Treinar o cérebro das crianças em casa: um tratamento pioneiro em Portugal

Graças a um dispositivo médico é possível treinar o cérebro de crianças com determinadas patologias a partir de casa.

Por Catarina Fernandes
Publicado 10/01/2022, 15:31
O ensaio clínico inovador é apresentado pela Universidade de Coimbra.

O ensaio clínico inovador é apresentado pela Universidade de Coimbra.

Fotografia por Universidade de Coimbra

O primeiro ensaio clínico para treinar o cérebro visa tratar crianças e adolescentes que sofrem de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) ou Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) vai avançar a partir de casa, com a utilização de uma touca de elétrodos e um serviço de telemedicina.

Esta abordagem inovadora e pioneira em Portugal foi desenvolvida por uma equipa multidisciplinar de cientistas da Universidade de Coimbra, no âmbito do projeto europeu STIPED, que envolve a colaboração científica de 10 universidades, clínicas e empresas de toda a Europa.

O projeto STIPED, liderado pela Christian-Albrechts-University of Kiel e por Evangeisches Klinikum Bethel (Alemanha) junta médicos, psicólogos, matemáticos, engenheiros e especialistas em bioética, tendo como grande objetivo procurar alternativas às opções terapêuticas tradicionais, baseadas em medicação que, no caso do autismo, são meramente sintomáticas e com efeitos secundários frequentemente severos.

(Relacionado: Combater lesões cerebrais? Investigadores descobrem que pode ser possível.)

Treinar o cérebro de crianças com transtornos mentais crónicos

Os transtornos mentais crónicos têm uma correlação com a redução da qualidade de vida de quem sofre de PHDA ou PEA, uma vez que representa um impacto na vida social e financeira das famílias. O tratamento tradicional não é adequado para muitas crianças e adolescentes, sendo baseado em farmacoterapia e terapia comportamental, surgindo daí a necessidade de procurar uma alternativa simples, que possa ser facilmente integrada no dia-a-dia das famílias.

O método apresentado baseia-se na estimulação cerebral inovadora, eficaz, segura e fácil de se realizar, ocorrendo através da estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS, sigla em inglês). Trata-se de uma técnica não invasiva que passa por treinar o cérebro da criança através de correntes diretas de baixa amplitude, em regiões do cérebro que se pensa estarem comprometidas naquelas perturbações.

Os efeitos da estimulação transcraniana por corrente contínua são vistos numa grande variedade de funções cerebrais, tais como nas funções sensoriais primárias, nas funções motoras e executivas, memória e atenção, regulação de emoções, tendo sido já demonstrados frequentemente. Nos últimos anos de investigação, aumentaram o número de estudos que demonstram a importância desta estimulação no tratamento de distúrbios neurológicos e psiquiátricos.

Do ambiente hospitalar para o familiar

A estimulação elétrica do cérebro é não invasiva e utiliza correntes elétricas fracas com objetivo de modular as atividades dos neurónios corticais, influenciando a excitabilidade da membrana. As correntes utilizadas são divididas no campo das correntes alternadas transcranianas e das correntes transcranianas diretas, as que são aplicadas no STIPED.

Antes da realização do primeiro ensaio a partir de casa, a equipa de investigação portuguesa liderada por Miguel Castelo-Branco, coordenador de equipa e docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), realizou vários estudos e três ensaios clínicos em laboratório, no Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT) do ICNAS, assim como em ambiente hospitalar, abrangendo aproximadamente uma centena de crianças e adolescentes saudáveis e com PHDA e PEA.

Além das crianças e respetivas famílias, os cuidadores e professores também estarão envolvidos nos aspetos mais relevantes dos estudos, de forma a garantir que o novo tratamento para treinar o cérebro das crianças e adolescentes se integre com maior facilidade nas suas vidas diárias.

A estimulação transcraniana por corrente contínua é uma terapia não invasiva, altamente compatível e indolor, que penetra no crânio e entra no cérebro a partir do ânodo, sendo conduzida por uma corrente elétrica muito pequena através do tecido e que sai pelo cátodo.

O projeto para treinar o cérebro das crianças

A verba atribuída ao projeto, pelo programa de investigação e inovação Horizonte 2020 da União Europeia, foi de cerca de seis milhões de euros. Após uma primeira fase de investigação em ambientes clínicos e académicos, o projeto foi aprovado pelas entidades reguladoras de vários países europeus para ser testado como dispositivo médico em casa.

Depois do primeiro teste clínico com o novo dispositivo biomédico, os cientistas da Universidade de Coimbra pretendem realizar novos ensaios, encontrando-se, por isso, recetivos ao contacto de famílias e potenciais voluntários. Neste sentido, os interessados em participar neste projeto podem inscrever-se através da página oficial do projeto.

O tratamento para treinar o cérebro das crianças em casa baseia-se num conceito totalmente inovador na terapia para perturbações neuropsiquiátricas crónicas, apostando num tratamento personalizado e num serviço de telemedicina que permite o controlo remoto da segurança, assim como das configurações de estimulação e a monitorização contínua dos sintomas clínicos.

Por meio desta assistência e de um atendimento médico à distância, as consultas médicas e os custos com os cuidados de saúde podem ser reduzidos e, em simultâneo, aumentar a aceitação do tratamento. Para além do tratamento de PHDA e PAE, este projeto visa também o desenvolvimento de novas opções de tratamento para uma ampla variedade de outros transtornos mentais crónicos.

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