Uma subvariante ‘furtiva’ da Ómicron está a propagar-se, preocupando especialistas

Eis o que a ciência descobriu até agora sobre a transmissibilidade do vírus BA.2 e como este se reflete nas vacinas disponíveis.

Por Sanjay Mishra
Publicado 7/02/2022, 11:37
Teste covid-19

Em janeiro de 2022, um profissional de saúde recolhia uma amostra de um homem para fazer um teste de COVID-19, enquanto a pandemia continuava a assolar a Cidade do México.

Fotografia por Edgard Garrido, Reuters

Os casos da variante Ómicron estão a diminuir nos EUA e pelo mundo inteiro, mas uma versão diferente da Ómicron está agora a ganhar tração. Esta chamada variante furtiva, oficialmente conhecida por BA.2, está armada com um potencial de transmissão ainda maior e possivelmente tem mais capacidade para escapar à resposta imunitária do que a Ómicron original, levando os especialistas a recear que possa prolongar ainda mais a pandemia de COVID-19.

A Organização Mundial de Saúde ainda não considera a BA.2 uma “variante de preocupação” distinta, mas continua a monitorizar a sua disseminação. Contudo, a BA.2 já está a começar a substituir a estirpe original da Ómicron em muitos países. Neste momento já é a variante dominante na Dinamarca, país que registou mais de 50.000 novas infeções num só dia. A subvariante BA.2 também aparenta ser a linhagem principal da Ómicron em partes da Índia e das Filipinas. Nos Estados Unidos já provocou cerca de 250 casos e foi identificada em mais de metade dos estados norte-americanos.

A subvariante BA.2 provavelmente surgiu de um antepassado comum na mesma época em que apareceu a Ómicron original, também conhecida por BA.1, pelo que não é uma descendente, mas sim uma irmã, diz Cornelius Römer, bioinformático do Biocentro da Universidade de Basileia, na Suíça.

“Eu diria que a BA.1 se tornou dominante primeiro porque começou a propagar-se mais cedo, e agora a BA.2 está a alcançá-la”, diz Jesse Bloom, virologista evolucionário do Centro de Investigação Oncológica Fred Hutchinson e investigador do Instituto Médico Howard Hughes.

Porém, a BA.2 também tem sido apelidada de variante furtiva porque não tem as mutações chave na sua proteína spike que são necessárias para os testes rápidos de PCR a distinguirem das variantes anteriores, como a Delta. Esta diferença também pode ser o motivo pelo qual a BA.2 não foi detetada mais cedo.

De facto, estas duas linhagens da Ómicron têm mais divergências evolutivas entre si do que em relação ao vírus original e à variante Alfa, a primeira variante de preocupação. “A BA.2 partilha mais de 30 mutações com a BA.1, mas também tem 28 mutações únicas”, diz Shay Fleishon, geneticista evolucionário e consultor do Laboratório Central de Virologia em Israel.

Isto sugere que o antepassado comum de ambas as subvariantes de Ómicron já se estava a propagar, evoluindo para subvariantes distintas antes de a BA.1 ter sido detetada por acaso: duas mutações apagaram dois aminoácidos na sua proteína spike, tornando a BA.1 mais fácil de distinguir da Delta nos testes rápidos.

“Ainda assim, a BA.2 é tão detetável nos testes PCR como qualquer outra variante”, diz Cornelius Römer, referindo-se aos testes de “padrão elevado” que dependem de técnicas genéticas mais demoradas, mas altamente precisas.

O que diferencia a BA.2?

A maioria das diferenças entre a BA.2 e a BA.1 reside na proteína spike do vírus, que é usada para o vírus se ancorar e infetar células humanas. A BA.2 também possui um grande número de mutações noutras partes da sua sequência viral que ainda não são bem compreendidas.

As estimativas preliminares reveladas num estudo do Instituto de Sorologia da Dinamarca sugerem que a BA.2 tem uma transmissibilidade cerca de 50% superior à da estirpe BA.1 anterior. O estudo dinamarquês, que ainda não foi revisto por pares, analisou a forma como a COVID-19 se propagou em 8.541 famílias entre o final de dezembro e o início de janeiro. Cerca de 25% eram casos de BA.2, e os dados mostram que até as pessoas completamente vacinadas têm mais suscetibilidade de contrair a variante BA.2 do que a BA.1.

A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido também estima que a BA.2 seja mais transmissível, embora coloque os valores apenas cerca de 30% mais elevados do que os da variante BA.1.

A base genética responsável por esta vantagem na transmissibilidade da BA.2 ainda não é bem compreendida, diz Jesse Bloom, que combinou métodos computacionais e experimentais para estudar a evolução do vírus SARS-CoV-2 e compreender como é que determinadas mutações influenciam a infeção.

Por outro lado, os especialistas acreditam que é pouco provável que a BA.2 provoque um aumento nos casos de infeção grave.

Outro estudo, que também ainda não foi revisto por pares, reforça a teoria de que a versão BA.1 da Ómicron provoca uma doença menos grave do que as variantes anteriores, sobretudo a Delta; por exemplo, no sul da Califórnia, só 0.5% dos 52.297 casos registados de Ómicron exigiram hospitalização. No Reino Unido, a maioria das hospitalizações na unidade de cuidados intensivos também foi provocada pela variante Delta – até ao dia 19 de janeiro de 2022, data para a qual existem dados mais recentes.

Apesar de a BA.2 parecer bastante diferente da Ómicron original, ainda não há evidências que sugiram que seja mais grave do que a variante anterior. Nem os dados da Dinamarca nem os do Reino Unido mostram qualquer diferença no número de hospitalizações entre as variantes BA.1 e a BA.2. E noutros países onde a BA.2 se está a propagar, a OMS diz que as hospitalizações não estão a aumentar mais depressa do que o esperado.

“Esperamos que os anticorpos desencadeados pela BA.1 neutralizem bastante bem a BA.2, dado que são vírus relativamente semelhantes nas suas [regiões de ligação]”, diz Jesse Bloom. Por este motivo, Jesse acredita que é pouco provável que se registem vagas massivas da subvariante BA.2 em regiões que acabaram de lidar com um aumento da Ómicron.

As vacinas protegem contra a BA.2?

Os resultados dos dados preliminares não são consensuais, e ainda não se sabe se as vacinas atuais serão mais ou menos eficazes contra a BA.2 em comparação com a BA.1, preocupando os especialistas devido aos casos potenciais de reinfeção. Para contextualizar o que está a acontecer, a BA.1 já é muito eficiente a evitar uma imunidade adquirida anteriormente. E também reduz a eficácia de duas doses da vacina mRNA da Pfizer-BioNtech, embora uma terceira dose restaure pelo menos parcialmente a sua eficácia.

A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido estima que as vacinas existentes são igualmente eficazes na prevenção de doenças sintomáticas provocadas pela BA.2 e pela BA.1, embora os dados britânicos se baseiem num número relativamente pequeno de casos. Os dados do Reino Unido mostram que uma dose de reforço administrada duas semanas após a segunda dose teve uma eficácia de 63% na prevenção de doença sintomática por BA.1, e 70% de eficácia para a BA.2.

Os estudos preliminares feitos com versões sintetizadas do coronavírus em laboratório também sugerem que os anticorpos neutralizantes recolhidos do sangue de pessoas vacinadas são igualmente capazes de bloquear a BA.1 e a BA.2. Jesse Bloom e outros especialistas também fizeram modelagens com base nas mutações específicas desta subvariante e preveem que a BA.2 não seja tão eficaz quanto a BA.1 a escapar aos anticorpos gerados pelas vacinas.

Por outro lado, o estudo dinamarquês baseia-se numa amostra de casos maior, e os seus dados sugerem que a subvariante BA.2 consegue evitar melhor a proteção imunitária concedida pelas vacinas do que a versão original.

“Por enquanto, é difícil dizer qualquer coisa mais concreta até que cheguem mais dados do mundo real. Como é óbvio, ainda não existem medições experimentais diretas para a BA.2”, acrescenta Jesse Bloom, “mas vamos saber mais em breve”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

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