Estudo sugere que um veado pode ter passado COVID-19 a uma pessoa

O vírus está a circular de forma abrangente entre os veados–de-cauda-branca. Até agora, não havia conhecimento de um humano infetado por veados.

Publicado 8/03/2022, 14:43
Veado-de-cauda-branca

Os veados-de-cauda-branca tornaram-se num reservatório para a COVID-19. Agora, os investigadores pensam que um veado no Canadá pode ter infetado um ser humano.

Fotografia por Jim Brandenburg, Minden Pictures

No Canadá, um veado-de-cauda-branca pode ter infetado um humano com coronavírus, de acordo com uma nova investigação. Este caso, relatado numa revista científica de pré-impressão, seria a primeira instância conhecida de transbordo de COVID-19 a partir de um veado-de-cauda branca – uma espécie comum em toda a América do Norte – para outra espécie.

As investigações desenvolvidas anteriormente já tinham demonstrado que o vírus circula amplamente nas populações de veados-de-cauda-branca dos EUA. Antes deste último relatório, porém, o vírus parecia ser muito semelhante ao encontrado nos humanos que vivem nas proximidades, sugerindo que os veados provavelmente foram infetados pelas pessoas – e não o contrário.

Num novo trabalho publicado no servidor BioRxiv, uma equipa composta por 32 investigadores governamentais e académicos do Canadá conclui que, no final de 2021, mais de uma dúzia de veados-de-cauda-branca no Canadá infetados com coronavírus apresentavam uma constelação de “mutações que ainda não tinham sido observadas entre as linhagens do SARS-CoV-2”.

Uma análise mais aprofundada revelou que uma pessoa que teve contacto de proximidade com veados-de-cauda-branca em Ontário esteve infetada com a mesma variante do coronavírus. (Este caso foi detetado na amostragem genómica padrão do Canadá feita a todos os casos de COVID-19 na região.)

Em conjunto, estes fatores sugerem que o vírus já estava a circular entre os veados e a acumular mutações à medida que passava de um animal para o outro, antes de passar finalmente para uma pessoa. É possível que o vírus tenha sido transmitido primeiro por outra espécie hospedeira, como um vison, embora a análise genómica sugira que a transmissão direta de veados para humanos seja “o cenário mais provável”, de acordo com os autores do estudo.

Os especialistas alegam que esta investigação preliminar, que ainda não foi revista por pares, não é motivo de alarme.

As probabilidades de transmissão de coronavírus entre pessoas permanecem muito mais elevadas do que as probabilidades de contrair o vírus a partir de um veado, diz Jüergen Richt, veterinário e diretor do Centro de Doenças Infeciosas Emergentes e Zoonóticas da Universidade do Kansas, que não esteve envolvido no estudo.

Veados e zaragatoas

Para realizar a investigação, os cientistas recolheram amostras nasais e de tecido de 300 veados-de-cauda-branca abatidos no sudoeste e leste de Ontário entre novembro e dezembro de 2021. Todos os animais foram mortos por caçadores e já estavam a ser testados num programa anual de monitorização de doenças crónicas debilitantes. Algumas das amostras testadas não eram utilizáveis, mas os investigadores descobriram que 17 dos 298 veados – 6% dos animais – acusaram positivo para uma “linhagem nova e altamente divergente” do coronavírus.

Os resultados também mostram que esta variante é uma versão mais antiga da COVID, anterior à Delta e à Ómicron, sugerindo que o coronavírus já circula entre os veados há muito tempo.

Depois de detetar os casos de coronavírus, os autores do estudo analisaram se o vírus dos veados conseguia escapar à proteção conferida por uma vacina COVID já existente, e concluíram que as vacinas provavelmente continuam a oferecer uma proteção robusta.

São boas notícias, diz Jüergen Richt, acrescentando que a infeção de veado para humano pode ser a explicação mais plausível para o caso humano detetado em Ontário.

Contudo, Jüergen sublinha que provavelmente existem outras variantes do vírus em pessoas e animais que ainda não foram registadas, tornando possivelmente todo o cenário ainda mais complexo do que imaginamos.

“Enquanto cientistas, se não tivermos a certeza absoluta, temos de debater sempre as outras causas prováveis”, diz Jüergen Richt.

A equipa canadiana alerta que ainda não se sabe se existem outros casos humanos relacionados com o vírus dos veados de Ontário, ou se houve outros eventos de transbordo de veados para pessoas.

“Desde que as amostras foram recolhidas, devido ao aparecimento da Ómicron e ao fim da época de caça aos veados, a testagem de humanos [e veados-de-cauda-branca] e a monitorização genómica na região têm sido limitadas”, escrevem os investigadores no artigo.

Casos de visons e hámsteres

Durante a pandemia surgiram casos documentados de humanos que adoeceram com COVID devido a visons criados em cativeiro, e também um incidente em que um funcionário de uma loja de animais em Hong Kong contraiu o vírus de um hamster – levando à eutanásia dos hamsters naquela loja e ao governo da cidade a pedir aos donos de hamsteres de estimação adquiridos recentemente para estes os entregarem para abate. Contudo, os investigadores sublinham que, ao contrário destes casos isolados com animais domésticos, é muito mais complicado controlar – assim como detetar – a transmissão entre veados-de-cauda-branca e humanos.

Também não se sabe exatamente como é que os veados podem ter adquirido o coronavírus. Conforme relatado pela National Geographic em agosto de 2021, os veados podem ter estado em contacto com pessoas durante os estudos científicos, os esforços de conservação, ou também devido ao turismo e à caça.

Naquela época, os investigadores do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) especulavam que os veados podiam ter entrado em contacto com o vírus através de águas residuais contaminadas ou através da exposição a outras espécies infetadas, como o caso dos visons.

O Departamento de Agricultura dos EUA não respondeu aos pedidos para comentar.

Os anticorpos COVID foram detetados pela primeira vez por investigadores do USDA em 40% dos veados-de-cauda-branca testados no Michigan, Illinois, Nova Iorque e Pensilvânia no início de 2021. Este trabalho sugeria que os animais tinham estado em contacto com o vírus, mas nenhum dos veados parecia sintomático. Noutros estados, incluindo em Iowa, os estudos posteriores também detetaram o vírus em veados. Jüergen Richt diz que agora é plausível que o vírus esteja “a circular amplamente” entre os animais nos EUA.

Aumentar a vigilância sobre as populações humanas e animais, sobretudo de veados, é de “particular importância”, escreve a equipa canadiana.

“Neste momento não existem evidências de transmissão recorrente de veados para humanos, ou uma transmissão sustentada de humano para humano, do vírus encontrado em veados e uma pessoa em Ontário.”

Mas os investigadores acrescentam que é essencial identificar os reservatórios hospedeiros capazes de realizar uma transmissão sustentada do vírus, ou passá-lo de uma espécie para outra.

“Creio que este vai ser um estudo marcante”, diz Tracey McNamara, patologista veterinária da Universidade Western de Ciências de Saúde, em Pomona, na Califórnia. “Espero que este seja o futuro da bio-vigilância, onde temos de olhar para todo o espectro do reino animal – não apenas para os humanos isolados, ou para os animais isolados, mas fazendo esse trabalho em conjunto – que foi o que este grupo fez, e isso é bastante notável”, acrescenta Tracey McNamara.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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