As máscaras fazem realmente mal às crianças? Eis o que diz a ciência.

À medida que mais países começam a abandonar o uso obrigatório de máscara, os especialistas explicam as razões pelas quais a sua utilização nas escolas continua a ser a atitude mais sensata para famílias e professores.

Publicado 21/02/2022, 11:03
Regra da máscara

Alunos do sexto ano verificam a temperatura quando chegam à escola na cidade de Nova Iorque no dia 1 de outubro de 2020. Espera-se que o estado de Nova Iorque considere a suspensão do uso obrigatório de máscara nas escolas em março – juntando-se à vaga de estados norte-americanos que têm feito o mesmo nas últimas semanas.

Fotografia por Todd Heisler, The New York Times via Redux

Durante a pandemia de COVID-19, o uso obrigatório de máscara nas escolas tornou-se numa espécie de para-raios político nos Estados Unidos – e, nas últimas semanas, os dominós começaram a cair à medida que um estado após o outro anunciava planos para suspender esta obrigatoriedade.

Alguns pais e professores já citaram preocupações de que as máscaras prejudicavam as crianças, alegando que afetam a sua capacidade de respirar, abrandam o seu desenvolvimento social e emocional e provocam ansiedade. Mas os especialistas dizem que a ciência não corrobora estas preocupações.

É compreensível que exista alguma confusão, diz Thomas Murray, pediatra da Escola de Medicina da Universidade de Yale. Não há dúvida de que o uso de máscara reduz a propagação de doenças, mas as evidências não são tão claras sobre a forma como as máscaras podem afetar o desenvolvimento emocional das crianças com mais de dois anos. A resposta definitiva para esta questão exigiria aos investigadores pedir às pessoas para tirarem as máscaras para fazer um estudo randomizado, o padrão de excelência da ciência, mas isso seria pouco ético. Portanto, a maioria das investigações sobre o uso de máscara tem por base as observações retrospetivas do mundo real, que podem ser mais facilmente selecionadas para favorecer um lado ou o outro no debate sobre o uso de máscara.

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“Mas temos esta experiência humana que está a acontecer com as crianças que usam máscara na escola, e sabemos que esses receios associados à saúde não se materializaram”, diz Theresa Guilbert, pneumologista pediátrica e membro da Academia Americana de Pediatria em Medicina Pulmonar e do Sono.

Theresa Guilbert e outros especialistas dizem que a maioria das evidências sugere que o uso de máscara não afeta as crianças – e que as beneficia de várias formas. As máscaras não protegem apenas as crianças da COVID-19 e de outras doenças respiratórias. Os estudos mostram que as escolas com políticas de uso de máscara em vigor têm mais probabilidades de permanecer abertas, e manter as escolas abertas é algo que décadas de investigação provam que é particularmente crítico para a saúde e o desenvolvimento mental das crianças.

Eis o que diz a ciência sobre crianças e o uso de máscara.

Como as máscaras afetam a respiração

Uma das primeiras preocupações que os pais tinham sobre as crianças usarem máscara o dia inteiro residia na forma como isso poderia afetar a sua respiração – saber se as máscaras permitiam que recebessem oxigénio suficiente ou se retinham demasiado dióxido de carbono. Theresa Guilbert diz que esta questão foi levantada para as crianças porque elas respiram mais depressa do que os adultos.

Contudo,  não existem evidências de que o uso de máscara afete significativamente a respiração. De facto, o estudo que mostrava níveis inaceitáveis de dióxido de carbono em crianças dos seis aos 17 anos que usavam máscara foi amplamente desacreditado no verão passado – e finalmente desconsiderado pela revista JAMA Pediatrics – devido a preocupações com a exatidão das suas medições e respetiva validade das conclusões.

Em vez disso, Theresa Guilbert refere uma meta-análise de 10 estudos, que mostra que a flutuação dos níveis de dióxido de carbono e oxigénio entre adultos e crianças com máscara estava “bem dentro da faixa normal”. Embora as crianças com casos graves de asma possam precisar de fazer uma pausa e retirar a máscara no corredor fora da sala de aula, estes estudos mostram que a maioria das crianças tolera o uso de máscara.

Theresa sublinha que os resultados fazem sentido com base no que sabemos sobre o tamanho das moléculas de dióxido de carbono e oxigénio – que são muito mais pequenas do que os poros nas máscaras de tecido e cirúrgicas, e não devem ter problemas em fluir no interior e em torno das máscaras. Para além disso, acrescenta Theresa, depois de dois anos a lidar com a pandemia, os hospitais simplesmente não estão a registar um fluxo de crianças com níveis perigosamente baixos de oxigénio ou níveis elevados de dióxido de carbono devido ao uso de máscara.

“Há muitas teorias lançadas para o ar, mas temos esta experiência da vida real em andamento”, diz Theresa Guilbert.

Como as máscaras afetam o desenvolvimento da linguagem

Outra preocupação residia na hipótese de as máscaras poderem impedir o desenvolvimento da linguagem nas crianças. Samantha Mitsven, doutoranda em psicologia na Universidade de Miami, diz que tanto ela como outros investigadores receavam que a incapacidade de ver a boca de uma pessoa – e o som abafado pela máscara – pudessem impedir as crianças de compreender e aprender novas palavras.

Os estudos têm demonstrado que as máscaras abafam o som – e o quão significativamente varia dependendo do tipo de máscara. Um destes estudos mostra que as crianças conseguem reconhecer mais facilmente as palavras faladas através de uma máscara opaca do que de uma transparente, provavelmente devido à confusão provocada pela luz refletida numa máscara transparente. Outro estudo sugere que as máscaras cirúrgicas oferecem o melhor desempenho acústico, seguidas pelas máscaras KN95 e N95, e depois pelas máscaras de tecido – com as máscaras transparentes novamente em último lugar.

Mas os especialistas dizem que não existem evidências claras de que isso afete significativamente a capacidade de comunicação de uma criança – talvez porque as pessoas podem compensar ao falar mais devagar e mais alto, e gesticulando para transmitir um significado.

Samantha Mitsven liderou recentemente um estudo que analisava gravações de áudio feitas em infantários – numa sala de aula que foi observada em várias visitas antes da pandemia e noutra sala que foi observada quando as crianças e os professores foram obrigados a usar máscara. O estudo não encontrou diferenças na quantidade de vezes que as crianças falavam ou na diversidade da linguagem utilizada. Nas crianças com aparelhos auditivos e implantes cocleares, uma população que compunha metade de cada sala, verificaram-se os mesmos resultados.

“As vocalizações são iguais às de todas as crianças desta idade”, diz Samantha Mitsven.

Como as máscaras afetam o desenvolvimento social

Os estudos também mostram que as crianças têm mais dificuldade em ler as emoções das pessoas que usam máscara – mas isso não as impede necessariamente de aprender a interagir com os outros.

As crianças observam os rostos das pessoas que as rodeiam desde os primeiros meses de vida. Isto ajuda-as a distinguir entre emoções positivas e negativas e, consequentemente, ajuda-as a aprender a ajustar o seu comportamento de acordo com a situação.

Cobrir a metade inferior do rosto com uma máscara afeta esta capacidade: um estudo publicado na Frontiers in Psychology mostra que as crianças entre os três e os cinco anos têm menos aptidão para reconhecer as emoções de pessoas fotografadas com máscara em comparação com pessoas fotografadas sem máscara.

Mas Walter Gilliam, professor de psiquiatria e psicologia infantil do Centro de Estudo Pediátrico de Yale, diz que este estudo e outros semelhantes estão limitados pela sua dependência de fotografias. “Nós não nos resumimos aos nossos globos oculares”, diz Walter. As crianças também captam pistas, como por exemplo a forma como as pessoas navegam pelos espaços, o tom das suas vozes e os gestos que fazem com as mãos. “Todos estes elementos são excluídos desses estudos.” Walter Gilliam refere outro estudo que mostra que a dificuldade que as crianças têm em ler as emoções de uma pessoa que usa máscara é a mesma que sentem ao tentar desvendar as emoções de uma pessoa com óculos escuros.

Estes estudos também são apenas um retrato parado no tempo – não nos conseguem dizer com que rapidez as crianças se conseguiriam adaptar a esses desafios. “Tudo o que sei sobre o desenvolvimento infantil diz-me que as crianças adaptar-se-iam muito rapidamente”, diz Walter Gilliam. “Gostava que tivéssemos mais fé na capacidade das crianças.”

Theresa Guilbert concorda que não existem sinais de que o uso de máscara impeça as crianças e adolescentes de se desenvolverem socialmente – e argumenta que até podem ser vitais para garantir que as crianças continuam a poder frequentar a escola. Ao longo dos últimos dois anos surgiram várias evidências de que o uso obrigatório de máscara ajuda as escolas a permanecerem abertas – ao reduzir o número de surtos.

Como as máscaras afetam a saúde mental

Da mesma forma, enquanto que algumas pessoas argumentam que o uso obrigatório de máscara na escola é prejudicial para a saúde mental de uma criança, os especialistas dizem que as evidências sugerem o contrário. Theresa Guilbert diz que o impacto mais significativo na saúde mental surgiu logo no início da pandemia. Ao início, as crianças que ficaram no ensino à distância tiveram níveis mais elevados de ansiedade e depressão, porque não estavam na escola com os colegas.

Walter Gilliam e Thomas Murray, investigadores de Yale, também estavam preocupados com o modo como o encerramento das escolas poderia estar a afetar a saúde mental das crianças e dos seus pais, que estavam igualmente stressados. Com isso em mente, ambos decidiram investigar no início da pandemia as estratégias mais eficazes para manter abertas as escolas e os programas de assistência à primeira infância.

Em maio de 2020, estes investigadores já tinham entrevistado 6.654 profissionais de cuidados infantis em todos os 50 estados dos EUA, para descobrir quais eram as táticas de mitigação da COVID-19 empregues em cada local, incluindo práticas como distanciamento social, triagem de sintomas e uso de máscara. Um ano mais tarde, Walter e Thomas fizeram o acompanhamento para perceber se estes programas tinham sido forçados a encerrar. A análise resultante mostra que as creches com uso obrigatório de máscara para as crianças maiores de dois anos tinham 13% mais probabilidades de permanecer abertas do que os infantários onde as crianças não usavam máscara.

Tal como acontece com muitos outros estudos sobre o uso de máscara nas escolas, Walter Gilliam e Thomas Murray admitem que o seu estudo também é limitado: baseia-se em observações do mundo real e não pode controlar outros fatores – como por exemplo, se os adultos e crianças que usavam máscara também evitaram viajar durante esses mesmos períodos. De qualquer forma, é mais um trabalho a fornecer evidências convincentes de que as políticas de uso de máscara têm mais potencial para ajudar do que afetar a saúde mental de uma criança.

“Não podemos usar máscaras para sempre, mas também não podemos ter as crianças a faltar 10 dias à escola aqui e ali por causa da quarentena”, diz Thomas Murray.

Walter Gilliam diz que a culpabilização das máscaras pela depressão e ansiedade que as crianças sentem vem do desejo natural que temos de as proteger. Mas suspeita que não é o uso de máscara que provoca stress nas salas de aula. “É o trauma da COVID que as máscaras pretendiam prevenir”, diz Walter. “Quando temos uma dor porque nos cortámos, a dor vem do corte no braço e não do penso, não é o penso que está a causar o problema. O objetivo da máscara é reduzir todos os outros traumas – traumas que sabemos comprovadamente que afetam as crianças.”

Como é que iremos saber que já não é preciso usar máscara?

Portanto, como é que a ciência pode ajudar as escolas na tomada destas decisões? Bem, por um lado, os especialistas alertam que é importante que os decisores políticos tenham em mente que há sempre discrepâncias num estudo. Isto é, embora as evidências sugiram que o uso de máscara não afeta a maioria das crianças, o uso obrigatório de máscara pode precisar de isenções para crianças com problemas auditivos e que precisam de ler os lábios, ou crianças com autismo que têm dificuldades em interpretar expressões faciais.

Thomas Murray diz que a mitigação dos riscos é melhor se for feita por camadas – e que as escolas têm uma variedade de táticas que podem usar contra a COVID-19. Para evitar que o vírus entre nas escolas, os estabelecimentos de ensino podem implementar programas robustos de testagem e estratégias de verificação de sintomas. Mas se a doença estiver presente e a propagar-se entre os alunos, o uso de máscara e uma boa ventilação dos espaços tornam-se estratégias de mitigação mais importantes. “Resumindo, se as escolas querem abdicar do uso obrigatório de máscara, precisam de pensar em intensificar a ventilação das instalações ou apostar na testagem.”

A transmissão comunitária também é um fator importante. Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, pediu aos decisores políticos para não abandonarem o uso obrigatório de máscara nas escolas enquanto as infeções permanecerem elevadas por todo o país. Apesar de o número de casos estar a descer, ainda permanece mais elevado do que era antes do surto provocado pela variante Ómicron.

Embora o cancelamento do uso obrigatório de máscara possa fazer sentido em momentos em que os casos locais são baixos, Thomas Murray diz que as escolas precisam de estar dispostas a regressar à utilização de máscara caso surja uma nova variante de preocupação ou se se verificar um novo aumento no número de casos. Não existe um número mágico que determine quando é que devemos abandonar estas práticas, diz Thomas – é algo que pode diferir com base numa variedade de fatores que podem mitigar a transmissão, como por exemplo, se as escolas tiverem espaço suficiente para os alunos ficarem mais espaçados ou se está um dia quente o suficiente para abrir as janelas da sala de aula. Contudo, Thomas Murray argumenta que é importante estarmos dispostos a considerar as evidências e estarmos dispostos a mudar de ideias quando tivermos mais informações disponíveis.

“A questão é esta: eu concordo que vamos ter de relaxar estas restrições”, diz Thomas, “mas é melhor termos um plano muito bem delineado, porque ter filhos fora do infantário e pais com dificuldades para encontrar cuidados alternativos não é bom para ninguém.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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