Este bizarro dinossauro blindado tinha uma cauda "laminada" única

A criatura fossilizada, encontrada no sul do Chile, tem uma estranha mistura de características que fazem lembrar tanto um anquilossauro como um estegossauro.

Publicado 3/12/2021, 11:14
Stegouros

Há cerca de 73 milhões de anos, onde atualmente fica o sul do Chile, uma espécie recém-descoberta de dinossauro com uma cauda em forma de bastão viveu e morreu no delta de um rio rico em vida vegetal, aqui representado numa ilustração.

Ilustração de Mauricio Álvarez

Há 75 a 72 milhões de anos, onde atualmente fica a Patagónia chilena, a carcaça de um dinossauro de cauda atarracada acabou por ficar soterrada no delta de um rio, onde os sedimentos finos preservaram primorosamente os ossos à medida que estes fossilizavam.

A julgar pelos padrões dos dinossauros, esta criatura não era enorme. Enquanto caminhava sobre as quatros patas, tinha menos de 60 centímetros de altura e media menos de dois metros de comprimento, desde o focinho até à cauda. Mas era um pequeno animal resistente num mundo de gigantes. Este dinossauro tinha uma pele encrustada de armadura para se defender – e uma arma única na retaguarda.

A extremidade da cauda desta criatura é diferente de tudo o que os cientistas encontraram até agora: uma massa de osso fundido semelhante a um taco de críquete recortado. “É completamente sem precedentes”, diz Alexander Vargas, paleontólogo da Universidade do Chile.

O esqueleto fóssil, revelado na revista Nature, pertence a um tipo recém-descoberto de dinossauro blindado chamado Stegouros elengassen. O nome deve-se à sua bizarra “cauda de telhas” (Stegouros) e a uma criatura blindada da mitologia do povo Aónik'enk da Patagónia (elengassen).

Para além da cauda inédita, o Stegouros também preenche uma lacuna evolutiva. De acordo com o paleontólogo Tom Holtz da Universidade de Maryland, que não participou no estudo, foram encontrados muito poucos dinossauros blindados nas terras que outrora constituíam Gondwana, o antigo supercontinente que se dividiu para formar a América do Sul, África, Antártida, Austrália, o subcontinente indiano e a Península Arábica.

Antes do Stegouros só tinham sido encontrados dois dinossauros blindados no local que outrora era a região sul de Gondwana, e estes animais são fósseis incompletos ou parcialmente estudados. O espécime Stegouros está cerca de 80% completo – e o seu esqueleto é um mosaico anatómico bizarro. O crânio, os dentes e a cauda em forma de bastão laminado do dinossauro parecem pertencer a um anquilossauro e a outros dinossauros blindados mais tardios. No entanto, os ossos dos membros delgados do dinossauro e a pélvis são parecidos com os de um estegossauro, que na época do Stegouros já estava extinto há dezenas de milhões de anos.

“Se me mostrassem esta pélvis e perguntassem a que animal pertencia, eu respondia com 100% de certeza que era um estegossauro”, diz Susannah Maidment, paleontóloga do Museu de História Natural de Londres, que não participou no estudo. “Estou completamente maravilhada com este espécime... altera tudo o que  eu pensava saber.”

Ossos nas montanhas da Patagónia

O Stegouros foi descoberto na Formação Dorotea, uma zona com camadas de rocha espalhadas pelo Chile e a Argentina, onde investigadores de todo o mundo procuram frequentemente fósseis de dinossauros e outros sinais de vida antiga.

Em 2017, um grupo da Universidade do Texas visitou um local no vale do Rio de las Chinas no Chile, um local conhecido pelos seus fósseis, e avistou alguns ossos de aparência interessante. Em fevereiro de 2018, a Universidade do Chile enviou uma equipa para investigar o relatório do grupo da Universidade do Texas, liderada pelos colegas de Alexander Vargas, Sergio Soto-Acuña e Jonatan Kaluza.

Os investigadores encontraram os primeiros vestígios de ossos no topo de uma encosta íngreme e começaram a escavar em torno do fóssil. A equipa recuperou os restos mortais num enorme bloco de pedra revestido com gesso, para levar para o laboratório, mas retirar o fóssil ileso foi um grande desafio. Os cientistas tiveram de enfrentar temperaturas negativas, a ameaça de hipotermia e tornozelos torcidos.

Ao início, a equipa só conseguia ver os ossos dos membros delgados do dinossauro, levando os investigadores a pensar que este espécime podia pertencer aos ornitópodes – uma espécie de dinossauro bípede herbívoro. Mas, quando o fóssil ficou disponível em laboratório, uma limpeza cuidadosa da rocha expôs a cauda do animal.

“Fiquei em choque o resto do dia”, diz Alexander Vargas.

Cauda bélica

As caudas completamente armadas são raras entre os animais, mas as de que há conhecimento foram esculpidas pela evolução de formas altamente eficazes. Entre os dinossauros, os estegossauros tinham dois pares de espinhos na ponta das caudas. Alguns anquilossauros, como o Ankylosaurus, tinham caudas longas e rígidas com maças ossudas em formato de martelo.

As chamadas caudas bélicas já apareceram em grupos de animais com parentesco muito distante. Os gliptodontes, tatus gigantes extintos que viveram até há 10.000 anos, desenvolveram uma cauda semelhante à do anquilossauro, por exemplo.

Porém, a cauda do Stegouros é única. Mais achatada e mais parecida com uma faca do que as caudas bélicas dos seus pares, esta estrutura anatómica foi batizada de macuahuitl pela equipa de pesquisa, em homenagem ao bastão de madeira com lâmina de obsidiana empunhado pelos astecas.

Os dinossauros blindados provavelmente usavam as suas caudas bélicas maioritariamente para lutar com animais da sua própria espécie, possivelmente na disputa de estatuto social. Também existem evidências de que, quando ameaçados, estes dinossauros usavam as caudas para se defenderem de predadores. Tom Holtz diz que alguns ossos de predadores jurássicos apresentam lesões provocadas por perfurações que podem ter acontecido em encontros com estegossauros. Aliás, o Museu Real de Ontário, no Canadá, tem um fóssil de um tiranossauro com uma canela partida – possivelmente uma lesão provocada por um anquilossauro a balançar a cauda.

Ainda não se sabe exatamente como é que o Stegouros usava a sua cauda, mas Tom Holtz especula que o dinossauro pode tê-la usado como uma espécie de arma de corte. Por outro lado, os potenciais predadores do Stegouros são conhecidos. Os maiores dinossauros predadores daquela época e local eram animais enigmáticos chamados megaraptorídeos, que Alexander Vargas descreve como “coisas muito grandes e de aparência bastante desagradável, como um alossauro com braços mais longos e envolventes”.

À procura de mais pistas

Quando a equipa chilena conseguiu observar o esqueleto completo do Stegouros, Sergio Soto-Acuña e Alexander Vargas compararam minuciosamente a anatomia do animal com a de outros dinossauros blindados. Quando os investigadores analisaram os dados para determinar as suas árvores genealógicas prováveis, descobriram que os antepassados do Stegouros ramificaram-se do resto dos anquilossauros há cerca de 165 milhões de anos, formando uma linhagem até agora desconhecida.

Os primos mais próximos deste dinossauro chileno são os dois outros anquilossauros de que há registo no sul de Gondwana. Um deles, o anquilossauro australiano Kunbarrasaurus, é conhecido principalmente pelo seu crânio. O outro, o Antarctopelta, é conhecido apenas por alguns fragmentos ósseos encontrados em sedimentos antárticos.

O Stegouros pode ajudar os cientistas a perceber melhor os seus parentes mal compreendidos. Alguns dos ossos isolados do espécime Antarctopelta apresentam semelhanças notáveis com os ossos fundidos da cauda macuahuitl do Stegouros. Alexander Vargas e os seus colegas acreditam que esta combinação pode significar que o Antarctopelta – que chegou a ter o dobro do tamanho do Stegouros – tinha uma cauda bélica semelhante.

Susannah Maidment, do Museu de História Natural de Londres, uma das maiores especialistas mundiais em estegossauros, acrescenta que a estranha mistura de características do Stegouros pode provocar alguma “agitação” na árvore genealógica dos dinossauros blindados. A classificação de estegossauro tem por base principalmente o facto de estes dinossauros terem três características anatómicas principais – uma das quais é o tipo exato de pélvis encontrado no Stegouros, que não é um estegossauro, apesar de o nome ser parecido. Portanto, Susannah Maidment diz que alguns dinossauros fragmentários atualmente classificados como estegossauros podem nem sequer ser estegossauros.

Há décadas que a Formação Dorotea e outras partes da Patagónia revelam fósseis extraordinários, e a região provavelmente tem mais pistas fossilizadas escondidas nas rochas. As futuras expedições no Chile ou na Argentina podem até encontrar outros dinossauros blindados com bastões laminados no lugar da cauda.

Enquanto isso, Alexander Vargas e os seus colegas já estão a procurar outros fósseis de Stegouros. “Encontrámos outras zonas que têm Stegouros – parece que são comuns”, diz Alexander Vargas. “Esperamos encontrar mais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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