A Ómicron consegue iludir o sistema imunitário – mas as doses de reforço mostram sinais promissores

Os dados iniciais sobre a nova variante preocupam os especialistas devido à sua rápida capacidade de propagação. Mas as doses de reforço da vacina continuam a parecer eficazes, assim como algumas terapias com anticorpos monoclonais.

Por Sanjay Mishra
Publicado 15/12/2021, 12:25
Omicron

Pessoas reunidas no centro de Londres no dia 9 de dezembro de 2021, algumas com máscaras faciais para evitar a disseminação do coronavírus.

Fotografia por Hollie Adams, AFP via Getty Images

Duas semanas depois de o mundo ter ouvido falar pela primeira vez sobre a variante Ómicron, os cientistas concordam agora que esta variante se propaga mais depressa do que a Delta e parece escapar mais facilmente à imunidade já existente do que as variantes anteriores. Mas ainda não se sabe se provoca casos mais graves de doença.

Apesar de várias interdições nas viagens, a variante Ómicron já se espalhou por 57 países e agora foi detetada em 21 estados dos EUA. Porém, pelo menos por enquanto, a Delta continua a ser a variante mais prevalente no mundo e continua a provocar a maioria das mortes por COVID-19 a nível global.

A Ómicron foi detetada pela primeira vez na África do Sul, e uma análise em andamento mostra que esta é a variante mais contagiosa até ao momento naquele país. No final de novembro – a data mais recente para a qual existem dados disponíveis – a Ómicron era responsável por 70% de todos os casos sul-africanos; mas estima-se que já tenha aumentado para os mais de 90%.

No epicentro do surto de Ómicron está a província de Gauteng, na África do Sul, onde os casos diários de COVID-19 duplicam a cada três ou quatro dias. Na cidade de Tshwane, os casos ativos de COVID-19 triplicaram dos 6.697 para os 20.425 numa semana. Em Gauteng, a província mais populosa da África do Sul, um em cada três testes acusa positivo. Esta taxa de resultados significa que a transmissão entre a população é elevada e que o número real de casos de COVID-19 provavelmente será ainda maior do que o número oficialmente documentado.

Um vírus pode ter uma propagação mais acelerada porque é mais transmissível ou porque consegue evitar as respostas imunitárias já adquiridas.

“Alguns dos pacientes com Ómicron estão a espalhar muito o vírus”, diz Leo Poon, virologista da Universidade de Hong Kong que detetou alguns dos primeiros casos de Ómicron fora da África do Sul. O estudo de Leo Poon mostra que a Ómicron se propaga de forma muito eficaz através do ar, “o que pode estar a provocar uma transmissibilidade mais elevada.”

Mas as evidências revelam indícios de que a “principal vantagem da Ómicron [sobre a Delta] vem do facto de escapar ao sistema imunitário”, diz Tom Wenseleers, biólogo evolucionista e bioestatístico da Universidade KU Leuven, na Bélgica.

Porque é que a Ómicron é diferente das variantes anteriores?

Os vírus que se multiplicam frequentemente sofrem mutações devido a erros na replicação do seu próprio material genético. Portanto, com cada uma das centenas de milhares de novas infeções diárias, o vírus tem muitas oportunidades para sofrer mutações.

“Os vírus são máquinas geradoras de mutações”, diz Sergei Pond, virologista da Universidade Temple, que tem acompanhado as tendências na evolução das linhagens de SARS-CoV-2.

As novas mutações na chamada proteína spike da Ómicron são um motivo particular de preocupação. A proteína spike é vital para o SARS-CoV-2 conseguir infetar as células humanas e é o alvo principal dos nossos anticorpos. As mutações conseguem alterar a aparência desta proteína e dificultar o reconhecimento e a ligação dos anticorpos à mesma, permitindo ao vírus escapar à imunidade adquirida.

A Ómicron já sofreu mais de 50 mutações em comparação com o vírus original, e tem mais de 30 mutações na sua proteína spike.

“Quando observamos todas as mutações em conjunto, há tantas mutações que existe a possibilidade de a forma da proteína spike ter sido substancialmente alterada na sua generalidade”, diz Herbert “Skip” Virgin, imunologista e diretor científico da Vir Biotechnology Inc., empresa que está a desenvolver medicamentos para a COVID-19.

“Ainda não temos uma medição direta do impacto clínico da Ómicron”, diz Sergei Pond, mas as análises preliminares identificaram alterações significativas nesta variante que provavelmente irão influenciar a eficácia dos anticorpos e a função da sua proteína spike.

A Ómicron consegue infetar novamente pessoas que já têm imunidade natural?

O que preocupa mais os investigadores é a Ómicron poder escapar à imunidade já existente, iludindo os anticorpos gerados por uma infeção natural.

“A Ómicron, ao contrário da Delta, parece infetar novamente pessoas que já tinham sido infetadas”, diz Jerome Kim, diretor do Instituto Internacional de Vacinas em Seul, na Coreia do Sul. Na África do Sul, a Ómicron parece estar a infetar mais do dobro das pessoas do que todas as outras variantes anteriores.

“Na África do Sul, o risco de uma segunda infeção aumentou exponencialmente desde o início de outubro, e isto parece corresponder ao aparecimento da variante Ómicron”, diz Juliet Pulliam, diretora do Centro de Excelência de Análise e Modelagem Epidemiológica DSI-NRF em Stellenbosch, na África do Sul.

As análises feitas aos anticorpos em amostras de sangue revelam que 60 a 70 por cento das pessoas na África do Sul já tinham sido expostas ao SARS-CoV-2 antes de a Ómicron ter sido detetada. O estudo de Juliet Pulliam, que ainda não foi revisto por pares, analisou os resultados de PCR de 2.5 milhões de sul-africanos para procurar evidências de uma segunda infeção. A equipa de Juliet Pulliam descobriu que cerca de 10% de todas as infeções registadas em novembro ocorreram em pessoas que já tinham sido diagnosticadas com COVID-19 até março de 2020.

“Isto é o que seria de esperar se a Ómicron fosse mais resistente aos anticorpos neutralizantes”, diz Theodora Hatziioannou, virologista da Universidade Rockefeller em Nova Iorque.

As vacinas continuam a ser eficazes contra a Ómicron?

Existem relatos de infeções pós-vacinação com a variante Ómicron em Hong Kong, no Minnesota e na Noruega. Nas últimas duas semanas, na Dinamarca, onde a vigilância sobre a COVID-19 é muito apertada, a Ómicron foi responsável por 3.1% de todos os casos. Isto sugere que esta variante consegue propagar-se mesmo quando mais de 80% da população está completamente vacinada.

“Eu fui um dos primeiros casos de Ómicron registados fora de África”, diz Maor Elad, cardiologista do Centro Médico Sheba, em Israel, que contraiu a variante Ómicron durante uma visita a Londres para assistir a uma conferência, apesar de usar máscara e ter recebido três doses da vacina da Pfizer.

“Tive sintomas durante 48 horas: febre, dores musculares, dores de garganta e depois fiquei muito fraco, exausto e indisposto durante mais dois ou três dias. Contudo, passados cinco dias, recuperei completamente”, diz Maor Elad. “Mesmo estando vacinados, podemos ficar novamente infetados. A eficácia da vacina não é de 100%.”

No entanto, ainda é muito cedo para avaliar se as vacinas atuais não são eficazes contra esta nova variante.

No estudo feito por Leo Poon em Hong Kong, os pacientes com Ómicron tinham sido completamente vacinados com a vacina da Pfizer-BioNTech cinco a seis meses antes de contraírem esta nova variante. De acordo com um relatório preliminar feito em Tshwane pelo Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul, 6 dos 38 adultos que contraíram COVID-19 no início de dezembro estavam vacinados, 24 não tinham sido vacinados e 8 tinham um estatuto de vacinação desconhecido.

Também não se sabe se o estatuto de vacinação consegue explicar a maior proporção de pacientes mais jovens infetados com a variante Ómicron na África do Sul. Neste país, só cerca de 25% das pessoas com menos de 35 anos foram vacinadas contra a COVID-19, e apenas 33% da população de Gauteng está completamente vacinada.

A Pfizer, através de comunicado à imprensa, diz que três doses da sua vacina neutralizam a Ómicron nos estudos laboratoriais, ao passo que duas doses podem ser significativamente menos eficazes. Isto corresponde aos estudos preliminares feitos por laboratórios independentes, que sugerem que a vacina da Pfizer é menos eficaz contra a Ómicron do que era em relação ao vírus original e variantes anteriores.

Contudo, se os dados da farmacêutica se verificarem, as doses de reforço da sua vacina atual devem continuar a oferecer alguma imunidade. E vários fabricantes de vacinas estão agora apressadamente a modificar as suas vacinas especificamente para a Ómicron.

A Ómicron provoca casos mais graves de doença?

Ainda é demasiado cedo para avaliar o impacto total da Ómicron na gravidade da doença, porque demora cerca de duas semanas desde a infeção até ao aparecimento de sintomas. No entanto, apesar de o número de hospitalizações estar a aumentar rapidamente na África do Sul, um relatório que documenta as primeiras duas semanas da vaga de Ómicron mostra que as mortes – que tendem a aumentar entre duas a oito semanas após o início de uma nova vaga de COVID-19 – no maior hospital de Gauteng não acompanham o aumento dramático de casos.

De acordo com este relatório preliminar, a maioria dos pacientes não apresentava sintomas respiratórios, a maioria foi internada no hospital por outros motivos médicos e o tempo de hospitalização para os pacientes com COVID-19 foi de 2.8 dias, em comparação com a média de 8.5 dias dos últimos 18 meses.

“Isto pode dever-se ao facto de a Ómicron ainda estar maioritariamente a circular entre os jovens. Cerca de 80% dos pacientes hospitalizados na província de Gauteng têm menos de 50 anos”, diz Tom Wenseleers, que modelou as primeiras vagas de COVID-19. As infeções nas pessoas mais jovens geralmente são mais ligeiras do que nas pessoas mais velhas.

“Neste momento, ainda não sabemos se a Ómicron pode provocar resultados clínicos mais graves”, diz Leo Poon, que liderou a equipa que sequenciou o coronavírus SARS de 2003, estabeleceu o primeiro teste PCR para diagnosticar o SARS-CoV-2 e fez parte da equipa internacional de virologistas que nomeou o vírus.

Também não há garantias de que o impacto da Ómicron nos EUA e na Europa – que têm populações mais idosas – será o mesmo que na África do Sul. Mas os dados preliminares, avançados no dia 8 de dezembro, mostram que entre os 337 casos de Ómicron detetados na União Europeia os efeitos são ligeiros ou assintomáticos.

Porém, as variantes que aparentemente resultam em casos ligeiros de doença, mas que são mais transmissíveis, podem ser perigosas, diz Michael Ryan, Diretor Executivo do Programa de Emergência de Saúde da OMS. Se a propagação não for controlada, o vírus pode infetar um grande número de pessoas, que depois sobrecarregam os sistemas de saúde, provocando um aumento no número de mortes. Uma análise da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido sugere de forma preocupante que a janela entre o momento da infeção e a capacidade de transmissão pode ser menor para a Ómicron do que para a variante Delta.

As terapias atuais vão continuar a ser eficazes?

Atualmente, há quatro produtos autorizados à base de anticorpos monoclonais para tratar os casos ligeiros e moderados de COVID-19 em pacientes que apresentem risco elevado de hospitalização ou casos graves de doença.

Num estudo que ainda não foi revisto por pares, um monoclonal da GSK e Vir Biotechnology, chamado Sotrovimab, revelou-se eficaz contra um vírus semelhante à variante Ómicron feito em laboratório. “O Sotrovimab consegue neutralizar a variante Ómicron, incluindo as 37 mutações, deixando-nos bastante otimistas de que a Ómicron pode ser tratada terapeuticamente”, diz Herbert Virgin, da Vir Biotechnology.

“Apesar da evolução considerável do vírus com a Ómicron, temos evidências de que existem terapias eficazes para controlar a pandemia”, diz Davide Corti, investigador de anticorpos da Vir Biotechnology. Isto é vital se a Ómicron provocar uma percentagem elevada de casos em pessoas que não estão vacinadas. Ainda não se sabe se há outros anticorpos que conseguem bloquear a Ómicron, mas Herbert Virgin está otimista em relação aos tratamentos disponíveis.

“As vacinas são um feito notável, mesmo que percam alguma da sua eficácia contra uma determinada variante. As pessoas devem vacinar-se e, caso comecem a desenvolver sintomas que podem ser causados pelo coronavírus, devem procurar atendimento médico de imediato, porque existem tratamentos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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