Vislumbre raro de um bebé dinossauro no seu ovo fossilizado

Um dos embriões de dinossauro mais completos de que há conhecimento mostra um bebé da antiguidade numa posição que é surpreendentemente semelhante à das galinhas modernas antes de eclodirem.

O fóssil descrito recentemente do “Bebé de Yingliang” foi encontrado enrolado numa posição de pré-eclosão.

Fotografia por Lida Xing
Por Maya Wei-Haas
Publicado 23/12/2021, 11:41

O bebé dinossauro parecia quase pronto para sair da casca, enrolado com tanta força que a cabeça até estava enfiada entre os dedos das patas. Mas um evento desconhecido enterrou o ovo antes de a pequena criatura respirar pela primeira vez, preservando o animal durante dezenas de milhões de anos onde atualmente fica o sul da China.

A empresa de mineração de rocha Yingliang Group descobriu o ovo em 2000, mas só passados 15 anos é que alguém reparou no significado da descoberta, quando alguns dos frágeis ossos expostos por uma fenda na superfície do ovo indiciaram o tesouro que podia conter.


De acordo com a publicação feita pelos cientistas esta semana na revista iScience, aninhado sob a casca do ovo fóssil está um dos embriões de dinossauro mais completos de que há conhecimento.

“Eu nem conseguia acreditar no que estava a ver, porque está perfeitamente preservado”, diz Darla Zelenitsky, autora do estudo e paleontóloga especializada em ovos de dinossauro na Universidade de Calgary.

Com a alcunha de Bebé de Yingliang, esta cria de dinossauro foi encontrada em rochas com cerca de 70 milhões de anos, embora a sua idade exata permaneça desconhecida. O embrião é de um tipo de oviraptorossauro – um grupo de dinossauros terópodes de bico intimamente relacionados com as aves da atualidade, que viveram entre há cerca de 130 e 66 milhões de anos. Estas criaturas partilham muitas características com os seus parentes aviários, e o embrião sugere mais uma: uma posição curvada pré-eclosão.

“É notável conseguirmos ter um vislumbre dos primeiros estágios de vida de animais que viveram há mais de 70 milhões de anos”, diz Lindsay Zanno, diretora do departamento de paleontologia do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte e investigadora da Universidade da Carolina do Norte. “A evidência de que os pássaros são dinossauros terópodes vivos é, neste momento, arrebatadora.”

A semelhança entre a posição adotada pelo Bebé de Yingliang e os pintainhos modernos em desenvolvimento sugere que o comportamento singular das galinhas pode remontar a dezenas de milhões de anos.

Fotografia por Lida Xing et al

Enrolado e aconchegado

Este ovo notável foi redescoberto em 2015, quando a equipa da Yingliang estava a examinar os fósseis da empresa para abrir um museu de história natural. O ovo é ligeiramente mais comprido do que um ovo de avestruz, mas tem o formato de um comprimido e a sua superfície foi fraturada, permitindo a um funcionário identificar alguns pedaços de osso.

"Naquele momento, o funcionário percebeu que podia haver [um] embrião no seu interior”, diz Waisum Ma, autora do estudo e doutoranda de investigação na Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

Posteriormente, um técnico retirou cuidadosamente uma lateral do fóssil e limpou parte dos sedimentos que preenchiam o ovo para revelar o jovem dinossauro enrolado. Percebendo a importância da descoberta, a Yingliang contactou o autor principal do estudo, Lida Xing, da Universidade de Geociências da China, em Pequim, que começou a reunir uma equipa para estudar o bebé dinossauro preservado de forma primorosa.

Apesar de já terem sido encontrados muitos ovos de dinossauro, os embriões são raros – e os embriões bem preservados são ainda mais raros. “Basicamente, são um amontoado de ossos no fundo de um ovo”, diz Matthew Lamanna, paleontólogo do Museu Carnegie de História Natural em Pittsburgh, que não faz parte da equipa do estudo.

Até agora, só foram encontrados dois outros embriões de oviraptorossauro quase completos, diz Waisum Ma, que ficou impressionada quando viu pela primeira vez as imagens do fóssil. “Este é o melhor embrião de dinossauro que eu já vi. Parecem faltar apenas algumas partes do esqueleto, incluindo um membro anterior e uma secção da cauda.”

Para analisar outros fósseis, os cientistas usam tomografias computadorizadas que revelam detalhes sobre os ossos escondidos no seu interior. Porém, o tipo de sedimento que preenche o ovo de Yingliang dificulta a distinção entre os ossos de fundo. Ainda assim, a equipa conseguiu estudar cuidadosamente a superfície exposta do fóssil, comparando-a com a de outros dois embriões de oviraptorossauro encontrados anteriormente.

A cabeça do Bebé de Yingliang está aninhada ao longo da barriga, com os joelhos dobrados perto de onde os seus minúsculos membros posteriores iriam brotar. O dorso curvo está numa das extremidades do ovo, onde um espaço sugere a presença de um saco de ar desaparecido há muito tempo. Todas estas características são semelhantes às dos embriões das galinha da atualidade, que se enrolam lentamente à medida que se desenvolvem, fazendo com que as suas cabeças se aninhem sob as suas asas direitas. Esta série de poses, conhecida por aconchegar, é a chave para uma eclosão bem-sucedida.

Embora o Bebé de Yingliang não esteja tão enrolado quanto uma galinha prestes a sair da casca, “está a caminhar nessa direção”, diz Darla Zelenitsky. As posições ligeiramente diferentes dos dois embriões de oviraptorossauro encontrados anteriormente podem revelar as alterações de postura das galinhas durante o desenvolvimento. A equipa especula que o chamado aconchegar das aves pode remontar até há milhões de anos, até aos bebés oviraptorossauros.

Os oviraptorossauros tinham muitas características aviárias. Como podemos ver nesta ilustração, alguns podem até ter chocado os seus ovos, como os pássaros continuam a fazer atualmente.

Fotografia por Masato Hattori

Comportamento de passarinho

Esta descoberta aprofunda o nosso conhecimento sobre a variedade de comportamentos e características físicas que foram passadas dos dinossauros terópodes para as aves modernas, incluindo a descoberta feita recentemente de um oviraptorossauro agachado como se fosse uma ave a chocar os seus ovos. Apesar de o “comportamento de passarinho” do Bebé de Yingliang não ser necessariamente surpreendente, Mattew Lamanna diz que estes fósseis são vitais para compreendermos a fundo as voltas e reviravoltas da evolução.

“Podemos ficar a especular, mas sem os fósseis para apresentar as evidências, os comportamentos da antiguidade permanecem apenas isso, especulação”, diz Matthew Lamanna.

Este fóssil também pode conter mais pistas sobre a evolução das aves da atualidade, acrescenta o paleontólogo Timothy Rowe, da Universidade do Texas, em Austin, que não participou no estudo. Por exemplo, um passo fundamental na evolução das aves é a transição dos membros anteriores para asas longas o suficiente para voar. Não se sabe exatamente como – nem quantas vezes – é que esta mudança aconteceu nos dinossauros. Mas as pistas para estas transformações evolutivas podem ser encontradas na fase inicial de desenvolvimento dos animais, diz Timothy Rowe. “Começa realmente tudo no interior do ovo.”

Um dos grandes desafios passa pela raridade de embriões bem preservados, dificultando uma conclusão sólida, diz Waisum Ma. Mas isso pode mudar em breve: a empresa que descobriu o Bebé de Yingliang também encontrou outros ovos no mesmo local. “Portanto, podem haver mais embriões e mais pistas sobre as origens antigas das aves que atualmente voam e planam por todo o planeta.”

Uma das muitas características do Bebé de Yingliang que são semelhantes às de uma ave é a posição das suas costas perto de uma das extremidades do ovo, onde um espaço sugere que outrora conteve um saco de ar.

Fotografia por Julius Csotonyi


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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