O tiranossauro Stan foi encontrado! O fóssil mais caro do mundo encontra lar em novo museu.

O futuro deste dinossauro era incerto após um comprador anónimo o ter comprado por 31.8 milhões de dólares em 2020. Agora, Abu Dhabi confirma que um novo museu vai abrigar o valorizado esqueleto.

 

Com o esqueleto mais uma vez montado, o fóssil do tiranossauro conhecido por “Stan” destaca-se nesta imagem fornecida pelo emirado de Abu Dhabi, que planeia exibir o fóssil num novo museu de história natural que está a ser construído na capital dos Emirados Árabes Unidos.

Fotografia por DEPARTAMENTO DE CULTURA E TURISMO DE ABU DHABI
Publicado 24/03/2022, 14:25 , Atualizado 25/03/2022, 18:45

Desde o dia 5 de outubro de 2020 que um mistério do tamanho de um dinossauro tem paralisado o mundo da paleontologia: quem é que pagou 31.8 milhões de dólares pelo famoso esqueleto do tiranossauro conhecido por Stan, o fóssil mais caro alguma vez leiloado – e o que planeava o comprador fazer com ele?

Hoje, conseguimos finalmente obter a resposta. Stan vai ser a atração principal de um novo museu de história natural em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

No início deste ano, a National Geographic seguiu os movimentos de Stan através dos registos comerciais dos EUA e determinou que um carregamento de 5.6 toneladas, no valor de 31.847.500 de dólares – o preço exato da venda de Stan – tinha sido exportado de Nova Iorque para os Emirados Árabes Unidos em maio de 2021. Hoje, o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi confirmou que Stan vai ficar em exibição no futuro Museu de História Natural de Abu Dhabi, um museu com 35.000 metros quadrados em construção na Ilha Saadiyat, um distrito cultural de alto nível no maior e mais rico dos sete xeicados que compõem um estado do Golfo Pérsico rico em petróleo.

Com conclusão prevista para 2025, o Museu de História Natural de Abu Dhabi tem planos ambiciosos para narrar a história da vida na Terra, com um foco na flora e fauna da Península Arábica e na história mais ampla de 13.8 mil milhões de anos do universo.

As autoridades de Abu Dhabi também revelaram a compra de um fragmento do meteorito Murchison, um meteorito cientificamente importante e rico em carbono que se quebrou sobre os céus da Austrália em 1969. Durante décadas, este meteorito forneceu aos investigadores vislumbres singulares da química do sistema solar infantil. O meteorito ainda contém “grãos pré-solares” com sete mil milhões de anos que se formaram antes do nosso sol.

“A história natural tem um novo lar aqui em Abu Dhabi, e vamos contar a história do nosso universo através de alguns dos espécimes mais incríveis conhecidos da humanidade”, disse Mohamed Khalifa al Mubarak, presidente do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, através de comunicado enviado à National Geographic. “São presentes raros da natureza que temos orgulho em proteger e partilhar com o mundo.”

A jornada do tiranossauro Stan

A revelação dramática sobre o novo lar de Stan é o capítulo mais recente da saga de um dos esqueletos de T. rex mais famosos do mundo. Desenterrado em terras privadas no Dakota do Sul no início da década de 1990, este fóssil com 67 milhões de anos passou mais de duas décadas no Instituto Black Hills de Pesquisa Geológica, em Hill City, no Dakota do Sul. O Instituto Black Hills vende fósseis e réplicas de fósseis para exposições em museus e colecionadores particulares.

O instituto não planeava vender o T. rex de 12 metros de comprimento: os ossos deste fóssil estavam em exibição no museu da empresa e foram usados para fazer centenas de réplicas de T. rex que são exibidas em museus e casas de colecionadores por todo o mundo, como é o caso do ator Dwayne “The Rock” Johnson. Mas após uma disputa legal entre os irmãos Pete e Neal Larson, dois dos maiores acionistas da empresa, um juiz ordenou a venda do fóssil em 2018. Há cerca de 17 meses, este T. rex foi vendido na Christie's de Nova Iorque por 31.8 milhões de dólares, o maior valor alguma vez pago em leilão por um fóssil de qualquer criatura.

Em janeiro de 2022, os comentadores online repararam num crânio que parecia ser o de Stan em pano de fundo numa aparição de Dwayne Johnson no canal ESPN, mas o ator confirmou que se tratava apenas de uma réplica. “Se eu fosse o orgulhoso proprietário do verdadeiro STAN, com certeza não o teria no meu escritório”, escreveu Dwayne Johnson no Instagram. “Eu iria quer tê-lo num museu, para que o mundo pudesse desfrutar, estudar e aprender com ele.”

Foi precisamente este sentimento – o de que académicos e o público deviam ter acesso a uma relíquia tão importante – que atormentou os paleontólogos desde o leilão impressionante de Stan. A venda foi legal, mas alguns paleontólogos receavam que este preço recorde pudesse dificultar ainda mais a vida para os museus que têm orçamentos limitados para adquirir espécimes para pesquisa, e até ajudar a alimentar o comércio ilegal de fósseis. Alguns cientistas também temem que a venda de Stan possa restringir ainda mais a pesquisa em terras privadas nos EUA, caso mais proprietários decidam vender fósseis no mercado aberto.

Stan tem sido um uma referência importante durante anos, fornecendo dados cruciais para estudos sobre a força da dentada esmagadora do Tyrannosaurus rex e como os seus ossos se curavam após ferimentos graves. Agora que a localização do dinossauro e os seus novos cuidadores foram revelados, os cientistas esperam ter mais uma vez acesso ao fóssil, e que o icónico T. rex dê a conhecer as maravilhas do mundo pré-histórico a mais pessoas.

“A paleontologia é uma coisa poderosa. Através da paleontologia, vemo-nos como parte de um glorioso continuum de vida na Terra”, escreve Lindsay Zanno, paleontóloga do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte, em Raleigh, através de email. “Se Stan conseguir inspirar uma nova geração a proteger o passado e a conservar a biodiversidade do nosso planeta no futuro, isso é o que o eu chamo de um final feliz.”

Guardiões da história natural

O Médio Oriente tem poucos museus de história natural, tornando qualquer nova coleção numa bênção para chegar até ao público. O Museu de História Natural de Abu Dhabi vem juntar-se às fileiras de instituições, incluindo o Museu de História Natural da Palestina, da Universidade de Belém, o Museu Steinhardt de História Natural de Israel, em Tel Aviv, o Museu Geológico Egípcio do Cairo e o Museu de História Natural e Botânica de Sharjah, ficando localizado num dos xeicados vizinhos dos Emirados Árabes Unidos.

Os museus de história natural não são apenas salas públicas de exposição; na melhor das hipóteses, são fatores de conservação e descoberta. Os fósseis, espécimes e artefactos nas coleções dos museus – que muitas vezes ultrapassam em muito o número de itens em exibição – criam um registo sobre a biodiversidade e a história humana, garantindo dados insubstituíveis que podem ser referenciados durante décadas, senão séculos.

Factos sobre Fósseis
Os fósseis são ecos de um passado antigo. Descubra as duas principais categorias de fósseis, como ocorre a fossilização e como os fósseis podem ajudar a pintar um quadro da história do planeta.

As instalações dedicadas à paleontologia também são raras no Médio Oriente e no Norte de África, embora os investigadores tenham trabalhado arduamente para preservar o registo fóssil da região. Em Marrocos, uma equipa que inclui o Explorador da National Geographic Nizar Ibrahim passou anos a acumular uma coleção de fósseis na Universidade Hassan II de Casablanca, com a esperança de criar um museu de história natural marroquino. Em 2010, a Universidade Mansoura do Egito abriu um centro de paleontologia de vertebrados – o primeiro da região – liderado pelo paleontólogo Hesham Sallam.

O Museu de História Natural de Abu Dhabi tem objetivos científicos ambiciosos. Através de comunicado, o museu disse que iria construir e equipar um centro de pesquisa científica focado em zoologia, paleontologia, biologia marinha, ciências da terra e pesquisa molecular, incluindo o estudo de ADN antigo.

David Evans, paleontólogo do Museu Real de Ontário, em Toronto, diz que se Stan for um elemento permanente na coleção do museu – e não um empréstimo temporário de um colecionador particular – então o fóssil pode ajudar a “aumentar o interesse científico pelos dinossauros numa parte do mundo que tem grande potencial para novas descobertas de fósseis”, escreve David por email.

À medida que o novo museu de Abu Dhabi se posiciona enquanto repositório de espécimes importantes, os seus líderes também assumem a responsabilidade ética de considerar os efeitos que compras tão dispendiosas podem ter no mercado, diz Erin Thompson, especialista no comércio de antiguidades da Faculdade John Jay de Justiça Criminal, em Nova Iorque. Alguns dos museus mais abastados nos EUA e noutros lugares têm sido criticados por incentivarem inadvertidamente a fraude ou o tráfico de objetos roubados, dado que pagam quantias avultadas para construir as suas coleções.

“Existe um problema bem conhecido de pilhagem e contrabando de fósseis”, diz Erin Thompson, acrescentando que, se um museu indicar que vai gastar enormes quantias de dinheiro para preencher a sua coleção, corre o risco de incentivar pilhagens ou falsificações.

Para Pete Larson, presidente do Instituto Black Hills, o anúncio do novo lar de Stan traz um sentimento de alívio.

“É como a [famosa frase] de Indiana Jones: ‘Isto pertence num museu!’”, diz Pete. “Conseguimos salvar os dados de Stan porque fizemos scans 3D [e] todos aqueles moldes do seu crânio e esqueleto… mas agora o original também vai estar novamente disponível para investigação, o que é incrível.”

Dinossauros a bordo

O novo museu de Abu Dhabi vai ser construído perto de um dos sítios fósseis mais ricos da Península Arábica. Conhecidas pela Formação de Baynunah, estas rochas do final do período Mioceno, com cerca de 8 milhões a 6 milhões de anos, preservam o que outrora era um Serengueti das Arábias: um ecossistema repleto de primos antigos de hipopótamos e girafas da atualidade, que viviam lado a lado com todos os tipos de animais, desde tartarugas a bagres num sistema fluvial perene.

Mas os depósitos de rochas nos Emirados Árabes Unidos não têm a idade e o tipo certos para preservar as maiores celebridades do mundo fóssil: os dinossauros. Desta forma, o novo museu teve de os ir buscar ao estrangeiro.

Stan T.rex

Os dinossauros norte-americanos – sobretudo o Tyrannosaurus e o Triceratops – são os mais famosos da Terra, e há instituições pelo mundo inteiro que compram regularmente fósseis de dinossauros nos EUA para fins de estudo e exposição. No início deste mês, o Museu de Melbourne da Austrália revelou o seu fóssil mais recente, o “Horridus”, um Triceratops quase completo comprado a Craig Pfister, um paleontólogo comercial norte-americano.

Durante anos, os Emirados Árabes Unidos hospedaram exibições temporárias de fósseis de dinossauros comprados nos EUA. Em 2008, o fundador da Galeria Etihad de Arte Moderna de Abu Dhabi organizou a exposição de um esqueleto de Apatosaurus com 140 milhões de anos no principal aeroporto dos emirados. Em 2014, a mesma galeria exibiu o esqueleto de um T. rex juvenil encontrado no Dakota do Sul.

“Eu continuava a ouvir as pessoas, sobretudo crianças, a dizer que os dinossauros não existiam”, disse Khalid Siddiq al Mutawaa, fundador da galeria, em entrevista feita em 2009 para o jornal The National. “Era algo que me incomodava realmente, assim, trouxe um dinossauro para o nosso povo ver… para aprendermos mais sobre esta parte da nossa história global.”

Para além do valor educacional, os dinossauros também criam burburinho e atraem visitantes, facto que não passou despercebido aos líderes empresariais e governamentais dos Emirados, que têm trabalhado arduamente para atrair turistas estrangeiros com distritos de luxo para compras, galerias de arte, exposições culturais e outras atrações.

Em março de 2014, a empresa Emaar, uma companhia imobiliária dos Emirados, anunciou que tinha comprado um esqueleto de Diplodocus notavelmente completo, que tinha sido encontrado numa pedreira privada no Wyoming. Esse dinossauro – com o apelido “Dino do Dubai” – está atualmente em exibição ao lado de uma loja da Cheesecake Factory, no Dubai Mall, um centro comercial que também tem um aquário e uma pista de patinagem no gelo.

Uma atração para todos os tempos

O novo museu surge num momento em que Abu Dhabi e os emirados circundantes procuram diversificar a sua economia para além do petróleo. Nos últimos anos, os Emirados Árabes Unidos – a segunda maior economia do Golfo Pérsico – reformulou a sua estratégia industrial e criou uma agência espacial para ajudar a expandir as suas indústrias de tecnologia.

O turismo e a busca pelo chamado soft power diplomático também marcam uma presença forte nos planos de Abu Dhabi. Desde 2007, este emirado investiu milhares de milhões de dólares no extremo oeste da Ilha Saadiyat para estabelecer um importante distrito cultural e turístico.

Alguns dos projetos em Saadiyat visam contar a história dos Emirados Árabes Unidos, incluindo o Museu Nacional de Zayed, em desenvolvimento, que foi nomeado em homenagem ao pai fundador dos Emirados, Sheikh Zayed bin Sultan al Nahyan. Outros projetos têm firmado parcerias com as principais instituições ocidentais. Em 2014, a Universidade de Nova Iorque abriu um campus em Abu Dhabi, no distrito de Saadiyat; em 2017, o Louvre Abu Dhabi abriu nas proximidades. O Guggenheim Abu Dhabi está agendado para abrir em 2025.

Outros países na região estão a fazer o mesmo. O Qatar construiu um vasto complexo educacional chamado Education City, com filiais de universidades americanas famosas nos arredores de Doha, a capital do país.

Neha Vora, antropóloga do Lafayette College da Pensilvânia, que estuda o ensino superior no Golfo Pérsico, diz que a Ilha Saadiyat e projetos semelhantes representam um investimento educacional transformador para a região.

Grande parte das principais instituições científicas e educacionais estão em países ocidentais, onde os visitantes internacionais podem “ter problemas até em obter um visto de visita para entrar e ver as coisas”, diz Neha Vora. “Sinto que é incrivelmente necessário ter lugares no sul global que tenham estes tipos de instituições universais.”

Apesar da sua grande ambição, o projeto de turismo cultural que está a ser desenvolvido em Saadiyat tem enfrentado obstáculos. A magnitude do projeto tem dado origem a atrasos de anos na construção, e os observadores internacionais têm questionado as condições de trabalho dos trabalhadores migrantes, que as autoridades dizem ter tentado resolver através de reformas nas leis laborais. Os estudiosos também têm expressado preocupação com a repressão política nos Emirados Árabes Unidos, com alguns académicos internacionais impedidos de entrar no país e ativistas dos direitos humanos dos Emirados presos e alegadamente maltratados.

Assim que o Museu de História Natural de Abu Dhabi for inaugurado, os seus defensores dizem que irá proporcionar oportunidades educacionais e científicas únicas para esta região e para o mundo. E o tiranossauro Stan provavelmente vai ser um embaixador muito popular da notável história evolutiva da Terra.

“Deve estar em exibição pública para que todas as pessoas no universo o possam ver”, diz Pete Larson, cuja empresa desenterrou o fóssil há 30 anos. “Também deve estar disponível para pesquisa, para que os investigadores consigam ver o material original, tanto o que está em exibição como as coisas que podem não estar em exibição.”

Pete Larson espera – e anseia – que o museu faça isso mesmo. “São notícias realmente formidáveis.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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