Diamante negro de origem desconhecida foi vendido por 4.3 milhões de dólares

E ninguém conhece a sua origem. Os geólogos ainda não conseguem confirmar se esta pedra enorme chamada Enigma se cristalizou no manto da Terra ou veio do espaço sideral.

Publicado 15/02/2022, 17:37
Enigma - diamante negro

Com 555.55 quilates, o Enigma é o maior diamante lapidado do mundo. Os diamantes carbonados podem atingir tamanhos consideráveis e são ainda mais resistentes do que os diamantes comuns, o que os torna extremamente difíceis de cortar. A forma de 55 facetas do Enigma foi inspirada no símbolo da palmeira do Médio Oriente, ou Hamsá – um amuleto protetor.

Fotografia por Sotheby's

Com uma licitação final de 4.28 milhões de dólares, um comprador anónimo acaba de se tornar o novo proprietário do diamante negro de 555.55 quilates conhecido por Enigma. A venda desta pedra bizarra reacendeu um longo debate sobre as suas origens, um debate alimentado pela teoria controversa de que pode ter vindo do espaço sideral.

Tanto o Enigma como todos os outros diamantes carbonados formaram-se num evento misterioso há cerca de 3.8 a 2.6 mil milhões de anos. Negros, opacos e repletos de buracos visíveis, os carbonados têm uma combinação única de características físicas e químicas, diferente de quaisquer outros diamantes conhecidos.

Estes diamantes só se encontram em duas regiões do mundo – no Brasil e na República Centro-Africana – e podem atingir tamanhos surpreendentes. Este grupo inclui o gigantesco carbonado brasileiro de 3.167 quilates conhecido por Sérgio – o maior diamante encontrado até agora. E o próprio Enigma não é propriamente uma pedra pequena. “É um diamante enorme e muito bonito”, diz Thomas Stachel, mineralogista especializado em diamantes da Universidade de Alberta.

Até recentemente, porém, os carbonados não eram reconhecidos pela sua beleza, mas sim pela sua dureza. Ao contrário dos cristais de estrutura única dos diamantes tradicionais, os carbonados são compostos por uma rede interligada de cristais que lhes confere uma resistência adicional à fratura sob pressão, tornando-os assim valiosos enquanto abrasivos industriais. Os carbonados têm sido usados no fabrico de brocas que conseguem perfurar rochas duras e em rebolos para afiar ferramentas.

As diversas curiosidades dos carbonados têm alimentado uma série de teorias sobre a sua origem. “Não existe um modelo que consiga explicar tudo”, diz Wuyi Wang, vice-presidente do departamento de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Gemológico da América, que certificou o Enigma enquanto carbonado natural.

Diamantes queimados

A história destes minerais extremamente resistentes desenrola-se nos dois lados do Oceano Atlântico. Os diamantes negros foram descobertos na década de 1840 por mineiros no leste do Brasil, aos quais chamaram carbonado, do português para queimado ou carbonizado. Décadas depois, os carbonados também foram descobertos na República Centro-Africana – o único outro lugar onde foram encontrados.

“Os carbonados nestes dois locais são muito semelhantes em pormenores minuciosos, pelo que devem estar relacionados”, diz Peter Heaney, mineralogista da Universidade da Pensilvânia. Os carbonados provavelmente foram depositados quando duas massas de terra se uniram numa só laje há mais de mil milhões de anos, dividindo-se depois de o último supercontinente da Terra, Pangeia, se ter separado há 180 milhões de anos.

Ao longo dos milénios, os efeitos do vento e da água apagaram a maioria das outras pistas sobre as origens destes diamantes negros, desgastando as rochas nas quais as gemas se formaram, fazendo com que se espalhassem ao longo das margens de rios antigos.

Há cerca de 150 anos, um problema semelhante encobriu as origens do tipo de diamante que atualmente é o mais extraído, diz Pierre Cartigny, geoquímico especializado em diamantes no Instituto de Física Globo de Paris. As respostas começaram a tomar forma na década de 1870, quando os diamantes foram encontrados embutidos em tubos verticais de rocha vulcânica na área de Kimberley, na África do Sul. Mais tarde, os cientistas iriam perceber que as violentas erupções vulcânicas tinham projetado estes condutos para a superfície, arrastando as pedras agora conhecidas por diamantes de kimberlito desde as profundezas do subsolo com uma vaga de magma.

Para os carbonados, diz Pierre Cartigny, “basicamente regressamos 150 anos no tempo”. Sem uma rocha hospedeira, os cientistas só podem procurar pistas nas características estranhas dos próprios diamantes negros – mas cada um parece contar uma história diferente.

Fazendo jus ao próprio nome, ninguém sabe exatamente de onde vem o Enigma. Este diamante foi estimado em mais de 800 quilates, o equivalente a 160 gramas, quando foi adquirido anonimamente na década de 1990, segundo o representante do vendedor. Mais tarde, foi cortado na sua forma distinta de 55 facetas – uma tarefa que demorou três anos devido à resistência extraordinária da pedra.

Meteorito ou manto

À medida que os diamantes se cristalizam nas pressões imensas das profundezas da Terra, ocasionalmente encapsulam minerais do manto do planeta, como granada vermelha ou olivina verde. Mas estes minerais estão ausentes nos carbonados. Em vez disso, os geólogos encontraram uma variedade exótica de metais, como o mineral osbornite de nitreto de titânio, que se encontra geralmente em meteoritos.

Talvez estes diamantes se tenham formado em estrelas ou planetas ricos em carbono, pedaços dos quais foram trazidos para a Terra em meteoritos durante um período algures há 4 a 3.8 mil milhões de anos, quando rochas vindas do espaço atingiam regularmente o nosso planeta.

Stephen Haggerty, geofísico de diamantes da Universidade Internacional da Flórida, propôs inicialmente esta origem extraterrestre na conferência de 1996 da União Geofísica Americana – e Stephen continua a afirmar veementemente que é a única explicação lógica para as inúmeras curiosidades do carbonado.

“Ficaria absolutamente encantado se alguém me apresentasse uma alternativa cientificamente robusta”, diz Stephen Haggerty.

Mas alguns cientistas não estão convencidos. Quando Peter Heaney, da Universidade da Pensilvânia, começou a estudar carbonados na década de 1990, a proposta do meteorito parecia uma explicação lógica. Mas quanto mais diamantes negros Peter analisava, mais provável lhe parecia que se tinham formado no manto da Terra.

Peter Heaney refere que os cientistas já identificaram alguns dos mesmos metais exóticos em diamantes de kimberlito. E a osbornite, apesar de rara, também já foi encontrada encapsulada em minerais e rochas formadas nas profundezas do manto da Terra.

Mas a evidência que mudou realmente a mente de Peter Heaney foi o tamanho tremendo de muitos dos carbonados. Já foram encontrados diamantes em meteoritos – ou formados pela pressão e calor intensos dos impactos de meteoritos – mas essas pedras extraterrestres eram todas minúsculas.

“Não tem nada que ver com uma joia”, diz Pierre Cartigny. “Não dá para fazer nada a partir daquilo.”

As condições presentes no manto que permitiram a formação dos carbonados permanecem incertas. Uma das suas características curiosas reside no facto de todos os carbonados estarem preenchidos com buracos, como se fossem esponjas. A maioria dos diamantes na Terra forma-se a pelo menos 160 quilómetros abaixo da superfície – em temperaturas escaldantes e pressões esmagadoras. Os poros não sobreviveriam a estes tipos de condições.

“Iriam simplesmente colapsar sobre si próprios”, diz Stephen Haggarty, sublinhando que estes poros podem ter-se formado à medida que o carbono derretido desgaseificava na superfície de estrelas moribundas.

Outras investigações sugerem que os poros podem ser o resultado de carbonados a cristalizar a partir de fluidos subterrâneos quentes, ou talvez estas cavidades já tenham estado preenchidas com minerais que desapareceram há muito tempo. Peter Heaney sugere que os poros podem ter contido minerais de fosfato enriquecidos em elementos radioativos, algo que pode ter danificado a estrutura da rede cristalina e escurecido a cor dos diamantes à medida que esses minerais decaíam.

Contudo, as redes interligadas de poros dificultam o estudo de qualquer material remanescente, dado que não é fácil distinguir se estas inclusões são originais ou minerais que se formaram mais tarde na vida do diamante, diz Pierre Cartigny.

“O carbonado é realmente uma questão difícil”, diz Thomas Stachel, acrescentando que a chave pode estar na química dos próprios diamantes.

Curiosidades químicas

Apesar de os diamantes serem inteiramente compostos de carbono, este elemento pode assumir a forma de isótopos pesados ou leves. Fiel à sua natureza enigmática, a assinatura isotópica dos carbonados difere da assinatura da maioria dos diamantes comuns – é muito mais leve do que a dos diamantes que se formam nas profundezas da Terra e mais semelhante ao carbono orgânico que compõe vida.

Alguns cientistas sugerem que esta assinatura leve de carbono pode significar que os carbonados são formados a partir de material orgânico que foi arrastado para as profundezas, para as zonas de subdução, um mecanismo anteriormente proposto para a formação de alguns dos diamantes comuns. Há cerca de três mil milhões de anos, quando os carbonados se estavam a formar, a vida teria começado a tomar forma.

“Será que os carbonados são fósseis dos primeiros organismos que se formaram na Terra?” pergunta Peter Heaney. “Ninguém sabe a resposta.”

Porém, Pierre Cartigny e os seus colegas encontraram uma pista que sugere outra fonte. Em 2010, na Guiana Francesa, os investigadores encontraram diamantes com uma química surpreendentemente semelhante à dos carbonados. Os diamantes estavam embebidos em komatiito – um tipo de rocha vulcânica de lavas excessivamente quentes e líquidas que só fluíram nos primórdios da história da Terra. Embora a estrutura destes diamantes difira da dos múltiplos cristais dos carbonados, Pierre Cartigny sugere que o calor abrasador das lavas de komatiito pode ter estimulado os cristais para assumirem formas semelhantes a carbonados.

“Já não podemos rejeitar que o carbonado se pode formar no manto da Terra”, diz Pierre Cartigny.

Contudo, a resposta definitiva depende da descoberta de mais diamantes negros. Talvez um desses diamantes contenha material que aponte para uma fonte inequívoca, ou esteja incorporado numa rocha hospedeira que revele as suas verdadeiras origens.

Enquanto isso, o Enigma representa de forma brilhante as inúmeras maravilhas e mistérios que o nosso universo ainda esconde.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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