Fósseis espetaculares de uma floresta tropical pré-histórica encontrada recentemente

As centenas de achados incrivelmente bem preservados na Austrália incluem plantas, insetos, peixes e não só, que existiam há mais de 11 milhões de anos.

Por Michael Greshko
Publicado 11/01/2022, 15:44
Mosca-serra

Esta mosca-serra viveu onde atualmente fica o sudeste da Austrália, há 16 a 11 milhões de anos, e ainda tem grãos de pólen preservados na sua cabeça – um vislumbre de como era a vida numa antiga floresta tropical.

Fotografia por Michael Frese

Há alguns anos, a cerca de 25 quilómetros da cidade de Gulgong, no sudeste da Austrália, o proprietário de terras Nigel McGrath passou um dia a trabalhar numa parte particularmente difícil dos seus campos. Este pedaço de terreno estava coberto por pedras enormes ricas em ferro que podiam danificar o seu equipamento agrícola, pelo que Nigel McGrath teve de retirar manualmente os blocos de pedras soltas. Foi nesse momento que reparou nas folhas fósseis extremamente bem preservadas entre as rochas, parecia que tinham sido prensadas num livro de pedra.

Agora, os cientistas confirmaram que estas pedras ricas em ferro – encontradas espalhadas numa zona com cerca de metade da área de um campo de futebol – contêm um dos registos mais surpreendentes alguma vez encontrados sobre uma antiga floresta tropical.

Este sítio fóssil – conhecido por McGraths Flat – foi revelado num estudo publicado na revista Science Advances e é um dos poucos lugares no mundo que preserva ecossistemas de floresta tropical que datam do Mioceno, um período há 23.03 milhões a 5.33 milhões de anos. Durante este período, o mundo sofreu uma alteração ecológica massiva e a Austrália começou a fazer a transição de floresta tropical – como a Amazónia moderna – para a terra árida com arbustos e gramíneas que conhecemos atualmente.

Acredita-se que estas flores fósseis isoladas pertencem à ordem das Malvales, uma ordem que tem de mais de 7.000 plantas vivas e inclui hibiscos e cacau.

Fotografia por Michael Frese

Existem outros sítios fósseis do Mioceno na Austrália que são famosos pelos ossos de mamíferos e répteis, mas esses locais nem sempre preservam as inúmeras coisas minúsculas que formam a base de um ecossistema. O sítio de McGraths Flat tem uma abundância de fósseis mais pequenos, registando uma floresta tropical surpreendentemente diversa que cresceu em Nova Gales do Sul há 16 a 11 milhões de anos.

Em McGraths Flat, as aranhas fossilizaram com os pelos ainda nas patas, os peixes fósseis ainda têm as barrigas cheias de insetos e as folhas estão tão bem preservadas que os investigadores conseguem ver os poros que costumavam sugar CO2.

“A quantidade e qualidade excecional do material descoberto é notável, assim como as informações biológicas e ecológicas extraídas e apresentadas”, diz a paleontóloga Suzanne Hand, especialista em fósseis do Mioceno na Universidade de Nova Gales do Sul, que não participou no estudo.

Os fósseis de McGraths Flat até preservam imagens da vida em ação. A cabeça de uma mosca-serra continua coberta de pólen, provavelmente depois de esta se ter banqueteado com o néctar de uma flor. A cauda de um peixe tem um passageiro inesperado: a larva parasita de um mexilhão, que subsistia enquanto apanhava boleia do peixe rio acima.

“Devido à qualidade da preservação, conseguimos observar estes ecossistemas como nunca”, diz Matthew McCurry, coautor do novo estudo e paleontólogo do Instituto de Pesquisa do Museu Australiano.

Esquerda: Superior:

Esta pínula fóssil, ou subsecção de folha, provavelmente pertence a um feto do género Lygodium. Os poros fossilizados de 10 mícrons desta planta são visíveis através de microscopia eletrónica.

Direita: Inferior:

O sítio fóssil de McGraths Flat também preserva vários tipos de insetos, incluindo larvas de libélula chamadas náiades, como este fóssil.

fotografias de Michael Frese

Fósseis extremamente bem preservados

Matthew McCurry e os seus colegas ouviram falar sobre este local em 2017. Assim que perceberam a importância que estes fósseis poderiam ter, os investigadores começaram a visitar o local durante três a quatro dias seguidos, ferindo as mãos em rochas parecidas com sílex para obterem um vislumbre de uma antiga floresta tropical.

Quanto mais os cientistas analisavam o local, mais percebiam o quão invulgar era o modo de preservação. Os fósseis foram todos sepultados em camadas extremamente finas de um mineral de óxido de ferro chamado goethite. Já foram encontrados fósseis nestes tipos de rochas, mas a qualidade dos espécimes de McGraths Flat destaca-se de todos os outros.

“Este tipo de preservação pode ter sido ignorado ou recebeu pouca atenção”, diz Michael Frese, coautor do estudo e virologista da Universidade de Camberra, na Austrália, que também estuda microfósseis. “Se disséssemos a alguém que esperávamos encontrar fósseis excelentes em pedra de ferro, essas pessoas poderiam pensar que éramos loucos.”

Michael Frese acrescenta que este tipo invulgar de fossilização torna os fósseis de McGraths Flat particularmente fáceis de analisar com microscópios eletrónicos de varrimento (MEV), alguns dos microscópios mais poderosos disponíveis atualmente. Geralmente, as amostras observadas num MEV têm de ser revestidas com finas camadas de ouro ou platina, algo que pode restringir pesquisas futuras. Mas os fósseis de McGraths Flat são tão ricos em ferro e tão bons condutores que podem ser colocados diretamente sob um microscópio eletrónico sem qualquer preparação adicional.

“O fóssil entra no MEV e sai exatamente da mesma forma”, diz Michael Frese.

Até os fósseis mais pequenos já produziram alguns achados surpreendentes. Na única pena fóssil de que há conhecimento no local, os investigadores conseguiram observar bolsas do pigmento melanina, cujas formas sugerem que a pena pode ser escura ou iridescente. Os cientistas também encontraram melanina preservada no olho de um peixe fóssil, e até encontraram a descamação da asa de uma borboleta ou mariposa com mais de 11 milhões de anos.

Esquerda: Superior:

A visão aproximada de um besouro Cerambycidae, que tem 2 centímetros de comprimento, revela um passageiro inesperado: um pequeno nematoide preso ao seu corpo.

Direita: Inferior:

Os fósseis de McGraths Flat incluem uma pena de ave tão primorosamente fossilizada que é possível ver bolsas do pigmento melanina sob a ampliação de um microscópio eletrónico.

fotografias de Michael Frese

Um lago inundado de ferro

A equipa de investigação acredita que McGraths Flat era um lago formado a partir de um braço morto de um rio. Na maior parte do tempo, este lago era bastante tranquilo, com baixos níveis de oxigénio e poucos predadores. Contudo, a julgar pelos diversos fósseis de peixes recuperados no local até agora, tanto os peixes como outras criaturas ribeirinhas podem ter acabado periodicamente no lago quando um rio ali perto inundava as suas margens.

Matthew McCurry e Michael Frese suspeitam que o ferro dos depósitos de basalto ali nas proximidades se dissolveu na água enquanto passava pela rocha em processo de erosão. Esta água carregada de ferro chegou depois ao lençol freático subterrâneo e eventualmente escoou para o lago.

Sempre que água doce e altamente oxigenada entrava no lago – talvez através de chuvas torrenciais ou inundações – os iões de ferro já não conseguiam permanecer dissolvidos e formaram rapidamente goethite no fundo do lago. Esta precipitação acelerada de minerais também enterrou todas as folhas ou carcaças de animais no lago. Com o passar do tempo, a goethite substituiu os tecidos moles enterrados, registando as suas formas nos fósseis que vemos hoje.

A equipa tem motivos para acreditar que o ciclo de goethite do lago pode ter sido provocado por monções sazonais. Entre as centenas de flores fósseis encontradas até agora em McGraths Flat, a maioria morreu antes de florescer, sugerindo que foram soterradas durante uma época consistente do ano. A equipa também encontrou muitos fósseis de insetos que, nos ecossistemas modernos, só aparecem na primavera e no verão.

Os investigadores ainda têm muito trabalho pela frente para testar as suas teorias, bem como para analisar o tesouro fóssil encontrado até agora. Matthew McCurry e Michael Frese estão a tentar refinar as estimativas sobre a idade do sítio fóssil, algo que pode ajudar os investigadores a compreender melhor como é que McGraths Flat se transformou de uma floresta tropical para um matagal árido – podendo indicar como é que as florestas tropicais irão responder às alterações climáticas da atualidade.

Esta imagem colorida artificialmente de microscopia eletrónica de varrimento mostra quatro esporos de Cingulasporites ornatus. Estes e outros esporos podem atuar como referências para a idade das rochas e ajudaram os investigadores a determinar a idade do sítio fóssil: entre 11 e 16 milhões de anos.

Fotografia por Michael Frese

Janelas para o passado e futuro

Durante o Mioceno inicial e médio, os níveis de CO2 atmosférico eram de cerca de 400 a 500 partes por milhão, semelhante ao estimado para os níveis de CO2 num futuro próximo provocados pela atividade humana. O Mioceno também teve períodos de aquecimento sustentado, como o ótimo climático do Mioceno médio, há 17 a 14 milhões de anos, que pode ter coincidido com a faixa temporal registada em McGraths Flat.

“Estes resultados podem ajudar a compreender melhor as alterações futuras nos ecossistemas das florestas tropicais face ao aquecimento global antropogénico”, diz Bo Wang, paleontólogo da Academia Chinesa de Ciências que não participou no estudo. “Este trabalho revela que as biotas tropicais atingiram pelo menos os 37 graus no sul da Austrália, mas não sabemos quando começou e acabou. Qual foi o mecanismo responsável por isto?”

Para descobrir mais sobre a transformação que aconteceu em McGraths Flat, Matthew McCurry e Michael Frese planeiam regressar ao local para procurar uma série de fósseis adicionais. “Sabemos que a pena de uma ave fica muito bem preservada, mas queremos o pássaro inteiro e, quando o encontrarmos, sabemos que vai estar preservado de forma imaculada”, diz Matthew McCurry.

Ainda assim, à medida que a equipa procura mais fósseis, os investigadores vão estar muito atarefados com os espécimes deslumbrantes já encontrados, diz Matthew McCurry. “Temos literalmente uma década de trabalho pela frente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
O T-rex devia ser 3 espécies? Novo estudo despoleta debate feroz.
Ciência
Fóssil gigante de ‘monstro marinho’ é um dos maiores do seu género
Ciência
Fóssil raro contém camarões da antiguidade escondidos no interior de uma amêijoa
Ciência
Caranguejo minúsculo envolto em âmbar revela marcha evolutiva para fora do oceano
Ciência
Ovo fossilizado de tartaruga gigante pré-histórica revela cria no seu interior

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados