A variante Ómicron não é motivo de pânico. Descubra porquê.

A nova variante de preocupação tem um grande número de mutações e está a propagar-se rapidamente. Mas os especialistas dizem que há muitas incógnitas e que as vacinas e o uso de máscara continuam a ser as melhores opções de proteção disponíveis.

Por Sanjay Mishra
Publicado 2/12/2021, 12:12
Passageiros fazem check-in para um voo em Kuala Lumpur

Passageiros com equipamento de proteção individual completo fazem o check-in para o seu voo no Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur (KLIA), no dia 29 de novembro de 2021, conforme vários países pelo mundo inteiro encerram fronteiras e renovam as restrições nas viagens para conter a disseminação de uma nova variante com várias mutações chamada Ómicron.

Fotografia por Mohd Rasfan, AFP via Getty Images

Os especialistas já tinham alertado que as regiões com baixas taxas de vacinação podiam permitir que o vírus que provoca a COVID-19 evoluísse mais rapidamente, possivelmente produzindo uma variante mais transmissível ou resistente a anticorpos que pudesse exacerbar a pandemia. Agora, esta previsão pode ter-se tornado realidade.

Na semana passada, a Organização Mundial de Saúde designou uma nova variante do SARS-CoV-2 com o nome Ómicron e classificou-a como variante de preocupação, juntamente com a Alfa, Beta, Gama e Delta. A nova variante foi descoberta na África do Sul, onde apenas 23% da população está vacinada, em parte devido ao facto de a maioria das vacinas ir para a América do Norte e Europa. No entanto, neste estágio inicial, ainda há muitas coisas que os cientistas desconhecem sobre a Ómicron e sobre o seu potencial para agravar a pandemia de COVID-19. Até agora, a maioria dos casos que envolvem esta variante parecem ser ligeiros e não se sabe até que ponto estas mutações irão afetar a eficácia das vacinas. Também não se sabe se a Ómicron pode provocar casos de doenças mais graves do que a variante Delta.

As evidências preliminares vindas da África do Sul sugerem que a Ómicron pode ser mais transmissível do que as variantes anteriores: os casos positivos na região de Tshwane, na província de Gauteng – onde a Ómicron foi detetada pela primeira vez no dia 9 de novembro – aumentaram de menos de 1% para mais de 30% nas amostras recolhidas durante as últimas três semanas. A Ómicron representa agora 76% de todos os casos sequenciados na África do Sul, tornando-a na variante mais comum no país. A Ómicron está a substituir outras variantes mais depressa do que a Delta substituiu a Beta.

“[É] um lembrete de que esta nova variante resulta das falhas no controlo de infeções”, diz Ravi Gupta, microbiólogo clínico da Universidade de Cambridge e um dos principais investigadores da COVID-19 a nível mundial.

A Ómicron partilha muitas das mutações chave com variantes de preocupação anteriores, mas também acumula uma dúzia de novas mutações na sua proteína “spike”, a parte do vírus que é essencial para infetar células humanas. A nova variante tem 32 mutações nesta região, e os cientistas receiam que este número elevado possa reduzir a capacidade dos anticorpos existentes na neutralização desta variante, tornando as vacinas atuais menos eficazes.

“Esta variante tem mutações em praticamente todos os locais onde os anticorpos se ligariam”, diz Michael Worobey, que estuda a evolução de vírus na Universidade do Arizona. Também existem mutações que podem fazer com que a Ómicron infete as células mais depressa e se transmita de pessoa para pessoa com mais facilidade. “Esta variante é preocupante, e eu só disse algo assim quando surgiu a Delta”, diz Ravi Gupta.

“Sabemos que existem muitas mutações, mas no caso desta variante [Ómicron], ainda não sabemos qual é o seu efeito geral”, alerta Kei Sato, virologista da Universidade de Tóquio. Apenas cerca de 1.000 pessoas foram diagnosticadas com a Ómicron, e os cientistas têm atualmente muito poucas amostras e sequências genéticas recolhidas na África do Sul, dificultando uma conclusão firme sobre os níveis de contágio da Ómicron e saber se provoca casos mais graves de doença.

Por outro lado, os anticorpos de pessoas que foram infetadas naturalmente e depois vacinadas continuaram a conseguir neutralizar um vírus sintético do tipo Ómicron em laboratório. Isto sugere que uma dose de reforço de uma vacina mRNA pode continuar a fornecer uma proteção robusta contra esta nova variante.

A Ómicron “é um motivo de preocupação, não é um motivo de pânico”, disse o presidente dos EUA, Joe Biden, em conferência de imprensa na manhã de segunda-feira. “A melhor proteção contra esta nova variante ou qualquer uma das várias que por aí andam, e com as quais já estamos a lidar, é a vacinação completa e uma dose adicional de reforço.”

“Por enquanto, temos todos os indícios de que as vacinas continuam a ser eficazes na prevenção de doenças graves ou complicações”, diz Ian Sanne, especialista em doenças infeciosas da Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, na África do Sul. “Os dados, porém, são poucos e estamos numa fase inicial.”

Mutações preocupantes da Ómicron

Quando o nosso corpo se depara com o SARS-CoV-2, as células imunitárias produzem anticorpos que têm como alvo a proteína “spike”, a parte que o vírus usa para se ligar à proteína do recetor ACE2 nas células humanas. Quando os anticorpos se ligam à proteína “spike”, o vírus é impedido de entrar na célula. Como esta proteína é essencial para a infeção, todas as vacinas atualmente autorizadas usam a “spike” para treinar a resposta imunitária do corpo.

As 32 mutações registadas na Ómicron podem ser organizadas em três grupos, dependendo da forma como alteram a função da proteína “spike”, diz Olivier Schwartz, virologista e imunologista do Instituto Pasteur em França.

Algumas mutações aumentam a capacidade de ligação da proteína “spike” ao recetor ACE2 humano; outras ajudam a superfície do vírus a fundir-se com as células e permitem a sua entrada; e outras alteram a aparência da proteína “spike”, tornando-a mais difícil de reconhecer, algo que permite ao vírus escapar aos anticorpos.

Entre as diversas mutações da Ómicron, a perda de aminoácidos nas posições 69 e 70 torna o vírus duas vezes mais infecioso do que o vírus original. Contudo, estas duas mutações não estão presentes na Delta, tornando a Ómicron fácil de distinguir nos ensaios de PCR mais utilizados.

Ravi Gupta, da Universidade de Cambridge, já tinha demonstrado que a perda destes aminoácidos, juntamente com uma terceira mutação na posição 796 na proteína “spike”, estão associados à capacidade que a variante Alfa tem para escapar à resposta imunitária do corpo. Isto sugere que estas mesmas três mutações podem ajudar a Ómicron a escapar à imunidade criada por vacinas ou infeções anteriores – e algumas evidências preliminares sugerem que isso está a acontecer.

“Até agora, foram registadas várias infeções emergentes, mas têm sido ligeiras”, diz Barry Schoub, virologista e conselheiro sobre vacinas COVID-19 do governo da África do Sul. No entanto, os especialistas afirmam que ainda é muito cedo para saber se a Ómicron provoca casos mais graves de doença, visto que existe um intervalo entre o período de infeção e o momento de hospitalização.

Acredita-se que outro conjunto de mutações na Ómicron – nas posições 655, 679 e 681 da proteína “spike” – ajuda o vírus a infetar células humanas mais facilmente; estas mutações também existem na variante Mu e são conhecidas por aumentar a sua transmissibilidade.

Além disso, num estudo que ainda não revisto por pares, os investigadores sugerem que uma mutação que a Ómicron partilha com a Alfa e a Mu pode ajudá-la a replicar-se mais depressa e a resistir à imunidade. Uma mutação na posição 501, que também se encontra na Alfa, Beta e Gama, faz com que a proteína “spike” se ligue mais firmemente ao recetor ACE2, tornando o vírus mais eficiente a infetar células.

“Estamos a observar este vírus a propagar-se rapidamente numa população que, acreditamos nós, tem níveis muito altos de imunidade”, diz Richard Lessells, especialista em doenças infeciosas da Universidade de KwaZulu-Natal em Durban, na África do Sul. “É isso que nos preocupa. A [Ómicron] pode conseguir escapar melhor ao sistema imunitário do que as variantes anteriores.”

Lacunas no conhecimento

Na região de Gauteng da África do Sul, as amostras de sangue sugerem que 80% da população já tinha alguma imunidade devido ao contacto com variantes anteriores do SARS-CoV-2. É por isso que os especialistas estão preocupados com o avanço rápido da Ómicron, que já representa 76% dos casos em apenas algumas semanas. Em comparação, a Delta demorou vários meses para atingir este nível de prevalência.

O número de hospitalizações devido à COVID-19 na África do Sul também aumentou acentuadamente no último mês, mas ainda não se sabe se isto se deve ao número geral de pessoas infetadas ou a uma infeção específica com a variante Ómicron.

“Ainda não há informações disponíveis suficientes para se tirar uma conclusão sobre a gravidade da Ómicron em comparação com as outras variantes”, diz Ben Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong. Isto acontece porque a maioria dos casos iniciais está registada entre estudantes universitários e pessoas mais jovens, que geralmente desenvolvem uma doença mais ligeira.

Com os dados atuais, também não se sabe se a vantagem de crescimento que a Ómicron tem sobre a Delta se deve à sua capacidade de escapar ao sistema imunitário – infetando novamente pessoas que anteriormente estavam imunes ou infetando indivíduos que nunca foram expostos ao vírus, diz Tom Wenseleers, biólogo evolucionário e especialista em bioestatística da Universidade KU Leuven, na Bélgica.

Embora o número de pessoas com testes positivos nas áreas da África do Sul afetadas pela Ómicron tenha aumentado drasticamente, não existem dados suficientes para concluir se isto se deve exclusivamente à Ómicron ou a eventos de super-propagação entre jovens e estudantes.

Apesar do aumento preocupante de casos, os dados preliminares, incluindo os estudos laboratoriais de Theodora Hatziioannou em Nova Iorque, sugerem que as vacinas e as doses de reforço continuam a ser ferramentas poderosas contra o vírus.

Investigadores liderados por Theodora Hatziioannou, da Universidade Rockefeller em Nova Iorque, criaram uma versão sintética do vírus que continha muitas das mutações na proteína “spike” que a Ómicron tem. Esta equipa descobriu que os anticorpos neutralizantes de pessoas que recuperaram da COVID-19 e que depois receberam uma dose de uma vacina mRNA conseguiram combater o vírus sintético com mutações.

Porém, são necessárias entre duas a três semanas após a infeção para que a COVID-19 se desenvolva e a gravidade da doença seja avaliada, explica Ian Sanne, o que significa que vai demorar algum tempo para determinar se as vacinas existentes resistem à Ómicron no mundo real.

Enquanto isso, a melhor forma de evitar qualquer tipo de infeção por Ómicron ou qualquer outra variante passa pela vacinação de mais pessoas, e os governos devem continuar a promover as medidas de saúde pública, como o distanciamento social e o uso de máscara. “Por favor, vacinem-se, recebam uma dose de reforço e usem máscara em público, porque as mutações neste vírus podem conseguir escapar aos anticorpos neutralizantes”, diz Ravi Gupta.

“O mecanismo básico para minimizar o aparecimento de novas variantes passa pela limitação das transmissões em curso”, acrescenta Ridhwaan Suliman, investigador sénior do Conselho de Pesquisa Científica e Industrial da África do Sul. “Os vírus não conseguem ter mutações se não se conseguirem replicar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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