O que irá acontecer quando a única forma de confirmar um teste sanguíneo positivo é através de uma cirurgia altamente invasiva?

É crucial determinar que os testes são infalíveis e úteis, diz Shivan Shivakumar, médico oncologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “É importante ficarmos animados com estas coisas. Mas temos de nos certificar se o que estamos a fazer está realmente a funcionar ou não. Creio que ainda não estou convencido.”

Sinais de cancro no sangue

As biopsias líquidas foram inicialmente desenvolvidas para testar o sangue de pessoas que já têm cancro, para compreender a biologia da doença. À medida que os cancros se desenvolvem no corpo, algumas células cancerígenas morrem e libertam ADN, e as biopsias líquidas usam várias estratégias para detetar esse ADN.

Estes tipos de biopsias líquidas também podem ser usados para verificar se um cancro tem mutações específicas que podem ser tratadas com determinados medicamentos, diz Geoff Oxnard, oncologista torácico e diretor do departamento de desenvolvimento clínico da Fundação Medicine, uma empresa de biotecnologia focada em análises genéticas. Após o tratamento, as biopsias líquidas podem ajudar a rastrear mutações específicas num tumor para perceber como é que o cancro está a reagir a esse tratamento. Estes testes podem detetar resistência, ajudar nas terapias subsequentes e revelar quando um paciente tem uma recaída.

Os testes sanguíneos que procuram mutações específicas num cancro já foram aprovados pela agência do medicamento (FDA) dos EUA e estão disponíveis comercialmente neste país há cerca de cinco anos. Em 2020, a FDA aprovou dois testes de biopsia líquida que são os primeiros a rastrear múltiplas mutações de uma só vez, incluindo um teste desenvolvido pela empresa de Geoff Oxnard. Estes testes usam um sequenciamento genético de próxima geração (uma abordagem rápida que sequencia simultaneamente muitas partes do genoma) para detetar mutações que fomentem o crescimento do cancro. O teste da Fundação Medicine foi aprovado como diagnóstico complementar para o tratamento de cancro do pulmão, da mama, do ovário e da próstata. Em comparação com as biopsias tradicionais, que extraem tecidos para análise, Geoff Oxnard diz que os novos testes são menos invasivos e geralmente fornecem resultados mais depressa.

O desenvolvimento de tecnologias que consigam encontrar sinais de cancro no sangue de pacientes diagnosticados também abre outra perspetiva atraente: a possibilidade de encontrar os primeiros sinais de cancro no estágio inicial em pessoas por diagnosticar. Os investigadores dizem que a aplicação das tecnologias desenvolvidas para as biopsias líquidas no rastreio de cancro pode resolver um problema persistente – na maioria das vezes, os cancros são diagnosticados quando a doença já está avançada e provoca sintomas – quando o prognóstico é geralmente pouco encorajador.

As pessoas com cancro do pâncreas que se tenha espalhado ou metastizado para outros órgãos, por exemplo, podem ter uma esperança de vida a rondar os três e os 12 meses, diz Shivan Shivakumar. Se a doença for descoberta precocemente – algo que acontece em menos de um em cada cinco casos – a esperança de vida pode prolongar-se mais três ou quatro anos. As pessoas que contraem cancro do pulmão também podem beneficiar de tratamentos mais eficazes se a doença for detetada antecipadamente, mas raramente o é. Portanto, testes sanguíneos para detetar precocemente o cancro? “Creio que seria incrivelmente transformador”, diz Shivan Shivakumar.

Agulha num palheiro

Durante anos, o desenvolvimento deste tipo de testes foi dificultado por um enorme obstáculo: a quantidade de ADN cancerígeno que circula no sangue é incrivelmente pequena. “Estamos a tentar encontrar uma coisa ínfima de ADN a flutuar no sangue, e a maior parte desse ADN pertence ao paciente, ao seu ‘palheiro’ de ADN”, diz Geoff Oxnard. “Estamos à procura de uma agulha num palheiro de ADN.”

Assim que os cientistas descobriram uma forma de detetar, amplificar e sequenciar o ADN de forma rápida e acessível – etapas que são auxiliadas por avanços feitos no campo do sequenciamento de última geração – também precisaram de determinar o que estavam à procura. Existem várias estratégias para fazer este processo.

Uma das abordagens passa pela pesquisa de determinadas mutações cancerígenas já conhecidas no ADN tumoral circulante que foi isolado de uma amostra de sangue. Esta estratégia usa um teste de sangue multi-cancro chamado CancerSeek, que procura genes relacionados com o cancro, bem como proteínas que podem ter aumentado em resposta ao tumor. Uma versão inicial deste teste, desenvolvida por investigadores da Universidade Johns Hopkins, detetou 26 cancros de vários tipos durante um estudo feito ao longo de um ano com cerca de 10.000 mulheres, com idades entre os 65 e os 75 anos, sem histórico de cancro – de acordo com uma investigação publicada em 2020. Este teste, que ainda não está disponível fora dos ensaios, não precisa de exames excessivos de acompanhamento, uma das preocupações mais comuns nos programas de rastreio. Apenas 0.22% dos participantes apresentaram falsos positivos que desencadearam procedimentos e diagnósticos invasivos desnecessários.

A empresa Grail adotou uma abordagem diferente com o seu teste Galleri, porque não procura mutações, mas sim compostos chamados grupos de metilo que se ligam a segmentos de ADN, ativando ou desativando genes, diz Joshua Ofman, diretor do departamento de medicina e relações externas da Grail. Cada pessoa tem o seu próprio padrão de metilação, mas há genes específicos que tendem a “metilar” de formas mais ou menos previsíveis quando alguém tem cancro. As mutações também podem aparecer como parte natural do envelhecimento, mesmo sem cancro. E os marcadores de metilo são muito mais comuns do que as mutações nos genes, diz Joshua Ofman. Numa só região de ADN, que tem apenas duas ou três mutações, podem existir dezenas de milhares de marcadores de metilo que ativam genes que fomentam o tumor, ou desativam genes supressores de formas semelhantes em muitos tipos de cancro. Isto faz com que os algoritmos consigam reconhecer mais facilmente os genes em questão.

A monitorização dos grupos de metilação tem diversas vantagens, de acordo com a investigação feita pela equipa da Grail, incluindo a especificidade. Alguns padrões de metilação estão correlacionados com diferentes tipos de células, permitindo aos algoritmos fornecer uma impressão digital de onde está localizado o cancro no corpo. Num estudo de validação que incluiu mais de 15.000 pessoas, a taxa de falsos positivos foi de apenas 0.5%.

Segundo os dados publicados pela Grail em junho sobre um ensaio chamado Pathfinder, que ainda está a decorrer e inclui mais de 6.600 pessoas com mais de 50 anos, o teste Galleri encontrou 29 cancros de 13 tipos, incluindo cancro da mama, do cólon, do fígado e do pulmão, bem como leucemia. Cerca de 40% destes casos ainda estavam localizados no estágio um ou dois – de acordo com uma análise provisória do ensaio. Foi este mesmo ensaio que identificou o cancro do pâncreas em Jim Ford.

Joshua Ofman acrescenta que, quando um teste acusa positivo, os casos confirmados de cancro rondam os 44%. (Mesmo com uma taxa baixa de falsos positivos nos testes de validação, os testes de rastreio como este podem acabar por sinalizar muitas pessoas que não têm cancro, porque a percentagem de verdadeiros positivos em pessoas assintomáticas é extremamente baixa.)

Numa análise publicada em março, os investigadores da Grail estimavam que um teste de deteção precoce de vários cancros pode evitar 104 mortes por cada 100.000 pessoas anualmente – cerca de 26% de todas as mortes relacionadas com cancro.

Este teste está agora disponível através de prescrição nos EUA, desde que as pessoas estejam dispostas a pagar cerca 949 dólares pelo mesmo. Em Inglaterra, o Serviço Nacional de Saúde, que é financiado publicamente, está a colaborar com a empresa Grail para inscrever 140.000 pessoas num estudo piloto que vai avaliar o desempenho deste teste.

Em agosto, a empresa de biotecnologia Illumina adquiriu a Grail. O plano da companhia é disponibilizar este teste no mundo inteiro o mais depressa possível e torná-lo amplamente disponível, sobretudo nas comunidades mais carenciadas, diz Francis deSouza, CEO da Illumina. (Francis DeSouza é membro do conselho de direção da The Walt Disney Company, que é proprietária maioritária da National Geographic Partners.) Francis deSouza fica emocionado quando ouve histórias como a de Phyllis Napoles. “É isto que alimenta a minha paixão – poder dizer que aquele cancro era uma sentença de morte e que agora já não precisa de o ser.”

Contos de advertência

Tanto o Galleri como o CancerSEEK são os exames sanguíneos de maior visibilidade em desenvolvimento, testes que visam detetar vários tipos de cancro de uma vez, diz Shivan Shivakumar. Há outros grupos a trabalhar em exames sanguíneos para cancros isolados. Contudo, à medida que a indústria progride, alguns investigadores alertam que não devemos ficar demasiado entusiasmados, pelo menos para já.

Os estudos sobre a eficácia da deteção precoce são conhecidamente difíceis de fazer, diz Shivan Shivakumar. A obtenção de resultados pode ser morosa e, muitas vezes, acaba por ser dececionante. Por exemplo, num estudo publicado no início deste ano, investigadores no Reino Unido descobriram que o rastreio do cancro do ovário não afeta o número de mulheres que morrem devido ao mesmo. E foram necessários 10 anos para se chegar a esta conclusão.

Os testes de rastreio de todos os tipos podem dar origem a falsos positivos, resultados que, de acordo com os estudos, têm ramificações físicas e psicológicas. Mesmo quando os testes detetam com exatidão o cancro precocemente, podem não afetar o rumo da doença, como acontece com o cancro do ovário, sobretudo se forem casos agressivos e difíceis de tratar, diz Shivan Shivakumar. “Se vamos fazer um rastreio ao cancro, é melhor termos a certeza de que também temos uma boa intervenção para oferecer.”

Vários dos programas de triagem também acabaram por não ajudar, embora detetassem alguns problemas, acrescenta Margaret McCartney, médica de clínica geral em Glasgow, na Escócia, e associada do Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford. Um bom exemplo foi a implementação de programas de rastreio em massa para o cancro da tiroide em partes da Europa e da Ásia, incluindo no rescaldo dos acidentes nucleares em Chernobyl e Fukashima, bem como um programa nacional de rastreio na Coreia. Estes programas levaram a um grande aumento no número de casos diagnosticados de cancro da tiroide – juntamente com cirurgias e subsequente ansiedade. Mas não tiveram impacto no número de vidas salvas. “O problema de qualquer tipo de estudo de rastreio reside na facilidade com que encontramos problemas”, diz Margaret McCartney. “Mas será que isso nos ajuda realmente a melhorar a qualidade ou a prolongar a vida das pessoas?”

É fácil deixarmo-nos levar pelas possibilidades da inovação em detrimento da sua utilidade, acrescenta Margaret McCartney. Pessoas como Jim Ford, cujo cancro foi detetado antecipadamente, alimentam uma sensação de possibilidade, mesmo que os dados epidemiológicos não consigam eventualmente mostrar benefícios reais para a sociedade.

O maior desafio do rastreio é fornecer informações que façam a diferença, diz Geoff Oxnard. O progresso deste campo de investigação exige dados detalhados e precisos. “É tentador encontrar um sinal de cancro, mas será que o conseguimos fazer de uma forma infalível? Quais são os fatores necessários para fomentar a nossa confiança em torno destes tipos de aplicações? Isso é o que todos nós estamos a tentar descobrir.”

Para Jim Ford, estas questões parecem menos complicadas. Jim Ford recomeçou a trabalhar 20 horas por semana num campo de golfe e também joga regularmente. A participação no ensaio foi uma experiência invulgar porque normalmente Jim Ford diz que não quer perder tempo com estas coisas. Mas agora conta a todas as pessoas a sua experiência e encorajou recentemente a sua cunhada a participar no mesmo ensaio.

“E se eu tivesse dito que não, como faço sempre?” diz Jim Ford. “Provavelmente agora estaria no estágio quatro. E o estágio quatro é praticamente incurável.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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