As variantes da COVID-19 só irão parar quando todas as pessoas tiverem acesso às vacinas

O aparecimento da variante Ómicron sublinha as consequências da desigualdade no acesso à vacinação. Os especialistas dizem que as doações não são suficientes para resolver o problema.

Por Amy McKeever
Publicado 29/12/2021, 12:43
Doação de vacinas

O governo mexicano doou 150.000 doses da vacina da AstraZeneca (COVID-19) à Guatemala. As vacinas chegaram à base da Força Aérea, na Cidade da Guatemala, no dia 24 de junho de 2021.

Fotografia por Johan Ordonez, AFP via Getty Images

Angelique Coetzee estava intrigada. Esta médica sul-africana estava a atender pacientes com COVID-19 que, na sua maioria, apresentavam dores de garganta e febre. Mas, no dia 18 de novembro, Angelique Coetzee examinou um homem de 29 anos que se queixava de cansaço extremo e fortes dores de cabeça – sintomas mais relacionados com insolação do que com a COVID-19. Até ao final desse dia, Angelique Coetzee viu mais sete ou oito casos semelhantes.

“Não fazia sentido para mim”, diz Angelique Coetzee, presidente da Associação Médica Sul-Africana.

Uma semana depois, os investigadores já tinham determinado que estes pacientes estavam infetados com uma nova variante do SARS-CoV-2, agora conhecida por Ómicron, que tem um grande número de mutações e consegue propagar-se mais depressa do que as variantes anteriores. A Ómicron é agora dominante na África do Sul e em muitos outros países, incluindo os Estados Unidos.

A ascensão da Ómicron reacendeu o debate sobre a forma de garantir que o mundo inteiro recebe a vacina. A Organização Mundial de Saúde estabeleceu a meta de vacinar 70% da população mundial até meados de 2022. Mas embora os países mais ricos como os EUA já tenham imunizado mais de 60% da sua população, a vacinação nos países de baixo rendimento está muito atrasada. Na África do Sul, apenas 27% da população está completamente vacinada, enquanto que na Nigéria, Papua Nova Guiné e no Sudão este número é inferior a 3%.

O problema vai para além das restrições no abastecimento de vacinas. Os especialistas dizem que os países mais carenciados enfrentam enormes desafios infraestruturais para distribuir doses de forma rápida e abrangente. E argumentam que os países mais ricos têm mais do que uma obrigação moral de ajudar a lidar com a igualdade na vacinação, porque enquanto o vírus circular em qualquer lugar, tem mais oportunidades para sofrer mutações e  espalhar-se.

As mutações são normais para um vírus, cujo único propósito é infetar células e replicar-se no seu interior. No corpo de uma só pessoa, o vírus SARS-CoV-2 pode copiar o seu próprio genoma pelo menos milhares de vezes. Os coronavírus têm as chamadas enzimas de revisão que visam impedir a introdução de erros no seu código genético, mas os erros acabam sempre por acontecer e é aí que surgem as mutações.

Muitas destas mutações são inúteis ou até destrutivas para o próprio vírus, refere Wendy Barclay, virologista do Imperial College de Londres. Wendy Barclay diz que as probabilidades de uma mutação dar vantagem ao vírus, como por exemplo torná-lo mais transmissível ou capaz de escapar à imunidade conferida pela vacinação, é de apenas uma em 100.000. Mas estas probabilidades aumentam bastante quando um vírus continua a poder replicar-se.

Portanto, a melhor forma de evitar o aparecimento de novas variantes é negar ao vírus a oportunidade de se espalhar e replicar. Isto pode ser feito através do distanciamento social, uso de máscara e testes – mas a melhor arma é a vacinação generalizada.

“Enquanto o continente africano não estiver vacinado, não podemos dormir descansados”, afirma Angelique Coetzee.

Como a vacinação suprime as variantes

As vacinas têm duas vantagens principais: salvam vidas, evitando que as pessoas adoeçam gravemente, e ajudam a controlar a replicação viral. As infeções emergentes nas pessoas vacinadas tendem a ser ligeiras, o que significa que uma pessoa doente não expira tanto vírus durante tanto tempo como o faria se não estivesse vacinada. Isto dá ao vírus menos tempo para se replicar no interior do corpo e menos oportunidades para se multiplicar na restante população.

“É aqui que entra a igualdade na vacinação. Se permitirmos que um vírus transmissível como o SARS-CoV-2 se espalhe por partes do mundo onde grupos enormes de pessoas ainda não estão vacinadas, isso cria um problema real”, diz Ingrid Katz, diretora-adjunta do Instituto de Saúde Global de Harvard. “A única forma de estarmos um passo à frente do vírus é usando todo o nosso arsenal, e isso inclui a vacinação a nível mundial.”

Apesar de ser quase impossível identificar com exatidão a origem de uma variante viral, sabe-se que, na Índia, os baixos níveis de vacinação desempenharam um papel fundamental no aparecimento catastrófico e consequente alcance da variante Delta no início deste ano.

No início de 2021, a Índia começou a distribuir vacinas apenas para as pessoas com elevado risco de doença grave devido à idade e pessoas com comorbidades ou exposição frequente ao vírus. O resto da população adulta só estava agendada para ser vacinada em setembro de 2021.

“Tudo isto foi baseado na premissa de que a Índia já estava fora da zona de perigo”, diz K. Srinath Reddy, presidente da Fundação de Saúde Pública da Índia. O número de casos e mortes diminuiu em meados de janeiro, e os especialistas especulavam que a Índia já tinha acumulado imunidade de grupo suficiente para evitar outra vaga. “Mas depois a Índia testemunhou um aumento acentuado nas viagens, nos comícios eleitorais e nos festivais religiosos.”

“Foi como se a Índia tivesse virado as costas ao vírus, mas o vírus ainda não nos tinha virado as costas”, diz K. Reddy.

A variante Delta foi identificada pela primeira vez em março, quando menos de 1% de uma população de quase 1.4 mil milhões de pessoas estava completamente vacinada. Como seria de esperar, o número de casos e hospitalizações dispararam – seguidos de uma perda impressionante de vidas.

Início atribulado na distribuição

Infelizmente, as desigualdades na vacinação já tinham começado muito antes de qualquer vacina contra a COVID-19 ter sido aprovada. Os países mais ricos encomendaram antecipadamente milhares de milhões de doses às empresas farmacêuticas – deixando logo à partida os países de baixo rendimento sem acesso às vacinas.

“Montámos um esquema desigual desde o início”, diz Ingrid Katz.

A OMS fez parceria com várias organizações sem fins lucrativos para lidar com estas desigualdades através do programa COVAX, uma iniciativa que visa garantir doses para os países mais pobres. Mas as vacinas continuam a ir desproporcionalmente para as nações mais ricas, conforme estas vão administrando as doses de reforço.

Alguns países aumentaram as suas doações em nome da igualdade na vacinação, mas K. Reddy salienta que estas doações nem sempre são bem pensadas. No ano passado, houve vários casos em que os países ricos esperaram até perto do prazo de validade das vacinas para partilhar os seus lotes – fazendo com que centenas de milhares de doses doadas acabassem no lixo. Por exemplo, o Sudão do Sul teve de destruir quase 60.000 doses em abril, e um milhão de doses foi para o lixo na Nigéria em novembro.

“Isto não é caridade – é apenas desperdício”, diz K. Reddy.

Ainda assim, Amavi argumenta que a iniciativa COVAX tem feito uma diferença extraordinária ao abordar a igualdade na vacinação COVID-19 em comparação com as campanhas de vacinação anteriores. A vacina contra o papilomavírus humano, por exemplo, foi disponibilizada pela primeira vez em 2006 – mas muitos países africanos só tiveram acesso a esta vacina nos últimos dois anos.

“Com a COVAX observámos que, em menos de um ano, todas as vacinas contra a COVID-19 ficaram disponíveis em todos os lugares”, diz Amavi. “Creio que é uma grande conquista conseguir fazer a ponte entre os países produtores e os países africanos que não receberam a vacina desde o início.”

A estrada acidentada para a distribuição global

Assim que os países garantirem doses suficientes, têm de descobrir como as podem distribuir. E embora os países de baixo rendimento consigam obter descontos nas vacinas, têm mais encargos e dificuldades na sua distribuição do que os países ricos.

“É um desafio aqui em África”, diz Angelique Coetzee. “Não importa a quantidade de doações que recebemos.”

De acordo com o Painel Global para a Igualdade na Vacinação, os países mais pobres teriam de aumentar as suas despesas com a saúde em cerca de 57% para vacinar 70% das suas populações. Isto acontece porque muitos destes países carecem de infraestrutura – desde não conseguir distribuir rede elétrica à ausência de uma força de trabalho médica bem treinada – para administrar rapidamente as doses a milhares de milhões de pessoas. A distribuição de vacinas mRNA é particularmente desanimadora, porque requer acesso a camiões refrigerados e armazenamento em instalações de saúde que tem poucos recursos.

No espectro oposto, os países mais ricos só precisam de aumentar os seus gastos na saúde em menos de 1% para vacinar toda a sua população.

Na Índia, o aparecimento da variante Delta levou o país a intensificar o processo de vacinação. K. Reddy diz que o país tem usado drones para ajudar a levar doses até às áreas mais remotas e lançou uma campanha de vacinação porta a porta. O ministro da saúde da Índia diz que 85% da população elegível já levou a primeira dose e que mais de metade está completamente vacinada. No entanto, muitos países de baixo rendimento simplesmente não têm a capacidade de mobilizar milhares de profissionais de saúde para irem de porta em porta – se é que têm sequer tantos profissionais treinados.

Outro dos desafios passa por convencer as pessoas a serem vacinadas. Amavi diz que grande parte da hesitação em torno da vacina pode ser atribuída à desinformação – ou à disseminação de notícias falsas semeada pelo movimento antivacinas.

Ingrid Katz acrescenta que as pessoas nos países mais pobres também estão compreensivelmente céticas em relação à vacina, referindo relatórios anteriores de que as vacinas da Pfizer e da Moderna eram mais seguras e eficazes do que as disponibilizadas aos países de baixo rendimento, como as da AstraZeneca e da Johnson & Johnson.

Apesar de esta desigualdade se dever aos problemas na cadeia de refrigeração, Ingrid Katz diz que também acabou por gerar uma hesitação compreensível em relação às vacinas nos países onde as pessoas sentem que ficaram limitadas às piores opções. “Para o remediar, os especialistas em saúde pública devem fazer melhor para garantir à população que as vacinas que estão a receber são seguras e eficazes.”

O que se pode fazer em relação à desigualdade?

As soluções para a desigualdade na vacinação começam ao nível de cada país. Ingrid Katz diz que os países ricos podem partilhar mais doses ou até mesmo abdicar do seu lugar na fila para os próximos lotes. A comunidade internacional também pode fornecer assistência financeira aos países de baixo rendimento para construírem infraestruturas de saúde – algo que também ajudaria numa futura pandemia, que se acredita ser inevitável.

Os especialistas em saúde pública também apelaram à Moderna e à Pfizer para ajudarem os países mais pobres a produzir as suas próprias vacinas mRNA – algo que reduziria drasticamente os custos que envolvem a aquisição, transporte e distribuição. Ingrid Katz diz que isto exigiria às empresas não só abdicar dos seus direitos de propriedade intelectual, mas também partilhar a sua tecnologia e matérias-primas.

“As vacinas da Pfizer e da Moderna podem ter estado em evidência desde o início – provando ser mais de 90% eficazes na prevenção de casos graves de doença – mas há novos indícios muito promissores para as outras vacinas.”

A vacina de dose única da Johnson & Johnson, por exemplo, tinha uma eficácia de apenas 66.3% nos ensaios clínicos originais, mas a empresa informou recentemente que uma segunda dose da sua vacina aumentava a eficácia contra o vírus original para os 94%. A vacina da Johnson & Johnson pode ser menos eficaz contra as variantes mais recentes, mas Ingrid Katz argumenta que os dados mostram que duas doses desta vacina são praticamente tão eficazes quanto as das vacinas mRNA.

Wendy Barclay também refere os novos dados vindos do Reino Unido, que mostram que a mistura de vacinas pode aumentar a imunidade. Um estudo publicado no The Lancet descobriu que as pessoas que receberam inicialmente duas doses da vacina da AstraZeneca tiveram níveis mais elevados de imunidade após receberem uma dose de reforço de uma das seis outras vacinas disponíveis.

“Portanto, nem tudo está perdido”, diz Wendy Barclay. Se os países conseguirem fazer progressos na distribuição das primeiras vacinas, as doses de reforço podem vir a ser feitas com vacinas mRNA.

Angelique Coetzee, por sua vez, defende o desenvolvimento de comprimidos vacinais que possam ser administrados mais facilmente nos países de baixo rendimento. Mesmo que as vacinas mRNA pudessem ser amplamente disponibilizadas nos países mais pobres, continuariam a ser necessários camiões refrigerados para as transportar e pessoal médico com formação suficiente para misturar, diluir e dividir as vacinas nas seringas e administrar as doses.

“Há muita coisa que pode correr mal”, diz Angelique Coetzee. “Mas com um comprimido não há forma de errar. Só precisamos de nos certificar que o paciente engole o comprimido.”

Em última análise, a maioria dos especialistas concorda que os legisladores e o eleitorado de todos os países precisam de compreender que a sua segurança é efémera até que mais pessoas estejam vacinadas em todo o mundo. Ingrid Katz apela às pessoas para fazerem doações, para defenderem as suas comunidades e para solicitarem aos seus governos para fazerem mais para abordar a igualdade na vacinação.

“Quando é que iremos aprender que precisamos de uma colaboração global?” pergunta Ingrid Katz. “Não podemos continuar desta forma.”

Angelique Coetzee concorda e sugere que os países mais ricos deviam lançar programas que permitam aos seus cidadãos patrocinar vacinas para as pessoas nos países mais carenciados. “Para além disso, todas pessoas que têm acesso às vacinas também podem ajudar simplesmente ao serem vacinadas, recebendo as doses de reforço e, se for necessário, usar máscara e respeitar o distanciamento social e a higienização das mãos.

“O que é que estamos a fazer enquanto cidadãos responsáveis? Também temos um papel a desempenhar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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