Fóssil gigante de ‘monstro marinho’ é um dos maiores do seu género

O fóssil de aproximadamente nove metros de comprimento encontrado em Inglaterra oferece novas pistas sobre a forma como os ictiossauros evoluíram para se transformarem em gigantes oceânicos.

 

Um esqueleto fóssil encontrado recentemente de um réptil marinho chamado ictiossauro ajuda a revelar a história evolutiva de um dos maiores predadores do oceano pré-histórico.

Fotografia por Bob Nicholls
Por Riley Black
Publicado 12/01/2022, 11:30

No frio do inverno de janeiro de 2021, Joe Davis encontrou algo surpreendente na Reserva Natural de Rutland, em Inglaterra. Joe Davies tinha saído para drenar uma lagoa nesta propriedade, parte do seu trabalho enquanto líder da equipa de conservação da reserva, quando reparou em ossos grandes e fossilizados a projetarem-se do solo.

Ao início, pareciam as partes do corpo de um enorme dinossauro. Mas quando Dean Lomax, paleontólogo da Universidade de Manchester, recebeu um e-mail com fotografias da descoberta, percebeu imediatamente que Joe Davis tinha encontrado um enorme réptil marinho chamado ictiossauro. Dean Lomax diz que ficou evidente que a descoberta feita em Rutland podia ser algo muito especial.

Nesta imagem vemos os restos mortais fossilizados encontrados em Inglaterra de um enorme ictiossauro.

Fotografia por Anglian Water

Os ictiossauros coexistiram com os dinossauros, mas estes répteis marinhos eram criaturas completamente diferentes. Os ictiossauros evoluíram de répteis terrestres durante o Triássico, há mais de 246 milhões de anos. Os ictiossauros foram tornando-se mais aerodinâmicos e semelhantes aos peixes ao longo do tempo, e diversas espécies de ictiossauros percorreram os mares até há cerca de 95 milhões de anos.

Muitos ictiossauros eram semelhantes em tamanho aos tubarões da atualidade, comendo peixes, lulas e outras pequenas presas. Alguns eram predadores capazes de devorar outros répteis marinhos enormes. Até agora, os maiores ictiossauros de que há registo pertencem ao Triássico, há 250 a 201 milhões de anos.

Mas o fóssil encontrado em Rutland é geologicamente mais jovem, datado em cerca de 180 milhões de anos, e não existem dúvidas de que este animal era verdadeiramente gigante. “Encontrar um espécime com este tamanho e tão completo é notável”, diz Rebecca Bennion, paleontóloga da Universidade de Liège, que não participou na escavação. Só o crânio tem quase dois metros de comprimento, e o corpo estende-se ao longo de mais de nove metros – comparável em tamanho a uma baleia-minke da atualidade. O esqueleto do ictiossauro demorou pouco mais de duas semanas a ser escavado na totalidade, mesmo com equipas a trabalhar desde o nascer ao pôr do sol.

Dean Lomax diz que ele e os seus colegas desenterram o esqueleto mais completo de um grande réptil pré-histórico alguma vez encontrado na Grã-Bretanha.

Apesar de esta descoberta ainda não ter sido descrita formalmente, Jorge Velez-Juarbe, paleontólogo do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles, que não esteve envolvido na escavação, diz que é uma “descoberta incrível” que oferece uma nova janela para a história evolutiva destes répteis aquáticos. “Tal como acontece com as baleias, os ictiossauros também atingiram tamanhos gigantescos mais de uma vez em diferentes linhagens ao longo da sua história”, diz Jorge Velez-Juarbe.

A evolução de um monstro marinho

O ictiossauro de Rutland ainda está no processo de ser libertado da rocha na qual ficou envolto. Porém,  Dean Lomax afirma que “tirámos todas as medidas possíveis e milhares de fotografias”, que formam a base para o modelo 3D dos ossos.

De momento, acredita-se que o esqueleto encontrado em Rutland pertença a um ictiossauro chamado Temnodontosaurus trigonodon, uma espécie conhecida principalmente a partir de ossos que foram encontrados isolados em rochas jurássicas na Alemanha. No início do Jurássico, há cerca de 180 milhões de anos, estes répteis eram os maiores predadores marinhos do planeta, diz Dean Lomax.

Embora estes animais sejam geralmente retratados como caçadores de lulas semelhantes aos golfinhos, o papel dos ictiossauros enquanto enormes carnívoros marinhos está apenas a começar a ser revelado. Os outros fósseis de ictiossauros indicam que as espécies maiores conseguiam comer os seus companheiros répteis marinhos, como os plesiossauros de pescoço comprido e talvez até outros ictiossauros.

Outro ictiossauro pode até ter tentado banquetear-se com esqueleto encontrado em Rutland. Os investigadores encontraram vários dentes isolados de Temnodontosaurus em torno do esqueleto, muitas vezes um sinal de comportamentos necrófagos.

“Foi encontrado um dente grande na zona onde parte da cauda parece ter sido arrancada”, diz Dean Lomax, sugerindo que outro ictiossauro limpou a carcaça antes de esta ficar enterrada.

O enorme réptil fóssil descoberto em Inglaterra é um dos ictiossauros de grande porte mais completos alguma vez encontrados.

Fotografia por Anglian Water

O gigante repetente

Num estudo publicado recentemente na revista Science, Jorge Velez-Juarbe descreve outro ictiossauro gigante muito mais antigo, encontrado no Nevada, chamado Cymbospondylus youngorum. Este animal evoluiu cerca de três milhões de anos depois dos primeiros ictiossauros, que tinham apenas cerca de um metro e oitenta de comprimento. O Cymbospondylus youngorum, por outro lado, está entre os maiores ictiossauros alguma vez encontrados, com um crânio de mais de um metro e oitenta de comprimento.

Apesar de três milhões de anos poderem parecer muito, é pouco tempo em comparação com o crescimento evolutivo das baleias, que demoraram cerca de 50 milhões de anos a passar dos seus pequenos antepassados terrestres para gigantes oceânicos.

Ainda não se sabe exatamente o que pode ter permitido aos ictiossauros evoluir repetidamente e de forma tão veloz para tamanhos tão grandes. No início do Triássico, diz Jorge Velez-Juarbe, as cadeias alimentares da antiguidade parecem ter sido ricas e relativamente estáveis – um cardápio completo de invertebrados marinhos para sustentar uma frota de répteis predadores. Os cefalópodes com conchas em espiral – chamados amonoides – eram tão abundantes que formavam por si só uma parte estável da dieta dos ictiossauros.

“Havia muita comida no Triássico Inferior e Médio, e essa foi provavelmente a razão pela qual conseguiram atingir tamanhos corporais tão grandes em taxas evolutivas surpreendentemente velozes”, diz Jorge Velez-Juarbe.

Durante este período, foram várias as espécies de ictiossauros que evoluíram para o tamanho de baleias, mas desapareceram quando aconteceu uma extinção em massa há 201 milhões de anos, evento que assinalou o fim do período Triássico. Os ictiossauros que sobreviveram eram mais pequenos, mas alguns aumentaram novamente de tamanho em pouco tempo.

“No Jurássico Inferior, os primeiros vertebrados marinhos a atingir um tamanho gigantesco foram novamente os ictiossauros”, diz Dean Lomax, e o espécime encontrado em Rutland é o maior e o mais completo desta segunda vaga. Embora os ictiossauros do Triássico ainda sejam os maiores animais deste género de que há conhecimento, “o Temnodontosaurus não era coisa pouca”, diz Rebecca Bennion.

Jorge Velez-Juarbe diz que, ao analisar os dentes do novo espécime, os paleontólogos podem ter uma ideia mais apurada sobre o que o ictiossauro de Rutland estava a comer e qual era o seu papel no ecossistema jurássico mais tardio.

O fluxo repentino de descobertas de ictiossauros gigantes indica que podem haver mais fósseis à espera de serem encontrados, mesmo num lugar bem investigado como é o caso de Inglaterra. Alguns destes lagartos semelhantes a peixes foram os primeiros animais de tamanho gigante do planeta, e aprender mais sobre a sua existência pode ajudar os cientistas a compreender melhor o papel dos titãs oceânicos ao longo da história.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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