Pegadas antigas sugerem um parente humano misterioso com um andar estranho

Há muito tempo consideradas pegadas de urso, as impressões deixadas num local da Tanzânia sugerem que os primeiros humanos caminhavam sobre os dois pés de formas surpreendentemente diversas. Mas há muitas incógnitas.

Publicado 3/12/2021, 11:25
Pegada antiga

Estas imagens mostram pegadas com 3.66 milhões de anos encontradas na Tanzânia. Os investigadores que estudam as pegadas acreditam que estas podem ter pertencido a um parente humano primitivo não identificado que tinha uma forma estranha de caminhar – um “andar cruzado”.

Fotografia de Austin C. Hill and Catherine Miller

Há cerca de 3.66 milhões de anos, cinzas vulcânicas recém-depositadas eram arrefecidas pela chuva que caía no norte da Tanzânia. Antes de o solo secar por completo – com o vulcão provavelmente ainda a fumegar à distância – três antigos parentes humanos caminharam sobre os sedimentos ainda húmidos, deixando as suas marcas nas cinzas que lentamente cimentavam.

Quando foram descobertas na década de 1970, as pegadas fossilizadas abalaram o mundo da paleontologia. Deixadas pela mesma espécie do famoso parente hominídeo Lucy – o Australopithecus afarensis – as pegadas eram a primeira evidência clara dos nossos antepassados a caminhar sobre dois pés.

Agora, uma nova análise a um conjunto de impressões há muito esquecidas ali nas proximidades sugere que estes primeiros humanos não estavam sozinhos. Se os cientistas estiverem corretos, um misterioso hominídeo que caminhava ereto também deixou as suas marcas nas cinzas.

“Quase que conseguimos imaginá-los a olhar através da paisagem, vendo-se uns aos outros”, diz Ellie McNutt, paleoantropóloga da Universidade de Ohio e autora principal de um novo estudo que documenta as pegadas na revista Nature.

Em 1976, a paleoantropóloga britânica Mary Leakey liderou a equipa que descobriu os curiosos vestígios que pareciam ter sido deixados por hominídeos. A disposição estranha das pegadas parecia ter sido obra de um bípede que cruzava um pé à frente do outro, “com um andar meio trôpego”, descreveram mais tarde Mary Leaky e o seu colega Richard Hay.

Apesar de ser obviamente mais gracioso, “a versão extrema seria um modelo a andar num desfile de moda”, diz Ellie McNutt.

Ainda não se sabe exatamente quem deixou estas pegadas na antiguidade – e se o seu padrão de caminhada tinha realmente alguns passos desajustados ou uma postura mais regular. E alguns cientistas ainda não estão convencidos de que existem evidências suficientes para sugerir que outra espécie humana caminhou ao lado do Australopithecus afarensis. Mas, se as suspeitas se confirmarem, estas estranhas pegadas podem conter pistas sobre a variedade de formas de locomoção sobre duas pernas dos primeiros humanos.

Caminhar sobre os dois pés já chegou a ser considerado um comportamento derivado de uma combinação particular de características físicas. Mas os cientistas começaram lentamente a perceber que há mais formas de ser bípede, e este novo estudo sugere ainda mais diversidade, diz o paleoantropólogo William Harcourt-Smith, da Universidade City de Nova Iorque, que não fez parte da equipa do estudo.

“Isto por si só é entusiasmante – independentemente de ser um hominídeo ou não, é muito interessante.”

O caminhante trôpego

As cinco pegadas fósseis fazem parte do que se conhece por sítio de Laetoli, uma zona de cinzas vulcânicas onde outrora vaguearam vários animais da antiguidade, desde parentes de elefantes e rinocerontes a parentes minúsculos de galinhas. Mary Leakey e a sua equipa encontraram as estranhas pegadas numa zona de Laetoli conhecida por local A.

Estas pegadas começaram a cair no esquecimento científico apenas dois anos depois de terem sido descobertas, quando os investigadores descobriram trilhos bem preservados do Australopithecus afarensis nas proximidades. As análises feitas na década de 1980 sugeriam que os rastos entrecruzados no local A podiam ter sido deixados por um urso a caminhar ereto – desvanecendo ainda mais o interesse científico.

Ellie McNutt só teve conhecimento das pegadas décadas depois, quando estava a estudar a evolução do calcanhar humano no seu trabalho de doutoramento. Ellie McNutt estava a usar os ursos como criatura modelo, ou seja, estava numa posição perfeita para descobrir que tipo de criatura tinha deixado os rastos em Laetoli.

Ellie McNutt fez parceria com Benjamin e Phoebe Kilham, do Centro de Ursos Kilham de New Hampshire, para investigar a locomoção dos ursos-negros selvagens. Depois de analisar mais de 51 horas de vídeo, a equipa concluiu que é extremamente raro os ursos andarem sobre as patas traseiras. A probabilidade de um urso dar quatro passos eretos consecutivos, como aparece nas pegadas de Laetoli, é de apenas 0.003%. “É algo que simplesmente não acontece”, diz Ellie McNutt.

A pegada esquerda de um jovem urso-negro no Centro de Ursos Kilham em Lyme, New Hampshire.

Fotografia de Ellison McNutt

Para obter mais pistas sobre a identidade de quem deixou as pegadas, a equipa regressou a Laetoli, redescobrindo e escavando pegadas. De certa forma, estávamos a seguir os passos de Mary Leaky, diz um dos autores do estudo, Charles Musiba, da Universidade do Colorado em Denver, que foi pupilo de Mary Leakey quando era estudante.

“Visitar aquele local trouxe muitas emoções ao de cima”, diz Charles Musiba. Enquanto fazia o seu trabalho, Charles Musiba tentou imaginar o que Mary Leakey e os outros investigadores pensaram quando descobriram e analisaram as pegadas na década de 1970.

Mas agora a equipa estava equipada com tecnologia do século XXI. Os investigadores usaram digitalização a laser e fotogrametria tridimensional para documentar cada pegada, comparando depois as medidas das impressões com as de outras pegadas encontradas em Laetoli, e impressões fósseis mais recentes do sítio arqueológico de Engare Sero na Tanzânia, bem como impressões de humanos, ursos e chimpanzés da atualidade.

Espremer todas as informações

As análises revelaram que as pegadas no local A não foram feitas por ursos ou chimpanzés e que eram mais semelhantes às de hominídeos. No entanto, as dimensões da impressão diferiam muito das pegadas de Australopithecus afarensis também em Laetoli, sugerindo que uma segunda espécie de hominídeo também estava na região.

Os resultados sustentam a imagem cada vez mais complexa dos nossos antigos parentes – cada espécie recém-descoberta tem a sua própria combinação surpreendente de características. Pode haver ainda mais para aprender sobre o Australopithecus afarensis, diz Charles Musiba. Este grupo inclui uma vasta gama de características, podendo indiciar mais do que uma espécie agrupada.

Dizer que quem deixou estas pegadas é uma nova espécie de hominídeo, ou que estas marcas são independentes das outras impressões encontradas em Laetoli, é “uma possibilidade realmente empolgante”, mas é difícil determinar com exatidão só com base nas pegadas, diz David Raichlen, biólogo evolucionário da Universidade do Sul da Califórnia

Mas outros cientistas não estão convencidos da presença de outra espécie de hominídeo em Laetoli. “O meu coração gostava de acreditar, mas o meu cérebro diz que não”, diz Matthew Bennett, geólogo da Universidade de Bournemouth, em Inglaterra, que se especializou em pegadas fósseis. Uma das suas grandes preocupações são os poucos vestígios encontrados até agora no local A; entre as cinco pegadas, apenas duas registam a maior parte do pé.

Num estudo publicado no início deste ano, Matthew Bennett e os seus colegas descobriram que é necessário analisar um mínimo de 10 a 20 pegadas para caracterizar adequadamente as variações entre os trilhos de um único indivíduo – e são necessárias muitas mais para se tirar conclusões sobre um grupo ainda mais abrangente de indivíduos.

Também são necessárias mais pegadas para compreender a forma peculiar de andar cruzado do indivíduo. O terreno irregular ou escorregadio pode ter dado origem a um caminhar desequilibrado, reconhece Ellie McNutt, mas acrescenta que também poderia ser uma característica do andar deste indivíduo – ou até mesmo para uma espécie inteira de hominídeos.

Estes tamanhos reduzidos de amostra não são invulgares na paleontologia. “Isto é simplesmente o nosso quotidiano a trabalhar com pegadas tão antigas”, diz David Raichlen. “Não conseguimos obter um tamanho grande o suficiente de amostras para trabalhar, pelo que temos de extrair as informações possíveis a partir das amostras reduzidas.”

Matthew Bennett acrescenta que ainda há mais informações para extrair das pegadas de Laetoli. A equipa comparou as medidas individuais das pegadas, incluindo largura e comprimento, mas as medidas ou proporções individuais não conseguem captar toda a complexidade de uma impressão. Em alternativa, muitos cientistas usam as formas tridimensionais de todas as pegadas de um grupo para produzir um trilho médio, que pode ser usado para estudar as variações no trilho, “píxel a píxel, elemento por elemento”.

Matthew Bennett também sublinha que, uma vez que ele e outros já criaram impressões para os conjuntos de pegadas dos Australopithecus afarensis de Laetoli, a comparação com o local A deve ser fácil de realizar.

A equipa de Ellie McNutt também tem mais planos para o local A, incluindo uma operação para encontrar outras impressões com radar de penetração no solo para procurar impressões escondidas nas cinzas de forma não destrutiva. Charles Musiba está otimista: “Estou convencido de que vamos encontrar mais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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