"A participação das cientistas na descoberta das vacinas contra a COVID-19 mostrou ao mundo que as mulheres são fundamentais na ciência"

Ana Cadete Pires criou uma plataforma para dar voz às mulheres na ciência e partilhar informação científica de uma forma mais simples em português.

Por Filipa Coutinho
Publicado 21/03/2022, 12:28
Ana Cadete

A jovem cientista portuguesa trabalha em Boston.

Fotografia por Ana Cadete Pires

Sonha inspirar a nova geração de cientistas através de histórias de vida de mulheres na ciência. Depois de se formar na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e do trabalho numa biotech madrilena no âmbito do programa INOV Contacto e de um doutoramento em Nanomedicina e Inovação Terapêutica pela Universidade de Santiago de Compostela, Ana Cadete lançou-se para o outro lado do Atlântico. Foi para Boston fazer um postdoc no MIT. Hoje desenvolve formulações com mRNA para tratamento da fibrose quística. 

Em setembro de 2020, a cientista decidiu criar o The Non-Conformist Scientist, servindo como uma espécie de "hub digital" de vários projetos seus e de uma equipa com mais oito cientistas portuguesas. Conversámos com Ana Cadete sobre o estado da ciência no feminino e o impacto e ensinamentos da pandemia na carreira científica.

Como surge o @NCScientist?
O “The Non-Conformist Scientist” surge de uma ideia que já andava há vários anos na minha cabeça: dar voz às mulheres na ciência e mostrar o seu lado mais humano. Nós, cientistas, somos mais do que os artigos científicos que publicamos e os prémios que recebemos. Temos uma história de vida, feita de desafios e conquistas. E são essas histórias que quero contar e utilizar para inspirar a geração mais nova de cientistas a não desistirem de uma carreira na ciência. O episódio piloto do "She has a PhD" foi gravado há um ano com a Trish Hurter, CEO da Lyndra Therapeutics e está disponível no YouTube e nas plataformas de Podcast, como o Spotify. O feedback que recebi foi espetacular e espero conseguir lançar a primeira temporada ainda este ano. 
Em Junho de 2020, após o primeiro confinamento da pandemia e impedida de sair dos EUA por causa da “travel ban” implementada decidi transformar a ideia num projeto! O livro “Originals – How non-conformists run the world” do Adam Grant serviu de inspiração ao nome e a Bárbara e a Maria, da Anahory Monteiro, fizeram o logo e deram uma cara ao NCS! Em Setembro de 2020 lancei o NCS no Instagram e, a partir daí, a criação de conteúdo foi uma constante! Não só no que diz respeito às mulheres em ciência e à importância da saúde mental, como o burnout dos alunos de doutoramento, mas principalmente no combate à desinformação na pandemia.
As redes sociais têm um potencial enorme e podem fazer chegar informação relevante a muitas pessoas. Com esse objetivo, eu e uma equipa de seis investigadoras e comunicadoras de ciência criámos o Ciência em 3 minutos. Vídeos curtos, rigorosos e atuais sobre a ciência por detrás da COVID-19. Os vídeos chegaram a milhares de pessoas e fizeram-nos sentir como parte da solução contra as notícias falsas e os mitos associados à pandemia. É dos projetos que mais me orgulho! Quando olho para Portugal e vejo que temos uma das maiores taxas de vacinação do mundo não deixo de sorrir. Sei que o nosso impacto no resultado foi minúsculo, mas deixa-nos com a sensação de missão cumprida.

Como é que a pandemia afetou as mulheres na ciência?
Desproporcionalmente em relação aos homens, principalmente as cientistas mães. Tal como noutros sectores e, mesmo com os homens a trabalhar remotamente em casa, as mulheres ficaram responsáveis pela maioria do trabalho doméstico, do cuidado dos filhos pequenos e da educação das crianças em idade escolar. Um relatório da revista Nature demonstra que a pandemia teve um impacto negativo no balanço vida-trabalho e na produtividade das cientistas, afetando a saúde mental de mais de 70% das inquiridas. Da mesma maneira, também as cientistas se viram prejudicadas na sua progressão de carreira. Se por um lado, as cientistas tiveram menos tempo para se dedicar à investigação e à candidatura de bolsas e financiamento, por outro, a necessidade de se tomarem decisões rapidamente, fez com que não fossem abraçadas as melhores práticas no que diz respeito à igualdade, à diversidade e à inclusão.
Por outro lado, também vemos casos em que as cientistas conseguiram ultrapassar qualquer obstáculo e, em pleno confinamento, dirigiram a investigação para a área COVID, tendo sido responsáveis por trabalhos de investigação e inovação fundamentais para o combate à pandemia. A participação das cientistas na descoberta das vacinas contra a COVID-19 e a visibilidade que tiveram através dos meios de comunicação foi um dos pontos positivos. Mostrou ao mundo que as mulheres são fundamentais na ciência.

“Muitas pessoas vão demorar meses, ou anos, a ultrapassar o que viveram durante a pandemia.”

Como podemos “digerir” as emoções de dois anos de pandemia?
Com respeito pelos outros. No meu caso em particular, estive mais de dois anos sem ver a minha família. Foi duríssimo e uma das piores experiências da minha vida. Mas ensinou-me que o meu sofrimento não é maior ou menor do que o dos outros. É meu e é preciso gerir a frustração com respeito por quem está igualmente a sofrer do outro lado, ainda que com emoções completamente diferentes.

A cientista no campus do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Fotografia por Ana Cadete Pires

Sei que muitas pessoas vão demorar meses, ou anos, a ultrapassar o que viveram durante a pandemia. A maioria de nós não estava preparado para sair de uma pandemia de dois anos e lidar com a guerra na Ucrânia. Talvez a melhor maneira de “digerir” as emoções de uma crise global, com a pandemia e uma guerra na Europa, seja com esperança no futuro. A frase do António Guterres, partilhada no Twitter há uns dias, “A ciência e a solidariedade são uma combinação imbatível” faz-me acreditar que a resposta está na união e na partilha.

Que ensinamentos trouxe a pandemia?
Tantos e em tantas áreas, tanto pessoal como profissional, que é quase impossível escrever o que aprendemos na pandemia.
Se me focar na ciência, diria que o desenvolvimento das vacinas contra a COVID-19 foi a prova de conceito que precisávamos para confirmar uma revolução na medicina. As vacinas de RNA mensageiro (mRNA) vêm abrir portas ao desenvolvimento de novas terapias, não só na prevenção de doenças infecciosas, mas também no tratamento de doenças raras até à data sem cura. Nos próximos anos vamos assistir ao crescimento da medicina personalizada e das terapias genéticas. Do ponto de vista científico é fascinante, mas para que estas terapias tenham sucesso clínico é preciso partilhar este conhecimento com as pessoas.
E é aqui que, para mim, vem um dos maiores ensinamentos dos últimos dois anos: não é o que nós, cientistas, médicos ou políticos fazemos para combater a pandemia. É a maneira como o comunicamos às pessoas. O combate à pandemia é uma responsabilidade individual com consequências à escala global. Durante muitos meses disse esta frase: de nada nos serve ter vacinas se as pessoas não querem ser vacinadas. O maior desafio da pandemia não foi desenvolver vacinas contra o SARS-CoV-2. As empresas farmacêuticas fizeram um trabalho absolutamente incrível no desenvolvimento, produção e distribuição das vacinas. O maior desafio da pandemia foi aliar a política à ciência e convencer as pessoas de que as recomendações dadas pelo governo, do qual um político é normalmente a cara, são credíveis. Espero que na próxima pandemia não sejam os habituais comentadores políticos a descrever os ensaios clínicos das vacinas contra a COVID-19 e que deem muito mais visibilidade e autoridade aos cientistas.

“É fundamental voltar a ter foco noutros temas, mas também a dar espaço às pessoas para que não tenham um foco em nada de especial.”

Agora que as medidas começam a cair, é tempo de "deixar" o SARS-COV-2 seguir o seu rumo natural e focar a atenção noutros temas?
Não vamos “deixar” o SARS-CoV-2 e vamos ter que aprender a viver ele. Ainda há muita incerteza em relação à imunidade adquirida e à necessidade de doses de reforço, à gravidade da doença e às consequências que, a longo prazo, poderão surgir. Por isso, durante os próximos anos vamos ter que encontrar o equilíbrio entre o alívio das medidas, como deixar de usar máscara em locais fechados, e a necessidade de voltar a usar máscara se assim se justificar. E é também importante não esquecer as pessoas que estão à nossa volta e continuar a ter especial cuidado com os idosos e a proteger as pessoas imunossuprimidas.
É fundamental voltar a ter foco noutros temas, mas também a dar espaço às pessoas para que não tenham um foco em nada de especial. A guerra na Ucrânia voltou a focar a atenção das pessoas numa calamidade, pelo que me parece importante que consigamos ter espaço para nos recompormos. Quando isso acontecer, talvez estejamos mais preparados para assimilar informação relevante noutros temas.

No que se distinguem as oportunidades científicas nos EUA?
Os EUA é um país enorme e muito desigual, pelo que só posso comentar sobre a minha experiência na zona de Boston. O ecossistema em Boston é um sonho para quem é investigador! Não só tem das melhores universidades e centros de investigação do mundo, mas também centenas de empresas de biotecnologia, farmacêuticas e startups na área médica. Há muitas oportunidades de trabalho e a possibilidade de se fazer uma carreira científica fora do meio académico. Para que este ambiente exista, são necessários três fatores fundamentais: talento, inovação e capital de risco. Diria que é na parte do investimento privado e do capital de risco que se vê a maior diferença em relação às empresas Europeias. Um relatório de 2018 destaca que as startups na área de Boston conseguiram angariar 8.8 mil milhões de dólares de capital de risco. Como resultado, não só há a necessidade de empregar muitos doutorados, como os investigadores sentem que fazem parte da ciência que pode mudar o mundo.

Ainda existem temas tabu na ciência?
O abuso psicológico dos professores e diretores de tese. Quem não está dentro do mundo académico não sabe a pressão que muitos alunos de doutoramento sofrem, as noites, fins de semana e feriados que passam no laboratório a trabalhar, as horas do seu tempo livre que são usadas para escrever os artigos científicos, a falta de apoio que têm quando decidem escolher uma carreira alternativa à academia ou, no caso das mulheres, quando decidem engravidar, independentemente da altura da tese em que isso acontece. O burnout na ciência é gravíssimo e ainda existe uma grande falta de recursos no acompanhamento dos alunos de doutoramento.

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