Se mais ninguém usa máscara, será que devemos usar?

O uso obrigatório de máscara está à ser revogado à medida que os casos de COVID-19 descem. Os especialistas explicam as razões pelas quais devemos manter as máscaras por perto.

Por Meryl Davids Landau
Publicado 31/03/2022, 10:27 , Atualizado 31/03/2022, 13:57
Festa

Pessoas dançam sob luzes e fumo no Ritter Butzke, no dia 29 de agosto de 2021, em Berlim, na Alemanha. O Ritter Butzke é uma das famosas discotecas de música eletrónica de Berlim. Durante a pandemia todos os espaços encerraram e os funcionários ficaram sem emprego, mas os negócios com espaços ao ar livre receberam aprovação para reabrir ao público este verão com novas restrições em vigor – entre estas, os bares são obrigados a registar o número de visitantes para adaptar os regulamentos em constante alteração.

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Agora que o Havai abandonou o uso obrigatório de máscara, não há qualquer estado nos Estados Unidos a exigir o uso obrigatório de máscara em ambientes fechados para impedir a propagação da COVID-19. No entanto, em muitos supermercados, edifícios de escritórios, cinemas e outros locais fechados, algumas pessoas continuam a usar máscara. Mas se só metade dessas pessoas, ou algumas, ou ninguém estiver a usar máscara, será que o facto de a usarmos oferece proteção suficiente?

Esta questão tem vindo a tornar-se mais urgente porque, embora as taxas de COVID-19 na maioria dos EUA sejam atualmente baixas, na Europa estão a aumentar – devido à variante Ómicron BA.2 de rápida disseminação – algo que muitas vezes pressagia um pico no outro lado do Atlântico.

“É verdade que as máscaras são mais eficazes quando todas as pessoas à nossa volta também as estão a usar. Se alguém estiver infetado com COVID-19 e não souber, a máscara é como colocar o polegar na ponta de uma mangueira, impedindo que o vírus seja expelido”, diz Jaimie Meyer, médica de doenças infeciosas da Escola de Medicina de Yale.

Contudo, Jaimie sublinha que, mesmo quando uma pessoa infetada está sem máscara, qualquer pessoa à sua volta que esteja a usar máscara reduz as probabilidades de essas gotículas chegarem ao seu sistema respiratório.

Eis o que Jaimie Meyer e outros especialistas dizem sobre o uso de máscara e como devemos avaliar se é seguro tirar a máscara ou não.

Níveis comunitários de transmissão de COVID-19

Em fevereiro, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA mudaram a sua política sobre o uso de máscara em espaços fechados, recomendando o uso para pessoas saudáveis em ambientes fechados apenas nas comunidades onde os casos e hospitalizações de COVID-19 sejam elevados.

Para ajudar a descobrir os locais onde é necessário usar máscara, os CDC publicaram um novo mapa classificado por cores, revelando as zonas de transmissão baixa, média e alta. As áreas de baixo risco, onde as pessoas não precisam de usar máscara em ambientes fechados, estão indicadas a verde; desde o dia 24 de março isto aplica-se à maior parte do país.

Juntamente com os números de hospitalizações e de internados nas unidades de cuidados intensivos, os condados ficam assinalados a vermelho quando as novas infeções atingem os 200 casos por cada 100.000 habitantes. Há vários condados, sobretudo em estados como o Montana, o Kentucky e o Maine, que atualmente estão assinalados com esta cor.

As pessoas em locais assinalados a amarelo, que apresentam um elevado risco de doença grave, são instruídas a perguntar aos seus profissionais de saúde se o uso de máscara é necessário. Estes locais também têm mais de 200 novos casos por cada 100.000 habitantes, mas com menos casos de hospitalizações e pacientes nas UCI.

Estas recomendações destinam-se a oferecer proteção ao nível populacional e a evitar a sobrelotação dos sistemas de saúde, não são projetadas para impedir que qualquer indivíduo adoeça, diz Jill Weatherhead, médica de doenças infeciosas da Faculdade Baylor de Medicina.

“A barreira dos 200 casos já é uma taxa de transmissão muito elevada”, diz Katelyn Jetelina, epidemiologista do Centro de Ciências de Saúde da Universidade do Texas, que escreve um blog onde se apresenta como “a sua epidemiologista local”. Para se sentir confortável sem máscara, Katelyn prefere usar um limiar mais baixo, na ordem dos 50 casos por cada 100.000 habitantes. Katelyn Jetelina, que está vacinada com as doses de reforço, deixou recentemente de usar máscara quando as taxas no seu condado de Dallas desceram abaixo destes valores.

Os níveis de transmissão de cada condado dos EUA podem ser encontrados no site dos CDC.

Decidir se devemos abandonar a máscara

Como é óbvio, o uso de máscara continua a ser obrigatório para pessoas em determinadas circunstâncias. Quando a Califórnia abdicou do uso de máscara por todo o estado, por exemplo, continuou a usar os requisitos de utilização de máscara em instalações de saúde, prisões e noutros ambientes congregados. Algumas empresas e escolas particulares também insistem no uso de máscara nas suas instalações. E o governo federal continua a exigir máscaras nos voos comerciais e outros meios de transporte.

Para as pessoas que estão em ambientes onde o uso de máscara é opcional, a utilização de máscara depende em grande parte das circunstâncias individuais e do quanto não querem adoecer, para além das taxas de transmissão que as rodeiam, segundo os especialistas. “Muitas pessoas resignaram-se ao facto de que vão apanhar COVID, mas não é uma coisa inevitável”, diz Jaimie Meyer.

A proteção mais forte contra esta doença continua a ser a vacinação, enfatiza Jaimie Meyer. De acordo com um estudo publicado no início de março na revista New England Journal of Medicine, as vacinas da Pfizer-BioNTech têm sido 85% eficazes na prevenção de casos que exijam hospitalização e mortes entre os habitantes da Carolina do Norte até sete meses após uma série de duas vacinações. (Os participantes neste estudo não receberam doses de reforço, algo que forneceria proteção adicional.) Mas usar máscara é a outra coisa importante que podemos fazer, diz Jaimie.

As pessoas que têm condições subjacentes de saúde ou que vivem ou trabalham com essas pessoas devem fazer um cálculo sobre o uso de máscara que é diferente do que acontece com as outras pessoas, diz Katelyn Jetelina. Os imunocomprometidos devem usar praticamente sempre máscara quando estão rodeados de outras pessoas em ambientes fechados, ao passo que as pessoas com uma doença como diabetes, que as coloca em maior risco de complicações derivadas da COVID-19, podem considerar um limite de transmissibilidade mais baixo, provavelmente a rondar os 10 casos por cada 100.000 habitantes na sua comunidade.

Ainda assim, há pessoas que optam por usar máscara porque têm filhos vulneráveis ou que são demasiado novos para serem vacinados. Jill Weatherhead continua a usar máscara em lojas e locais fechados com muitas pessoas, em grande parte para proteger o seu filho de 4 anos.

Os CDC dos EUA sublinham que, para serem eficazes, as máscaras devem ser usadas de forma consistente. Algumas pessoas em áreas com uma transmissibilidade elevada podem pensar que estão seguras sem máscara em ambientes fechados, bastando para isso estar a mais de um metro e oitenta de distância de outras pessoas numa sala. Porém, a ideia de que manter a distância em espaços fechados reduz completamente o risco de exposição está errada, diz Linsey Marr, professora de engenharia do Instituto Politécnico da Virgínia e especialista em transmissão viral. É verdade que as partículas virais ficam concentradas perto de um indivíduo infetado, diz Linsey, mas tal como acontece com o fumo de um cigarro, que se espalha por uma sala, o mesmo acontece com o coronavírus.

Todas as pessoas têm níveis diferentes de tolerância e isso deve ser respeitado, diz Jill Weatherhead. “Há muitos fatores envolvidos e as decisões de todos vão ser diferentes”, acrescenta Linsey Marr.

Para algumas pessoas, incluindo Jaimie Meyer, “é cansativo ter de continuar a fazer cálculos de risco dependendo da situação”, e é por isso que Jaimie decidiu continuar a usar máscara nas lojas, supermercados e espaços fechados onde se realizam os jogos de basquetebol dos seus filhos, independentemente da atitude das pessoas à sua volta. “É mais fácil para mim colocar simplesmente a máscara e não ter de estar sempre a pensar sobre o que devo fazer.”

Há um grupo de pessoas que tem de estar sempre com máscara – os pacientes com COVID-19 durante o período de isolamento de 5 dias recomendado pelos CDC nos EUA. Durante os cinco dias seguintes, supondo que as pessoas estão assintomáticas ou que os sintomas estão a desaparecer, os CDC afirmam que já não é necessário isolamento, mas devem continuar a usar máscara em ambientes fechados quando estão perto de outras pessoas, para reduzir as probabilidades de propagação do vírus.

Ajuste e qualidade da máscara são vitais

Um estudo feito pelos CDC, que foi publicado no mês passado na Morbidity and Mortality Weekly, documenta a proteção oferecida por várias máscaras diferentes. As pessoas que usam rotineiramente uma máscara N95 ou KN95 reduzem as suas probabilidades de testar positivo em 83%, em comparação com as pessoas que não usam máscara. Para as pessoas que usam máscaras cirúrgicas, os casos de doença são reduzidos em 66%, e as máscaras de tecido oferecem uma proteção a rondar os 56%.

O que este estudo e outras investigações semelhantes não rastrearam especificamente foi a quantidade de pessoas com ou sem máscara em torno de cada participante. Mas como este estudo foi realizado quando o uso obrigatório de máscara ainda estava em vigor na Califórnia, muitas pessoas provavelmente usavam máscara, diz Linsey Marr, que não participou no estudo dos CDC. Linsey suspeita que as máscaras teriam oferecido menos proteção se houvesse menos pessoas com máscara, acrescentando que o contraste entre utilizadores e não utilizadores provavelmente continuaria a ser impressionante.

O estudo dos CDC salienta os benefícios de uma máscara do tipo respirador de alta qualidade, como as conhecidas N95 ou KN95, em vez de um simples pedaço de tecido. De facto, os CDC reconhecem que “os respiradores bem ajustados à cara fornecem o nível mais elevado de proteção”.

“Se houver partículas de vírus no ar, a N95 bloqueia mais de 95%, um número muito alto”, diz Linsey Marr.

Não deite a máscara fora

Qualquer pessoa que não esteja a usar máscara, deve mantê-la por perto, dizem os especialistas.

“Quero ser otimista porque a primavera já chegou. Mas parece que podemos estar perante um momento complicado devido ao aumento de casos na Europa alimentados pela Ómicron BA.2”, diz Jaimie Meyer, da Faculdade de Medicina de Yale. Jaimie aconselha todas as pessoas que atualmente não usam máscara para prestarem muita atenção às taxas de COVID-19 na sua área de residência, porque os casos podem começar a aumentar acentuadamente.

Ninguém sabe se um novo pico de infeções se irá materializar em breve nos EUA, porque a variante BA.2 geralmente não infeta novamente as pessoas que já contraíram a versão anterior da variante Ómicron, de acordo com um estudo dinamarquês que ainda não foi revisto por pares. “É complicado prever a propagação aqui nos EUA porque depende do quanto a BA.1 se espalhou e da quantidade de ‘lenha’ que ainda há para queimar”, diz Katelyn Jetelina, da Universidade do Texas.

“Devemos manter as máscaras por perto devido ao que está a acontecer atualmente, mas também devido ao que pode acontecer amanhã”, diz Katelyn. “A máscara ajuda-nos a estar um passo à frente da doença.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

 

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