Para derrotar a Ómicron, as vacinas existentes estão a ser modificadas

Os especialistas dizem que a atualização das vacinas disponíveis para lidar com a nova variante de preocupação não é assim tão difícil.

Por Meryl Davids Landau
Publicado 13/12/2021, 11:31 , Atualizado 13/12/2021, 12:38
Funcionários trabalham na linha de produção da CoronaVac, a vacina da Sinovac Biotech contra o SARS-CoV-2, ...

Funcionários trabalham na linha de produção da CoronaVac, a vacina da Sinovac Biotech contra o SARS-CoV-2, num centro de produção biomédica em São Paulo, no Brasil, no dia 14 de janeiro de 2021.

Fotografia por Nelson Almeida, AFP via Getty Images

Há um ano atrás, no dia 11 de dezembro de 2020, a agência do medicamento dos EUA autorizou a primeira vacina contra a COVID-19 no país. A vacina da Pfizer-BioNTech e as de outras empresas que se seguiram fortaleceram as nossas defesas coletivas contra todas as variantes do coronavírus que surgiram desde então.

Porém, os cientistas receiam agora que as mutações da Ómicron alterem o vírus de forma tão significativa que as fórmulas das vacinas talvez precisem de ajustes.

Assim que a Ómicron foi descrita no final de novembro, as companhias farmacêuticas apressaram-se a dizer que estavam em cima do acontecimento. Além de testar o desempenho das suas vacinas atuais contra a nova variante; a Moderna prometeu “avançar rapidamente com uma candidata a dose de reforço específica para a Ómicron”; a Pfizer informou que vai ter uma vacina atualizada em março; e a Johnson & Johnson anunciou que “está a procura de uma vacina específica para a variante Ómicron”.

A Novavax, que enviou um pedido de autorização à agência do medicamento norte-americana, mas cuja vacina ainda não está disponível nos EUA, disse através de comunicado que a sua oferta direcionada para a Ómicron vai estar “pronta para começar os ensaios e produção nas próximas semanas”.

De uma certa forma, esta corrida para reformular as vacinas é impressionante. “Não há muitas vacinas que sejam alteradas regularmente: a vacina contra o sarampo não se alterou, a da rubéola não mudou, a da hepatite também não”, diz Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infeciosas da Universidade do Minnesota.

Porém, quando comparado com esses patógenos mais estáveis, o novo coronavírus evolui mais rapidamente. Os especialistas que observam de perto a disseminação da Ómicron dizem que os esforços das empresas farmacêuticas para produzir uma vacina especificamente para esta variante são justificados, porque a Ómicron parece conseguir iludir melhor as nossas defesas imunitárias do que as outras variantes.

“O meu otimismo em relação à Ómicron foi desvanecendo ao longo da semana passada”, conforme chegavam mais dados – apesar de preliminares – vindos da África do Sul, diz Vaughn Cooper, professor de microbiologia e genética molecular na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh. “A taxa de infeção entre indivíduos que já tinham estado doentes ou vacinados e que contraíram a Ómicron é realmente elevada.”

Reescrever código genético

A capacidade que a Ómicron revela para infetar pessoas que já deviam ter imunidade resulta do grande número de mutações – mais de 30 – na chamada proteína spike, a parte do vírus que o ajuda a entrar nas células humanas.

Mais preocupantes são as várias mutações no chamado domínio de ligação ao recetor, a região da proteína spike que é responsável pela ligação às nossas células, diz Vaughn Cooper. Uma parte do nosso sistema imunitário, as células B, geram três tipos principais de anticorpos, cada um direcionado para uma secção única da superfície da proteína spike. As variantes anteriores tinham mutações numa ou duas destas regiões alvo dos anticorpos, mas a Ómicron tem mutações nas três.

As outras variantes de preocupação, sobretudo a Beta, partilham algumas mutações com a Ómicron, mas nenhuma tem tantas alterações. “É possível que algumas das mutações funcionem em conjunto com outras mutações. Ou talvez se anulem umas às outras. Ainda não sabemos”, diz Katelyn Jetelina, professora-adjunta de epidemiologia no Centro de Ciências de Saúde da Universidade do Texas, em Houston, e autora do blog Your Local Epidemiologist.

É fundamental perceber se as mutações ou alguma combinação entre as mesmas confundem um sistema imunitário que esteja treinado para detetar a proteína spike, quer seja devido a uma vacinação anterior ou por ter contraído COVID-19.

“Se houver alterações significativas na forma ou estrutura da proteína spike, isso pode alterar a eficácia com que as nossas células imunitárias neutralizam o vírus”, diz Jill Weatherhead, professora-adjunta de medicina tropical e doenças infeciosas na Faculdade de Medicina Baylor. Contudo, Jill Weatherhead sublinha que ainda não se sabe se é isso que está a acontecer.

Se for necessário alterar as vacinas, as novas vacinas mRNA são mais fáceis de modificar do que a maioria das vacinas não-COVID. O processo deve demorar apenas alguns meses, diz Onyema Ogbuagu, especialista em doenças infeciosas da Escola de Medicina de Yale e investigador principal nos ensaios da vacina da Pfizer.

O ingrediente ativo numa vacina mRNA é o código genético que fornece as instruções para as células humanas produzirem a proteína spike do vírus. O mRNA é formado em laboratório a partir de quatro blocos de construção químicos chamados nucleotídeos. Para alvejar novas mutações na proteína spike, basta remover alguns dos blocos antigos e substituí-los por novos, explica Onyema Ogbuagu.

Por outro lado, alterar a vacina da Johnson & Johnson, onde o código genético é entregue através de um vetor de adenovírus, pode ser um bocado mais complicado. Mas esta vacina, ao nível básico, também envolve a reescrita de um pouco de código, diz Jilll Weatherhead.

Numa vacina com muitas instruções genéticas, estas alterações seriam pequenas, sendo assim pouco provável que apareçam novos efeitos secundários devido às vacinas remodeladas, acrescenta Onyema Ogbuagu. “Não se trata de criar uma nova vacina. É mais como pegar num vestido e fazer a bainha para ficar com um novo comprimento.”

Lições aprendidas com as vacinas da gripe

Os cientistas referem a gripe sazonal como um bom modelo para a forma como se poderão modificar as vacinas COVID-19. Todos os anos em fevereiro, a Organização Mundial de Saúde usa os dados sobre a estirpe de gripe que circula no hemisfério sul, juntamente com estudos feitos em laboratório, para fazer uma estimativa fundamentada sobre as estirpes de gripe que irão dominar na época gripal seguinte.

Nos EUA, os fabricantes de vacinas para a gripe só precisam de provar à agência do medicamento norte-americana que as alterações feitas para alvejar estas estirpes desencadeiam um número adequado de anticorpos para as combater. As farmacêuticas conseguem testar isto num grupo pequeno de pessoas. E não são obrigadas a realizar grandes ensaios clínicos todos os anos, como acontece com a fase de aprovação para uma nova vacina.

As diretrizes atualizadas emitidas pela agência do medicamento dos EUA em fevereiro de 2021 descrevem etapas semelhantes para as variantes de COVID-19, um processo conhecido na indústria por “plug and play”. Os fabricantes que ajustem as suas vacinas podem testar a resposta imunitária num número relativamente pequeno de pessoas – provavelmente várias centenas, esperam os especialistas. As diretrizes recomendam a inclusão de pessoas com vários históricos de vacinação COVID-19, desde pessoas que não foram vacinadas a pessoas que receberam todas as doses de reforço recomendadas. Mas não é realizado um ensaio para as vacinas que abranja todas as faixas etárias, como crianças ou pessoas mais velhas.

Se for necessária uma alteração na estirpe para a COVID-19, a agência do medicamento precisa de agir ainda mais depressa do que acontece atualmente com as vacinas da gripe. “Com a gripe, têm seis meses para desenvolver novas vacinas; com a pandemia de coronavírus, as vacinas são necessárias já. Mas não podemos tomar atalhos”, insiste Michael Osterholm.

“As farmacêuticas terão de seguir os seus processos atuais de fabrico de forma idêntica para qualquer tentativa de ajuste que apresentem. Isso será fundamental para manter as vacinas seguras.” Desde a gripe suína de 1976, quando dezenas de pessoas desenvolveram a síndrome de Guillain-Barré, que não há muitos efeitos secundários inesperados das vacinas. Michael Osterholm atribui isso às mudanças na forma como as vacinas contra a gripe eram produzidas, não à alteração na estirpe.

Para perceber se a Ómicron vai exigir mudanças nas nossas vacinas e doses de reforço, os cientistas nos EUA estão a observar de perto o comportamento desta variante noutros países, incluindo em Israel e no Reino Unido, onde os sistemas nacionais de saúde permitem uma vinculação rápida entre os registos de vacinação e os casos de COVID-19.

“Durante a pandemia, estes países registaram e processaram enormes conjuntos de dados em poucos dias”, diz Michael Osterholm. As informações vindas da África do Sul, onde a variante se está a propagar rapidamente, também irão revelar se a Ómicron infetou uma percentagem maior de pacientes com casos graves de doença e pacientes que já tinham sido vacinados em comparação com a variante Delta.

Os testes sanguíneos de pessoas vacinadas também têm sido usados para determinar a eficácia dos anticorpos na luta contra a Ómicron. Estes estudos preliminares de laboratório já revelaram que três doses da vacina da Pfizer são eficazes contra a nova variante, de acordo com a própria empresa. Mas estes “ensaios de neutralização viral” têm um valor limitado, diz Michael Osterholm. “Isto pode demonstrar que existe uma neutralização substancial, mas continua a ser necessário traduzir isso para a realidade do atendimento clínico.”

Mesmo que as vacinas originais sejam menos eficazes contra a Ómicron, continuam a ser eficientes o suficiente, sobretudo porque estimulam as células T do nosso sistema imunitário, bem como as células B que produzem anticorpos. O problema é não se mobilizarem tão rapidamente. “Esta resposta imunitária celular demora tempo, ou seja, há mais pessoas que podem adoecer enquanto a resposta está a ser preparada”, diz Vaughn Cooper.

“Ainda assim, a vacinação com qualquer uma das vacinas atualmente disponíveis, incluindo todas as doses de reforço recomendadas, é a melhor ferramenta que temos neste momento, ou seja, todas as pessoas deviam ser vacinadas”, diz Jill Weatherhead.

Eventualmente, as farmacêuticas poderão descobrir uma vacina universal que seja eficaz contra todas as variantes que possam surgir. Este conceito envolve uma vacina que tenha como alvo todas as características essenciais do vírus SARS-CoV-2 – em torno das quais o vírus pode evoluir – ao invés de apenas uma, diz Vaughn Cooper.

“Este conceito já pode ter parecido uma miragem no deserto. Mas o sucesso da tecnologia mRNA e o conhecimento científico adquirido sobre as interações vírus-hospedeiro, coisas que descobrimos com esta pandemia, reforçaram tanto o conceito de vacinas universais contra os principais vírus – como coronavírus e gripe – que poderemos ver os ensaios clínicos a começar dentro de alguns anos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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