Dinossauro desdentado é uma raridade entre os seus primos carnívoros

Os especialistas ainda estão a debater qual era a alimentação deste animal.

Por Jill Langlois
Publicado 20/12/2021, 12:01
Berthasaura leopoldinae

O dinossauro desdentado Berthasaura leopoldinae viveu há 80 a 70 milhões de anos, quando a região do sul do Brasil onde foi encontrado ainda era um ambiente desértico.

Fotografia por Maurílio Oliveira

Atualmente, um pedaço de terreno no estado do Paraná, no sul do Brasil, é chamado “Cemitério dos Pterossauros” devido às centenas de ossos fossilizados de pterossauros encontrados nesta antiga bacia. Portanto, quando os paleontologistas que aqui trabalhavam descobriram um novo fóssil de uma criatura com um bico semelhante ao de um papagaio, presumiram que se tratava de mais um réptil voador.

Contudo, os investigadores ficaram chocados quando perceberam que tinham encontrado uma nova espécie de dinossauro desdentado. Ainda mais estranho, este animal pertence ao grupo dos ceratossaurianos – que são quase todos carnívoros.

“O facto de agora termos este dinossauro desdentado significa que temos de repensar a perda evolutiva de dentes de todos os dinossauros deste grupo”, diz Alexander Kellner, paleontólogo da equipa que encontrou o fóssil e diretor do Museu Nacional do Brasil. “É uma descoberta que irá mudar a forma como pensamos e o que sabemos sobre estes animais.”

O esqueleto fossilizado, descrito na revista Scientific Reports, pertence a uma nova espécie chamada Berthasaura leopoldinae, que viveu há 80 a 70 milhões de anos, durante o Cretáceo. O seu nome formal é uma homenagem a Bertha Lutz, uma importante cientista brasileira que foi pioneira na defesa dos direitos das mulheres, e Maria Leopoldina, a austríaca que se tornou Imperatriz do Brasil e era defensora das ciências naturais.

Esta denominação faz do Berthasaura um dos poucos dinossauros que homenageiam as mulheres através de um género recém-nomeado.

“É uma mensagem importante que pode inspirar novas cientistas a ingressar neste campo de investigação, sobretudo no estudo de dinossauros”, diz Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que não fez parte da equipa do estudo.

Aline Ghilardi também salienta o valor do esqueleto por estar quase completo e extremamente bem preservado. Entre 2011 e 2014, investigadores do Museu Nacional do Brasil e do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado recolheram partes do crânio e mandíbula, coluna vertebral, ossos peitorais e pélvicos, membros anteriores e posteriores do animal.

“Isto é sempre bem-vindo na paleontologia”, diz Aline Ghilardi, “porque ajuda-nos a compreender melhor as relações entre as espécies”.

Laços familiares

Quando os investigadores que encontraram o Berthasaura leopoldinae perceberam que o dinossauro não tinha dentes, pensaram imediatamente no Limusaurus inextricabilis, um terópode desdentado descoberto no noroeste da China. O Limusaurus viveu há 161 a 156 milhões de anos, durante o Jurássico. Com base nos fósseis de animais adultos e juvenis da mesma espécie, os cientistas sabem que este dinossauro ceratossauriano perdeu os seus dentes na adolescência e não desenvolveu outra dentição.

O Berthasaura, por outro lado, nunca chegou sequer a ter dentes.

O esqueleto encontrado no Paraná pertence a um animal jovem e “no arco superior [da sua boca] era claro que não havia dentes”, diz Alexander Kellner. “Havia uma placa de osso onde esperaríamos encontrar dentes. Mas ficámos a pensar se poderia ter dentes na arcada inferior. Assim, isolámos esta parte do material e usámos uma tomografia computadorizada para confirmar que o Berthasaura nunca chegou realmente a ter dentes.”

Os fósseis cranianos permitiram aos cientistas reconstruir o crânio de um jovem Berthasaura leopoldinae, revelando que este animal nunca teve dentes.

Fotografia por

A equipa de investigação quer descobrir o que levou a espécie a evoluir desta forma. Para Alexander Kellner, trata-se de uma questão de dieta. Apesar de ainda não existirem evidências concretas, Alexander Kellner acredita que este dinossauro pode ter sido um herbívoro – diferenciando-o de todos os outros terópodes, que são quase todos carnívoros.

“Por que razão iria perder os dentes se precisava de cortar carne? Isto é uma adaptação. Porque algures no passado, um dos seus antepassados teve dentes e perdeu-os.”

Mas nem todos concordam com esta perspetiva – incluindo outros membros da sua equipa. Para Geovane Alves de Souza, outro investigador do Museu Nacional, ainda é cedo para confirmar qual era a alimentação do Berthasaura. Geovane Souza suspeita que este dinossauro pode ter sido um omnívoro capaz de dilacerar carne com o bico, da mesma forma que os corvos da atualidade o fazem.

“A ausência de dentes não confirma por si só quais eram os seus hábitos alimentares”, diz Geovane Souza. Para descobrir a dieta de um animal antigo, os cientistas geralmente recorrem a uma série de técnicas e ferramentas. Uma destas técnicas envolve o exame de isótopos estáveis deixados pelos alimentos nos dentes fossilizados – algo impossível no caso do Berthasaura. Outra técnica envolve a criação de um modelo 3D detalhado do crânio do animal para perceber como é que este se teria movido enquanto mordia, rasgava ou mastigava possíveis itens alimentares. Mas como os ossos do Berthasaura foram encontrados desarticulados, esta técnica também não é aplicável.

“É algo que vamos ter de descobrir, porque é inesperado”, diz Alexander Kellner. “Este é o primeiro dinossauro sem dentes encontrado na América Latina.”

Mais escavações

A equipa espera que o local onde o Berthasaura foi encontrado possa fornecer mais pistas.

A área chamada Cemitério dos Pterossauros era um deserto durante o Cretáceo, e várias outras espécies – incluindo pterossauros, lagartos e outro terópode – já foram descobertas na região, todas com esqueletos notavelmente intactos. Alexander Kellner atribui a excelente preservação dos ossos a um fenómeno natural que provavelmente aconteceu várias vezes após os animais terem morrido.

“Especulamos que havia muitos pterossauros e alguns dinossauros – que eram mais raros – que morreram ao longo do tempo”, diz Alexander Kellner. “E depois surgiram inundações repentinas, que também podem acontecer no deserto, que levaram tudo por onde passaram para uma bacia, inclusive animais mortos, onde se acumularam e ficaram preservados.”

Alexander Kellner e a sua equipa esperam descobrir mais detalhes sobre o Berthasaura se conseguirem encontrar mais membros desta espécie na região. Por enquanto, porém, a pandemia e a falta de financiamento impediu os investigadores de regressar ao local de escavação.

Enquanto isso, a equipa prepara-se para abrir um centro de visitantes no Rio de Janeiro, enquanto o Museu Nacional, que sofreu um incêndio devastador em setembro de 2018, está a ser reconstruído. O esqueleto fossilizado e uma reprodução 3D do Berthasaura, entre outros itens, estarão em exposição para quem quiser observar o fóssil de perto.

“Mais uma vez, este tipo de dinossauro mostra como podemos levar a ciência até à população”, diz Alexander Kellner. “O nosso país tem muitos depósitos [fósseis] importantes. Não temos apenas este, onde o Berthasaura foi encontrado. O que precisamos agora é de apoio para regressar ao campo, para podermos continuar as nossas investigações.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
10 dos dinossauros mais espetaculares descobertos em 2021
Ciência
Este bizarro dinossauro blindado tinha uma cauda "laminada" única
Ciência
Tesouro fóssil revela as primeiras evidências de dinossauros a viver em grupo
Ciência
Será que os tiranossauros viviam em grupos? Especialistas debatem novas pistas fósseis.
Ciência
Paleontólogos alegam que a Terra pode ter sido habitada por milhares de milhões de T. rex

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados